TOC
18 18- Mascote
Notas iniciais
Viramos devagar para ver o rosto de dois meninos da Sherwood, a escola que perdeu no jogo da semana anterior.
— O que vocês querem?
— Nada. Só dizer para vocês que estão de parabéns. Quem dera as meninas fossem assim lá na SW.
— É mesmo. Sabe, Ty, nós esquecemos uma coisa semana passada.
— O que foi mesmo, Rick?
— Não roubamos o macote deles.
— Não seguimos a tradição… temos que consertar isso. Mas o que fazer?
— Já sei. Vamos pegar as cheerleaders.
— Vocês não podem nos sequestrar, seus imbecis – sibila Dot. Eu, particularmente, estava apavorada.
— Não vamos sequestrar vocês, sua loira estúpida. Queremos outra coisa das senhoritas.
Meu coração batia acelerado. Estava rezando para Danny sair logo daquela maldita loja. Um dos meninos cobre minha boca e me arrasta até o beco entre a papelaria e a farmácia. Não sei para onde Dotty é levada. Ele me joga contra a parede. Também não tenho ideia de onde está minha mochila, com meu celular e tudo o mais. Aquele lugar é sujo e fedido, o que, combinado com o terror, faz meu estômago revirar. Talvez se eu vomitasse o menino ficaria enojado e me largaria. Não acontece, claro.
— Eu vou soltar a sua boca agora, e se você gritar vai ser bem pior.
Agora eu estou chorando mesmo. Lágrimas correm pelo meu rosto sem parar. Sinto suas mãos em mim, pressionando meu corpo na parede, tanto que dói. Suas mãos agarram meus pulsos tão forte que tenho certeza que vai deixar uma marca. Fecho os olhos, esperando que seja rápido. Mas ele está muito determinado a me fazer sofrer. Sinto suas mãos por baixo da minha blusa, e cada um dos meus músculos está tão tenso que sinto que vou explodir. Ele afasta as mãos e etão as aproxima, uma segurando meu pescoço, a outra meu queixo, me obrigando a olhar para ele. Continuo com os olhos fechados.
— Qual é o seu nome, princesa?
— Lil.
— Muito bem, Lil. Relaxa, princesa. Prometo que você vai gostar. Vamos com calma. Um beijo, para começar.
Sinto todo o seu corpo colado no meu e tento virar o rosto, mas ele aperta ainda mais. Sinto que sua cabeça se aproxima da minha, sua testa tocando em mim. Aliás, ele toca cada pedaço do meu corpo, e é a pior sensação do mundo. Ele força meu pescoço. Agora nossos narizes se encostam, e não tem nada que eu possa fazer senão pressionar a boca com toda a força que consigo reunir.
Ele está quase tocando meus lábios quando seu peso some de repente, me fazendo cair. Finalmente abro os olhos para ver o menino frente a frente com Danny.
— E da onde você saiu? — ele pergunta – ah, você é o cara do touchdown, o catorze, né? O que nos fez perder.
Então ele avança, tentando socar seu rosto, mas Danny é muito mais alto. Ele acerta o rosto do desconhecido, o fazendo cair encolhido no chão, e se aproxima de mim.
— Lily? — ele me puxa do chão, me segurando como se eu fosse criança – Lily, olha pra mim.
Subo os olhos em direção aos seus, me sentindo incrivelmente violada e envergonhada. Sinto meus olhos se enchendo de água e escondo o rosto em sua jaqueta. Ele não tenta falar comigo, porque sabe que eu não vou responder. Em vez disso, me levanta no colo, me tirando do beco e me sentando num banco.
— O outro menino levou a Dot. Eu não vi para onde. Temos que achá-la.
— Eu vou. Você fica aqui.
— Não. Vou com você.
Ele revira os olhos. Ainda estou tremendo, mas subo em suas costas. Procuramos em todos os becos até achá-la. O cara estava em cima dela, que vestia só o sutiã e a parte de baixo. Pulo das costas de Danny, que tenta me segurar, mas não consegue e corre atrás de mim. Puxo o ombro do cara e acerto um soco bem no seu nariz, o fazendo sangrar. Mas ele é muito mais alto do que eu, então, obviamente, não é o suficiente para o derrubar.
Tenho um segundo para fazer uma fórmula: uma pessoa baixinha, mais uma pessoa gigante, que inclusive joga futebol, o jogo mais pancadaria que existe. A baixinha acerta a gigante na cara. O que acontece? Merda. É isso que acontece. Ele empurra meu peito tão forte que praticamente me arremessa contra a parede. Danny então entra na briga, mas esse cara consegue ser mais alto que ele. Pensando bem agora, não sei como atingi seu rosto.
Enquanto os dois brigam, me arrasto até Dotty, que treme no chão. A puxo para mim, mesmo que meu peito doa como o inferno, e entrego sua blusa, acariciando seus cabelos e a deixando chorar.
Não estou prestando atenção nos dois, mas noto quando o menino da Sherwood vai embora. Danny se abaixa. Tem um corte na sobrancelha. Juntos, levantamos Dot e seguimos cambaleando até em casa, só parando para recolher a pilha de mochilas e casacos que alguém fez o favor de chutar para um canto. Minha mão e peito doem, Danny tem o rosto todo roxo e ensanguentado e Dot mal consegue parar em pé sozinha, mas ninguém parece notar.
Chegamos depois do que parecem horas, praticamente desabando no chão. Atiramos as bolsas em qualquer canto e deitamos Dot, a menos ferida e mais machucada, no quarto de hóspedes. Puxo Danny para o meu banheiro.
Ele senta na privada. Limpo os cortes olhando para todos os lados, menos para ele. Sinto seu olhar queimando meu rosto. Faço um curativo na sobrancelha; não é profundo.
— Vou pegar gelo. Espera aqui.
Saio do banheiro. Busco um balde de gelo e panos limpos. Faço compressas e lhe entrego. Em outro caso, seria até engraçado vê-lo tão coberto de panos no rosto, com a mão direita enfiada em um pote com gelo e água. Não que eu estivesse muito melhor. Meus pulsos estavam roxos, e meu corpo tinha marcas da mesma cor por toda sua extensão. Além disso tudo, eu não conseguia olhar pra ninguém.
Não sei quantas horas ficamos no banheiro, mas levo um susto quando minha mãe abre a porta do nada.
— Lily – ela grita, e então olha para o rosto de Danny, que derrubou as compressas no susto, e para meus pulsos marcados- o que houve?
— Mama – a abraço, enfiando a cabeça em seu peito, chorando mais uma vez. Ela me senta na cama e facha a porta do banheiro, deixando Danny sozinho lá dentro. Conto tudo o que aconteceu. Ela avisa que vai ligar para os Lisset e os Mc.Cullen, e juntos eles ligariam para a polícia. Dou os nomes dos caras e digo que eles são do time de futebol da Sherwood.
Algumas horas mais tarde, a polícia vai lá em casa. Os pais de Danny também estão lá, e os de Dot falam pelo Skype. Eles levam a mim e a Dot para o hospital fazer os exames de corpo delito. É chato e demorado. Logo, os agressores são encontrados e levados para a delegacia. Tyler Roberts e Richard South são seus nomes. Depois que tomam nossos depoimentos, nos liberam. Mais tarde fico sabendo que os dois rapazes, ambos maiores de idade, corriam grande risco de acabar atrás das grades.
A polícia nos deixa ir para casa. Os pais de Danny permitem que ele passe a noite comigo, porque sabem que não vamos fazer nada, nem mesmo dormir. Só ficamos deitados na cama, olhando para cima em silêncio até pegarmos no sono, horas depois.
As semanas seguintes são péssimas. É uma correria que só, tribunal, terapia, delegacia, escola. Por mais que tentássemos esconder, era impossível que ninguém ficasse sabendo.
O primeiro dia que demos as caras na escola foi uma calamidade. Óbvio, era só olhar para nós para perceber que alguma coisa tinha dado errado. Danny era o mais aparente; os nós dos dedos dele estavam roxos e meio inchados, assim como seu olho esquerdo. Além disso, o corte em sua testa chamava bastante atenção.
Em seguida, estava eu, com meus pulsos roxos. Meu pescoço também tinha marcas no formato de dedos em tons variados de roxo e marrom. Parecia que alguém tinha tentado me sufocar.
A melhor era Dot, mas seu rosto a delatava. Sua aparência sempre impecável não era nada mais que o contrário disso.
E as pessoas não paravam de encarar, silenciosamente, sem nunca perguntar.
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