TOC

17 17- Dia de jogo


— Hoje é dia de jogo! — Allyson grita mais alto que a música que tocava no vestiário.

— Uhuuuu! — todas respondem.

— E quem é que vai vencer?

— Nosso time vai ganhar!

— E qual torcida vai arrasar?

— A nossa torcida vai arrasar! — Continuamos cantando, até a treinadora Jane aparecer, sorridente.

— Minhas meninas estão animadas hoje! Vamos ficar assim no jogo, hein! E bem lindas! Emily, arruma as sobrancelhas! Alicia, prende melhor os cabelos. Isso. Dez minutos e quero todas perfeitas na saída do ginásio! Os meninos já estão lá!

Corremos e nos arrumamos. Todas usam o banheiro. É noite e já está meio frio, pois é outono. Tiramos os casacos, os penduramos, checamos os sapatos e os cabelos e finalmente saímos. A treinadora não mentia, os quatro meninos estavam, literalmente, nos esperando sentados junto com ela. Os jogadores entram depois das líderes, então não posso ver Danny para lhe desejar boa sorte. A música começa e nós entramos no campo, pulando e dançando, sorridentes como sempre. Paramos no meio, fazemos umas acrobacias, um pouco de exibicionismo, e vamos para o canto.

Vibramos junto com a torcida para receber os jogadores. Eles se reúnem com o treinador deles e quase ouço o que conversam, de tão próxima que estou. Os olhos de Danny encontram os meus, e lhe desejo boa sorte, só mexendo a boca. Ele sorri e se vira para ouvir o técnico. Eles dão uns gritos e vão para o campo.

Por mais que Danny tenha me explicado, não consigo entender o futebol. Pra mim, é um monte de caras se agarrando por uma bola. E não é se agarrando de um jeito amoroso, não. É bem violento. Mas mesmo assim, continuo torcendo, pulando, vibrando. Acho que meu time está perdendo, porque o treinador está meio bravo. Fico acompanhando Danny, o número catorze, com os olhos, e não sei bem o que ele está fazendo. Mas todos parecem meio frustrados.

O jogo passa, nós fazemos o show do intervalo que ensaiamos, os rapazes apanham, o mesmo de sempre. As líderes estão bem, os jogadores, nem tanto. “Eles ainda podem recuperar” é a frase que mais sai da boca da treinadora Jane.

Faltam tipo, segundos para acabar o jogo, e tenho certeza que perdemos, uma coisa que não ainda não tinha acontecido na temporada. Algumas meninas já até jogaram os pompons no chão, desistindo do time. Eu meio que me recuso a fazer o mesmo, mas não dava para ser positiva diante daquela calamidade. O outro time era enorme! Dois dos nossos já tinham sido substituídos por terem se lesionado. O nosso time mal tocava na bola!

Até que alguma coisa aconteceu. Um dos menino-montros derruba aquela maldita bola. Doug, que estava ali por perto, a agarra e sai correndo, passando para Luke. A torcida começa a vibrar de novo, ainda mais animada. Começamos a cantar, ouvindo os berros do treinador. Todos os adversários estão no encalço de Luke, e o treinador fica gritando “passa essa merda” muito alto, mas duvido que ele ouça.

Ainda que não ouça, ele joga a bola para o outro lado do campo, direto nas mãos de Danny, que demora uns dois segundos até se ligar e começar a correr.

— Vai! Corre! — é só isso que se ouve. Entoo o canto, até finalmente ele atravessar aquele campo e passar da linha. Touchdown! A torcida vai à loucura. Soa o sinal, indicando o final do jogo. Ganhamos! O treinador e os líderes invadem o campo, vibrando com os nossos vencedores, enquanto os derrotados saem do campo.

A energia era extasiante. Danny me acha no meio do mar de gente e me puxa para um beijo. Ele, Luke e Doug eram os “responsáveis” pela vitória, porque fizeram o último ponto.

— Parabéns — grito para ser ouvida – vocês jogaram muito bem!

— Obrigado Lil! Você vai na festa?

— Se você for.

Sempre tinha uma festa depois do jogo, caso ganhássemos. Geralmente, que ia era quem estava assistindo ao jogo, mas não era a regra.

— Vou pra casa tomar banho e depois te busco, pode ser?

Digo que sim. Os pais dele se aproximam e o levam para casa. Eu vou dirigindo, Dot vai comigo. Buscamos nossas mochilas no vestiário. Ela vai tomar banho lá em casa porque mora longe e seus pais estão viajando. Nos arrumamos e esperamos por Danny, que não demora a chegar. Dot senta no atrás e eu sento no banco do carona. Vamos até a casa de Doug, que tem um quintal imenso. É divertido, como sempre, mas voltamos cedo porque estamos com sono. Dot dorme lá em casa.

No final de semana, não tenho nada para fazer. Combino com Dot e Danny de voltarmos caminhando da escola no dia seguinte, porque eu gostava de caminhar no outono. Eu e Dot (que resolveu ir morar comigo) vamos ao parque com os bichos, ao cinema, treinamos piruetas e corremos durante todo o final de semana. Eu adorava quando ela ia lá em casa e meus pais não se importavam, então ela podia morar lá o quanto quisesse, já que, segundo a mesma, não tinha nada o que fazer sozinha em casa.

Na segunda, vestimos o uniforme das líderes e vamos de ônibus. Embora o sol estivesse brilhando, tivemos que colocar o conjunto de inverno, que é tipo uma legging e uma blusa de manga comprida por baixo do uniforme normal. O inverno se aproximava, e com ele, o Natal! Mal podia esperar, porque este ano iríamos esquiar em Aspen, no Colorado.

Na aula de história, sento ao lado de Danny. O novo professor pede um trabalho em dupla, e graças a deus não precisa apresentar. Ainda que estivéssemos fazendo um certo progresso quanto a esta questão, ainda era muito enervante.

Voltamos para casa andando, como combinado. Não era muito longe, uns vinte minutos. Eu caminhava entre eles dois, me sentindo uma anã. Íamos conversando, rindo das piadas dos outros.

— Ei, esperem um pouco- pede Danny, parando e olhando o celular- se importam se eu passar naquela papelaria e pegar umas coisas para a Alice?

— Não, pode ir. Vamos te esperar aqui.

Ele entra na papelaria e fico com Dot na calçada. Ficamos girando para ver a saia ondulando em nossos quadris, distraidamente, enquanto esperamos.

— Olha só – damos um pulo ao ouvir uma voz desconhecida bem próxima de nós. — se não são as meninas da Honoria.