TOC
11 11- Pneumonia
Já se passaram alguns dias do ocorrido e Danny está com tudo certo para o acidente, quando uma visitante inesperada aparece, na maior cara dura, usando o menor e mais decotado vestido de todos os tempos, embora estivesse uns oito graus lá fora.
Mabel entra no quarto, invadindo como se fosse dela, e praticamente se atira no meu namorado.
— Daniel, querido! Como eu fiquei preocupada! Que horror! Como você está, meu bem?
— Oi Mabel. Tudo bem.
— Que bom! — então ela se vira para mim e torce a cara – Ah. Oi, Lily. Não tinha te visto aí.
Reviro os olhos quando ela volta a encarar Danny. Me levanto. Pelo menos agora ele está de camisa, penso. Me dirijo para a porta.
— Qualquer coisa me chama. — digo para Danny.
— Tá bom – ele responde e eu saio, o deixando sozinho com aquela vaca. Já tinha mais de uma semana que o tiroteio acontecera, e eu ainda tenho aqueles ataques de tosse. E não era rinite, porque rinite faz espirrar. Ah, e novidade: recentemente, foi acrescentado sangue. Mas eu não queria reclamar com ninguém, afinal, teve gente levando tiro. Eu não podia ficar me queixando de uma simples dor nos pulmões.
O problema era que os ataques estavam ficando mais frequentes, ou seja, mais difíceis de esconder. E me deixando meio desorientada.
Assim que saio do quarto, corro até o banheiro para pegar papel. Meu nariz também sangrava de vez em quando. O que eu mais amo em hospitais eram os banheiros perfeitamente limpos. Aliás, tudo era limpo e cheiroso.
Pego algumas folhas de papel e coloco na bolsa. Não sei para onde ir, então sento na lanchonete. Peço um salgado folhado de queijo só para ter alguma coisa para fazer, mesmo que fome fosse a última coisa que eu sentisse. As pessoas me olhavam com pena, comendo ali sozinha, aquele crachá de visitante que já se tornava parte do meu ser, meu rosto pálido e preocupado. Deviam estar pensando que alguém tinha morrido, tamanho pesar em seus olhos ao olhar para mim.
Tenho que admitir que fiz amizades durante toda a correria com Danny. A mulher do telefone, chamada Patricia, a senhora Ford, Lynn, Bob, a senhora Pine. A senhora Pine e a senhora Ford eram as duas pacientes do hospital. Nós jogávamos cartas de vez em quando, se Danny estivesse recebendo alguma visita, por exemplo. Elas dividiam um quarto na parte geriátrica do Florinha. Elas eram legais e gostavam de conversar. E eu gostava de ouvir suas histórias.
Termino meu lanche e, depois de vinte minutos fazendo nada, compro dois chocolates quentes e subo de volta para o quarto.
Danny está sozinho. Lhe entrego um dos copos e sento ao seus pés na maca.
— Cadê a Mabel?
— Foi pra casa. Acho que ela não gosta de hospitais. Não a culpo.
— Nem eu. Sobre o que conversaram.
— Nada em especial. Ela queria saber o que houve e contar mais algumas notícias da escola. Deu pra ver que ela ainda está bastante abalada com tudo.
— Todos nós estamos, não é? — olho no fundo dos seus olhos azuis – Danny, preciso ir embora mais cedo hoje, tudo bem? Vou sair com Dot. Ela ainda está muito mal…
— É claro. Nem precisa perguntar, você sabe. Vá tomar conta da sua amiga. Ela provavelmente precisa mais do que eu agora. — ele diz, e sei que é sincero. Dou um beijinho casto em seus lábios, sorrindo, e me despeço.
Saio do quarto, visto o casaco e vou para o carro. Dirijo direto para a casa de Dorothea. Vou pensando em Danny e em como ele parecia melhor, mesmo sem conseguir andar ou se levantar direito ainda. Lembro do dia em que eu o ajudei no banho, junto com Bob. Admitimos que não foi a melhor das ideias, mas valeu a tentativa.
Estaciono na garagem dos Mc.Cullen. Toco a campainha e a mãe dela atende, também exibindo uma expressão triste. Ela me abraça. Subo até o quarto da minha amiga.
— Dotty. — a abraço. Já tinha visto ela depois da tragédia, mas ainda assim era chocante como ela parecia triste.
— Oi, Lily – responde, a voz trêmula – como está Danny?
— Melhor. Como está você, Dotty?
— Acho que melhor. Mas não sei. Dói tanto, e eu não consigo esquecer…- ela já está chorando de novo. A abraço mais uma vez.
— Eu sei, Dotty, eu sei.
— É que… simplesmente não é justo!
Deixo que ela desabafe e chore no meu ombro por horas. São quase duas da manhã quando deixo sua casa e entro no carro. Vou dirigindo pelas ruas vazias o mais rápido que posso. Chego em casa, estaciono o carro e subo direto para o quarto. Tomo banho, deito na cama e durmo, exausta.
Quando acordo pela manhã, a casa está vazia. Checo o relógio do telefone. Onze e meia. Ou seja, eu deixei Danny completamente sozinho por quatro horas sem dar a menor explicação. Me arrumo e corro para o carro, chegando ao estacionamento em tempo recorde. Obviamente, está lotado, me obrigando a parar bem longe das portas. Vou correndo pelas escadas, sentindo meus pulmões queimando. Asma. Passo o cartão na catraca e subo de elevador até o quarto andar. Chego no quarto 214 ofegando com o esforço.
— Lily? O que foi? O que houve no seu nariz?
— Oi Danny! Desculpe eu ter me atrasado, mas eu fiquei na Dotty até de madrugada e dormi de mais e eu… — me sinto tonta. Não lembro mais do que eu estava falando – e eu…
Nada mais faz sentido. Sinto meu corpo ficando mole e enxergo os pontinhos pretos mais uma vez. Desabo no chão
Acordo com o bipe insistente de alguma máquina ao meu lado. Tem alguma coisa grudada no meu rosto e alguém segura minha mão. Com os olhos fechados, tento arrancar o que quer que fosse da minha cara com a mão livre.
— Não pode tirar. — ouço a voz de Danny e sinto um aperto na mão. Abro os olhos. Tem uma luz me cegando. Viro o rosto para o lado. Então levanto o corpo, confusa.
— O que você esta´ fazendo aqui? O que aconteceu? Por que eu que estou na maca? — olho para ele, seus olhos preocupados. Noto que ele está em uma cadeira de rodas.
— Você quer me matar de susto, Lily?
— Não. Por quê?
— Porque parece. Meu deus. — ele está nervoso, visivelmente.
— Sinto muito. O que aconteceu?- Olho para meu pulso, onde encontro uma agulha intravenosa. — O que é isso?
— Você caiu. Chegou correndo no meu quarto, com o nariz sangrando um monte, falou umas coisas incoerentes e simplesmente desmaiou. Chamei a enfermeira, e ela trouxe toda uma equipe. Te trouxeram para cá. A médica está lá fora com os seus pais. Eu pedi para vir ver você.
Bem quando ele termina, a médica e meus pais entram no quarto. Meus pais me abraçam e se sentam nas poltronas do quarto, esperando a médica falar.
— Oi, Lily, meu nome é Melissa, e eu vou ser sua pneumologista. Pois bem. A senhorita apresenta um quadro avançado de pneumonia química.
Sinto que meu olhos se arregalam quando ela relata o quadro. Nunca tinha ouvido falar de pneumonia química.
— O que é isso?
— É uma doença que pode ocorrer quando se inala produtos químicos em grande quantidade ou por um longo período de tempo. No seu caso, foi agravado pela asma. Me contaram que a senhorita se escondeu em um almoxarifado por mais de três horas, confere?- assinto – Então, provavelmente, algum dos produtos lá causou a doença. Mas não se preocupe. Se tudo correr bem, você deve ganhar alta em dois ou três dias. Depois, é só tomar os corticoides indicados que deve ficar tudo bem. Alguma dúvida?
— Não, senhora.
— Muito bem então. Boa noite a todos. Lily, venho te ver pela manhã.
Ela vai embora. Logo, Lynn aparece e leva Danny para o quarto dele. Meus pais vão passar a noite comigo.
Durante os próximos três dias, sou impedida de ver Danny, então conversamos por vídeo. É muito chato ficar ali, mas Dot me visita, logo seguida por Alice, o que melhora meu humor. No quarto dia, pela manhã, eles tiram os tubinhos do meu nariz, me enchem de receitas de remédio e finalmente tiram a etiqueta do meu pulso, me libertando para o mundo exterior. Saio do quarto 402, no qual estava encarcerada, e vou para o 214. Abro a porta e Danny se surpreende ao me ver ali. Sorri para mim, esquecendo completamente do doutor John, parado ali.
— Senhorita Vogelmann! Fiquei sabendo do acontecido. Fico feliz que esteja melhor.
— Obrigada doutor John.
— Oi Lily!
— Oi Danny!
— Bom, vou deixar vocês sozinhos. Você entendeu tudo, certo, Daniel? — Danny assente com a cabeça – vejo você à tarde.
O médico sai. Abro espaço para deixá-lo passar, e assim que a porta se fecha corro até a maca. Deito ao seu lado.
— Oi meu amor. Como vai o homem ferido?
— Melhor agora que a senhorita recuperou a saúde. E a senhorita?
— Melhor agora que está ao lado do homem ferido. — aproximo nossos rostos e beijo seus lábios, só um selinho. Afasto a cabeça e fico olhando seus olhos.
— A senhorita me deixou muito assustado. — ele fala, bem baixinho.
— Peço desculpas por isso, mas não queria te preocupar sem motivo.
— Lil, tinha motivo. E outra, mesmo que não tivesse, sua saúde é tão importante quanto a minha.
— Eu não sabia. Eu achei que era da asma mesmo.
— Tudo bem. Foi só um susto.
— Sobre o que você estava falando com o doutor?
— Nada importante. Ele quer que eu fique mais uma semana, para não ter mais risco da ferida abrir. Só mais sete dias. Depois posso ir para casa.
— Também acho que é melhor. É mais seguro, pelo menos.
— É, o problema é que meus pais têm uma reunião em Londres. E é da clínica, ou seja, não tem como eles faltarem.
— E se eu vier dormir aqui? Aposto que meus pais vão deixar, afinal, você não está em condições de fazer nada de “errado” no momento, nem eu. Quando eles vão?
— Depois de amanhã.
— Tá. Vou ligar para a minha mãe e para a sua e pedir que venham para cá de noite. Daí combinamos tudo.
— O que você quiser.
— DANNY! LILY! ABRAM A PORTA! — Alguém grita do lado de fora, me fazendo pular de susto. — É A ALICE! ABRE A PORTA!
— Já vai, Lice! — jogo uma camiseta para Danny e cubro sua perna. Abro a porta. — Pode entrar.
— Oi! — diz ela, animada.
— Oi! — respondemos juntos, a fazendo rir.
— Lice, como você chegou aqui?
— Ah é. A mãe do Han me trouxe. Lily, a mamãe me contou que você também estava doente agora. Você melhorou?
— Sim. Não foi nada.
— Que bom. Danny. — ela se joga na cama e ele quase grita quando ela atinge sua perna. — quando você vai pra casa?
— Daqui uns dias, Lice. Poucos.
Alice continua conversando conosco até nossos pais chegarem. Todos concordam comigo dormindo com Danny, e logo os médicos são avisados. Meus pais me levam para casa, junto com as meninas, que posariam comigo. Mal posso esperar pelos dias seguintes.
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