TOC
10 10- Notícias
POV Alice
Lily e eu chagamos à cafeteria do hospital. Eles vendiam potinhos de sorvete. Ela me ergue para olhar os sabores, mesmo que eu já saiba qual eu quero. Peço o de chocolate.
— Qual sabor a Lize gosta?- Lily pergunta, me olhando.
— Ela só gosta do de morango.
Lily faz que sim com a cabeça, e pede um de morango e outro de amendoim. Ela paga e nós caminhamos pelos corredores ENORMES até o Danny.
— Lily? — pergunto, puxando o braço dela e a fazendo parar.
—O que foi, Lice? — ela se ajoelha para ficar do meu tamanho.
— O que houve com a voz do Danny?
— Como assim a voz dele?
— Tá diferente. Estranha. Parece quando eu grito muito e minha garganta dói. Só que ele fez um dodói no braço, né? Porque a garganta dele tá doendo?
— Bom… a garganta dele não está doendo, Lice; é porque o médico deu um remedinho para o dodói sarar mais rápido, entende?
— Hum.
Voltamos para o quarto. Ofereço o sorvete para Danny, mas ele não aceita. Continuo falando até um doutor chegar e me mandar sair da sala, acompanhada de Liza.
POV Lily
Quando volto para o quarto com Alice, Danny e Liza estão apenas rindo. Pelo jeito, já se acertaram. As meninas saem quando o doutor John aparece para checar mais algumas coisas. Depois que ele sai e elas entram, ligamos a televisão e assistimos a algum filme infantil qualquer. É divertido ficar com os três.
Logo mais, o pai de Danny leva as meninas para a casa da avó, retornando depois junto com a esposa. Eu os cumprimento e me despeço de Danny, e vou fazer algo que tentava adiar a todo custo: falar com Dotty, que provavelmente estava inconsolável.
POV Danny
As minhas três meninas vão embora, me deixando com meus pais. O médico reaparece, pela terceira vez naquele dia, e explica tudo o que tinha me dito mais cedo.
Depois que ele sai, meus pais começam a me beijar, emocionados. Minha mãe está quase chorando.
— Filho, que susto! Você não tem ideia de como foi terrível ouvir Lily contando dos… acontecimentos. Minha nossa senhora, acho que nunca choramos tanto!
— Me desculpe, mãe…
— Pelo quê, Daniel? Não foi culpa sua. Mas nos apavorou, isso com certeza.
Minha mãe me abraça e acaricia meus cabelos.
— Filho – meu pai começa- estamos muito aliviados que esteja bem. Nós realmente não sabemos o que faríamos se algo de pior acontecesse.
— Nada vai acontecer, pai. Mas… vocês têm alguma novidade?
— Ah, sim. Eram, no total, cinco atiradores. Só um sobreviveu e está em estado grave, em outro hospital. Aparentemente, não há nenhum motivo para eles terem atirado na escola, foi apenas o que cruzou por suas cabeças na hora. Quanto a números, além dos quatro atiradores, treze alunos, dois professores e quatro funcionários vieram a falecer, e os feridos são incontáveis, em torno de sessenta baleados, quinze em estado grave. Uma garota, Savannah, entrou em coma por cair da escada no meio do tiroteio. As aulas foram suspensas por duas semanas, o que quer dizer que você não vai faltar muitas aulas.
Dezenove pessoas, tirando os atiradores, morreram naquele dia. E eu poderia ter sido o vigésimo. E este número ainda podia subir. Era tudo horrível demais, pesado demais, para minha cabeça.
— Ei, Danny, olha só – meu pai chama, do nada, me mostrando um potinho.- os médicos te mandaram isso, caso você queira guardar como prova da sua sobrevivência.
Ele me entrega o pote transparente. Três pedaços de metal estavam ali dentro.
— As balas?- dou uma risada estranha – eles guardam isso? Legal. Vocês podem levar para casa e colocar no meu quarto?
— Sim, claro. Aliás, por falar em casa, te trouxemos seu computador e celular- minha mãe me mostra uma mochila – e camisetas, para quando receber visitas.
Agradeço a eles. Logo, uma enfermeira traz uma coisa para eles dormires, tipo uma caminha, e um edredom. Eles estavam cansados, pois dormem em segundos, e eu faço o mesmo graças aos comprimidos que a moça me dá.
De manhã, meus pais se despedem e vão trabalhar na clínica. Fico olhando para o teto por alguns minutos e chamo a enfermeira. Suspeito que Lily vá aparecer logo em seguida.
— Bom dia, Daniel!
— Bom dia, Lynn! Como vai hoje?
— Ótima. E o senhor?
— O melhor possível. — observo que ela está desconectando várias das minhas máquinas, incluindo o monitor cardíaco. Ao fim do processo, tudo o que tenho é o soro. — posso tomar banho?
— Sente-se disposto para isso, senhor? Lembre se que ainda não ficou em pé…
— Para tudo há uma primeira vez, certo?
— Tudo bem… vou chamar Bob para lhe ajudar. Não precisa ficar com vergonha, tá? Somos todos muito profissionais.
Ela se retira, e em alguns minutos surge um homem enorme.
— Bom dia, senhor. Pode me chamar de Bob.
— Bom dia, Bob, pode me chamar de Daniel.
— Muito bem. Vamos começar?
Demoramos um pouco para me colocar de pé, mas conseguimos. Ele me ajuda no banho e depois me entrega mais um short preto, que me lembrava aquelas samba-canção antigas. Quando saímos do banheiro, nos deparamos com Lily em cima da maca.
— Eu podia ter te ajudado nesta tarefa…- seus olhos percorrem meu corpo quase completamente exposto de cima a baixo. Ela desce da maca e ajuda Bob a me colocar ali. Bob arruma as bandagens e nos deixa sozinhos. — eu a tornaria muito mais agradável…
— Hum… quem sabe outro dia… — ela se aproxima e beija meus lábios, um beijo de verdade. Percebo o quanto seus movimentos são cautelosos quando ela passa as mãos pelo lado direito da minha barriga exposta. — é muito ruim que eu não posso me mexer agora.
— É mesmo. Mas eu posso fazer isso por você.
Ela troca o toque das mãos por beijinhos, por toda a extensão do meu tronco, e volta para a boca. Imagino que sua posição não seja das mais confortáveis, mas não tem outro jeito.
Ela se afasta e senta na cadeira segundos antes do doutor aparecer. Ele só me pergunta algumas coisas, e agradeço por ele não levantar o lençol depois do que Lily fez. Ele sai e nós dois começamos a rir.
— Meu deus! Que bom que ele não checou seus machucados.
— Realmente.
Rimos e conversamos mais um pouco. Pergunto de Dorothea. Lily foi falar com ela ontem depois que foi embora. A menina aparentemente está muito mal.
— Vão fazer o enterro de todo mundo junto, no mesmo cemitério. Eles vão ganhar um espaço reservado e uma homenagem da cidade. Quando as aulas voltarem, vai ter mais alguma cerimônia na escola. O funeral vai ser hoje de tarde, então não vou poder ficar com você o dia inteiro como ontem. Mas as meninas vão vir, para você não ficar sozinho aqui.
— Lily?
— O que foi?
— Por que você está tão branca?
— Ah. Além do habitual? Não sei. Acho que cansei. Andei muito preocupada ultimamente, você sabe.
— Desculpe por preocupá-la.
— Danny, você devia parar de pedir desculpa. Nada disso foi culpa sua. Você não chamou os atiradores ou se jogou na frente de uma arma. Não precisa sentir culpa por algo que não fez.
— Mas todo mundo ficou tão preocupado. Meus pais mal tem dormido, e pelo jeito você também não. Além disso, Alicia e Elizabeth quase entraram em pânico.
— Mas as pessoas se preocupam quando alguém leva um tiro, Danny. Todos amamos você, logo, todos nos preocupamos.
— Tá mas ainda assim…
— Daniel, nada disso importa agora, tá? O que importa é que você está vivo e bem. — Lily parece irritada. Assinto com a cabeça, mesmo não concordando, só porque não quero brigar com ela. Do nada, ela começa a tossir.
— Lily, tudo bem?
— Sim. É só rinite. Tem alguma coisa aqui que me dá alergia.
O dia passa rápido com Lily. Logo, minhas irmãs chegam e Lily vai para o funeral. A partir disso, todos os dias parecem seguir uma rotina. Lily vem, depois meus pais trocam de lugar com ela durante a noite. Aprecio a companhia deles. Muitas pessoas vêm me visitar, e logo meu quarto está lotado de flores e balões. Por alguns dias, o máximo que fico sozinho são três horas.
Nessas três horas, me senti no inferno. Só fiquei sentado, solitário, sem falar com ninguém. Foi só aí que eu senti como as feridas doíam. E doíam muito. Fiquei praticamente agoniando ali por cento e oitenta minutos. E então Alice chegou, e toda a dor pareceu sumir.
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