TIE-BREAK
1 APITO FINAL
O apito final calou o ginásio, que até então não nos deixava ouvir umas às outras. A torcida adversária, que ocupava um pequeno setor, rapidamente preencheu o silêncio deixado. Estávamos paralisadas, imóveis, encarando o Comandante, nosso técnico, na esperança de que ele tivesse observado alguma irregularidade no último ponto.
Os novos sons do ginásio eram tão incômodos quanto uma etiqueta em uma camiseta nova. A atmosfera — formada por pouquíssimas pessoas comemorando e uma maioria esmagadora de pessoas atônitas — parecia captar a sensação do meu corpo. As dores em cada centímetro do meu corpo, resultado do esforço extenuante, não me deixavam processar o fim da partida.
Nem os gritos de comemoração do outro lado da quadra, nem a agitação do pequeno grupo de apoiadores foram capazes de nos tirar da inércia. O momento, que parecia durar minutos intermináveis, foi quebrado por Letícia, a primeira a reagir.
Ela estava logo atrás do Comandante e colocou as mãos sobre o ombro dele — um toque que pareceu lembrá-lo de que precisava fazer algo.
Letícia foi a fagulha. Bastou o toque dela para que algo se acendesse — uma reação quase elétrica, que percorreu a equipe inteira. Primeiro ele se moveu. Depois o banco, a comissão técnica e, por fim, nós. Ainda meio zonzas, começamos a caminhar lentamente em direção a eles.
Nos aproximamos, nos abraçamos e nos reunimos em uma roda. Ao contrário das outras partidas, nenhuma palavra foi dita. O Comandante percorreu os olhos por todas as atletas — titulares e reservas — e terminou a breve análise visual em Pedro, assistente técnico e braço direito.
Os dois assentiram com a cabeça — pareciam ler o pensamento um do outro — e a roda foi desfeita.
Em seguida, formamos a fila para cumprimentar a equipe adversária. Eu não faço ideia das reações, da ordem dos apertos de mão, se alguém disse algo. Simplesmente participei das ações obrigatórias, assinei a ata do jogo e segui para o corredor que dava acesso ao vestiário.
Um corredor escuro, seguido por uma sala iluminada. Assim que alcancei a luz, minha visão deixou de ser nítida. Os bancos, armários, chuveiros, bolas e adesivos tornaram-se todos parte de um mesmo borrão em tons vermelhos.
As dores em cada centímetro do meu corpo, resultado do esforço extenuante, não me deixavam processar o fim da partida. O tornozelo torcido no início do segundo set — que antes não parecia um grande problema — latejava com uma pulsação quente, insistente, como se quisesse me lembrar de todos os ataques na direção errada, bloqueios sofridos e saques desperdiçados.
Sem nenhuma força para me manter em pé, encostei em uma das paredes. Sem forças para alcançar nem mesmo o banco mais próximo, preferi não arriscar — um desmaio seguido por uma queda seria ridículo, ainda mais com a certeza de que o time logo entraria.
Em um movimento praticamente em câmera lenta, escorada na parede, desci até o chão. Uma cena digna de filme hollywoodiano, diga-se de passagem.
Olhos fechados. Respiração lenta.
Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar...
Era o que eu estava repetindo na minha cabeça — ou, pelo menos, achava que estava só na minha cabeça.
— É uma ótima técnica — ouvi ao fundo.
Abri os olhos lentamente e virei a cabeça na direção do corredor escuro. Ainda não estava bem o suficiente para entender quem estava ali, especialmente naquele breu.
— Pode deixar os olhos fechados. Continue respirando pausadamente. Aposto que o seu tornozelo já começou a inchar… Você nunca me escuta, né? Eu disse pra esperar e manter o gelo, pelo menos, até começar o terceiro set.
— Olhos fechados, né? — interrompi Letícia. A única pessoa que era capaz de me dar broncas nessa situação.
— Nossa… Quem diria que a fisioterapeuta teria razão?! — dessa vez a voz estava mais próxima e eu abri meus olhos novamente para entender o que estava acontecendo.
Letícia estava agachada na minha frente, procurando algo na mochila.
— Você disse que era uma leve torção… — resmunguei, mas sem a pretensão de que ela ouvisse.
— Leve não quer dizer inexistente.
Eu estava me preparando para responder algo como “já passei por isso várias vezes e sempre fica tudo bem” ou “sei os limites do meu corpo”, mas ao invés de palavras, consegui apenas cerrar meus dentes.
— Repouso. Gelo. Compressão. Elevação. — A voz tranquila não combinava com a expressão séria, nem com a velocidade com que ela estava fazendo as coisas. — Igual quando você torceu o tornozelo no campeonato passado e eu precisei reduzir o inchaço com gelo imediatamente…
Enquanto recitava o protocolo — como se eu não soubesse de trás pra frente todas as regras —, ela tirava a bandagem que havia feito antes para prender uma bolsa de gelo no tornozelo. Se é que eu posso chamar assim, já que agora parecia mais uma bola do que uma articulação.
Toda essa movimentação, feita com muita agilidade e maestria, diga-se de passagem, não tornou as coisas menos dolorosas. Na verdade, estava me sentindo em uma tortura medieval e, honestamente, não entendia o porquê.
Uma torção não deveria doer tanto. Será que na verdade eu tinha rompido algum ligamento? Inferno. Parecia ser mais uma piada de mau-gosto nesse dia interminável. Já tinha trincado o menisco na temporada passada. Já havia quebrado e deslocado alguns dedos durante os anos. Eu entendia de algumas dores e desta vez parecia, realmente, desproporcional.
Buscando algum tipo de resposta, troquei meu foco. Meus olhos, que antes estavam analisando as voltas nas ataduras sendo desfeitas e refeitas, foram direcionados para o rosto de Letícia. Será que a ideia de eu ter rompido algum ligamento também estava passando pela cabeça dela?
Não fui capaz de descobrir. No milésimo de segundo em que consegui encará-la, não descobri nada. A agilidade não era só coisa de fisioterapia esportiva. Ela era rápida, ponto.
De repente, percebi que um de seus braços estava me levantando pela cintura, enquanto o outro estava esticado para me apoiar.
Entendi o recado. O time estava chegando e ela me conhecia bem o suficiente para saber que, se alguém me encontrasse sentada no chão, especialmente depois dessa derrota, eu nunca mais pisaria nesse vestiário.
Dois passos até o banco mais próximo foram suficientes para uma nova bronca ser dada.
— Gelo a cada duas horas...
— Eu sei. Protocolo R.I.C.E. Rest. Ice. Compression. Elevation. — Não estava com paciência para broncas.
— Assim que você ouvir toda a análise da partida, nós vamos para minha sala. — Ela me soltou no banco e me fuzilou com o olhar, já cansada da minha teimosia, mas sem discutir.
Como de costume, eu estava pronta para questionar a necessidade de ir até a sala dela, mas as vozes do time ecoaram pelo túnel. Não queria dar nenhuma pista sobre a minha condição, então apenas assenti, me dando por vencida.
Em instantes os bancos estavam lotados e a equipe técnica permaneceu em pé, no centro do vestiário. Todas nós conseguíamos ver a expressão do Comandante, que ainda parecia estar processando o dia de hoje, assim como nós.
Olhei rapidamente ao redor e percebi que Melissa estava olhando fixamente para o meu pé. Franzindo levemente a testa, ela desviou o olhar apenas quando Pedro iniciou a análise, mantendo os braços cruzados, anotando mentalmente cada detalhe. Droga.
— Bom, o protocolo segue o mesmo. Vencendo ou ganhando… — Pedro começou a falar, e todas prestaram atenção. — As análises estatísticas serão detalhadas no próximo treino, mas imagino que vocês já devem saber que saque e ataque foram os pontos mais fracos.
Enquanto ele procurava mais alguma informação na prancheta que estava segurando, o Comandante interrompeu. Acho que ele finalmente havia encontrado algumas palavras para nos dizer.
— A invencibilidade nos deixa frágeis, egocêntricos. Faz o adversário jogar leve, enquanto a gente entra com peso e obrigação. Hoje vocês erraram em detalhes, jogaram com displicência e pagaram o preço. Na próxima, precisamos rever nossas atitudes.
Não esperávamos tantas palavras, mas resumiam exatamente o que havia acontecido — e ninguém parecia discordar.
Respirei fundo. Agora era minha vez.
— Não avançamos para as semifinais. Isso só quer dizer que temos duas semanas de preparação para o próximo campeonato, ao invés de uma. Sete dias a mais para nos organizar, ajustar detalhes e processar o que aconteceu hoje. — Enquanto falava, olhava ao redor, mostrando que sentir a derrota era natural, mas que os treinos não paravam.
Meus olhos encontraram Letícia, encostada em um canto do vestiário. Diferente de Thiago, outro fisioterapeuta, que acompanhava cada palavra, ela encarava o chão, braços cruzados e um pé apoiado na parede.
De repente, levantou a cabeça, e nossos olhares se encontraram. Era como se ela sentisse quando eu a observava. O olhar, inicialmente preocupado, mudou ao me ver — e, desta vez, eu consegui perceber a preocupação dela. Antes que pudesse prolongar o momento, voltou-se rapidamente para o Comandante, como quem dizia: “Depois conversamos, agora o foco é outro.”
Fiz o mesmo e busquei no técnico uma aprovação silenciosa pelo meu discurso anterior. Ele apenas assentiu, sem acrescentar nada.
Pedro terminou a análise reforçando que, a princípio, a formação inicial seria mantida para os próximos jogos, mas tudo dependeria do nosso desempenho nos treinos.
— A sala de recovery já está pronta. As cinco que terminaram o jogo podem ir. — As instruções vinham de Thiago; normalmente, quem falava isso era Letícia. — As outras podem esperar na sala de fisioterapia.
Procurei por ela, mas encontrei apenas Thiago abrindo a porta.
Enquanto as meninas se levantavam, permaneci sentada. O celular na mão era apenas um disfarce. Cada toque do meu pé no chão doía, então qualquer movimento me entregaria. Melissa já sabia, e eu precisava que ninguém mais percebesse meu tornozelo se quisesse voltar aos treinos.
Cada segundo esperando o vestiário esvaziar parecia um pequeno pedaço de eternidade. A dor não diminuía. Cada músculo rígido, cada mínimo movimento impossível. Meu corpo pesado, como se fosse concreto. Como eu sairia dali?
— Bia…
A voz dela, mesmo que suave, foi a marreta responsável por quebrar o ciclo de pensamentos. Alívio instantâneo. Eu não precisava me mover; ela veio. Passos firmes, sabendo que eu não conseguiria andar sozinha.
Mais uma vez, ela colocou uma mão ao redor da minha cintura e a outra para me apoiar. E, lembrando das minhas lesões passadas, ela murmurou: “Você lembra do menisco trincado na temporada passada? E os dedos deslocados nos treinos anteriores? Então vamos com calma.” No segundo em que apoiei o pé no chão, senti a dor percorrer meu corpo inteiro.
Com passos lentos, chegamos até a sala dela. No caminho, nenhuma palavra foi dita. Assim que ela me ajudou a sentar na maca, comecei a me ajustar, cada movimento enviando pontadas pelo meu corpo.
De mãos vazias, completamente concentrada na tarefa, ela saiu da sala e, em segundos, voltou segurando um aparelho branco e um frasco. Acompanhei cada movimento com os olhos; sabia que não era hora de falar. Além disso, minha respiração estava dolorida demais para qualquer palavra.
Assim que ela chegou perto, fechei os olhos, esperando o sermão.
Silêncio.
Assustei-me quando ela começou a tirar o gelo do meu tornozelo. A dor não me permitiu manter os olhos fechados e, assim que os abri, encontrei-a sentada em um banco baixo na minha frente. Movimentos rápidos, precisos. Como quem sabe, pelo histórico, exatamente onde a dor apertaria mais.
Ela pegou o frasco que havia sido deixado no chão, logo ao lado, e colocou um pouco do gel na articulação. Olhou para mim por alguns instantes, dizendo com os olhos algo como: “se prepare”.
Obedeci. Segurei o tecido da maca com as duas mãos e, assim que inspirei fundo, ela pegou o aparelho e começou a passar na região que estava com o gel. Enquanto mexia o aparelho para cima e para baixo, de um lado para o outro, ela olhava o celular, procurando algo.
Fiz questão de acompanhar cada movimento, na intenção de evitar surpresas. Assim que terminou, percebi que estava segurando tão forte a maca que não sentia meus dedos e que minha mandíbula estava travada de tanto apertar os dentes. Abri as mãos e comecei a esticar os dedos para a sensação voltar ao normal. Não notei que ela havia se levantado e estava procurando um lugar no armário para guardar o aparelho e o frasco.
— Duas semanas. Analgésico. R.I.C.E… — Só escutei a primeira parte.
— Duas? — Questionei na esperança de ser mais um de seus exageros superprotetores.
— Não é brincadeira, Bia. Entorse nível 1. — A resposta foi tão rápida quanto uma china levantada perfeitamente pela Júlia para um ataque de Melissa. — Quer que eu chame o Thiago ou marque um exame particular?
— Não foi o que eu quis dizer… Acredito em você. Mas não achei que era…
— Não achou que era sério? — Ela me interrompeu, completamente sem paciência para qualquer tipo de palavra que saísse da minha boca.
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