TIE-BREAK

2 R.I.C.E (Rest. Ice. Compression. Elevation.)


Descansar. Eu sei que atletas fazem isso, mas os que se podem dar o luxo são os que já se tornaram profissionais e estão há algum tempo em grandes equipes. Também sei que devemos relaxar em alguns momentos para evitar lesões. Só que eu nunca ouvi falar de alguém descansando nos primeiros anos da carreira.

O que se fala é sobre os sacrifícios, os treinos intensos, os aperfeiçoamentos necessários para refinar nossas habilidades. Nunca o contrário.

As novas séries e filmes da Netflix? Só conheço os pôsteres e alguma informação superficial, quando alguém da equipe técnica comenta alguma coisa. O novo barzinho que abriu ou a nova franquia de pizzaria que chegou por aqui? Vejo só a fachada, já que ficam no caminho entre a minha casa e o ginásio.

A única coisa que consigo acompanhar são os lançamentos dos artistas que eu gosto. Os novos álbuns da Reneé Rapp e da Jennie já estão favoritados, por exemplo. Recentemente não tenho montado playlists, prefiro ouvir os álbuns inteiros. Mas só escuto durante os treinos na academia ou no caminho de volta.

Minha vida é basicamente ouvir música e treinar. Então eu não sei o que fazer para descansar. Talvez por isso, nos últimos dias, eu tenha ido ao ginásio só para ver o treino do time, mesmo sem poder participar. Eu simplesmente me sento na arquibancada, coloco o gelo no tornozelo, levanto a perna e tento não ser vista.

Todo mundo já sabe, óbvio. Mas eu não quero enfrentar o olhar de piedade de todas elas, principalmente de Letícia. Ela se sente culpada — e eu odeio quando alguém sente pena de mim.

Se eu tivesse falado com o Comandante… Ele poderia ter feito você ficar no banco…

Se eu tivesse sido mais incisiva com você… Talvez você não precisasse das duas semanas…

Todos os discursos e cenários possíveis já foram ditos. Já expliquei mil vezes — pessoalmente, por mensagem e ligação — que a decisão de voltar para o jogo foi minha. E que, se isso foi o agravante, a culpa é literalmente minha.

Por isso, agora, chego nos treinos, me sento no ponto mais distante da arquibancada e saio minutos antes do final. Assim, não preciso conversar com ninguém. Não preciso encarar olhares. Só evito tudo e todos.

Pelo menos eu achei que estava evitando…

— Faltam só quatro dias, certo? — A voz, vindo da porta ao fundo, me assustou. Estava focada nos movimentos da quadra.

Assenti com a cabeça, sem virar para ver quem era. Afinal de contas, não precisava olhar para saber.

— Esse gelo ainda está minimamente gelado?

Não queria conversar. Não queria que ela percebesse que eu venho aqui todos os dias porque não sei o que fazer com o tempo vazio. Não queria mais discursos sobre culpa, nem ouvir outro “eu devia ter insistido”.

Bati com a mão no cooler ao meu lado. Levo sempre comigo, como se fosse uma extensão do tornozelo. Troco o gelo de tempos em tempos, mesmo sem inchaço visível. É só para me convencer de que ainda tenho algum controle.

— Achei que você estivesse pegando da sala da fisioterapia… — Ok. Culpada. Eu assumo que trouxe o cooler quase todos os dias e, quando eu esqueci, assaltei alguns cubos da sala da fisio.

— Só uns dois dias tive que ir lá. Não tinha ninguém, então peguei da máquina eu mesma.

De repente, senti um toque no ombro. Rápido, quase automático, mas que me fez travar por um segundo.

— Te ensinei, mas parece que a bandagem está meio solta. Precisa estar firme para comprimir o tornozelo. — O tom era profissional, direto.

Revirei os olhos para não deixar escapar a frustração. Estiquei a perna.

— Se está ruim, pode refazer.

Ela já estava agachada, ajustando as bandagens. Os movimentos eram precisos, sem espaço para dúvidas ou hesitação. Eu fiquei em silêncio, observando o treino para fingir naturalidade, mas cada puxão firme da faixa me lembrava que ela não tinha perdido um detalhe sequer da minha recuperação.

Quando terminou, levantou-se rapidamente. Nossos olhares se cruzaram por um instante, antes de eu desviar de volta para a quadra.

— Se precisar de carona de volta pra casa… — disse, já indo em direção à porta, como quem sabia que a resposta seria não.

De fato, não emiti nenhuma reação. Apenas voltei minha atenção para o treino.

Acompanhando a efetividade dos ataques e do entrosamento nos últimos dias, a minha previsão para a equipe titular para o próximo campeonato seria: Melissa (oposta), Ana (ponteira passadora), Paula (ponteira), Camila (levantadora), Carol (líbero), Fran (central) e Isa (central). Sabia que era impossível ser escalada, afinal de contas, são duas semanas sem nenhum tipo de preparo.

Claro que eu deveria estar dentro da quadra, ouvindo as instruções e aprendendo os detalhes dos ataques e defesas das equipes adversárias. Mas isso não é o que o Comandante pensa.

Percebi que a derrota foi impactante para você, mais do que para as outras, e acredito que você deva tirar esse período de férias. Descansar a cabeça…”, foi o que eu ouvi em uma reunião que tive com o técnico e a Letícia. Senti um nó no estômago. Não fazia ideia do que dizer naquele momento.

Descansar? Parecia uma piada. Eu queria fazer parte. Ajudar. Ser útil. Organizar estratégias.

A derrota não tinha me afetado tanto quanto esse afastamento forçado. Era a primeira vez que isso acontecia. A equipe de fisioterapia já havia me liberado para alguns exercícios, especialmente os que eram feitos na sala de pilates. Só que, se eu fosse até lá, o Comandante saberia que as minhas “férias” forçadas não estavam sendo cumpridas. Eu tinha medo de que isso pudesse interferir na minha volta às quadras.

Tudo bem que todos os dias eu estava indo assistir os treinos, mas isso não quer dizer que não estou descansando. Certo?! Eu posso muito bem ser uma pessoa que vem aqui e depois faz outras coisas. Sei lá? Vou ao cinema? Saio com amigos? Visito parentes? Qualquer coisa que as pessoas fazem quando estão de férias. Não preciso, necessariamente, abrir mão de tudo relacionado ao vôlei para parecer que estou descansando…

Levantei antes que o treino acabasse. No corredor, logo depois da porta do ginásio, Letícia estava lá, encostada na parede, parada, mexendo no celular. Havia algo tenso no rosto dela, como se tentasse esconder uma preocupação atrás de uma irritação calculada.

— Achei que você tivesse entendido que eu não precisava de carona. — Assim que terminei a frase ela levantou a cabeça para me encarar.

— Um pouco egocêntrico achar que eu estou te esperando. — Ok. Eu mereci essa. — Tenho uma reunião com a equipe técnica daqui alguns minutos. Preferi esperar aqui fora do que na minha sala.

Ela estava irritada. Era perceptível pela voz e pelo olhar fuzilante que estava recebendo, mas não parecia ser só por conta do meu comentário.

— Fala sério, se eu não fosse egocêntrica aposto que seus dias seriam entediantes. — Tentei brincar com a situação para amenizar o clima, mas não tive 1% de eficácia.

— Ou talvez meus dias seriam calmos e eu poderia me preocupar só com coisas relacionadas a minha formação. Ao invés de ter que passar minhas tardes explicando para o Comandante que você…

Fomos interrompidas pelo toque do celular dela. Era uma ligação do Pedro e ela não demorou meio segundo para atender.

— Tenho que ir para reunião. — Ela disse assim que desligou a chamada.

Eu fiquei parada enquanto ela se distanciava. Não fazia sentido toda essa irritação só por conta de um comentário meu. Estava tudo bem há alguns minutos, quando ela estava arrumando as bandagens.

Sou egocêntrica. Ok. Mas ela sabia disso desde o primeiro segundo em que nos falamos. Então por que agora parecia tão irritada?

E o que ela quis dizer com reuniões explicando coisas minhas para o Comandante? Desde quando eu virei pauta de reunião? Será que estou realmente atrapalhando os dias dela? Dessa vez eu nem tinha feito nada.

Em vez de ir embora, fiquei rodando pelo corredor, sem rumo, até acabar entrando na sala da fisio. A ideia de esperar ali me pareceu óbvia.

Sentei na maca, peguei o celular e escrevi rápido: “Tô esperando na sua sala. Precisamos conversar.”

O celular vibrou depois de longos minutos.

“Já estou indo.”

Depois de um tempo, ela entrou sem dizer nenhuma palavra. Foi direto para a mesa e largou alguns papéis ali, o barulho seco preenchendo o silêncio. Enquanto ela puxava a cadeira para sentar, eu inspirei fundo, pronta para despejar todas as perguntas que havia ensaiado — mas ela foi mais rápida.

— Pelo que eu sei, você deveria estar de férias. — Disse sem me encarar.

Não consegui elaborar uma resposta rápida o suficiente. Ela ainda estava agindo diferente e isso me incomodava. Não sabia como agir.

— Então…? Você disse que precisava conversar comigo. — Dessa vez ela havia levantado o rosto e eu acabei encontrando um olhar fuzilante, igual ao que ela tinha me lançado no corredor, logo antes de entrar para a reunião.

Meu reflexo foi abaixar a cabeça. Fugir daqueles olhos.

Eu devo ter feito algo”, era tudo o que eu conseguia pensar.

— Nem adianta ficar se questionando — ela disse antes que eu conseguisse sair do meu looping de culpa, mais uma vez adivinhando meus pensamentos —, você não fez nada.

— E as reuniões? — disse ainda com a cabeça abaixada.

Letícia respirou fundo. Não pude evitar, levantei a cabeça só o suficiente para poder ver a expressão dela. Parecia que ela estava se preparando para me contar algo como “Kristen Stewart foi flagrada aos beijos com um cara, traindo a namorada”.

— Bia… Não sei nem por onde começar… — ela pausou por alguns instantes, organizando as informações — Eu estou tentando, ok? E mais importante, estou tentando te proteger e ajudar.

Essas palavras não faziam sentido nenhum. Proteger de que? Ajudar com o que?

— A comissão técnica quer te colocar nos jogos da primeira semana. — Fiquei em choque. Eu estava sem treinar, sem ritmo, sem conhecer os adversários, não fazia sentido. — Estou fazendo reuniões com o Comandante para mostrar as estatísticas da Melissa. Ela está consistente e você sabe muito bem que ela é capaz de te substituir.

— Me substituir? — murmurei, incrédula com o que eu estava escutando.

— Pelo menos nessa primeira semana. Assim você consegue voltar ao ritmo de treinos e se encaixar na formação. Além disso, você precisa desse tempo para se inteirar de todas as análises que foram feitas. Não é porque um olheiro vai estar assistindo os jogos que você deve obrigatoriamente participar…

— Olheiro? — interrompi. Não fazia sentido. Era um campeonato pequeno, sem peso estadual, muito menos nacional. Somos federadas, mas ainda assim…

— Eu me preocupo, ok? — a voz dela ficou trêmula, deixando a rispidez de lado — Eu quero que você mostre o seu melhor. Do que adianta entrar em quadra assim? É isso que eu estou tentando mostrar para o Comandante. Faz dias que eu passo as noites montando relatórios, destacando os detalhes da evolução da Melissa, tentando mostrar que ela pode ajudar o time e que eles não dependem de você.

Não precisava escutar mais nada. Não queria esse tipo de preocupação. A minha chance estava sendo levada embora. Relatórios, reuniões… Tudo para que eu não jogasse.

Levantei da maca sem olhar para frente. Saí da sala em silêncio.

— Bia! — escutei ao fundo, a voz dela carregada de urgência. Simplesmente ignorei.

O corredor parecia ainda mais longo do que de costume. Cada passo só aumentava o peso no meu peito. O pior sentimento do mundo é se sentir traída. E era exatamente assim que eu me sentia.

Fui direto para a sala do Comandante. Bati na porta e entrei. Ele estava sentado, analisando alguns papéis, provavelmente entregues pela Letícia.

— Pode me escalar para a primeira semana. Amanhã volto aos treinos.

— Você conversou com a Letícia sobre isso? — Ele disse olhando para o meu pé. — Não quero que nenhuma lesão grave aconteça…

— Ela não é mais responsável pela minha recuperação e performance. Semana que vem te apresento um novo fisioterapeuta, mas até lá, pode contar comigo nos treinos e no campeonato.

Antes de me responder, notei um olhar de preocupação vindo dele. Mas logo ele mudou, a expressão agora parecia confiante.

— Como você já está liberada para o pilates, imagino que não seja um problema participar um pouco de outras atividades que não exijam tanto do seu tornozelo. Vou avisar o Pedro para montarmos um treino. Enquanto você não tem um novo fisioterapeuta, posso contar com o Thiago?

Preferia não ter ninguém daquela equipe. Não sabia até que ponto a Letícia tinha ido. Se ela tinha conversado com o Thiago e se ele concordava com toda essa loucura que ela tinha feito. Mas, sabia que o Comandante não me deixaria treinar se eu não tivesse algum tipo de liberação.

— Posso conversar com o Thiago e ele segura as pontas até eu achar outra pessoa. — Achei melhor aceitar, queria começar logo a minha preparação.

— Ok. Nos vemos na quadra amanhã.

Sai da sala e liguei imediatamente para o Thiago. Precisava saber se ele estava por ali ou se já tinha ido embora.

Estou em casa, mas pode falar.”

Preciso que você me libere e converse com o Comandante…

Pera aí… A Letícia já tá sabendo disso?

Olha, se ela quer focar na ascensão da Melissa, tudo bem. Eu não tenho nenhum problema com isso. Meu problema é ela me prejudicar nesse processo.

Eu acho que não era…

Thiago, eu só preciso que você converse com o Comandante, ok? Ela já tinha me liberado para alguns exercícios, pode perguntar pra ela.

A ligação ficou em silêncio por alguns segundos.

Tô sabendo… Ok, vou falar com ela e amanhã faço uma reunião com a comissão técnica.”

Obrigada.

Desliguei, mas não estava me sentindo vitoriosa. No fundo, parecia que só tinha ganhado tempo — e tempo não era o bastante.

Ainda precisava arrumar um novo fisioterapeuta, alguém que me ajudasse a provar que eu estava em condições reais de voltar. Mais que isso, precisava mostrar, dentro de quadra, que Melissa não era a substituta perfeita que Letícia vinha descrevendo nos relatórios.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.