TAN-World - Fic Interativa
2 O ano da tecnologia
Notas iniciais
Três anos. Três TANs. Era o que ela esperava... Mas nem sempre se é o que esperamos: Nintendo 64 teve sua Placa Mãe corrompida. O conserto da TAN poderia valer o preço de outra nova. Camila, vendo o tempo passar, logo voltou seu olhar para o futuro: novas TANs poderiam ser mais interessantes... Porém, seu coração ainda ficava no passado: sempre bem guardada e conservada, sua primeira TAN apenas espera uma oportunidade.
Três anos. Dois TANs. O final de um ano sempre é motivo de festa. E o começo de um ano também. Para Camila, o ano novo seria como todos os outros anos: o final do seu ano de debutante seria à beira mar, na casa dos seus tios, com vista para os fogos de artifício. Lívia, sua fiel Xbox 360, divertia-se com seus primos, que não se cansavam no Just Dance 3. Enquanto isso, Zodiac descansava e observa sua colega distrair as crianças. Camila estava ao lado dele, descansando após dançar na frente de Lívia: como muitos na sua família já eram de certa idade avançada e as exceções estavam a ela e seus primos, ela não tinha com o que se preocupar com satisfações com os outros famíliares.
Lá também estava outro TAN: um PlayStation 2 (Ou Play, como era chamado pelo dono). Antes, ele era o centro das atenções não só entre os mais jovens, como para Camila também. Porém, os anos se passaram e agora, quando Lívia estava incluída nas festividades, sua atenção era ofuscada e eles chegavam a deixa-lo de recanto. Camila ainda sentia certa pena dele: seu espírito nostálgico a fazia imaginar como seria estar no lugar dele, ignorada e isolada. Play já se sentia rejeitado e que já não agradava mais ao seu dono e em alguns momentos, imaginava-se finalmente descartado.
Mas sendo quem era, logo Camila distraiu-se ao ouvir Zodiac com um sorriso:
– Ei... Alice está online! – Ele pegou o fone de ouvido, que estava pendurado no pescoço. – Quer falar com ela?
–... Claro. – Ela sorriu, pegando delicadamente os fones.
Ela posicionou o fone na cabeça, de forma a não estragar o penteado e abaixou o microfone, esperando a conexão no Skype completar.
– Diga. – A menina respondeu ao chamado.
– E aí, Alice! Tá muito ocupada?
– Na verdade, não. Consegui pedir licença aqui da festa... E me afastar um pouquinho, com Mio e Nano. E você?
– Acredite ou não, eu estou... Bem, quase no meio dela. É que a festa é no quintal, sabe?
– Sei... Ei, isso aí é Gangan Style?
– É sim. A Lívia, essa virada de ano, está sendo o centro das atenções. Ainda mais com esse meu jogo novo.
– Just Dance 3? Dizem que é legal...
– E é. Até seus priminhos de 11 anos chegarem e meio que “sequestrarem” sua TAN e ficarem jogando até gastarem todas as energias que tiverem.
As duas ainda ficaram conversando por longos e prazerosos minutos. E enquanto elas conversavam, Zodiac, o TAN da Camila, ria discretamente ouvindo a conversa das duas. Ele não era o mais glamoroso TAN, mas servia muito bem a ela e tinha certa simpatia. Mais novo, Zodiac era recente na vida dela: ele era alto e branco, com tribais tatuadas pelo lado esquerdo do rosto. Vivia sempre com os olhos azuis atentos a tudo, um sorriso de canto de boca e o cabelo preto sempre curto e arrepiado, como se tivesse passado gel nele. Suas roupas eram as mesmas desde que chegou a casa dela: tênis brancos, calça jeans escura e uma camisa preta com listras douradas, debaixo de uma jaqueta de couro preta.
Camila e Alice são amigas de longa no começo, a timidez era clara entre as duas, em conversas particulares na internet; tinham vergonha (ou até medo) de começar um assunto cuja outra não se agradasse, até que começaram a enxergar semelhanças entre si e criar fortes laços de amizade. A conversa entre as duas ia bem, até que uma das tias de Camila chegou à sala e disse com um sorriso:
– Pessoal, vamos logo! Um minuto para meia-noite!
Os meninos que tanto brincavam com Lívia resmungaram: queriam ficar brincado, obviamente. Eles pausaram o jogo saíram direito para o jardim (no total de três meninos, Camila não tinha muitos primos). Enquanto todos se reuniam no jardim da casa de praia, Camila se despediu de Alice foi cuidar de ajeitar o kimono branco de sua TAN.
– Me pergunto como você não se cansa... – ela riu.
– Ué, eu sou feita para isso. Sou feita para jogar, não é? – Lívia riu junto, colocando algumas das mechas verde-limão do seu curto cabelo branco atrás da orelha.
– Eu sei, mas isso não gasta muita energia?
– De certa forma, mas... – Ela deu de ombros sorrindo. Os olhos heterocromáticos (verde e amarelo) agora se fixaram no jardim.
A tia já apressava Camila. Logo, ela teve de ir; e enquanto ela ia para a contagem regressiva, Lívia e Zodiac descansavam na sala, ao lado de Play.
Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um... Logo os fogos começaram e a felicidade se espalhou. Os TANs sorriam vendo a festa dos seus donos: mesmo que ainda pudessem estar lá, pareciam querer ficar apenas entre si. A festa conseguiu perdurar durante a madrugada: não exatamente pela animação (pois logo tiveram que parar com os jogos com músicas altas), mas sim pelas longas e prazerosas conversas. A mãe de Camila ainda chegava a questioná-la em parte: mesmo nas festividades, ela não deixava seus TANs de lado. Seria um vicio ou uma obsessão? Talvez não.
E uma hora toda festa acaba. Naquela festa, Camila e sua mãe foram as últimas a saírem da festa. Ela também tinha um irmão, mas ele não estava por lá; sendo supérfluo como o pai, era mais fácil vê-lo, durante as datas comemorativas, em uma das casas das suas milhares namoradas. A viagem de volta não iria demorar: um prédio perto do centro da grande cidade de Salvador. A mãe seguia tranquila na rota, enquanto Camila observava o movimento das ruas (se é que haveria algum movimento), de bruços para janela. Mas enquanto a mãe seguida dirigindo, Camila viu algo estranho: como se o tempo, subitamente, começasse a seguir devagar, ela pôde ver uma estranha menina. Ela era alta e pálida; tinha olhos vermelhos como sangue e longos cabelos, pretos e com mechas avermelhadas; os seios avantajados se destacavam na roupa justa e escura, com um brilho escarlate (como se fosse a roupa de uma espiã); as botas e as luvas eram vermelhas; e ela andava séria.
Essa foi a visão que Camila teve dela, por um breve instante. Mas depois, quase sem perceber, ela enxergou a mesma menina, mas quase como uma garota normal: blusa branca e leve, calça jeans e salto alto; cabelo curto e bem cuidado. Como se, em um piscar de olhos, ela tivesse simplesmente... Se transformado. Dali para frente, no que pese a tenha enxergado como descrito anteriormente, não a pode ver mais, já que o carro a tinha ultrapassado. Camila se ajeitou dentro do veículo: ela estava no banco de trás, ao lado de seus TANs. Fixando o olhar para o teto, sua mente acabou viajando para aquela estranha e mágica garota. Seus olhos expressavam certa admiração e dúvida: quem seria realmente ela? Poderia até ter tido uma leve alucinação, mas desacreditava. Por um instante, Lívia ainda virou-se para Camila e perguntou:
– O que foi?
– Hm... Nada não... – Ela voltou seu olhar para baixo, menos concentrada na garota.
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