Túmulo das sete almas ~Hiatus~
1 Capítulo 1
Notas iniciais
“As correntes da morte levam todas às sete almas, sempre sete,
Nada a mais...
Nada a menos...
Ela não descansará até ter levado sete, quem são esses não importa, ela se alimenta de sentimento.
Mas só dos mais cruéis, sanguinários e destruidores: Amor e ódio!
Seu plano nunca falha, todos que se envolvem morrem, e resta, às pessoas de fora, o castigo de tentar entender o que aconteceu.
Um restará... Apenas aquele que fizer o sacrifício.
Esse poderá ter uma longa vida, mas jamais será o mesmo...
Afinal terá um preço... ”
— Acha que isso pode ser real? – Ela pegou o livro da minha mão antes que eu pudesse acabar de ler.
— Não diga bobagens Jessica, é só uma ameaça sem sentido. – Resmunguei olhando para o papel pequeno e azul que recebemos mais cedo:
"Yuri,
Ariel,
Lauren,
Lincy,
Vincy,
Adivinha os próximos da lista? "
— Mas tudo parece tão real e tem esse livro. – Seus olhos âmbar passeavam preocupados pelas capas dos livros, o que me fez suspirar, eu peguei o livro e o lancei na reta do meu armário, ele caiu e se misturou a minha incontável bagunça.
— Não passa de uma daquelas histórias em que todos morrem no fim, é apenas mais um clichê estúpido. – Resmunguei e ela se levantou, “ótimo Luc, você é mesmo o cara”.
— Só estou dizendo que deveríamos contar a alguém. – Jessie insistiu e eu caminhei até ela, que me encarou como se suplicasse em silêncio. — Algumas pessoas, essas pessoas, esses nomes, eles já desapareceram, então... Podemos dizer aos outros, talvez isso... Eu não sei.
— Contar? E o que vamos dizer? Que um maluco ameaçou nos sequestrar e ainda mandou um livro de terror junto? Fala sério, você está criando caso á toa.
— Ok. Que seja! Vou indo, tenho dentista e é uma das raras vezes em que meu pai me deixa faltar aula. – Ela sorriu, eu a beijei rapidamente e me joguei de novo na cama.
— Tudo bem, eu acho... Até amanhã linda
— Por que nunca diz que me ama? — Jéssica perguntou ao chegar a porta, eu sorri um pouco sem jeito.
— Não sejamos precipitados. – Tentei parecer casual, mas isso só piorou tudo.
— Tá... Fui. Até mais Luc. – Assim ela saiu com um andar despreocupado, os cabelos castanhos presos no alto balançavam de um lado ao outro, uma clara decepção, eu sou mesmo um babaca.
~ # ~
“ O sacrifício dará a quem o realizar a possibilidade de nascer novamente, com isso poderei finalmente recomeçar como um novo eu, serei feliz e viverei muito. Por isso estou disposto a pagar o preço, pelo que entendi dos antigos escritos, o sacrifício deve estar ciente de seu dever a cumprir nessa ida sem volta, e tem que estar cheio dos sentimentos mais cruéis, amor & ódio.
Então eu observei cada um de vocês, cada adolescente, me aproximei sem que notassem e passei a conhecer suas vidas- ”
— O túmulo das sete almas? Desde quando gosta de ler? E ainda livros de mistério? — Não sei o que é pior, ter um amigo, ou ter um amigo que fecha o livro na sua cara enquanto está lendo, apenas para saber do que se trata.
— Sei lá eu só... – Pensando bem, o pior é um amigo que vasculha suas coisas, no caso paginas do livro, até encontrar o que não deve.
— O que é isso? – Ele perguntou pegando o papel azul e o lendo, ao terminar pude ver como seus olhos se arregalaram, ele podia ser tudo, menos a pessoa mais corajosa do mundo, em compensação sua curiosidade...
Maldita hora que eu fui deixar aquela coisa lá.
— Não é nada. Serio... – Pensei em enrolar, dizer algo como uma desculpa idiota, mas com Charles me olhando nos olhos com aquela cara de ponto de interrogação e o silencio da sala de aula que nos obrigava a sussurrar ficou impossível.
— É? Anda fala.
— É algo que veio com o livro... Jessie recebeu o mesmo, mas isso não deve ser nada. É só um obcecado pelo sumiço desses ai e resolveu dar um trote.
— Aliás, cadê ela? Ontem de ontem faltou para ir ao dentista, e desde então nada dela.
— Não sei, não consigo falar com ela, me preocupa, mas ela deve estar passando por algo na família.
— Irado. Onde você parou?
— Fala sério, você tem que revisar seu conceito de irado. Aqui. – Apontei qualquer parte aleatória do livro e ele leu em silencio.
— Olha isso: “Na abandonada fábrica de carros descobri que o destino estava a fim de sorrir para mim, eu finalmente havia encontrado, o antigo lugar em que as seitas eram realizadas”. Não tem uma fábrica dessas por aqui?
— Sei lá. – Murmurei olhando para frente, na tentativa de ignorar a existência dele pela milésima vez, e pra variar eu falhei, ele apenas prosseguiu na leitura insana.
— “Lá os copos dos sacrifícios eram amarrados e jogados dentro de um lugar sagrado em que tudo aconteceria bem no meio, é onde esse lugar se encontra, é aqui que irei conseguir que meu precioso descanse em paz”. – Charles parou de ler e olhou para o teto, no mesmo instante eu já sabia o que viria a seguir.
Ele riu, parecia não saber mais como se respirava, todos olharam para nós, inclusive o professor, eu quis enfiar minha cabeça em um buraco, mas Charles apenas continuou rindo sem parar.
— Algum problema? — O professor estava visivelmente irritado, mas mesmo assim Charles não pretendia parar de dar seu show.
— Ah! Preciso... De... Ar. – Meu amigo se levantou e caminhou até a porta rindo, ele saiu entre tropeços e notei que todos continham sorrisos debochados, aquilo me incomodou, mas não posso fazer nada se Charles não sabe ser normal.
— Sr. Romany? – O professor me chamou e comecei a me alto xingar mentalmente por existir e ser tão retraído, a coisa que mais odiava era chamar atenção. — Por que não nos mostra como você e seu amigo estavam prestando atenção na aula e vem concluir essa questão?
— Cla... Claro senhor. – Me levantei sentindo que caminhava para a forca e peguei o giz na mesa tentando não tremer tanto, sentia os olhares voltados a mim, sentia mais sorrisos irónicos, olhei para o quadro e me senti ainda mais inútil.
Em frente ao quadro cheguei a me iludir que aquela expressão de matemática monstruosa seria meu único problema, mas descobri que estava terrivelmente errado quando o diretor entrou na sala, em um tom de evidente dor contida e as mãos um pouco trêmulas, disse o que eu jamais consegui esquecer:
— A aluna Jéssica Saits. – Ele engoliu em seco. —Minha filha. E colega de classe de vocês... Desapareceu a dos dias atrás! — Os sons dos cochichos aumentaram no mesmo instante e senti meu coração gelar, o diretor aumentou o tom de voz. — Antes não passava de suspeitas, mas agora é um fato, ela é a sexta só nesse mês, peço novamente que tenham cuidado pelas ruas, temos um criminoso solto por ai.
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