Títeres
2 A casa no Bosque
Notas iniciais
Então, agora começa a história de verdade. Espero que gostem
O fim de tarde estava anormalmente quente para um outono. Aliás, o ano de 1853 estava sendo o mais quente em décadas. O suor escorria pelo rosto de Valentin, uma tentativa inútil de seu corpo de refrescar-se durante um exercício tão intenso. Seus cabelos loiros estavam colados em sua testa.
- Maldito uniforme de mangas compridas. – o loiro reclamou baixo enquanto secava o rosto em uma das mangas.
Valentin era um exímio militar. Devido a suas habilidades, acabara de ser promovido para a Brigada Militar de Operações Especiais e estava em sua primeira missão. Essa brigada era responsável por capturar, vivos ou mortos, os criminosos de alta periculosidade. Para tanto, usavam de estratégias e táticas que quase nunca falhavam. Quase nunca.
Essa era uma das poucas vezes que algo havia acontecido errado. Aparentemente, os criminosos perceberam minutos antes que sua sede estava sendo invadida. Tempo o suficiente para planejarem um contra-ataque, mas não tempo o suficiente para fugirem.
Ndragheta era uma máfia que estava sendo procurada há mais de quatro anos, quando atingiu seu auge. Sua sede era uma mansão de estilo vitoriano, localizado no centro de um bosque, bem longe da cidade. A mansão era enorme, e seu jardim era maior ainda. Lá se encontrava a primeira linha de defesa dos Ndragheta. A maioria da Brigada Especial ficou presa em uma batalha contra eles abrindo um buraco em sua defesa por tempo o suficiente para apenas o Batalhão de Ataque passar. Esse Batalhão era formado dos seis melhores homens da brigada, dentre eles, Valentin.
Aos poucos o Batalhão foi adentrando a mansão, aparentemente o poderio de fogo se concentrava todo no jardim e o interior da casa estava praticamente vazio.
Valentin e mais dois militares, Roy e Bonnie, chegaram primeiro ao quarto onde se encontrava o chefe daquele grupo criminoso. Os outros três ficaram enfrentando um pequeno grupo no saguão do andar inferior.
- De acordo com as informações, é aqui. – sussurrou Roy encostando-se na parede. – Ao meu sinal entraremos.
Os outros dois acenaram positivamente com a cabeça e se posicionaram para entrar. Silenciosamente, Roy fez o sinal positivo e chutou a porta e entrou no quarto, sendo seguido pelos outros dois.
Tudo ocorreu muito rápido. Havia quatro pessoas no interior dos aposentos. Dois eram homens de porte grande, posicionados um em cada extremidade do quarto que atiraram mirando em Roy e em Bonnie. O terceiro era um menino de cabelos negros e bem curtos, aparentava ter apenas onze ou doze anos. Ele ficou parado ao lado da cama como uma estátua. O último, um gordo careca, aparentemente sofria de alguma doença respiratória, pois sua voz soou rouca e ofegante quando berrou.
- Me proteja, sua aberração. Faça meu dinheiro valer a pena.
Ao ouvir essa palavra o menino avançou em uma velocidade incrível em direção a Roy, que, preocupado com os outros homens, não teve tempo de se proteger da criança e foi desarmado em questão de segundos. Os dois entraram em um combate corpo-a-corpo que Roy estava perdendo feio. O homem da esquerda atirou em Roy antes do menino avançar, mas errou então se escondeu atrás de uma pilastra de mármore para carregar o revolver. As armas da época eram mais um estorvo do que uma ajuda. Tinha capacidade para um tiro de cada vez e demoravam muito para serem recarregadas.
O homem da direita acertou Bonnie na perna, derrubando-o no chão e repetiu o mesmo ritual do seu parceiro, tentando recarregar sua arma o mais rápido possível.
- Minha chance. – Valentin sorria, estava de cara para o enorme homem que parecia desesperado procurando sua arama em algum lugar da cama em que se sentava. Não havia como Valentin errar. Mirou a arma na testa do caraça e puxou o gatilho.
Antes que pudesse perceber o pequeno garoto estava em sua frente. Ele havia protegido seu mestre e sendo atingido no ombro. A dor do ferimento parecia não afetá-lo. Valentin olhou para o lado para checar seu amigo. Roy estava inconsciente no chão. Essa abertura foi suficiente. Antes que pudesse puxar a espada o loiro levou um chute no rosto que o jogou para trás, mesmo assim, o militar conseguiu manter-se de pé. O pequeno se lançou contra ele novamente em uma onda frenética de socos e chutes calculados com perfeição.
Valentin tentava se proteger daquele mini-lutador quando ouviu um estrondo. Era um tiro. Bonnie, ainda no chão conseguiu mirar no chefe da máfia e o matou. Nesse momento o menino congelou, como estava antes das ordens do asmático, dando a oportunidade de Valentin lançá-lo longe com um chute. O menino de cabelos negros ficou lá, sentado, não como se o chute fosse forte demais, mas como se ele estivesse sem vontade de nada.
A partir daí os outros três militares que estavam no saguão até então chegaram e, com a ajuda deles, os outros dois homens foram presos. A batalha no jardim também já estava acabando. A maioria dos criminosos estava morta, os que não estavam acabaram se rendendo. Mais um sucesso da Brigada de Operações Especiais.
Os militares levaram os criminosos presos ao presídio. Eles permaneceriam presos até o julgamento, onde seria decidido se seriam executados ou não. Três deles, porém, não foram para o presídio: os três que estavam no quarto. Eles poderiam saber de informações valiosas sobre uma quantia enorme que fora roubada pelos Ndragheta há três anos e estava “perdida”. Eles foram levados para a base, que ficava no centro da cidade.
A Base Militar ficava no centro da cidade de Buccaner, uma grande cidade portuária e a capital de Nix. Era um dos prédios mais altos da cidade e ocupava um quarteirão inteiro. Toda a junta militar se encontrava lá, dividida em pavilhões.
Os primeiros raios de sol já apareciam no horizonte quando Roy e Valentin chegaram com os três prisioneiros no pavilhão desejado. Bonnie tinha sido levado a um hospital para tratar seu ferimento. Depois de os criminosos presos em uma pequena cela, os dois militares se dirigiram ao gabinete do Marechal de Brigada. Bateram na porta e entraram, batendo continência logo em seguida. O marechal Boris era um homem idoso, porém seu físico era excepcional. Seus músculos se destacavam no uniforme. Sua voz soou grave quando falou sem se levantar da cadeira.
- Bom dia. — manteve o semblante sério – Tivemos muitas baixas?
- Muitos homens feridos senhor, mas poucas baixas. – Roy respondeu. Ele mesmo era um dos homens feridos, sua luta contra o menino deixara seu rosto inchado e roxo.
- Ótimo – continuou o marechal. – Soube que trouxe prisioneiros para interrogar. Roy, você parece cansado e acabado. Eu e Valentin o interrogaremos em seu lugar.
- Obrigado Marechal, mas eu estou bem.
- Não foi um pedido. – disse o marechal, encerrando a conversa com Roy, que bateu continência mais uma vez e saiu.
- Vou levar os prisioneiros para a sala de interrogatório. – se prontificou Valentin.
- Ok. Te espero lá. – respondeu o mais velho, se levantando.
Os prisioneiros foram interrogados um de cada vez. Os adultos foram interrogados antes. Foi um tempo gasto inutilmente. Ambos se recusaram a falar no início, forçando o marechal a utilizar suas técnicas de interrogatório. Mesmo depois de falarem, só o que os militares descobriram foi que a fortuna tinha sido gasta com algo, mas nenhum dos dois sabia com o que exatamente.
Depois foi a vez do menor. Diferentes de seus companheiros, o menino sentou sem demonstrar medo. O garoto possuía olhos interessantes, eram de um verde-azulado, porém o centro era castanho claro. Valentin ficou impressionado. Eram olhos muito belos e transparentes, no lugar de medo, demostravam... nada. Aqueles olhos não demonstravam nada.
- Qual o seu nome? — Começou o marechal sentando-se de frente para o menino. Valentin permaneceu de pé ao lado do mais velho.
- 4.
- Quê? – a resposta pareceu irritar o militar chefe. Ele não acreditou que aquela criança tinha coragem de tratá-lo assim. — Me responde direito moleque. Qual seu nome?
- Meu nome é 4 – o menino insistiu e Boris deu-lhe um tapa no rosto com uma força enorme, aparentemente só para desestressar, o que assustou Valentin.
- Ok, suponhamos que esse é seu nome. – continuou o general. – Há três anos, uma quantia considerável foi roubada pelo chefe de vocês, você sabe pra que ela foi usada?
- Não, mas provavelmente foi pra me comprar. –respondia calmamente o garoto. A voz de 4 era suave e baixa, não com a voz de uma criança deveria ser. A mão do marechal voou novamente no rosto da criança dessa vez mais forte. Valentin deu um pulo por causa do susto. O garoto era o único dos prisioneiros interrogados que não estava amarrado, mesmo assim ele não revidou o marechal. A lateral de seu rosto estava começando a inchar.
- Quando audácia. Porque uma organização criminosa do porte da Ndragheta iria comprar uma criança de dez anos por aquele preço absurdo. Eles nem traficavam escravos.
- Eu não sou uma criança, sou uma arma. E tenho catorze anos. – a segunda informação foi dita, não como se o garoto se importasse que confundissem sua idade, mas realmente para informar o marechal.
Foi a terceira vez que a mão do marechal se levantou contra a criança, mas antes de poder sair do lugar, mas, antes que chegasse a seu destino, Valentin o segurou. O marechal olhou revoltado para seu subordinado. Mas Valentin estava prestando atenção na criança. Foi a primeira vez que seus olhos demonstraram algo: surpresa.
-Como se atreve? – o Marechal estava se controlando para não berrar, mas sua voz estava perceptivelmente alterada.
-D-desculpe-me Marechal. — O loiro ficou nervoso, sabia que havia feito besteira, mas não suportava ver uma criança apanhando tanto. – Mas o garoto fala a verdade.
- Como assim? Você acha que ele realmente é uma arma?
- Provavelmente não uma arma, mas um soldado. Quando chegamos ao quarto ele estava lá e defendeu o chefe assim que foi ordenado. Ele que deixou o Roy naquele estado e, se Bonnie não tivesse matado o chefe, eu provavelmente estaria pior que Roy. Além disso, olhe o ombro dele. Está sangrando. Ele tomou um tiro e mesmo assim continuou a lutar e está aqui sem tratamento, alguns do nosso contingente receberam ferimentos muito mais leves e estão no hospital.
Devido aos fatos expostos por Valentin, Boris não teve como discordar. Olhou para o ombro de do 4 e percebeu que aquela criança era incrível. Dirigiu-se novamente ao menino.
- Sabe quem te vendeu?
- Não. Eram cientistas, mas nunca disseram seus nomes para nós.
- Nós? – perguntou Valentin. – Há mais como você?
-Sim — continuou o menino- mais três. Não sei onde estão. Fomos separados antes de nos vendermos.
- Ok, é isso por hoje. – Comentou o marechal. – Antes de eu te mandar para o presídio me responda. Por que você entregou tudo tão facilmente, seus companheiros evitaram de falar até o último minuto.
- Porque o chefe está morto – 4 respondeu como se fosse óbvio. – Eu não tenho ligação nenhuma com a organização, só com quem me comprou, que se encontra morto.
- Ok então, Valentin, pode mandá-los para o presídio, há uma carroça para transporte de presos lá embaixo, te esperando.
-Ma-marechal, poso falar com o senhor? – pediu o loiro
- Diga.
- O menino é muito novo para ir para um presídio, além disso, se há outros como ele, pode ser que haja alguma organização ainda maior que Ndragheta.
- Não me interessa, nossas leis não se importam com idade quando os crimes cometidos são tão graves. Além disso, ninguém nos pediu para investigarmos mais, nós só prendemos quem nos mandam.
Valentin não podia deixar uma criaturinha tão pequena e de aparência tão frágil em um local com outros marginais. Tinha que haver uma forma de colocá-lo em outro local. Era hora de recorrer ao que os seres humanos mais prezam: o ego.
- Marechal, imagine como seu status vai crescer se o senhor descobrir e capturar uma organização de tamanha magnitude. Até os civis cairão aos seus pés.
O marechal pensou por alguns segundos e resolveu escutar o rapaz.
- Tá bom, mas aonde ele vai ficar? Na sua casa? Se não souber um lugar ele vai ter que ser mandado para o presídio de qualquer forma.
Valentin não tinha pensado nisso. Não sabia aonde aquele menino poderia se estabelecer e, caso demorasse muito a dizer, o marechal mudaria de idéia. Por impulso, o loiro acabou falando
- É, na minha casa.
Pronto, Valentin, um militar, acabara de convidar um criminoso de alta periculosidade para sua casa. Sua casa!
Notas finais
Espero que tenham gostado. Reviews pleease :3
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