Tão fora da terra

7 Capítulo 7- Sem vergonha


Notas iniciais
Aioros safadinho haha

Camus subiu em direção a casa de Sagitário. Além de conversar com Aioros ainda tinha que falar com Milo. Pelo jeito não ia ser uma conversa fácil. Ainda não havia parado para pensar, mas não estava gostando da ideia. Tinha ido até o mestre para pedir para não ver mais Milo, agora ia ficar sozinho com ele. O que será que havia acontecido? Saga ser leal, Aioros exigir uma prova... lá vem mais um rolo de amantes, pelo jeito.

Enquanto subia, pensava em como as coisas estavam avançando rápido nos últimos dias... parecia que ontem eles eram crianças escolhidas por Atena, e hoje eram os guerreiros da elite. Ontem eles eram inocentes, hoje ele estava vendo tensão sexual por todos os lados, tensão de batalhas de vida e morte... tudo muito rápido, muito confuso...

Entrou em Sagitário. A casa de Escorpião estava vazia, então Milo devia estar ainda com Afrodite. Milo... há pouco estava tão bonito...

Afastou o pensamento. Ele não queria aquilo para si. Aquele tipo de vida, o risco constante de se machucar... Não, com mulheres, pelo que havia lido e reparado, era tudo mais fácil, era o natural... Chamou por Aioros no interior da mansão:

–Aioros.

Nenhuma resposta.

–Aioros? Sou eu, Camus.

Nada.

Já estava indo de volta para Aquário quando foi puxado por um braço.

–Aioria. Que susto, o que está...?

–Desculpa!- Aioria fazia sinal com mão para que Camus fosse atrás dele- Fica quieto e me segue.

Camus não entendeu nada, mas hoje pelo jeito era dia de não entender nada mesmo. Aioria o puxava pela mão, até a saída de Sagitário. Em uma pedra, perto da encosta, Aioros estava sentado, mãos no joelho, olhar vazio para o horizonte. Mu estava um pouco atrás dele.

–O que está acontecendo?

–Ele tá aí desde ontem a noite, não saiu pra nada, não moveu um músculo...parece que foi aqui que ele e Saga brigaram, e desde essa hora ele não se mexe, mal responde... eu já tentei falar com ele, Shaka também, Mu agora a pouco...nada! Você não quer tentar, por favor?

–Eu vim aqui pra isso. O mestre me disse que ele precisa de um amigo agora... você sabe por que eles brigaram?

–Não sei ao certo... desconfio que seja por que Saga tem estado mais cruel que o necessário, mas o Aioros tem mania de guardar as coisas para si, raramente conta tudo, sempre que diz estar bem, tem que conhecê-lo muito para saber que o mundo está caindo ao redor dele. Não sei por que ele é assim...mas enfim...

–Bom, não sou muito bom com isso, mas me deixem a sós com ele, vou tentar alguma coisa!

Mu se aproximou. Estava com uma expressão preocupada.

–Sempre conversamos muito, mas hoje ele está inacessível. Camus, boa sorte. Quando terminar aqui, se não estiver muito ocupado passe em minha casa. Eu preciso te falar algumas coisas sobre o treino com Milo, ordens do mestre, entende...

–Sim, pode deixar Mu. Aioria, me deixa só com ele?

–Sim, eu já estava de saída mesmo. Boa sorte Camus.

Algum tipo de compreensão mútua entre os três aconteceu ali. Não havia como explicar, mas era palpável. Camus, Mu, e Aioria sorriram juntos. Amigos. Guerreiros. Juntos até o fim. Por Atena.

Quando Mu e Aioria se afastaram, Camus se aproximou, se sentou ao lado de Aioros, mas não disse nada. Após alguns minutos, Aioros se virou e se assustou com o aquariano ali.

–Meu Deus Camus, que susto. Há quanto tempo você está aí?

–Hum, não muito...

–Por que não disse nada?

–Não quis te atrapalhar. Você estava tão longe. Achei melhor esperar você voltar.

Aioros sorriu um pouco. Seus olhos estavam vermelhos, ainda dava para ver no seu rosto o caminho das lágrimas marcado.

–Dia ruim?- Camus perguntou sem se virar.

–Não muito bom...

Mais alguns minutos de silêncio.

–Por que ele tem que ser assim?

Camus esperou.

–Quer dizer, pra que essa ambição boba, pra que ouvir tanto seu lado ruim? Será que ser um cavaleiro, ter uma paixão, não é o bastante? Querer dominar o mundo... o meu mundo já é dele, mas parece não ser o suficiente...

Camus continuou quieto. Aioros sempre parecia tão sereno, tão tranquilo... Mas ali ele estava devastado, sozinho, cheio de dúvidas.

–Sabe, eu me apaixonei por Saga pelo seu jeito gentil, pela sua lealdade a vida, aos amigos, a sua missão como cavaleiro. Camus, eu nunca conheci alguém assim. E nunca me apaixonei antes dele... E quando nos conhecemos foi tão bom, parecia que nos conhecíamos há anos, décadas, séculos até... o assunto sempre veio fácil, um sempre ria com o outro... aprendi tanto com ele... ele sempre ia me procurar... eu demorei entender que ele me queria de um jeito diferente de amigo... mas foi tão simples, tão bom quando tudo aconteceu...

Camus estava cheio de detalhes sórdidos para um dia. Já bastava MM, agora torcia para que Aioros não falasse de sua vida sexual com Saga.

–Mas ele tem mudado Camus... eu tento fazer ele voltar a razão, me ouvir, mas é cada vez mais difícil...ontem ele veio com uma história de dominar o mundo...mas não parecia ele falando... disse que com o nosso poder nós seríamos imbatíveis, seria tudo fácil e rápido... aquilo foi a gota d’agua. Eu falei que só quando ele provar pra todos que é leal a Atena, e a todo o santuário, é que eu posso voltar a confiar nele. Como cavaleiro, como amante, como tudo que ele representa.

Camus soltou um suspiro longo. Tinha alguma coisa na água desse santuário? Todo mundo era gay ali? Aioros era mais uma prova de que um homem amar outro não iria dar certo, sempre haveria alguém machucado. Camus não queria assumir que achava Aioros atraente, mas ficar ao lado dele, assim, tão vulnerável, tão destruído... lembrou-se de MM, quando quis abraçar Afrodite. Pelo amor, primeiro Milo, bem, depois de tudo que aconteceu, até vá lá... Mas Aioros também?

–Tudo que ele representa pra mim...

Aioros começou a chorar de novo. Era algo profundo, da alma. Camus tinha medo de sentir algo assim algum dia. Uns quinze minutos se passaram e nada de Aioros parar de chorar. Camus passou a mão por seus ombros e o puxou para junto de si. Aioros encostou sua cabeça no ombro de Camus, e chorou com mais força.

–Pode chorar a vontade, Aioros.

–Há, Camus... meu medo, meu maior medo é que ele me deixe... que ele resolva jogar tudo pro alto, e esqueça da gente... de tudo que vivemos, compartilhamos... eu não sei se aguentaria ter que duelar com ele, ter que ser inimigo dele... ele é...

Soluços. Camus estava aflito por ver Aioros naquele estado. Ele amava mesmo o Saga, só amor podia explicar como ele se sentia. Caramba, que coisa forte...

–Camus, Saga é meu amor da vida. Prefiro morrer a passar um dia sem ele. Não aguento mais essa distância, essa ausência. Não sei mais o que fazer, eu quero ele de volta... mas...

E desatou a chorar de novo.

Camus realmente não sabia o que fazer. Ele nunca fora muito próximo de pessoas, assim de um jeito mais forte; agora tinha ganhado irmãos de guerra, cheios de sentimentalismos, manias, jeitos completamente diferentes. Tinha que lidar com todos, uns ele nem gostava, outros até que eram legais, mas para fazer isso assim, praticamente da noite pro dia, era muito estranho, confuso, ele tinha medo de não saber administrar bem tudo aquilo.

Aioros continuava chorando em seu ombro. Camus continuou calado, mas o abraçou com a outra mão livre. Não sabia bem o que falar, não tinha experiência com assuntos do coração, então decidiu agir como sempre: ficar calado e deixar como estava. Uma hora tudo iria se resolver.

Talvez pelo esgotamento de passar mais de um dia sem comer, beber, ou se mover, Aioros começou a relaxar nos braços de Camus. Os soluços diminuíram, e ele começou a respirar mais devagar. Só algumas lágrimas ainda corriam pelo seu rosto. Camus sentiu que ele estava quase dormindo, resolveu tentar tirá-lo dali:

–Aioros, ei, eu sei que você tá triste, to participando da sua dor com você, mesmo sem entender ela direito. Mas você não pode mais ficar aqui. Logo mais escurece, e se você ficar desse jeito, como que vai poder ver se o Saga mudou ou não?

–Há, Camus, eu acho que o Saga nem me ver quer mais. Depois de ontem...

–Não, eu duvido. Hoje mais cedo eu estava indo a sala do mestre, e passei por ele, disse um oi, e ele me tratou super mal, estava com os olhos vermelhos, até com o cabelo mais escuro que o normal...ele pintou ou coisa parecida? Tava com uma cara estranha, chorosa.

Aioros quando ouviu aquilo parou de respirar por alguns segundos, depois se desvencilhou dos braços de Camus, se levantou devagar e disse:

–Não, ele não é desses... Camus, Saga tem dupla personalidade. Um lado bom, e um lado mau. Quando ele está dominado pelo lado mau, seu cabelo escurece. Quando ele está em luta com as duas personalidades, fica um negócio estranho, meio claro, meio escuro. Quando ele está em si, no seu lado bom, o lado que eu sou apaixonado, ele é loiro... entende agora?

Camus pensou um pouco. Então era a tal influência estelar.

–Saga tem dupla personalidade por ser da constelação de Gêmeos...

–Isso mesmo. Mas ele não é apenas duplo na personalidade.

–Não? Como assim Aioros?

–Camus, Saga tem um irmão gêmeo.

–De verdade? Irmão de sangue, gêmeo?

–Sim. Seu nome é Kanon. Caso aconteça alguma coisa com Saga, Kanon deve substituí-lo.

–E ele também tem esse problema de dupla personalidade?

–Não. Kanon já se entregou a uma só personalidade.

–Qual?

–Kanon é totalmente mau, Camus. Ele influencia Saga nessa ambição maluca de dominar o mundo, ele é a voz por trás do mal que há em Saga.

–Mas, Aioros, todo mundo sabe disso?

–Não. O mestre, eu, Mu e Shaka sabemos da existência de Kanon. Aioria desconfia de algo, mas não está preocupado com isso agora.

Camus estava impressionado. Que história mais maluca. Dois homens iguais, Aioros devia ser muito paciente para lidar com tudo aquilo.Era coisa demais pra administrar.

–Uau, essa história é muito complicada Aioros. Eu que to ouvindo tudo agora to confuso, imagina você...

–Eu nem sei mais... nem sei mais nada Camus. Só sei que não aguento mais sentir tudo o que estou sentindo...

Camus encarou o sagitariano com um aperto no peito. Odiava ver alguém se sentindo mal perto de si, ainda mais se fosse um amigo. Camus havia lido no diário de Degél que ele havia sido muito amigo de Sísifo, o cavaleiro de Sagitário da guerra anterior. Talvez por alguma outra influência maluca, ele sentisse essa simpatia estranha por Aioros. Não era atração física- não ainda- mas era um carinho, uma empatia muito forte. Camus se aproximou e disse:

–Aioros... eu imagino como tudo isso deva ser duro... mas você não pode mais ficar aqui, desse jeito. Eu acho que você tem que conversar com o mestre, depois com Saga. Mas primeiro precisa comer alguma coisa, trocar de roupa, até dormir um pouco.

–Há, Camus eu nem tenho força pra nada disso...

–Eu imagino. Vem, eu te ajudo!

–Camus, não, não quero te dar trabalho.

–Não é trabalho. Você fica me devendo uma, certo? Quando eu me apaixonar, e brigar com ela, aí você me dá um apoio. Pode ser?

Aioros olhou para Camus com um sorriso carinhoso, o primeiro sorriso de verdade em mais de vinte e quatro horas.

–Bom, eu estou mesmo com fome... acho que um banho seria bom também...

–Viu? A comida eu acho que consigo uma boa com o Milo ou o Shura, e á água eu coloco esquentar. Enquanto isso você descansa em uma cadeira, ou na cama, por que o Aioria me disse que você está aqui desde ontem. Ficar sentado em uma pedra não é muito confortável...

–Não é mesmo... certo, eu vou me deitar um pouco. Tem certeza que não vou incomodar você?

–Não mesmo. Será um prazer.

–Então está certo.

Aioros foi em direção ao quarto. Camus foi a cozinha, procurar alguma coisa pra esquentar água para o banho de Aioros. Assim que achou, procurou comida, mas não viu nada. Nenhuma das serviçais estava lá. Ia ter que pedir comida para algum vizinho mesmo. Shura ou Milo.

O cosmo de Shura não estava por perto. Milo estava em sua casa já.

Não ia ter jeito...

Desceu as escadas, pensando em tudo que tinha acontecido até agora, e que pelo jeito ainda iria acontecer. Milo estava chateado de manhã, pelo jeito, por que não havia sido ele o escolhido para dar continuidade aos treinamentos.

–Milo?- Camus chamou entrando, percorrendo o caminho até seu quarto. Sentiu que seu cosmo estava lá.

–Aqui no quarto. Pode entrar.

Camus já conhecia a tapeçaria vermelha que estava espalhada pela casa, mas não tinha tido tempo de reparar no quarto de Milo. Quando entrou, ficou bobo com a cama, grande, toda em tons de vermelho e púrpura, de dossel. Havia algumas almofadas espalhadas pelo chão, um armário simples, e uma cômoda. Um espelho ocupava meia parede em frente a cama, e do outro lado do quarto, entre duas janelas havia outra porta.

–Poxa, que quarto legal.

–É...Valeu... pensei que todos os quartos fossem iguais.

–O meu com certeza não é assim. É muito bonito...

–Hum... obrigado.

–Aquela porta, vai pra onde?

–Hum?-Milo estava encarando Camus, nem prestou atenção na pergunta.

–Aquela porta Milo, ela vai dar aonde?

–Hum? Há sim, tem um tipo de jardim aqui na frente... com fonte e tudo... quer ver?

–Sim, quero.

Milo abriu a porta, e o jardim se abriu diante deles. Era cheio de grama simples, algumas árvores na beira da encosta, e a fonte na frente, igual aquela do primeiro dia que se encontraram.

–Nossa...

–O que foi?

–Essa fonte...é igual aquela da arena?

Milo quase solta um “Aquela que você tomou banho?”, mas segurou a língua.

–É, é exatamente igual.

Camus deu um sorriso. Ainda bem que não ouvira nenhum comentário sobre aquele dia, de ninguém.

–Milo, desculpa estar tomando seu tempo. Gostei desse lugar. Como está o Afrodite?

–Bem machucado. MM fez a lição de casa direitinho. Achei que ele tinha quebrado alguma coisa, ele cuspiu um dente até, mas nem deu cinco minutos, outro estava no lugar como se nada houvesse acontecido. Ele vai demorar uns três dias pra ficar inteiro de novo. E o MM?

–Cara, Afrodite fez um estrago ali. Mesmo, nunca imaginei... Milo, MM me mostrou, bem, tudo... ele está todo ralado, machucado mesmo. O problema maior vai ser sentar, e ir ao banheiro alguns dias...mas fora isso...

–Ele te disse alguma coisa?

–Sobre?

–O Afrodite?

–Promete que não conta a ninguém?

–Pode confiar em mim!

–MM está meio confuso... acha que pode estar gostando do Afrodite.

–Gostando... gostando como, tipo, apaixonado?

–É!

–Nossa!

–Que foi?

–Afrodite também está, meio que assim, sabe... apaixonado...

–Apaixonado? E estupra o objeto de paixão?

–É, também achei exagero, mas enfim... você acha que os dois podem...

–Ficar juntos?

–É...

–Nossa Milo, isso é tão esquisito pra mim... quer dizer, já são dois homens, entende? Ainda mais desse jeito todo complicado... além dos dois tem o Saga e o Aioros, o estado que ele tá depois que eles brigaram... e o De...

Camus interrompeu a frase. Milo não precisava saber de Degél e Kárdia.

–E o...?

–É...o jeito que dois homens são juntos, entende? Quer dizer, sempre vai ser uma coisa meio...animal... sabe, eu acho que com mulher sempre deve-se ter um jeitinho, ser mais meigo...agora com homem? Deve ser uma coisa meio que selvagem... você consegue me entender?

–Hum... imagino, imagino que sim...mas sei lá, acho que toda regra deve ter sua exceção, senão não teria tanta gente vivendo assim, sabe, se apaixonando por pessoas do mesmo sexo. E parecendo feliz...

–Esse é o meu medo. O parecer feliz e não ser de verdade...

–Quem não arrisca na vida para ser feliz? Essa é só mais uma maneira, eu acho...

Camus ficou quieto por um tempo. Milo estava olhando para ele, e pensando que se fosse para arriscar ser feliz com algum homem, esse teria que ser o Camus. Ele era lindo, simplesmente.

–Camus, tá tudo bem?

–Sim, por que?

–Achei que você estivesse meio chateado comigo...

–Por que motivo?

–Impressão... mas hoje você está conversando tranquilo... parece até um daqueles dias na biblioteca...

Camus ainda estava querendo se livrar de Milo, mas não deixou isso transparecer.

–Milo, desculpa. Vim ver se você tem alguma comida pronta.

–Hum? Comida?

–É, pro Aioros. As serviçais dele não estão por lá, e não tem nenhuma comida por ali.

–Por que você tá procurando comida pro Aioros, Camus?- Milo ficou incomodado com isso.

–Como eu disse, ele brigou com o Saga. E desde ontem ele não se mexia, não saiu do lugar. Eu consegui agora a pouco convencer ele a sair de lá, e ele tá fraco, não come nem nada desde ontem. Vim ver se você tem alguma coisa pra me arrumar pra que eu tente fazer ele comer...

Milo realmente ficou incomodado com aquilo. Camus não parecia ser do tipo que ligava pro fato de qualquer um ter comido ou não. Agora essa?

–Bom, eu posso até mandar fazerem alguma coisa. Você não quer que eu, sei lá, leve lá pra ele?

Camus estava distraído com os olhos de Milo.

–Oi?

–Quer que eu mande levar a comida pro Aioros?

–Hum? Sim, pode ser. Enquanto isso eu vou ver se ele já tomou banho.

Milo sentiu o sangue subir ao rosto. Ver se Aioros tomou banho? Que história era essa? Camus voltou a falar.

–Milo, você não quer passar por lá?

–Onde?- a resposta saiu quase como um grunhido. Camus estranhou a reação de Milo.

–Na casa do Aioros. Acho que agora ele já consegue conversar, e eu não sou lá muito bom com pessoas... você pode me ajudar com isso? Tô meio atrapalhado com essa situação toda.

Milo soltou o ar dos pulmões com um chiado. Bom, apesar de, sem se dar conta, Milo estar morrendo de ciúmes de Camus com Aioros, achou legal Camus pedir ajuda para ele em alguma coisa.

–Bem... pode ser... eu vou ver alguma comida por aqui, e depois sigo para lá...combinado?

Camus estendeu a mão. Milo olhou com um ar engraçado.

–É um jeito de agradecer, Milo.

E Camus sorriu. Esse sorriso nunca mais iria sair da memória de Milo.

–Ora, não tem de que...

Milo apertou a mão de Camus.

–Não está fria dessa vez.

–É, acho que como tenho que me acostumar com você, melhor começar a ficar menos frio...

–Literalmente?

–Como assim?

–Nada...esquece, bobagem minha. Nos vemos daqui a pouco.

–Obrigado.

Camus foi voltando a casa de Sagitário. Milo acompanhou com os olhos até que a manta de cabelos ruivos se afastou.

–Aioros, você é um cara de sorte... Transa com o Saga e agora o Camus vai ver se você tomou banho... o inveja...

Camus entrou de novo em Sagitário. Ao passar pela cozinha reparou que a água estava quente já. Encheu a banheira de marfim do banheiro de Aioros e pensou consigo que já que todos os outros cavaleiros que vira viviam como lordes, cada um com mais requinte e conforto que o outro, iria começar a dar um jeito de ficar bem mais confortável do que estava também.

–Aioros?

Nada.

–Aioros? Já arrumei seu banho.

Sem resposta.

Camus foi até o quarto. Aioros estava deitado, com o lençol até metade da barriga, de costas. Respirava devagar,

“Só falta estar chorando ainda”- Camus pensou. Se aproximou devagar, mas não, Aioros estava dormindo mesmo.

Camus pensou primeiro em como ele estava bonito ali, dormindo. O cabelo loiro bagunçado, a boca meio aberta, a pele clara queimada de sol... havia tirado a camiseta, nossa, que braço era aquele. Aioros era uma massa de músculos. Parecia até discrepante, um homem tão bonito, forte, inteligente, e delicado sem ser afetado, e sem ser burro. Seu peito subia e descia. Dava vontade de ficar ali assistindo a cena. Colocou a mão no ombro de Aioros. Devagar, percebeu que o calor dele era diferente do calor do corpo de Milo. Era gostoso, convidativo, calmo por assim dizer.

–Aioros?

Aioros abriu os olhos devagar. Tinha acabado de cair no sono. A mão de Camus estava fria no seu ombro.

–Camus?

–Oi. Seu banho está pronto. Vamos? Quer ajuda?

–Hum... não, eu consigo chegar lá... mas agradeço se você conversar comigo de qualquer coisa enquanto isso, quero me distrair um pouco... pode ser?

Camus sentiu um arrepio estranho pelo corpo. Conversar com Aioros enquanto ele tomava banho?

–Tudo bem, eu espero aqui.

–Não precisa disso, além do que você pode nem me ouvir lá do banheiro. Vamos, vem comigo.

E dito isso Aioros se levantou.

Camus decidiu que iria sumir. Virou o rosto rapidamente pro lado. Aioros estava nu.

–Tudo bem Camus?

–Aioros!

–Sim?

–Você está pelado!

–Sim, não quer que eu tome banho de roupa né?

–Não é isso, é que, tipo...

Camus estava corando muito. Aioros achou graça.

–Camus, eu sou homem como você. Não tem nada em mim que você já não tenha visto em um espelho. Não precisa ficar com vergonha.

–É, é que... sabe...

–Já sei, você não está acostumado... acertei?

–Isso...-isso dito em um sussurro rouco.

–Tudo bem... vou indo, e quando estiver na banheira te chamo, melhor assim?

–Com certeza.

Aioros sacudiu a cabeça e foi indo.

Camus olhou quando Aioros saía. Que corpo era aquele, Aioros era uma dessas estátuas espalhadas pelo santuário. Suas costas eram largas, seus ombros fortes, braços desenhados, cintura fina...mas o que ele não esperava ver eram as pernas. Duas toras, coxas musculosas, pés grandes, e bunda. Bunda arrebitada, bonita. Aioros seguiu pela porta, e Camus estava meio bobo, meio assustado com aquela visão. Esperou um pouco, acalmou a respiração e esperou pelo chamado de Aioros.

Mas o que ouviu foi um “AI” enorme e comprido.

Correu até o banheiro. Aioros sacudia a mão em pé, ao lado da banheira.

–O que foi?

–Essa água tá pelando Camus!

Camus se aproximou e botou um dedo na água. Estava fervendo mesmo. Havia esquecido de colocar água fria pra controlar a temperatura.

–Desculpa, esqueci de temperar a água. Me dá um segundo.

Aioros chupava um dedo, com uma cara de criança zangada. Bochechas coradas, cabelo na testa, e Camus sentiu vontade de botar ele no colo e abraça-lo de novo. Quando o olhar desceu, deu de cara com o que estava tentando evitar ver, mas estava curioso também.

Agora ele tinha certeza que estava mais do que vermelho, deveria estar roxo. Esqueceu de respirar por uns segundos. Aioros tinha aquilo tudo no meio das pernas?

Saiu meio cambaleando do banheiro, e foi até a cozinha pegar um balde com água. Aioros encarava a banheira como se ele fosse alguma inimiga estranha, digna de receber um golpe no meio da cara. Camus voltou com o balde cheio, e Aioros continuava ali, pelado, com um dedo na boca, com aquela expressão infantil e desconfiada. Camus sentiu vontade de rir, mas ainda estava bobo ao ver o tamanho do pênis de Aioros. Aquilo não era normal. Não podia ser. Decidiu que não iria ficar nu perto dele tão cedo...ia ser vergonhoso...

Derramou água na banheira, parecia pouca coisa pra esfriar aquela água toda, estava quase na borda já. Ficou encarando a banheira por uns segundos até Aioros falar:

–Qual é Camus, você não pode usar seu cosmo?

–Hum?- Camus não queria se virar pra encarar Aioros. Iria olhar direto pro seu baixo ventre, com certeza.

–Resfria um pouco da água aí, sem congelar. Você não é mestre de água e gelo?

–Nossa, é mesmo Aioros. Tava meio distraído...

–Com o que?

“Com o fato de você ser um jumento?”- Camus pensou, e sentiu que enquanto aquela conversa durasse ele não ia abandonar aquele tom de vermelho da cara.

–Com nada. Um segundo.

Camus colocou a palma da mão por cima da água, e começou a elevar seu cosmo. Devagar, começou a resfriar a água.

–Põe a mão aí Aioros, vai vendo como que fica. Quando você achar boa me avisa pra parar.

Aioros ainda com um olhar desconfiado colocou a ponta de um dedo na água. Suavizou a expressão.

–Pode parar Camus, tá ótimo!

–Certeza?

Como resposta, Aioros espalmou a água da banheira no rosto de Camus.

–AIOROS!

–Desculpa, não resisti...

Dando risada, Aioros entrou na banheira. Camus secou o rosto com a mão.

–Que bom que você sorriu...

–É... tô precisando um muito...

Começaram a conversar de qualquer assunto. Aioros ficou um tempo mergulhado na banheira, enquanto Camus estava sentado no vaso sanitário. Depois de uns dez minutos, Aioros começou a se ensaboar.

–Camus, me passa uma esponja aê por favor.

–Essa serve?

–Se for a mais durinha sim.

Camus entregou a esponja para Aioros, e voltou a se sentar. Ouviram alguém chamando.

–Aioros? Camus?

–Aqui no banheiro- Aioros respondeu.

Camus ficou meio apreensivo. Milo havia chegado já.

Quando abriu a porta, Milo estava com os braços meio ocupados, com uma sacola em uma mão e uma vasilha na outra.

–Milo, deixa eu te ajudar.

–Obrigado Camus. Vão comer aqui mesmo no banheiro?

Aioros deu mais uma risada na banheira. Camus olhou em sua direção com um carinho enorme crescendo no peito. Gostava de ver o sagitariano sorrindo. Quem não gostou da expressão de Camus foi Milo, que sentiu o ciúme subindo como ondas através de sua barriga.

–Vamos arrumar as coisas na cozinha, pratos e etc. Enquanto isso você termina aí, certo Aioros?

–Isso, vão lá, to quase acabando.

Camus abriu a porta pra Milo, que passou cerrando os dentes e com um olhar assassino na direção de Camus.

“Hum? O que deu nele?”- Pensou Camus.

Milo ia andando na frente pisando duro.

–Milo.

–Fala- um grunhido misturado com um rugido saíram da garganta de Milo.

–Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

–Nada. Só que na próxima vez que você for dar banho no Aioros, me avisa pra esperar aqui fora. Não quero atrapalhar vocês dois.

–Milo, você tá bem? Eu não tava dando banho em ninguém, só estava lá conversando com ele.

–Sei... parecia que eu atrapalhei alguma coisa quando cheguei. Você já tinha ensaboado as costas dele? Ou ia ensaboar alguma coisa mais?- Os olhos de Milo se estreitaram.

Camus ficou meio boquiaberto alguns segundos. Milo o encarou, e colocou a comida em cima da mesa, já na cozinha.

–Milo, você não está achando que...

Milo explodiu, não dava mais pra segurar.

–Achando que você estava dando banho no seu mais novo amiguinho? Que você aproveitou que ele está sozinho e vulnerável pra dar em cima dele, tirar uma casquinha, quem sabe? Não, não to achando não, Camus, tenho certeza.

Camus estava ficando vermelho de novo. De raiva.

–Milo... cuidado com as besteiras que você fala. Você não me conhece, não pode sair por aí falando esse tipo de coisa...

–Há, qual é Camus, eu vi como você olhava pra ele. Todo derretido, você nunca olhou assim pra...

Milo parou no meio da frase. Estava quase falando demais.

–Olhou assim...? Como Milo? Agora você vai explicar.

–Há, esquece o que eu disse.

–Não, não esqueço não. Minha memória infelizmente é muito boa. Vamos resolver isso agora.

O tom de voz de Camus era mais sério que o habitual. Milo ficou meio intimidado. Estava de costas para Camus, e quando se virou Camus estava a centímetros do seu rosto, com uma expressão furiosa.

–Vamos Milo, eu quero ouvir. Você tá dizendo que eu estou, sei lá, transando com o Aioros? Ou coisa do tipo?

–É...bem, quer dizer...

–Eu espero que não seja isso que você quis dizer... por que se for...

–Se for, você vai fazer o que?

Camus começou a elevar seu cosmo. Milo também. Uma batalha. Milo pensou: “Que merda, nem bem começamos a ficar bem, e vamos sair no tapa. Mas dessa vez eu me recuso a perder!”

–Milo, você...

Um grito desviou a atenção dos dois:

–NOSSA!!!!

Na porta, Aioros segurava a vasilha que Milo havia trazido com uma expressão alegre, e mais infantil que antes!

–Milo, você trouxe LASANHA!

Milo estava sem entender nada. Aioros não percebera que os dois iam sair no tapa ali?

–Sim, o que que tem?

–Eu adoro massa, Milo. Lasanha então, nem se fala. Como você adivinhou?

–Eu não...

Aioros colocou a vasilha na mesa, e deu um abraço em Milo.

–Obrigado mesmo Milo. Eu nunca imaginei que você iria fazer alguma coisa assim pra mim. Camus, pega os talheres na gaveta, por favor? Nossa, agora que eu vi que to morrendo de fome. Vocês vão me acompanhar, né?

Camus continuava com o tom púrpura no rosto. Aioros estava entre ele e Milo, que estavam prestes a duelar, agindo como se fosse uma reunião de amigos, abraçando e sorrindo como um retardado.

E pelado ainda.

Milo estava meio sem ação diante da situação. Abraçou Aioros de volta, fez uma cara de “é bom não contrariar” pra Camus, e respondeu:

–É...sim, vamos comer com você sim... certo Camus?

–É...é...é...tá...

Camus se virou, e pegou talheres. Aioros se sentou em frente aos dois, e começou a comer.

–Nossa, eu to mesmo faminto. Milo, essa lasanha tá deliciosa.

–Hum...

Camus e Milo estavam sentados um ao lado do outro, meio sem graça, e ainda com raiva. Camus estava mais distraído pelo fato de Aioros estar pelado ainda.

–Não é, meio que, estranho...

–O que?-Aioros perguntou de boca cheia.

–Tipo, ficar assim...

Milo quem respondeu:

–Pelado?

–É, na frente dos outros...

–Não. Vocês são meus amigos, são homens, não tem nada aqui que vocês não tenham também. E eu sou acostumado assim, cresci na Grécia, lembra? Nu por aqui é algo comum.

–isso é verdade- Milo concordou.

–Mas eu não cresci... na próxima, eu fico mais a vontade se você vestir pelo menos uma cueca, por favor...-Camus disse encarando o prato.

–Camus, você pensa demais...

–É!-Milo concordou com Aioros.

Os gregos comiam calados, Aioros pela fome, mastigando como uma criança comendo doce, e Milo com o ciúme abrandado, agora se sentindo culpado pelo clima que causou com Camus. Este, por sua vez, estava ainda constrangido com Aioros “in natura”, e com a raiva que sentia quando estava perto de Milo de volta, sem levar em conta os dias de conversa tranquila, e a trégua de hoje.

–Aioros, como você está?

Aioros encarou Milo. Mastigava devagar agora, uma expressão mais séria no rosto.

–Mal, Milo... mal...

–Imagino. Escuta, qualquer coisa que eu puder ajudar, conte comigo.

–Obrigado Milo. Só por essa lasanha aqui você já ganhou alguns pontos.

Milo ainda estava meio com o pé atrás com Aioros e Camus, mas não tinha como não simpatizar com aquela cara de homem e menino de Aioros.

Camus comida devagar, e disse:

–Milo, mais tarde tenho que falar com você. Ordens do mestre.

–Hum? Por que não agora?

–Agora não. Quero me certificar que o Aioros vai ficar pelo menos estável, e depois vou falar com Mu. Aí então podemos nos ver.

–Certo, te espero na minha casa.

–Não.

–Não?

–Não. Me encontre na biblioteca.

–Por que? Pode ser na minha casa mesmo, ou na sua.

–Não. A biblioteca é melhor-“é menos informal, e eu posso te arrebentar se você fizer alguma palhaçada”- Pensou Camus.

Aioros terminou de comer. Deu um sorriso, e disse:

–Vendo vocês dois assim, sinto saudades...

–Hum?-Milo perguntou- De que?

Aioros ficou com os olhos marejados.

–Do Saga... desculpem, eu não to me reconhecendo. Vou dormir um pouco, vai ser melhor pra mim. Obrigado mesmo por toda a ajuda, vocês dois. Mas eu tenho que ficar sozinho agora.

–Vai ficar bem mesmo?

–Camus, bem só vou ficar quando acontecer o que nós comentamos. Mas não vou fazer nenhuma loucura, pode ficar tranquilo.

Levantou-se e foi indo em direção ao quarto. Milo e Camus ficaram sozinhos.

–Bunda bonita!

–MIlo!!!!!

–É verdade...

Notas finais
Curtiram? Bjos e abraços