Sôfrego
1 Introdução ao conceito de ansiedade (Prólogo)
As vezes, é difícil ter a empatia necessária para compreender a realidade do outro. Pré-julgar uma atitude, sem saber o motivo real, é considerado egoísmo no mundo contemporâneo.
Treze de maio de 2028, 29 anos.
Olá, leitor. Meu nome é Marcos — e por mais que este signifique “guerreiro”, “dedicado a Marte”, sinto-me completamente inútil, insuficiente. E a minha vida é assim: corrida, ansiosa, cercada de pensamentos que me corroem, me desgastam. As crises, por sua vez, são constantes: vêm durante a noite, período de maior fraqueza do subconsciente. Muitas vezes afasto as pessoas de mim por querer estar sozinho, por sentir vergonha de demonstrar qualquer sinal de distúrbio psicológico, por considerar ajuda profissional basicamente uma humilhação. E a solidão é uma das consequências geradas pelo receio de me expor.
Durante os transtornos, choro. Choro para tentar aliviar o medo, a tensão, o desespero. E os ataques são constantes, vêm de súbito. Não têm dia e hora marcada, apenas surge.
Os métodos que desenvolvi para amenizar os efeitos ao longo de dezessete anos complicados são escassos. Ou ouço música, ou faço artesanato, ou desenho. Ocasionalmente, um banho gelado — tudo o que tire minha mente dos pensamentos e dos desesperos diários.
Há quem pense que a ansiedade é aquele frio na barriga antes de sair com a pessoa amada, aquela insônia nas vésperas de viagem, o desejo do início do ano letivo. Mas é bem mais complexo: envolve gritos, lágrimas, falta de ar, enjôo e, nos casos mais graves, pensamentos suicidas. Há, também, aqueles que tratam a doença como “frescura”, “coisa a toa”, “bobagem”. Porém, qualquer pessoa bem-instruída saberia que o Brasil é o país com maior número de pessoas que sofrem com o transtorno de ansiedade — para ser mais específico, 9,3% da população. Parece pouco? Imagine que 93 em cada 1000 pessoas estão desesperadas todos os dias, e perderam a sua capacidade de enxergar a vida como uma virtude e decidem desistir de sobreviver.
Além disso, a ansiedade gera, a longo prazo, a depressão. E olhe só: de acordo com a OMS, a depressão é a doença que mais contribui com a incapacidade no mundo, em cerca de 7,5%. Ela é também a principal causa de mortes por suicídio, com cerca de 800 mil casos por ano. Ainda é “bobagem”?
Em certa parte da minha vida, mais precisamente aos dezoito anos, venci a vergonha e decidi procurar ajuda profissional. Não aguentava mais deixar com que os distúrbios atrapalhassem a minha vida amorosa. Para isso, precisei contar com a ajuda de alguém, muito especial para mim, que me ajudou a entender que eu não estava sozinho.
E é basicamente isso que contarei nas próximas páginas. Um diário de um inquieto, desassossegado e preocupado, em busca da “cura”, onde mostro cada passo importante para que eu me aceitasse como sou, cada pessoa que me ajudou a permanecer vivo, cada palavra que li que me deu motivos e razões para continuar.
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