Sôfrego
2 Montanha russa
Notas iniciais
Um pedaço de pão comido em paz é melhor do que um banquete comido com ansiedade. (Esopo)
Quando eu me auto-diagnostiquei, eu estava no auge da adolescência, aos dezessete. É claro, por um tempo eu tentei esconder da minha família e dos meus amigos. Mas com o passar do tempo, muitos foram descobrindo, o que acabou aumentando meu estresse assim como os comentários ridículos. O desempenho no colégio só caía, e eu já não sabia lidar com a pressão.
Por sorte minha — pois acredito que muito dos ansiosos pelo mundo não tem a mesma chance — eu tinha uma melhor amiga. Luísa. Com apenas seus um metro e sessenta e três, era uma das únicas pessoas que conseguiam me fazer esquecer dos problemas. Seus olhos puxados devido à sua descendência ficavam ainda mais encantadores quando ela se irritava.
Em um dos monótonos dias letivos, tivemos uma conversa sobre os sentimentos, distúrbios e transtornos que estavam tão presentes na realidade dos jovens, principalmente da nossa faixa etária. Eu sabia que ela já desconfiava. Tentei me segurar, mas não deu — eu tinha que me abrir para alguém, e que esse alguém fosse a pessoa em que eu mais confiasse. Ela me ouviu e me suportou, e durante toda essa jornada eu posso dizer que foi ela quem me manteve vivo. Aconselhou-me, foi como uma mãe. Incentivou-me a procurar ajuda médica, e até foi comigo no psicólogo nas quatro primeiras sessões.
Na sétima sessão, porém, recebi uma notícia que me fez perder o ar. Literalmente. O tratamento com o psicólogo já não era suficiente — apresentava indícios de depressão, então teria que buscar um médico psiquiatra. Foi difícil para mim, que no começo rejeitei a ideia. Não me confortava e não aceitava o fato de ser tratado como um doente.
Mas Luísa me fez enxergar que era preciso. Era preciso pois os pensamentos suicidas estavam cada vez mais frequentes. Era preciso pois a falta de ar me trazia muito desconforto. Era preciso pois ela me implorou.
E ainda bem que implorou — logo após a primeira consulta, já recebi alguns medicamentos que prometiam reduzir a frequência das crises. “Pílulas de felicidade”. Enquanto eu estava com quem me fazia feliz, estava tudo certo. Era o homem mais feliz do mundo.
A vida de um ansioso — infelizmente — é uma montanha russa. Quando você chega ao topo, tem que descer. E quanto mais alto você está, maior é a queda.
Minha família, ignorante como é, não aceitava nenhum diagnóstico médico, muito menos que a ansiedade é uma doença e precisa receber uma maior atenção. Eles me diziam coisas como “vê se para de drama, Marcos.”; “isso só está na sua cabeça.”; “você já tentou não ser ansioso?”; “É só respirar fundo, tanta gente com tanto problema de verdade e você chorando por não saber esperar”.
Quem é ansioso se identifica, eu sei disso. E também sabe como destrói ouvir isso. Nas primeiras semanas, o medicamento funcionou. Mas quando percebi que a amostra grátis estava quase acabando, comecei a entrar em desespero. Fui à farmácia procurar pelo remédio, e lá estava a segunda péssima notícia: cento e trinta e três reais a caixa com trinta cápsulas.
Como eu ia pagar? Desempregado, vestibulando, sem apoio da família. Novamente a sorte bateu à minha porta: Ângelo, meu trevo de quatro folhas. Um amigo virtual que tinha conhecido jogando online. Mantínhamos contato todos os dias, mesmo ele morando a duzentos e dez quilômetros de distância.
Ele me contou que a família dele tinha uma rede de farmácias na nossa região, e que o pai daria ordens para fornecer um grande desconto para ele pelo medicamento. Com isso, ele custava apenas cinquenta e três reais e vinte centavos. Sessenta por cento de desconto.
Daí eu consegui um emprego como empacotador de um supermercado. O trabalho tinha que ser algo simples, pois eu não tinha currículo, e também de meio-período, pois eu estava terminando o colégio e tinha que estudar pros vestibulares. Mesmo com um salário baixo, eu consegui comprar meus medicamentos todo mês até conseguir um outro emprego que me sustentasse por inteiro.
Ah, a época de vestibulares. Eu queria muito ser um arquiteto, uma vez que desenhar e projetar casas me fazia esquecer um pouco dos meus problemas psiquiátricos. Eu não estudei muito, confesso. Mas acredito que a falta de conhecimento não foi o real motivo para a minha falha em toda prova que fiz — e sim a ansiedade.
Durante as provas, eu mal conseguia respirar. Aqueles quinze minutos anteriores ao início da prova definitivamente foram os piores. Eu roía as unhas, chacoalhava a perna, olhava de um lado para outro. Puxava fundo o ar. Nada ajudava. E os pensamentos corriam. Previa tragédia, sempre o pior que poderia acontecer. E nada é pior que antecipar desgraças. Enfim: não passei nos testes, mesmo medicado.
Luísa tentou me animar, ficou em minha casa, me disse palavras maravilhosas, mas nada fazia efeito. Eu estava em profunda tristeza por ter que morar mais um ano com a família, a qual me humilhava, simplesmente por serem egoístas e não reconhecerem um ser humano doente. Por muito tempo, não saí de casa. Me isolei completamente e as únicas pessoas que via eram meus pais — por pura obrigação — e ela, que às vezes ia em minha casa.
O sentimento de solidão e incapacidade me corroeram por inteiro. Me senti um lixo. Pensei em tomar uma grande decisão — acabar com isso, desistir de tudo, descansar. O esforço para sobreviver e tentar parecer normal perante a sociedade me esgotavam. Decidi, então, por encerrar isso.
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