Só Que Não
10 Passeio
Notas iniciais
– Nossa, que coisa. Coitada de sua amiga. Eu não tenho nenhuma amiga, nem colega de quarto... nada disso.
Nossa. Eu tinha sorte de ter Larissa e Leandro.
Wait. Eu não tinha Leandro.
Afastei esses pensamentos e perguntei:
– Ué, por quê?
– Ah, eu cheguei aqui há um mês e meio. Eu não morava no Brasil, porque eu sou japonesa, sabe? Foi difícil me acostumar com a comida. Falar português eu já sabia. Então, eles meio que... me evitam, eu acho, por eu ser estranha. Nenhuma menina quis ficar no mesmo quarto que eu...
– Ah, bem que achei que você tinha cara de japonesa! – interrompi.
Ela riu.
– É, é bem fácil adivinhar da onde sou. Mas às vezes me confundem com chinesa. Meu pai era da China, mas minha mãe não. Eu também não.
– Hum. Minha mãe era brasileira e meu pai londrino. Eles se casaram e, tcharam, me tiveram. Seus pais morreram? – perguntei, porque notei que ela falou “era” quando se referiu aos seus pais.
– Sim. Os seus também?
– Como eu disse, apenas minha mãe. Por isso me mudei para Londres com meu pai.
Abaixamos nossas cabeças. Eu me levantei e ela também.
– Acho que acabei de ganhar uma nova amiga...? – disse ela.
Dei de ombros.
– Pode ser que sim. Você até que é legal. Quantos anos tem?
– 15 anos.
– Ah! – me surpreendi. – Eu também.
Kioko deu risada enquanto eu lavava o rosto. Toda a minha maquiagem saiu. Shit.
– Você estava usando maquiagem? – perguntou ela, assustada.
– Bem, agora é fácil adivinhar, não é? – resmunguei.
– Ah, mas era tão natural... e, na verdade, eu só adivinhei porque vi o sujo na toalha. Você não muda nada, com ou sem maquiagem.
– Isso quer dizer que eu sou feia mesmo maquiada? – perguntei.
Ela riu mais uma vez.
– Não! Isso quer dizer... você é tão bonita que dá inveja.
– Eu sei. – respondi.
– Nunca conheci alguém tão sincero. – disse ela.
Dei de ombros outra vez enquanto saía do banheiro. Ela me seguiu.
Os corredores estavam vazios, e só tinham uma ou duas pessoas matando aula.
– Aonde vamos? – perguntei.
Ela havia tomado liderança.
– Ao meu quarto.
– Ah.
O quarto dela não ficava muito longe da onde estávamos. Era uma porta como outra qualquer, de número 21. Quer dizer que estávamos no primeiro andar?
– Estamos no primeiro andar?
– Sim. – respondeu ela, abrindo a porta do seu quarto.
Tinha apenas uma cama, um guarda roupa... era tudo só dela! Nossa, que sorte. Sobrava muito espaço.
– Eu queria dormir só que nem você. – comentei.
Ela me puxou um espelho e mostrou meu reflexo.
Ainda bem que minha camisa era preta! Embora meu rosto estivesse limpo, minha calça estava suja atrás de terra e na frente estava molhada de água. Meu cabelo estava um ninho de ratos.
– Você tem um prendedor de cabelo aí?
Ela foi até o criado e me deu uma liga. Fiz uma trança e pedi mais uma pra ela, pra ficar bem firme.
– Obrigada.
Ela acenou com a cabeça.
Alisei minha roupa e olhei ao redor. Tinha uma foto dela criança, tão fofinha...
– You so cute... – falei, sem pensar, pegando o retrato nas mãos.
– O quê? – perguntou ela.
– Hã... nada. — dei graças a Deus por ela não entender inglês.
Ela deu de ombros.
– Bem. E aí, você gostou?
– Gostei. Acho que... não, deixa pra lá.
Cogitei me mudar para o quarto de Kioko. Eu não conseguiria olhar na cara de Larissa.
– Você sempre diz a mesma coisa! — resmungou ela.
– Eu sei. — falei.
Ela meio que riu.
Mas uma coisa me assustou: um papel surgiu do nada embaixo da porta, e parecia muito com aquele que a diretora me mandou, dizendo da semana de detenção com o matador. Kioko também percebeu e se levantou para pegar o papel, e depois o leu em voz alta:
– Srta. Kiksomoto, o Colégio Fox lhe convida para um passeio no dia 30/02, que será semana que vem. Caso aceite viajar, assine na linha abaixo e entregue na diretoria. Atenciosamente, direção. — ela me olhou. — Nossa, que inesperado, e... curto! Eu nunca fiz uma viagem! Vou assinar agora mesmo!
Ela pegou uma caneta que estava em cima da escrivaninha e assinou seu nome. Outro papel varou pela porta. Ela o pegou e o avaliou.
– Diz a mesma coisa, e é para você. Diz também que se pegar outra detenção, seu pai será chamado.
Peguei a caneta que estava em suas mãos e assinei mais que depressa.
– Leva o meu também? Não estou com ânimo para sair daqui. — pedi.
Kioko consentiu, saindo do quarto.
Me joguei em sua cama, pensando... Leandro era um idiota tão idiota! Shit! E Larissa, que não tinha culpa... por que fui gritar com ela? Claro, estava irritada e acabei descontando nela! Por que tudo que faço é errado?
QUE DROGA!
Acabei me levantando daquela cama, e decidi que pediria desculpas a Larissa. Abri a porta com cuidado e corri pra dentro do quarto, encontrando Larissa lá.
– Branca, o que houve com você? — gritou ela, me agarrando pelos ombros.
Me soltei dela.
– Desculpa gritar com você, mas... não posso falar. — eu estava com medo que ela agisse que nem Leandro.
Ela se sentou na cama e bufou.
– Okay, eu não vou insistir, tá? Mas acho melhor você se trocar, não... — ela respirou fundo. — Não pode mais perder nenhuma aula.
Consenti e fui para o banheiro.
– É MELHOR NÃO DEMORAR, OU VAI PERDER O ALMOÇO! — gritou Larissa.
Tomei meu banho o mais rápido possível e depois me vesti bem depressa, e corri para o refeitório. A maioria do colégio estava ali, menos Leandro. Óbvio que pouco me importei e fui me sentar com Larissa, que já tinha pego minha comida.
Aquela semana seria muito longa.
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