Notas iniciais
Oi, gente! Desculpa a demora!!! Sério, eu estava terminando uma coisa. Mas aproveitem.

Acordei hoje cedo e esperei Leandro bater na porta. Eu havia vestido uma camiseta preta que havia ganhado de um primo distante e nunca havia usado, porque aquilo estava fora de moda. Era de mangas, preta, um pouco larga, tinha a foto de um homem e estava escrito “God Of War”.

Só decidi usar essa porque as outras eram só de sair e tal. Calcei uma sapatilha e vesti uma calça jeans preta. Leandro bateu na porta e me olhou – descaradamente – de cima a baixo.

– Não sabia que você gostava de Deus da Guerra. – comentou ele.

Ele estava com uma camisa que em cima era cinza e na ponta era azul escuro, um short branco e azul e um tênis.

– Não gosto mesmo. – respondi.

Ele ergueu a sobrancelha direita, mas não falou nada.

Limpamos os quartos, como de costume, e de repente ele perguntou:

– Como é sua família?

Estranhei aquela pergunta.

– Por que quer saber?

Ele deu de ombros.

– Curiosidade.

– Hã... sou só eu e meu pai.

Ele se virou para me olhar.

– E sua mãe?

Me senti desconfortável. Eu não gostava de falar sobre isso.

– Morta. – respondi, amarga.

Ele se assustou.

– Nossa! – exclamou ele. – Nossa... meu Deus, Branca! Desculpa, eu não sabia...

– Ora, isso já faz muito tempo! – falei, aborrecida. – Nem era pra mim ter contado a você.

Ele se calou. Quando chegamos ao quarto da incrível namorada dele, ele não fez nada, nem acordou ela. Isso me surpreendeu bastante. E por culpa daquele desgraçado eu estava pensando na morte de minha mãe.

Limpamos tudo. Leandro parecia evitar me olhar, e isso meio que me deixou triste.

Quero dizer, só porque eu não tinha uma mãe que nem ele, ele ia me evitar agora?

Além de triste, fiquei aborrecida. Eu tinha razão, achando que esse garoto era idiota. Só que agora tenho certeza disto. Acabei remoendo isso, e com raiva quase acordei uma garota, porque meu espanador "acidentalmente" acertou a cama dela, fazendo um barulho. Leandro abriu a boca, mas depois a fechou e desviou rápido o olhar. Tive vontade de socá-lo até a morte. Chutei sua canela.

É, eu sou má e posso ser mais ainda.

Limpamos todos os quartos e quando estávamos no corredor que levava ao armário, para guardar os materiais de limpeza, Leandro disparou:

– Me desculpa.

Encarei-o com raiva, e nós paramos de andar.

– Como consegue ser idiota o tempo todo? – perguntei.

Ele sacudiu os ombros.

– Não sei. Eu sou assim do jeito que sou, e posso ser muito idiota às vezes.

Revirei os olhos e bufei. Eu estava prestes a gritar o quanto ele era babaca.

– Às vezes? Tem certeza que é às vezes?

Ele me olhou com indignação.

– É, eu nem sempre sou idiota! Sou muito inteligente, sabia? Minha última nota em física foi 10!

– Há, ha! – ri, irônica. – Pode ser bom em física, mas na vida real, é um idiota completo!

– Olha só, você é toda rica e tal, mas nem por isso é melhor que todo mundo! – disse ele, já todo nervoso.

– Quem me evitou só porque não tenho mãe foi... – comecei a gritar.

Ele me tampou minha boca com as mãos e me agarrou pela barriga, me prendendo contra ele.

– Me solta! – saiu abafado pelas mãos dele.

Mordi sua mão o mais forte que pude, e ele me soltou, examinando sua mão, sacudindo-a e gritando:

– Ai! Você é doida?

– Ninguém mandou você ficar colocando essas mãos com cheiro de produto de limpeza no meu rosto! – gritei de volta.

Ele parou de sacudir a mão e disse:

– Assim vamos acordar todo mundo!

Sério que estávamos discutindo que nem um casal?

Ele não sabe como é ruim ter perdido uma mãe tão criança como eu perdi, e ainda ter pessoas mais que idiotas me evitando por isso.

Minha mãe morreu em casa, praticamente na minha frente. Ela já estava tão doente...

“Mamãe estava cheia de agulhas enfiadas nos braços, e um aparelho que a ajudava a respirar.

– Mamãe! Mamãe! Olha só essa boneca nova! – falei, animada, pulando em sua maca.

Ela sorriu fracamente.

– Ah, querida. Ela é linda.

Falava tão baixinho que tive que me aproximar para escutar. Ela ergueu um braço magrinho para afagar meus longos cabelos louros e meu rostinho de criança. Sangue começou a escorrer de seu nariz. Fiquei em pânico.

– Mamãe! – gritei apavorada.

Ela tocou o nariz com a ponta dos dedos e viu que era sangue.

– Chame seu pai... – pediu.

Corri o mais rápido que pude até o escritório de papai, e abri a porta com um estrondo.

– Branca! – se assustou ele. – Eu já disse que...

– Papai, a mamãe! – interrompi. Ele pulou da cadeira. – O nariz dela! Está sangrando!

Ele passou por mim correndo e eu o segui.

Ao chegarmos no quarto/leito da mamãe, seu nariz ainda sangrava.

– Bárbara! – gritou papai, desesperado.

Eu estava chorando.

– Pegue aquele pano ali. – pediu mamãe.

Papai pegou o pano, atrapalhado, limpou o nariz de mamãe e me acalmou.

– Está tudo bem, querida. – disse ele, tremendo. Parei de chorar.

Mamãe tinha câncer de mama. Seu quadro só piorava a cada dia. Eu estava tentando aproveitar todos os meus momentos com ela. Seu cabelo louro arruivado estava tão ralo... quase careca, mas mamãe não queria raspá-lo.

Mas ela estava tão fraca...

Decidi que ia dormir com ela. Vai que acontecesse algo? Papai concordou, mas só quando a mamãe disse que queria que eu dormisse com ela.

Todas as noites eu chorava, triste e preocupada.

Papai pegou mais lençóis pra mim e pra mamãe e pegou meu pijama. Me vesti e me deitei. Mamãe fez um cafuné leve em minha cabeça, e dormimos abraçadas.

De manhã, me levantei e tentei acordar mamãe.

– Mãe, acorda! – chamei, animada.

Ela nem se mexeu. A sacudi um pouco e nada.

Olhei ao redor e meu olhar pairou sobre a máquina de batimentos cardíacos. A linha estava sem se mexer, e o barulho não era o mesmo.

O que aquilo queria dizer?

– Pai!! – gritei.

Papai veio mais que rápido e me olhou.

– Que foi?

– Aquela linha não se mexe mais, e a mamãe não acorda. – apontei pra máquina.

Antes que eu me desse conta, papai estava chorando, ajoelhado no chão.

– Pai? – perguntei.

Me aproximei, abraçando-o. Ele me abraçou forte.

– Filha... ela se foi.

Chorei, desesperada. Aquele havia sido o pior dia de toda a minha vida.”

E aquele idiota não entendia como eu sofri desde então!

Ele ainda me olhava, e eu, relembrando de tudo, acabei dando um tapa em sua cara muito forte. Eu podia ser assim, patricinha e tudo mais, mas era forte quando queria.

– Isso é por me evitar porque perdi minha mãe! Você não sabe o quão difícil foi! Você pensa que eu já superei? Ainda tenho pesadelos, seu idiota! Você sabe porque meu pai é tão frio comigo? Você sabe porque tento manter tudo ao meu controle? Você sabe porque eu aprontava tanto nos Estados Unidos que tive de voltar para o Brasil? Você sabe porque eu não queria voltar? Não, VOCÊ NÃO SABE! – gritei a plenos pulmões.

Eu estava chorando. Por que raios eu estava chorando? Eu sentia meu rosto pegar fogo de raiva. Ele ainda segurava o local onde eu tinha estapeado.

Fui embora correndo para meu quarto. Larissa estava sentada em sua cama, totalmente arrumada. Meu rosto estava banhado em lágrimas. Ela se levantou, parecendo aflita.

– Por que demorou? Onde estava? Por que... Branca, você está chorando? – perguntou ela, chegando perto de mim.

– ME DEIXA EM PAZ! – gritei.

Saí do quarto correndo outra vez. Eu estava transtornada. Corri para dentro de um box de um banheiro e me sentei ao lado da privada, chorando que nem uma criança.

Por que eu estava chorando tanto? Por que eu estava brigando com todos? Por que...

– Quem está aí? – perguntou uma voz feminina com um sotaque um tanto... diferente. Não parecia ser do Brasil, mas afinal, o que eu sabia sobre sotaques do Brasil?

Eu não respondi, ainda estava soluçando e fungando.

– Vamos, responda, quem está aí? – perguntou a voz, mais alto.

Continuei calada.

Uma garota abriu a porta do banheiro. Tinha cabelos lisos e negros, uma franjinha, os olhinhos puxados, pele pálida demais e a bochechinha fofa. Usava uma saia preta meio que cinza de malha, uma camisa de malha de mangas longas com o moletom da escola por cima, uma meia de malha e sapatos que cobriam todo seu pé. Parecia uma personagem fofinha saída daqueles desenhos japoneses. E sua roupa era praticamente toda de malha.

– Oi. Quem é você? – disse ela, numa voz doce e aveludada, embora não sorrisse.

Me sentei no vaso e a encarei, sem dizer nada.

– Meu nome é Kioko.

Ela estendeu a mão. Encarei sua mão, e não falei nada outra vez. Ela deixou a mão cair, a pequena face franzida.

– Bom, se não quer falar nada, tudo bem.

Ela se sentou a minha frente. Limpei meu rosto e falei, com a voz falhando:

– Oi, Kioko. Meu nome é Branca.

Sorri fracamente.

– Quer me dizer porque estava aqui, chorando? – perguntou ela, sorrindo bondosa e tímida.

Tinha dentes perfeitos.

– Um garoto estava me evitando, porque eu contei pra ele que minha mãe morreu. Eu fiquei morrendo de raiva, dei um tapa em sua cara e gritei algumas coisas. Ah, também gritei com minha amiga colega de quarto. Ela é minha única amiga aqui

Pensei que ela fosse sair do banheiro correndo após isso, mas ela continuou no seu lugar, me olhando diretamente nos olhos. Parecia surpresa.

– Nossa, que coisa. Coitada de sua amiga. Eu não tenho nenhuma amiga, nem colega de quarto... nada disso.

Notas finais
Gente, eu amei criar a personagem Kioko! Mas... bem, ela não tem amigas. Pois é, isso aí. Mas foi longo!! Mas, de qualquer forma... Agradeceria por comentários.