Síndrome de Estocolmo
2 Capítulo 2
Jonathan colocou Julian sobre o cavalo e cavalgou com seus homens para a aldeia mais próxima. O príncipe teve tempo para se martirizar pelo que aconteceu enquanto esperava do lado de fora da tenda onde os curandeiros trabalhavam no ferimento de seu primo, que abafava os gritos de dor em algum pano.
Como uma garota poderia ter destroçado o seu círculo de guardas com tanta facilidade? Ele nunca vira ninguém se mover tão rápido ou com tamanha pontaria montada num cavalo em alta velocidade. O ódio percorria suas veias. Tudo o que vinha do Sul era destruidor. Ele devia ter derrubado a garota logo que teve oportunidade, sua prudência quase custou a vida de Julian. Felizmente os curandeiros se moveram rapidamente para ajudar o príncipe.
— Ele vai ficar bem, removemos a adaga e queimamos a ferida, ele só precisa descansar. – Ralf, o responsável pela enfermaria, disse a Jonathan com seu tom prestativo. Parecia feliz em ajudar, como todas as pessoas das aldeias geralmente ficavam – fizeram bem em não remover a lâmina, ele teria morrido se tivessem feito isso. – Jonathan sabia pela expressão da garota que ela também sabia.
— Duas de nossas moças se disponibilizaram para acompanha-los na viagem até ao castelo e assim garantir que qualquer reação inesperada seja controlada atempadamente.
— Muito obrigada por tudo – Jonathan retirou um saco de moedas do bolso. O homem deu um passo atrás assim que ouviu o tilintar das moedas.
— Não precisa nos pagar por isso Majestade, ficamos feliz em ter ajudado.
— Eu sei que ficam, mas dinheiro é importante para manter o bom funcionamento – o homem pareceu um pouco mais recetivo – poderão ajudar outros – o príncipe insistiu estendendo o saco para o homem, que por fim o segurou e agradeceu se curvando ligeiramente.
Depois de acomodar o amigo e as duas curandeiras numa carruagem emprestada por um dos moradores da aldeia, o príncipe subiu em seu próprio cavalo. Observou o corpo da garota ainda desacordada sendo amparada por um de seus companheiros em cima de outro cavalo. Eles amarraram suas mãos com uma corda, dando mais nós do que normalmente dariam.
— Parece um anjo – ele viu Carter observar o rosto da garota e fez o mesmo. De facto, parecia um anjo. O príncipe sabia que os olhos por trás das pálpebras fechadas eram claros. Seus cabelos, num tom de loiro escuro, desciam como uma cascata até ao meio das costas, continuavam longos mesmo depois de terem sido cortados por ela numa reação de menos de 1/4 de segundo. Jonathan se sentia inconformado com a forma como a garota não hesitava e parecia já saber exatamente o que fazer.
— Um anjo do mal – Kevin disse com uma careta, passando uma das mãos sobre a atadura no ombro ferido.
Jonathan olhou o restante do grupo, ombros e pernas enfaixados, tantos estragos causados por uma única decisão estúpida, e a pergunta que todos eles fizeram quando reviraram as bolsas presas no cavalo ferido: joias. Ouro que pareciam pertencer a realeza. Quem era aquela garota?
❋❋
Alexa abriu os olhos, mas não conseguia ver nada, não conseguia sequer respirar direito. Toda sua consciência recém retomada estava concentrada na pressão sobre a perna e na dor aguda que subia em ondas para o resto do corpo. Será que a flecha ainda estava ali? Porque a pressão atravessava toda a coxa dando a volta? Parecia uma faixa. Possivelmente eles removeram a flecha e enfaixaram a perna. Um alívio passou por ela ao imaginar a dor que teria sido para remover se tivesse acordada.
Ela tentou permanecer o mais imóvel possível para não perceberem que tinha acordado. Sua mente trouxe as memórias dos últimos acontecimentos e o pano que cobria seu rosto começou a grudar nos lábios conforme a respiração ficava cada vez mais pesada. Era difícil respirar, parecia que estava se afogando, sentia a água percorrer a garganta e chegando aos pulmões. Não tem água, está tudo bem. Ela engasgou, o ar parecia não atravessar mais o pano fino.
A garota sentiu quando o cavalo parou e sem aviso prévio ela foi puxada. Com o susto deixou um pequeno grunhido de medo escapar por seus lábios, alertando os guardas que de imediato desembainharam as espadas. Alexa teria rido se não estivesse concentrada no medo. Seus pés foram apoiados no chão e ela se segurou para não gritar de dor. Dois dos guardas arrastaram a garota pelos braços, um de cada lado. Ela não lutou, apenas deixou que a levassem, e pelo som dos passos mais guardas seguiam atrás deles.
Eles andaram por algum tempo, mais tempo do que aquilo que ela considerava suportável. Mesmo sentindo que o garoto do lado da perna ferida a apoiava com firmeza, evitando que ela forçasse muito, a dor ainda era aguda e irradiava pelo resto do corpo. O pano sobre seu rosto foi puxado e ela fechou os olhos com força com receio da luz antes de os abrir novamente com cuidado, mas estava escuro, mesmo com as tochas presas na parede.
Alexa se inclinou puxando todo o ar que conseguiu e observou atentamente o local e os guardas armados até os dentes a sua volta. Eles a encaravam com curiosidade. Parece uma masmorra.
Um dos guardas estava parado na frente dela com um copo na mão, seu rosto com uma expressão séria, ela tentou lutar contra os braços fortes que a mantiveram parada quando o homem aproximou o copo do seu rosto. Ele recuou a mão observando a garota.
— É para a dor – acenou para a perna. Estava certa, eles retiraram a flecha e enfaixaram. Alexa encarou os olhos castanhos e intensos do guarda quando o copo voltou em direção a ela.
— O que é? – perguntou ainda agitada. Vendo que ele não ia responder, ela se aproximou do copo. Não matariam com veneno, especialmente sem um interrogatório.
O guarda a ajudou virando o líquido. Era azedo. Alexa engoliu rapidamente balançando a cabeça para afastar o arrepio. O moreno deixou um meio sorriso escapar antes de acenar para os guardas que a seguravam. Eles seguiram arrastando a garota pela masmorra fria e húmida, ela estremeceu ao ver a cela ser aberta. Esperou que eles a atirassem para dentro, mas eles pararam em frente.
❋❋
— Onde está Freya? – Alexa se inclinou para ver a quem pertencia aquela voz.
— Descendo – o garoto com o copo vazio na mão respondeu ao príncipe que encarava as escadas, alheio ao olhar preocupado de Alexa.
Poucos segundos depois passos vieram do fundo do corredor. Uma garota desceu as escadas se aproximando do grupo, ela parou em frente ao príncipe fazendo uma pequena reverência antes de virar para encarar a loira com curiosidade. Alexa então pode avaliar seu rosto, ela era bonita, seus cabelos eram cacheados e escuros assim como sua pele. Não era preciso muito para adivinhar porque a chamaram. Alexa não conseguiu evitar uma risada, de facto eles se importavam muito com a honra naquele reino.
— Freya vai revistar você – ele disse. O sotaque do Norte era bonito. Jonathan indicou para que a morena prosseguisse com um aceno de cabeça.
Alexa deixou que Freya a revistasse. Poderia chutar e desacordar a garota com muita facilidade, mesmo com a perna ferida, mas ela sabia que eles não a deixariam ali sem ter certeza se estava armada. Respeito era algo que ela nunca tinha visto na vida, se fosse preciso espancar e violar uma mulher ela não duvidava que seu rei o faria com as próprias mãos. E ali estava ela, com seus inimigos, sendo revistada por uma mulher enquanto os guardas evitavam olhar seu corpo, mesmo curiosos para saber se mais lâminas seriam encontradas.
Freya retirou os grampos do cabelo da loira, grampos finos, compridos e afiados. Alexa a encarou com sua melhor expressão de desdém e a garota sorriu antes de entregar os grampos ao príncipe.
— Ela não tem mais nada.
— Claro que não, ela jogou tudo o que tinha nos meus homens – Jonathan disse e Alexa sorriu de forma debochada, o que pareceu aliviar, por um momento, a raiva evidente no rosto do príncipe. Ele se aproximou fazendo seu sorriso morrer instantaneamente.
Apenas naquele momento Alexa pode reparar no rosto dele, as luzes das chamas o tornavam fatalmente peculiar, um rosto difícil de retirar os olhos, bonito, mas ao mesmo tempo assustador. Seus olhos de um verde intenso pareciam invadir a mente da garota e desvendar seus medos. Alexa manteve o queixo erguido, não desviou de seus olhos cruéis, mesmo quando estavam a poucos centímetros dos dela. Frio, inexpressivo e impenetrável ele a observou por alguns segundos antes de segurar o queixo da garota entre os dedos. Com a iluminação das tochas o brasão de Hanks brilhou no peito do príncipe. E quando Alexa passou a observar os detalhes do brasão de seu inimigo, sua fuga pareceu ter sido a pior ideia que já teve na vida.
— Quem é você? – O tom era frio e autoritário. A loira tentou puxar o rosto, mas ele não permitiu.
— Tire as mãos de mim – Ela disse entre os dentes e para sua surpresa ele obedeceu. Alexa deixou escapar um grunhido de raiva quando cambaleou para trás se afastando ligeiramente dele.
Jonathan acenou para um dos guardas que retirou uma faca curta da bainha e foi na direção da garota. Alexa sentiu seu corpo congelar ao ver o brilho do metal, por mais que tenha se esforçado para não alterar suas expressões ela sabia que seus olhos só demonstravam o terror que passou por ela. Seu olhar inevitavelmente alcançou os olhos do príncipe e retornou para o guarda, para a faca.
— Não vou te machucar – o guarda disse e indicou a corda nas mãos dela, seu corpo instantaneamente relaxou. Cuidadosamente ele cortou e soltou os pulsos da garota. Ela olhou mais uma vez para o príncipe.
— Entra. – O mesmo guarda disse indicando a cela. Não foi agressivo, mas a autoridade na voz a fez tremer.
Alexa se obrigou a observar a cela buscando calma na escuridão, o chão e as paredes eram de pedra, água escorria por um dos cantos seguindo o caminho dos relevos e rachaduras. Encostada numa das paredes havia algo parecido com uma cama, com uma coberta fina posta de qualquer jeito e uma pequena almofada. Na parede a direita havia um cómodo minúsculo sem porta que parecia ser um banheiro. Ela enrolou os braços sobre o próprio corpo antes de caminhar para dentro do espaço, seu corpo tremia, e ela não sabia se as reações vinham da temperatura do lugar ou do terror que começou a se arrastar dentro dela novamente. Esfregou as mãos nos antebraços tentando de alguma forma se aquecer, mas só serviu para reavivar o ardor dos arranhões que ganhou enquanto tentava escapar pela floresta. Quão provável seria morrer congelada ali dentro.
O guarda puxou o ferro e trancou a porta.
Jonathan se aproximou e colocou uma de suas mãos na grade. Imediatamente ela deu um passo para trás, seu coração se apertou, já fazia algum tempo que não se sentia tão assustava.
— Torce para que ele não morra – os olhos do príncipe estavam sobre ela, seu rosto com uma expressão séria. Alexa não entendia porque sua mente e corpo reagiam de forma tão pesarosa quando já estava tão habituada a brutalidade, mas ali, em terra inimiga, o medo parecia mais aguçado, quase sufocante.
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