Quando todos se retiraram deixando nas masmorras apenas o som da chama ardendo na lamparina, Alexa sentou na superfície que seria sua cama, seu corpo não parava de tremer, sentia o calor ser sugado de si por aquela atmosfera congelante. Se os ratos não a devorassem antes, morreria de frio. Seus olhos voltaram para o lugar onde o grupo de guardas desapareceu quando ouviu o som dos passos. Ou então morreria pelas mãos dele, ela considerou quando a silhueta do príncipe se tornou visível.

Com um movimento rápido Jonathan soltou o laço que prendia sua capa, a arrancou de cima dos ombros e passou o pano entre as grades da cela, a atirando para perto da garota. Alexa abriu a boca para dizer algo, mas antes que sua cabeça pudesse processar ela já estava sozinha novamente nas masmorras. Ela foi até a capa grossa no chão, a sacudiu de forma a retirar o pó e prontamente se enrolou nela, buscando manter o calor de seu corpo. O pano era grosso e confortável, e cheirava a alguma colônia cara que o príncipe usava. Ratos, portanto. Ela olhou em volta procurando por qualquer movimento.

❋❋

— Quem é você? – a voz do rei se propagou pela sala. Ela ficou quieta, sussurros se espalhavam por alguns homens nas laterais do grande salão, não estava muito cheio, no máximo umas vinte pessoas, incluindo o príncipe Jonathan, Carter, o garoto do copo de remédio, e Kevin, o que estava com o ombro ferido.

Durante as horas que esteve nas masmorras, Alexa repassou a história que contaria mais de cinquenta vezes em sua cabeça, mas agora, diante do rei de Hanks, ela não parecia convincente. Seu coração falhou uma batida quando um dos guardas com um movimento brusco atirou vários objetos no chão, ela identificou o saco nas mãos dele antes que as pulseiras e anéis de ouro ricocheteassem pelo chão do salão. Todas as esperanças de que Storm tivesse voltado para casa se dissolveram, e a dor a fez engolir em seco. Ela queria perguntar sobre o cavalo, queria saber se estava bem, mas sabia que pareceria uma tola.

O rei se levantou do trono e desceu os degraus se aproximando da loira, os corpos dos guardas ao seu lado enrijeceram. Alexa tinha as mãos amarradas na frente do corpo, mas mesmo assim, eles apertaram as mãos sobre os braços da garota a medida que o rei caminhava.

— Suponho que isto pertença a alguém da realeza – Anthony, rei de Hanks, proferiu com sua voz calma, avaliando um anel no chão entre eles. O rei era baixo e gordinho, com um olhar amigável. Alexa sabia pelas histórias que se espalhavam pelos reinos que ele era um rei justo e firme em suas decisões, e que faria tudo por seu povo. E está última parte era o que preocupava a garota.

O rei se abaixou e pegou o anel, o gesto não pareceu incomodar mais ninguém na sala além de Alexa, que se esforçou para tentar esconder a surpresa. Ele não era nada como seu tio, os olhos faziam lembrar os de seu irmão, ou de Clarice: calmos, acolhedores. Não astutos e manipuladores como os do tio. Por um segundo ela se permitiu imaginar como seria sua vida se tivesse nascido neste reino. Seu tio jamais se baixaria para pegar o que quer que fosse na frente de ninguém, jamais, sob qualquer circunstância.

Anthony segurou o anel entre os dedos, apreciando a libélula cravada no ouro que o adornava.

— O que a princesa de Viryan estava fazendo em nossa floresta? – Alexa não respondeu – Você verificou se são joias originais? – A pergunta do rei não foi para Alexa, ele encarou um dos homens que prontamente deu um passo a frente. O rei virou o anel para ele, um arrepio percorreu a espinha da garota.

— Sim Majestade, pertence aos Miller – ela encarou o senhor sem de facto o ver, sua mente estava focada no esforço que era necessário para não reagir ao nome. Sentia os olhares queimando sobre seu rosto.

— Preciso que me diga o que estava fazendo em nossas terras – a voz do rei era suave e acolhedora – eu compreendo que seja muito complicada a posição que você está agora, mas eu quero te ajudar e para conseguir te ajudar eu preciso saber porque se arriscar em terras inimigas – o rei se aproximou mais dela e o aperto sobre os braços se tornou ainda mais fortes. – Porque estava fugindo? – ele insistiu.

— A princesa quis se aventurar, eu sou só uma dama de companhia, não questiono. Vocês perderam a pessoa que poderia responder a essas perguntas.

— Estavam indo para Grouse – Ela olhou para o príncipe, o tom de voz impaciente a incomodava e ela fez questão de demonstrar com seu olhar, mas o rosto de Jonathan permaneceu completamente inexpressivo quando ele levantou uma carta. A carta que ela enviaria para Grouse avisando de sua chegada. Jonathan seria um problema, se não fosse hoje, seria amanhã.

Quantas vezes Alexa se queixava da sorte, porém, maioritariamente seus problemas eram consequências de suas ideias mirabolantes.

— Como eu disse, vocês perderam a pessoa que poderia dar respostas.

— Você é uma péssima mentirosa – os dois príncipes mantiveram seus olhares fixos um no outro. Um desafio silencioso.

— O que vocês fizeram com o cavalo? – ela disse tão baixo que sabia que apenas o príncipe, o rei e os dois guardas que a seguravam pelo braço ouviram. O olhar de Jonathan pareceu confuso e ele não teve tempo de responder antes que uma voz os interrompesse.

— Majestade – Alexa não reconheceu o homem que falou, mas temeu pelo o que quer que fosse sair da boca dele que valia uma interrupção a realeza.

— Sim – o rei o mandou prosseguir.

— Pelas aldeias corriam histórias de que a família Miller era marcada com cristal e fogo sob a pele – Ela se arrependeu de não ter desviado os olhos dos do príncipe porque tinha certeza que ele viu o pânico pesar em seu olhar.

— Eu sei – o rei voltou a encarar a garota com um toque de curiosidade.

— Era ela protegendo a outra garota e não o contrário, faria sentido essa inversão? – Carter comentou para Jonathan, porém alto o suficiente para que todos ouvissem.

—Se a intenção fosse ter proteção teriam passado pela floresta com guardas – Jonathan respondeu, também a observando com curiosidade.

— Esta descartando as minhas capacidades? – as sobrancelhas da garota se ergueram – a princesa está em Viryan agora, não está? Mesmo contra todos os seus esforços – o tom foi áspero e atingiu exatamente onde ela queria atingir: seu ego. O mesmo ego que o fez se aproximar dela com ódio brilhando nos olhos.

— Mas você está aqui, não está? – ele parou em frente a garota – presa numa masmorra, sem suas adagas e a mercê de qualquer decisão nossa para definir o seu destino – a garota sorriu vitoriosa o deixando ainda mais irritado – deveria ser um pouquinho mais inteligente.

— Como era a outra garota? – o rei perguntou para os três garotos, com um sorriso no rosto que o fazia parecer satisfeito com as faíscas trocadas entre os dois mais jovens. Alexa queria ter conseguido devolver o sorriso, mas ela sabia exatamente o que aquela pergunta significava.

— Ruiva – Kevin respondeu.

O rei olhou para a garota a avaliando, em seguida para o príncipe.

— Ela é mentirosa – Jonathan se meteu – Tanto um sim, como um não, serão duvidosos. A melhor opção é verificarmos a marca e colocar fim neste drama – o corpo da garota gelou.

— Saiam – o rei indicou a porta para as pessoas no salão, selecionando alguns para ficar.

Aos poucos os homens abandonaram o salão. Ela nem teve tempo de os odiar, subitamente o ar se tornou pesado e difícil de respirar. Só havia uma forma de ter certeza de quem ela era, encontrar a marca ou não encontrar eram respostas.

Mesmo que falasse agora não valeria de nada, não teria como evitar a humilhação que se seguiria. Mesmo que se debatesse e chorasse, suas roupas seriam arrancadas de qualquer forma, então toda a sua força foi posta na expressão fria que sustentou no momento em que o rei deu indicação ao seu príncipe para que continuasse, enquanto voltava a se sentar no trono.

— Soltem as mãos dela – de imediato as cordas nas mãos foram cortadas, ela esfregou os pulsos involuntariamente. Jonathan deu um passo em direção a ela e imediatamente a garota pareceu agitada, seus olhos perdidos lutavam contra as lágrimas, sua cabeça tentava inutilmente esconder o medo avassalador, que a fazia querer desaparecer e não sentir mais nada. Como se a compreendesse, ele recuou – eu não vou tocar em você – garantiu. Sua voz era calma e por mais que o odiasse, aquilo pareceu ajudar a fazer com que o ar chegasse aos seus pulmões novamente. – Basta você mostrar a marca e paramos com isso imediatamente. – Ele esperou que ela dissesse que não tinha a marca, mas a garota não disse nada.

Lentamente os dedos finos e brancos desataram o fio que apertava a parte de cima da blusa, Alexa tentou manter o tecido fixo de modo a não mostrar nem uma pequena parte indesejada do corpo. Ao invés de retirar por completo a blusa ela puxou a gola expondo o ombro direito, o tecido estalou algumas vezes por não ser elástico o suficiente. Ela se virou de costas para os homens e puxou os longos fios loiros para o outro lado. Pelo som, o rei se levantou do trono novamente. Os passos mais próximos indicavam que o príncipe também se aproximava cautelosamente.

O corpo dela enrijeceu ao sentir os dedos frios contra a pele do ombro nu, dançando contra o relevo na cicatriz. Era uma libélula centrada em um triângulo com a ponta virada para baixo.

– O que significa? – o príncipe perguntou observando o desenho. Alexa se manteve em silêncio.

— Equilíbrio, liberdade, transformação – respondeu o rei e Alexa o olhou de soslaio – o triângulo é o símbolo alquímico da água, as terras de Viryan são cortadas por muitos riachos, existem libélulas de várias espécies sobrevoando o Sul, e por muito tempo Viryan foi chamada de reino das águas. – Alexa puxou a manga para cima novamente e refez o laço, virando para encarar o rei.

— Como sabe sobre isso? – perguntou curiosa.

— O Sul nem sempre foi tão hostil – o rei sorriu.

Depois de um gesto do príncipe os guardas levaram Alexa para um comodo ao lado do salão, empurrando gentilmente o corpo da jovem para uma das poltronas confortáveis. Era uma sala pequena com uma mesa muito baixa no centro e várias poltronas em volta. Parecia uma sala de convívio. Os guardas a deixaram sozinha, mas a porta permaneceu aberta.

Se fechasse os olhos ela ainda podia sentir a dor. Lembrava tão bem dela, do cheiro de carne queimada, do quanto seu irmão Isaac chorou na noite antes da cerimônia, de abraça-lo tão forte que seus braços doeram. Ela prometer a ele que contariam juntos até dez e tudo terminaria. A pequena Alexa pediu para ir primeiro quando percebeu que não seriam marcados ao mesmo tempo, e ela não gritou, segurou o grunhido de dor e as lágrimas até não aguentar mais. Mesmo quando elas desceram por seu rosto, Alexa sorriu para o irmão ainda assustado, sussurrando quando passou por ele "dez segundos".

Isaac gritou e chorou, mas só depois que o diamante o tocou, antes disso ele estava calmo. Por ela. Na dor ele perguntou porque fazer aquilo com eles. Perguntou várias vezes, tantas que a frase ficou ali pairando, para sempre. E todas as vezes que eles eram sujeitados as loucuras do tio, ela o via daquele tamanho outra vez, com o rosto todo encharcado de lágrimas, perguntando o porquê.

Lembrar de Isaac a fez pensar na razão de estar ali, se teria conseguido protege–lo das consequências daquela fuga, e se poderia de alguma forma o fazer escapar também.

Foi quase uma eternidade sentada ali sozinha, cada segundo de silêncio a deixava mais ansiosa, refletindo sobre o que eles fariam agora que sabiam exatamente quem ela era e o quanto valia. Alexa se sobressaltou quando os guardas entraram apressados, e no segundo seguinte estava sendo arrastada pelos corredores. Vozes vinham do salão para onde eles se direcionavam e foram silenciadas assim que os dois guardas passaram com Alexa se debatendo para soltar os braços das mãos dos guardas. Eles a seguraram com firmeza diante do príncipe, Alexa ergueu os olhos para o príncipe com raiva. Jonathan permaneceu sentado na poltrona onde estava, ao lado de Kevin, Carter e Julian que também encaravam a garota.