Síndrome de Alice

3 #03: Significado


Notas iniciais
O passado de Neko é contado, enquanto isso... Rule tenta pensar em como será sua habilidade no País das Maravilhas.

#03: Significado.

Meu nome é Neko Kireekoh.

Tenho 18 anos e ultimamente acabei me tornando em um recluso.

Eu acabei repetindo duas vezes na escola e por isso ainda estou no 1° ano, levando em conta que já deveria estar fazendo a faculdade com essa idade.

Mas... Tudo isso... Eu apenas queria entender...

Qual o significado?

Qual o significado de dar duro e mostrar o melhor de si em um mundo onde simplesmente a sorte pode lhe dar prazer e vitória?

Várias pessoas que dão tudo que tem nem sempre conseguem o que querem e acabam sendo levadas ao fundo do poço juntamente com as outras fracassadas.

Eu não vejo o porquê de ter que fazer isso, por isso não tenho mais vontade, pois se vou perder de qualquer jeito, prefiro que aconteça agora a mais para frente.

Porém... Não foi sempre assim que eu via o mundo, antes até poderia dizer que existia algum tipo de esperança.

Contudo ele se foi juntamente com ela... A única pessoa que conseguiu me fazer sentir um calor que jamais havia sentido antes:

Nerada Tanlara.

Apenas isso poderia facilmente descrever o meu passado... Mas acho melhor contar de um jeito que possam me entender.

~ Flash Back On ~

Isso aconteceu dois anos atrás na escola de Erugênia da cidade de Marinaly, o local onde eu moro.

Foi no momento em que cheguei no 1° ano, nas séries mais abaixo eu nunca tive muitos amigos, porém ainda conseguia conversar com alguns...

Contudo dessa vez muita coisa havia mudado. As pessoas pareciam que só pensavam em namorar e fazer coisas estranhas entre meninos e meninas, no entanto essa parte do namoro era até aceitável porque já tínhamos 16 ou 15 anos...

Mas essas coisas estranhas eu jamais aceitei.

A mudança do ar do local pode ter me deixado com nojo um pouco, porém não importei.

Passei os dias normalmente fazendo as atividades e as provas que os professores passavam para nós diariamente.

Vez ou outra eu ficava com preguiça de completa-las, contudo sabia que se não as fizesse não conseguiria garantir meu futuro mais para frente.

O estranho foi no meio do ano...

Uma garota acabou se transferindo para nossa escola, o nome dela era Nerada Tanlara.

A mesma tinha cabelos pretos caídos que chegavam até seu pescoço, sua franja ia até seu nariz e a mesma além de vestir nosso uniforme carregava consigo um casaco cinza escuro com seu nome escrito em branco no meio dele.

Ela não tinha nada de especial, a beleza era comum e o corpo também, seus olhos tinham uma coloração parecida com turquesa, mas um pouco mais clara.

A novata tinha amigas e alguns amigos. Parecia uma jovem normal como toda outra e por isso decidi deixar de lado.

Não podia negar que á achava um pouco bonita, porém não era hora para isso, precisava me concentrar nos estudos e em meu futuro, nada mais importava.

Contudo um dia em um dos intervalos da aula, a garota se dirigiu até mim e sentou-se na minha mesa, me observando e logo em seguida sorrindo.

– O que está fazendo? – Ela perguntou sorridente.

Meus olhos esbugalharam-se um pouco, por que diabos ela estava falando comigo? Todos ali me ignoravam e só vinham até mim quando precisam de trabalho em duplas ou coisas para ganhar nota.

Mas até onde eu sei, naquela semana não teria nada disso, o que ainda me deixou mais receoso, provavelmente seria algum tipo de brincadeira ou pegadinha que planejavam fazer comigo.

Então simplesmente a ignorei e voltei a anotar algumas coisas no meu caderno.

– Está muito ocupado? – Ela insistiu.

Deixei de lado novamente e continuei a mover meu lápis sobre a folha, à aluna suspirou e saiu de lá.

Senti-me um pouco mal pelo que fiz, mas a culpa era dela de tentar fazer algo de tão maligna comigo só porque não sou bom em me socializar.

... Contudo eu estava errado.

Ela voltou e me bateu com a mochila dela, me fazendo chocar minha cabeça com o caderno, virei meu olhar para a jovem, assustado.

Todos que estavam na sala naquele momento também ficaram chocados com a atitude de Nerada.

– Não me ignore! – Ela pediu nervosa. – É feio ignorar os outros... Além de que se continuar fazendo isso, vai ficar sozinho para sempre! E isso... E isso é muito ruim!

Pequenas lágrimas caiam dos olhos dela, por que ela chorava por mim? Não era nem algo que tinha algum tipo de ligação com a mesma, porém Nerada ainda assim se importava tanto...

Daquele momento em diante, meus pensamentos que já estavam completamente fixados em apenas uma única coisa se embaralharam.

Todos os ideais e as coisas que aprendi ao longo dessa minha vida escolar inteira estavam em um surto de confusão pela atitude desastrada e estranha que a minha nova colega havia feito.

Depois desse dia, Nerada sempre que podia nos intervalos vinha até mim e iniciava uma conversa, não importava o assunto, ela parecia apenas querer falar comigo.

Aos poucos fui parando de acreditar na possível pegadinha que poderia existir por trás disso e comecei a respondê-la, aumentando bastante o curso que a conversa tomava.

Nunca havia me sentido desse jeito, considerando que as únicas pessoas com quem eu havia me socializado antes eram homens, conversar com uma garota era bem difícil.

Porém não tanto quanto eu esperava, Nerada tinha vários gostos novos que eu jamais tinha visto e nós dois decidimos ver as coisas que o outro falava.

As músicas eletrônicas que ela gostava pareciam estranhas de começo, contudo depois acabei me acostumando e gostei um pouco delas.

Nerada já gostava de quadrinhos, mas fui eu quem á introduziu ao mundo dos filmes, a jovem reclamou um pouco da diferença entre um e outro, porém ainda gostou daquilo.

Minhas notas acabaram por cair um pouco, eu acho que estava bastante vidrado nas conversas que tinha com Nerada ao longo dos dias, contudo foi bem fácil para que eu as recuperasse no final do ano.

Finalmente os dias das provas finais estavam chegando á escola, os professores avisaram que poderíamos vir com a roupa que quiséssemos nesse dia, afinal queriam que a gente aproveitasse.

Eu vim com minha camisa vermelha com mangas que chegavam até a palma da minha mão, também estava usando uma calça jeans.

Já a minha colega não mudou muito, venho apenas com seu casaco que tem seu nome e uma saia preta.

Antes de cada um ir para sua prova, nós encontrávamos um ao outro pelos corredores e conversávamos sobre as atividades, se elas tinham sido difíceis ou fáceis e dentre outras coisas.

No meio das nossas falas um para o outro, Nerada ficou em silêncio por um momento e abaixou a cabeça, sussurrando algo:

– Você... Gosta de alguém, Neko? – Perguntou ela.

Meu coração começou a ficar bem acelerado naquele momento, os pensamentos que corriam pela minha cabeça eram bem óbvios de serem previstos.

“Será que ela gosta de mim?” “Será que é apenas uma pergunta qualquer? ’”, de fato podiam ser essas coisas, mas decidi ser sincero com ela.

Engoli seco e trouxe a tona toda coragem que pude usar naquela hora de aperto.

– Eu gosto... – Comecei um pouco com medo. – É de você.

Havia falado.

Sim, eu tinha conseguido, achei que teria sido um pouco mais difícil antes, mas agora nós já éramos mais que amigos comuns.

Fiquei corado e virei meu rosto para o outro lado, contudo levei meus olhos levemente até a face de Nerada que também estava vermelha.

Esperei que a mesma me respondesse, mas ela apenas virou de costas e saiu andando, porém parou no meio do caminho e me disse:

– Eu... Vou lhe dizer o que sinto depois da última prova... Certo? – Avisou.

Assenti com a cabeça e segui para a sala da minha atividade também, nós dois podíamos ter sido separados em salas diferentes para esse dia, contudo ainda assim éramos mais unidos do que todos os outros daquela escola.

Do jeito que Nerada falou, eu sabia que ela gostava de mim também, não tinha outra opção.

Quase não consegui concentrar na prova de tanta felicidade que estava além de ter um futuro garantido graças á escola, eu também conseguiria uma ótima esposa que me ajudaria no que viesse e que jamais iria me trair.

Ter me tornado amigo da Nerada foi provavelmente a escolha correta que faltava para meu caminho na vida se completar.

Depois de terminar a última prova com um pouco de dificuldades, eu fui correndo para o corredor, mas não vi Nerada lá.

Talvez ela estivesse também com problemas na atividade, afinal a nossa conversa de antes deve ter tido bastante peso emocional nela quanto teve em mim.

Esperei mais um tempo, porém nenhuma novidade sobre a minha futura namorada.

Comecei a ficar um pouco preocupado pela demora, contudo decidi esperar um pouco mais.

...

Certo, aquilo de jeito algum estava errado. Ninguém demoraria tanto para terminar a prova, ainda mais que a mesma tem um tempo limite.

Andei até o local da sala onde Nerada estava fazendo a prova e a abri levemente.

.. Aquilo não era realmente uma cena que alguém gostaria de ver.

As mesas do local e as cadeiras estavam completamente bagunçadas e havia sangue pelo quadro negro e o chão quase inteiro.

Não tinha mais ninguém lá, Nerada era a única de pé na frente do corpo de uma colega de classe dela, a qual se encontrava sentada em uma das carteiras.

Ela tinha sido degolada, e seus olhos aparentavam terem sido arrancados para fora, sem contar as várias facadas que existiam por seus braços e pernas.

O casaco de Nerada e algumas partes de seu corpo estavam com manchas de sangue, demorou um pouco, contudo eu fui capaz de observar a faca que estava na mão dela.

Coloquei a mão direita sobre minha boca e cai de bunda no chão, observando a minha colega que franziu as sobrancelhas a me ver.

Quase vomitei com aquilo, era terrível! Por que a Nerada fez isso? Ou... Será que armaram para ela?

– Nerada... – Chamei-a entre alguns gaguejos. – Você... Você que fez isso...?

A mesma virou seu olhar em minha direção, os globos oculares dela estavam com lágrimas e ela me respondeu com um sorriso sádico.

– Eu não posso mais te amar... Neko. – Disse Nerada. – Afinal... Eu fiz algo de errado, não é?

– Do... Do que está falando...? – Perguntei sem entender. – O que... O que aconteceu aqui, Nerada?!

Cerrei meus punhos com força, ao mesmo tempo em que eu queria entender o que havia acontecido, várias possibilidades do que houve lá passavam pela minha mente.

E nenhuma delas era boa.

– Apenas... Não posso... – As lágrimas deslizavam pelo rosto de Nerada sem parar, a mesma levou a faca até seu pescoço e fechou seus olhos. – Por isso... É melhor acabar com tudo de uma vez...

– Não faça isso! – Gritei com todas as forças que podia, minha voz ecoou por toda a escola, sem dúvidas várias pessoas começaram a procurar da onde vinha esse som. – Nerada, não importa o que você fez! Eu ainda te amo, irei continuar te amando, então pelo amor de deus largue essa faca!

.. A Nerada simplesmente não me ouviu, ela me ignorou igual eu fiz com a mesma nos primeiros dias de nossa conversa.

Ela fincou a faca em seu pescoço e o abriu com a arma, soltando-a logo depois e caindo no chão enquanto tossia e tentava respirar com bastante dificuldade.

O sangue ia se alastrando em volta dela e eu era incapaz de me mover, aquela cena havia me chocado tanto que meu cérebro parecia incapaz de mandar ordens para meus membros.

Eu estava suando bastante e era impossível soltar alguma palavra naquela cena, não demorou muito para que outras pessoas chegassem e vissem o que havia acontecido.

A maioria gritou enquanto alguns professores foram olhar o corpo da garota e o resto foi tentar estancar o sangue de Nerada.

Eu abaixei a cabeça fazendo com que meu cabelo cobrisse completamente meus olhos e nariz, não era mais capaz de ouvir, falar ou me movimentar.

Simplesmente havia acabado.

Sem aguentar tamanha pressão, eu acabei desmaiando um pouco depois, depois disso não sei o que aconteceu.

Lembro que acordei em minha casa, dentro do meu quarto. Meus pais estavam do meu lado e levando em conta a face que eles tinham, realmente ficaram preocupados.

Os mesmos me abraçaram com força e me encheram de caricias e beijos, mas eu não sabia o que fazer.

Apenas não tinha vontade de retribuir aqueles sentimentos calorosos que estavam tentando me dar.

As coisas haviam mudado tão repentinamente que acabei esquecendo como ser um humano, talvez.

...

Não...

Ser um humano não é algo bom, é algo desprezível. Pois eles fazem o que querem e nem dão importância para as pessoas que se importam com eles.

Para piorar tudo mais um pouco, no final acabei descobrindo que as minhas notas não foram o suficiente para eu passar do 1° ano e que eu teria que repeti-lo.

Então realmente minha obsessão pela Nerada havia não apenas destruído o caminho que criei para o amor, porém o caminho que criei para meu futuro também.

Após isso eu simplesmente me recusei á voltar para aquele lugar, de algum jeito meus pais conseguiu convencer o diretor há me deixar fazer as atividades, para-casas e provas em minha casa.

Não importava com mais nada, contanto que eu não precisasse mais ver aquele prédio amaldiçoado, eu estava contente.

Contanto que eu não precisasse sair do único lugar em que estou completamente seguro, eu estava contente.

Contanto que eu... Não precisasse mais me lembrar de Nerada... Estava tudo bem... Eu... Estava contente.

~ Flash Back Off ~

Levemente uma lágrima caiu do meu olho direito enquanto eu observava a tela do meu computador.

Meu quarto estava completamente bagunçado e todo escuro por conta da porta fechada e da cortina que impedia a luz do sol de adentrar em meu local.

A única luz que podia ser vista era a do meu computador, uma luz azul clara que dava a visão de minha face.

–... Eu... Estou contente. – Falei para mim mesmo.

Pude ouvir de longe a campainha da casa sendo tocado. Meus pais haviam saído para o trabalho e eu era o único no local.

Odiava aquilo, mas tinha que atender, caso fosse uma coisa importante.

Levantei-me, abri a porta e passei pelo corredor da casa, chegando à frente da porta da casa e apertando o botão de resposta.

–... O que... Você quer? – Perguntei.

– Vim entregar as atividades que a professora mandou para você. – Respondeu uma voz de garoto.

Soltei o botão e suspirei, usei a chave que estava na fechadura e abri a porta, a luz do sol quase me matou naquele momento, por causa disso acabei tendo que usar meu braço como um tipo de escudo.

Fui andando levemente pela trilha que dava até o portão e cheguei à frente do mesmo, onde um garoto de cabelos loiros me esperava.

A cabeleira do mesmo chegava até o começo de seu pescoço, ela era um pouco espetada para os lados, o mesmo tinha olhos esmeraldas que tinham certo brilho nos mesmos, além de trajar a roupa comum da escola de Erugênia.

– Aqui. – Ele disse normalmente.

Eu abri o portão e peguei as coisas, fechando o mesmo logo depois.

Fui andando de volta para dentro da casa, mas acabei escorregando na trilha e caindo no chão.

–... Au. – Resmunguei enquanto tentava levantar.

– Quer... Ajuda? – O menino perguntou.

– Não... Precisa. – Terminei de me levantar e adentrei pela porta, fechando-a rapidamente.

Quase todos os dias são assim... Alguém tem que ir atender a porta para pegar as atividades e acaba sempre sobrando para mim, por conta que meus pais sempre estão trabalhando á essa hora.

Contudo... Pelo menos esse garoto não debochou de mim igual os outros que vieram entregar as coisas... Porém ainda assim, eu não preciso de mais ninguém para ficar mais contente.

Porque estando apenas assim... É o único jeito de estar livre dessas coisas horríveis que existem no mundo real.

Só assim.

–-- Mudança de ponto de vista: Rule Samoh. ---

Depois de entregar as coisas pro recluso da escola, eu fui de volta para minha casa.

Chegando lá estava apenas minha mãe sentada na mesa, me esperando.

Meu pai havia se atrasado um pouco por causa do trabalho, normalmente isso nunca aconteça, mas quando acontece é por algo bastante sério e importante.

Fui até a cadeira e sente sobre ela, ficando de frente para minha mãe.

Ela foi até a cozinha e pegou as bebidas, colocando-as sobre a mesa e fazendo uma pequena oração antes de iniciar a degustação.

Depois de comermos eu me levantei e avisei para ela que iria dormir um pouco, após isso subi as escadas e entrei no meu quarto.

Dessa vez ele estava mais arrumado, minha mãe ou a empregada devem ter arrumado o mesmo enquanto eu estive na escola, mas não importava.

Fui até o guarda-roupa e peguei uma roupa nova, além de eu não gostar de ficar com esse uniforme da escola, como irei para Wonderland novamente. Preciso de um novo visual para que aqueles dois malucos não me reconheçam.

Tirei o uniforme e o joguei em um canto do local, peguei as novas roupas e as vesti rapidamente.

Agora eu estava trajando uma camisa verde escura que tinha uma linha preta na parte esquerda da mesma, além de estar usando um short preto com um bolso na frente.

– Certo... Hora de ir. – Comentei comigo mesmo.

Abri a gaveta da escrivaninha e vi o chocolate guardado ali juntamente com a carta, os mesmos não pareciam ter sido provados ou lidos, então estava tudo bem.

Parti outro pedaço do tablete e o coloquei na boca, depois disso deitei na cama e fui degustando do doce aos poucos enquanto observava o teto.

– Dessa vez não terá mais Ego dos Sonhos para me dar problema... Mas... O tenso vai ser pensar em que habilidade criarei com aquela tal Carta Imaginária... – Pensei. – Porém... O mais importante é saber onde aqueles dois manés levaram a Alice...

Engoli o que faltava do chocolate e fechei os olhos, pude sentir que aos poucos o efeito daquela droga estava começando á fazer efeito.

Não demorou muito tempo até que eu caísse no sono e fosse levado pelos sonhos do país das maravilhas... Novamente.

Ao abrir meus olhos de novo, vi que estava naquela cidade destruída e exatamente no mesmo local onde acabei ficando sem energia após a luta contra o Ego dos Sonhos.

– Então... Voltamos exatamente pro último lugar onde estávamos antes do relógio de bolso nos levar de volta? – Deduzi. – Bem... É melhor eu guardar isso.

Contudo antes de eu começar a minha procura, tirei do meu bolso o relógio de bolso e o abri para ver quanto tempo eu tinha.

– 5 horas... Nada mal. – Comentei.

Levantei-me e guardei o objeto, procurando mais alguma coisa no meu bolso e por sorte consegui acha-la.

Era a minha carta imaginária, a mesma era totalmente branca e tinha o formato do naipe das espadas em uma coloração azul no centro de si.

– Então... Esse é meu Naipe? Bem... É legal até. – Disse. – Agora... Onde será que está escrito a habilidade primária dele...

Virei á carta e vi o que estava escrito atrás: “Equipamentos”.

– Equipamentos? Essa é a habilidade primária do naipe espadas? – Indaguei.

–... Como assim? Eu posso fazer uma habilidade que tenha haver com... Equipamentos? ... Eles precisam ser mais específicos...

Sentei-me em um dos destroços do local e coloquei minha mão direita sobre meu queixo, iniciando os pensamentos.

Muitas coisas podem ser vistas como equipamentos, dependendo do que você estiver fazendo... Talvez seja tudo o que a palavra engloba?

Por enquanto essa é minha melhor aposta... Contudo... Que tipo de habilidade eu gostaria de ter?

Se forem “Equipamentos”, então quer dizer que espadas e essas outras coisas podem ser criadas...

Pergunto-me se armas de fogo também são vistas como equipamento... Porém mesmo assim eu me recuso á usar uma.

Gosto de espadas, contudo apenas ter ela seria algo muito clichê e fraco, levando em conta os tipos de poderes que aquela sádica e a Alice têm.

Além de que precisa ser algo que possa ter um título legal igual o que minha amiga tem... “Aquela que comanda a realidade” ou alguma coisa assim.

Deitei-me sobre o destroço e fixei meus olhos nas nuvens que encobriam o céu do País das Maravilhas completamente, não havia uma luz sequer no local, me perguntava se o mundo inteiro daqui deveria ser assim ou era apenas esse lugar...

Mas eu não podia perder tempo pensando nesse tipo de coisa! Balancei minha cabeça e voltei a ficar sentado, coçando meus cabelos.

– Por que é tão difícil criar um poder para mim?! Qual é... Eu deveria ser a pessoa que mais me conhece... – Suspirei. -... Mesmo que isso seja exageradamente estranho.

Contudo outra coisa me veio à cabeça... Se o inimigo realmente visse o real poder da minha habilidade logo de primeira, seria bastante fácil para o mesmo armar um contra ataque...

Então poderia criar uma arma “falsa” que escondesse o verdadeiro poder que teria o meu poder!

– É isso! – Comemorei levantando os braços para cima.

Pelo menos eu havia conseguido pensar em um jeito de esconder a verdadeira força da minha habilidade que seria utilizar a mesma em uma arma de formato bastante duvidoso para a batalha.

Enquanto o adversário fica em duvida ou ri da aparência, eu uso o poder real dela e acabo com ele em menos de 10 segundos!

O problema real nem será pensar em um formato idiota para a arma, para falar a verdade já tenho um em cabeça, contudo a dificuldade é saber o que minha habilidade realmente fará...

– Me pergunto como a Alice conseguiu criar aquele poder para ela... – Pensei comigo mesmo. – Mas se a minha amiga conseguiu, com certeza eu também irei... Certo?

Preciso parar de falar comigo mesmo... Isso está ficando mais estranho do que já aparentava ser.

Novamente deixei meu corpo se jogar para trás e ficar estirado sobre o destroço, fechei os olhos e comecei a sentir o pequeno vento que passava pelo local.

Poderia estar fazendo brincadeiras naquele momento, porém a coisa era séria.

Precisava de um poder para ser capaz não apenas de proteger a Alice, contudo também consegui resgata-la do lugar onde a prenderam.

Não queria ser um herói e nem nada desse tipo porque realmente acho que não é um papel fácil de ter.

Por isso apenas ser o protetor da minha amiga seria o suficiente para que eu pudesse me sentir aliviado.

E agora que parei para pensar, o país das maravilhas é como se fosse o mundo impossível que toda criança uma vez já sonhou em estar.

Mas claro... Não tem a aparência que nós esperávamos que tivesse quando éramos pequenos.

Pergunto-me o porquê de apenas conseguirmos entrar nesse mundo através daquele chocolate... E o pior, o porquê de nos ficarmos presos nele por conta de termos vindo muito igual aconteceu com a Alice.

Desde que tudo aquilo aconteceu ontem, eu não tive muito tempo para parar e pensar um pouco sobre tudo que aprendi sobre o País das Maravilhas.

E mesmo que tivesse que criar minha habilidade, ainda era um bom momento para analisar a situação de tudo aquilo.

Além de que acalmar a cabeça é o primeiro passo para deixar sua imaginação fluir melhor! Pelo menos comigo é assim.

Pois bem... O porquê de a Alice ter desaparecido naqueles dias é que ela acabou ficando presa aqui por ter ultrapassado o limite de vezes que uma pessoa pode vir para o País das Maravilhas.

E agora ela foi sequestrada por aqueles dois estranhos que eu ainda não faço a menor ideia do que desejam com minha amiga, porém coisa boa não deve ser, se a gente levar em conta o modo com que a levaram.

Essas coisas apenas são motivos ainda maiores para eu criar logo a minha habilidade...

Entretanto antes que pudesse continuar com meus pensamentos, ouvi um barulho vindo do lado direito.

Ao levantar-me e olhar na direção da onde tinha escutado o som, fui capaz de ver o que havia feito aquele barulho: era um monstro.

Sim, o mesmo tinha um formato parecido com o de um javali, seu corpo era feito de nuvens negras e tinha pequenas partes de armadura por ele, o estranho é que eu não sabia que existia algo desse tipo aqui.

Parecia com os inimigos aleatórios e fracos que apareciam pelo cenário quando jogávamos algum jogo, a diferença é que aquilo era real.

O bicho começou a passar suas patas pelo chão, se preparando para avançar contra mim.

É, tentar dar uma de sociável e pacifista com essa coisa parecia que não iria dar muito certo.

– Vocês do País das Maravilhas adoram pegar no meu pé, não é? – Debochei.

– Gu... LA! – O monstro avançou na minha direção.

Eu pulei sobre o destroço em que estava deitado antes e virei-me na direção do inimigo.

O mesmo destruiu aquele amontoado de pedras com a cabeça e a balançou logo depois, voltando á ficar na posição inicial para atacar.

– Bem que poderia me dar um tempo para ter criado minha habilidade! – Reclamei.

O oponente nem ligou e foi em minha direção, eu me joguei para o lado, porém o chifre dele acabou pegando de raspão em minha camisa e fazendo um corte nela.

– Essa foi por pouco... – Comentei comigo mesmo. – Droga... Ficar fugindo não vai funcionar sempre.

Dei as costas para o monstro e comecei a correr, queria apenas conseguir despistá-lo para criar minha habilidade e ai assim dar uma lição nele!

Mas aquela coisa não me daria tanta vantagem... Não demorou muito para que se começasse a perseguição atrás de mim.

A velocidade daquela coisa era realmente incrível, mesmo que tivesse começado a correr primeiro, já estava faltando muito pouco para que o javali me pegasse.

Como um último recurso, eu deslizei e virei-me para a esquerda, fazendo com que o oponente passasse por mim sem conseguir me atingir.

Saltei para trás á fim de afastar-me ainda mais e peguei a minha carta imaginária, não havia mais tempo para eu pensar ou tentar achar uma forma melhor de como criar e utilizar minha habilidade.

Era a hora de eu finalmente me tornar em um membro por completo do País das Maravilhas, ou seja... Um usuário.

– Naipe de espadas, corte para minha habilidade! – Gritei com tudo o que tinha, a carta que estava em minhas mãos foi encoberta por um brilho azulado e se transformou em um cabo metálico de uma espada preto com algumas linhas verdes nele. – “Lâmina de Luminaris!”.

O javali virou-se na minha direção novamente e iniciou seu avanço, contudo dessa vez a raiva estava ainda maior por eu ter conseguido escapar nas antigas vezes.

Entretanto... Seria diferente naquele momento, principalmente levando em conta que serei capaz de testar minha habilidade!

Coloquei minha mão no local do cabo onde seria o início da lâmina e me posicionei, esperando o oponente chegar mais perto.

– Agora não tem mais como eu voltar... – Pensei. – Eu não apenas comi o Choconho mais de uma vez, mas também já até derrotei o meu Ego dos Sonhos e consegui criar minha habilidade própria utilizando a carta imaginária.

– No final eu não sei se ficarei preso ou não, porém... Tenho certeza de uma coisa que irei fazer. – Continuei com meus pensamentos. — Eu sem dúvidas irei...

O momento certo apareceu ali, o monstro estava bem na distância que eu queria!

– Salvar a Alice! – Exclamei.

Passei minha mão pelo cabo de espada, fazendo com que uma lâmina média feita de luz alaranjada aparecesse e perfurasse o alvo bem na hora que tinha chegado perto de mim.

Eu fiquei fitando o olhar do inimigo atingido pela minha habilidade.

–... Adeus. – Disse, abaixando a cabeça.

Aos poucos o corpo do javali foi se transformando em um pó negro que desapareceu pelo ar.

– Então... Esse é o formato da minha Lâmina de Luminaris? – Perguntei enquanto movimentava a arma e a mesma fazia barulhos estranhos. – É Realmente como eu pensei... Até mesmo os detalhes.

– Bem... Com isso agora eu devo ser capaz de vasculhar o País das Maravilhas mais á fundo, sem ter que ficar apenas nesse local. – Virei meu olhar para o horizonte. – Só espero que eu consiga achar a Alice logo... Não quero nem pensar no que aqueles malucos podem estar fazendo á ela nesse momento.

Pousei minha mão direita sobre a lâmina laranja e a fui diminuindo até voltar ao seu formato original de apenas um cabo de espada.

– Vejamos quanto tempo ainda tenho... – Levei minha mão ao meu bolso e retirei o relógio de bolso e o abri, vendo quanto tempo ainda faltava para o sonho acabar. – 1 hora... Perdi bastante tempo pensando na minha arma e lutando com aquele javali estranho.

Fechei o relógio e o guardei no bolso novamente, começando a caminhar para o norte.

– Vamos lá País das Maravilhas... Mostre-me do que você é capaz. – Pensei enquanto abria um leve sorriso.

–-- Mudança de ponto de vista: Neko Kireekoh. ---

Após o meu “colega de classe” ter me entregado as atividades, eu voltei para dentro de casa e tranquei a porta.

Fui para o meu quarto e continuei á mexer no computador procurando coisas novas.

Eu acabei encontrando um produto estranho em um desses sites de venda internacional, o nome do mesmo era “Choconho”.

A descrição simplesmente falava que era um produto que ajudaria á fazer você esquecer-se dos seus problemas e foi feito pela empresa “Diamond Candy” ou simplesmente Doce de Diamante.

Ela é uma das várias empresas que a família Kiravantil – Que é provavelmente uma das mais ricas e poderosas do mundo – criou ao longo dos tempos.

Nunca dei muita atenção para essas empresas da Kiravantil, mas devo admitir que a descrição desse produto me deixasse um tanto quanto curioso...

O que ele faria caso o utilizasse? Seria como uma droga ou seria diferente?

Contudo, eu sinceramente não ligava mais, não tinha o porquê de eu me preocupar com o que aconteceria e deixaria de acontecer á mim...

Afinal não me importo.

Movimentei o mouse com minha mão e cliquei no botão “comprar” e fechei os olhos.

– Só queria que tudo acabasse de uma vez... – Murmurei para mim mesmo.

=== Fin. ===

Uma alma que perdeu o sentido de viver.

...

O Que ela realmente iria querer?

...

Você não se importa de morrer.

Próximo Capitulo: Motivação.

Notas finais
Curiosidades que não servem para nada: O nome de Neko, em japonês, significa Gato; A Lâmina de Luminaris foi baseada nos famosos sabres de luz da série de filmes "Star Wars"; A história de Nerada Tanlara foi baseada na intrigante história de Nerada-tan, uma assassina japonesa.