Síndrome de Alice

4 #04: Motivação


Notas iniciais
Um aviso para os leitores de Síndrome de Alice! Os capítulos á partir de agora irão ter um tamanho menos gritante para que seja mais fácil e gostosa sua leitura (De fato, esse é o último com um tamanho tão grande), então gostaria de lhes perguntar se desejariam que os antigos fossem refeitos nesse tamanho, ou preferem que apenas os depois desse sejam assim? Agradeço pela atenção!

#04: Motivação.

–-- Ponto de vista: Rule Samoh. ----

No final, eu fui incapaz de alcançar uma nova área do País das Maravilhas, mas tenho certeza que estava chegando perto de algum local novo!

E como sempre volto pro mesmo lugar da onde parou, não demorará tanto para que chegue à outra parte daquele mundo maluco.

Porém isso não importa agora.

Por quê?

Por que... Bem... É Hora da escola.

Como sempre eu passei pelo portão de entrada e entrei no prédio, subi as escadas até o andar da minha sala e adentrei lá.

Nada de diferente, as mesmas pessoas fazendo as mesmas coisas. Suspirei e fui até minha carteira, coloquei a mochila sobre a mesa e me sentei, levando meu olhar até o vidro da janela.

– Como eles esperam que dê atenção pra escola enquanto tenho uma missão tão importante de salvar minha amiga? – Pensei.

– Ei, Rule! – Chamou-me uma voz doce.

Pelo tom da chamada, eu já tinha uma ideia de quem seria, contudo fazia alguns dias que não via ela já.

Sabrina Teasun.

Uma jovem garota de 15 anos que tem longos cabelos loiros que chegam até o quadril dela, seus olhos tem uma coloração verde-petróleo e a mesma utilizava o uniforme escolar feminino, uma camisa social branca com uma saia da mesma cor.

Devo conhecê-la já faz uns três ou dois anos, ela veio para cá e não tinha muitos amigos, eu fui um dos primeiros á me aproximar dela mesmo sendo de uma sala diferente.

Afinal naquela época não podemos dizer que tinha muitos amigos, então minhas opções para conversa eram bastante pequenas.

De qualquer forma, a Sabrina é um ano mais nova que eu e está atualmente na 8° série, enquanto eu estou no 1° ano.

– Bom dia! – Cumprimentou Sabrina, vindo até a minha carteira. – Como está passando?

Não posso esquecer-me de comentar que a maioria dos garotos da minha sala e da dela á desejam bastante, talvez pelo seu corpo... Eu duvido muito que alguém além de mim, Alice e a Sabrina tenham um pouco de cérebro.

– Vou bem, tirando que estou ficando bastante cansado ultimamente... – Respondi. – Mas e você?

– Estou bem! – Ela sorriu. – Acho que deveria parar de ficar acordado até tão tarde, isso pode acabar te atrapalhando.

O Pior é que eu estava indo dormir cedo, o problema é que as aventuras em Wonderland me cansavam mentalmente e parecia como se eu nem tivesse dormido tudo aquilo...

Cocei minha cabeça um pouco e retribui o sorriso para minha amiga.

– Certo. Não precisa bancar uma de mamãe hoje. – Comentei enquanto ria de leve.

– Ei! Não me chame disso! – Pediu ela entre alguns gaguejos.

Conversar com a Sabrina é realmente divertido, eu tinha me esquecido completamente disso.

As conversas que tenho com ela, as caras que a mesma faz quando eu falo alguma piada são realmente geniais!

– Valeu Sabrina. – Sorri em forma de agradecimento.

– Ah... De nada... Eu acho. – Disse Sabrina sem entender.

A porta da minha sala então foi aberta, o professor entrou e já foi pedindo para sentarmos, além de mandar os alunos das outras salas irem embora, pois nossa aula iria começar.

Sabrina despediu-se de mim e saiu de lá, eu me preparei para novamente ouvir várias coisas que não dou á mínima.

–-- Mudança de ponto de vista: Neko Kireekoh. ---

Passou-se um dia desde que aquele garoto loiro me entregou as atividades da escola, mas eu não tenho vontade nenhuma de fazê-las.

Revirei-me várias vezes estando deitado em minha cama, porém nenhuma posição parecia me favorecer.

Não tinha nada mais para eu olhar na internet, tudo que postavam ou escreviam eram sempre as mesmas noticias e brigas.

Só queria algo novo e que pudesse me fazer esquecer-se de tudo desse mundo... Afinal eu não me importo com ele.

Enquanto meus pensamentos voavam, a campainha da casa foi tocada e novamente tive que ir até lá.

Meus pais estavam trabalhando e só tinha a mim em casa, então não tive muita opção.

Cheguei à porta e a abri, era o homem do correio carregando uma caixa pequena com ele e uma prancheta.

– O Senhor é... Neko Kireekoh? – Ele perguntou analisando o que estava escrito no papel.

–... Sim. – Respondi.

– Então acertei! Aqui sua entrega. – O mesmo sorriu e me entregou a caixa.

Eu a coloquei no chão e anotei meu nome na prancheta do estranho, assim sendo finalmente capaz de fechar a porta.

Ajoelhei-me e peguei a caixa novamente, tive um pouco de dificuldade por conta do meu físico, contudo nada demais.

Levei-a até meu quarto e a coloquei em cima da minha cama, começando á abri-la.

– Me pergunto qual é a entrega... Já pedi tantas coisas que perdi a conta. – Pensei enquanto terminava de abrir.

Ao olhar o conteúdo de dentro da caixa, eu me estranhei um pouco. Era o tal Chocolate da Liberdade que tinha comprado ontem, sinceramente não esperava que chegasse tão rápido...

Parece que os produtos feitos pelos tais Kiravantil tem uma atenção maior do correio.

Peguei o tablete e fui o abrindo aos poucos, na embalagem dizia do que era feito, por quem foi feita e dava créditos um pouco exagerados para aquela tal família rica.

Após ter aberto, parti um pedaço do mesmo e o fitei um pouco. Não sei o que estava sentindo naquele momento, mas algo no fundo me dizia que algo bom não iria acontecer...

–... Devo estar pensando demais... – Comentei comigo mesmo.

O coloquei na boca e comecei a mastiga-lo, o gosto era bom, se eu não tivesse uma memória tão fraca em relação aos outros doces que comi, poderia dizer que esse é o melhor.

Porém... Algo estranho começou a acontecer...

Eu pude sentir meu corpo ficar fraco e a minha visão começava a enfraquecer de leve, além de perder um pouco o equilíbrio.

– Mas... O Que... É Isso... – Apertei minha camisa com força e fechei os olhos, não dava mais.

Cai na cama, tentei usar minhas últimas forças para pelo menos levantar ou ligar para os meus pais, contudo não deu certo.

Meus olhos não abriam mais, não importa o quanto tentasse. Aos poucos minha consciência foi indo embora até eu desmaiar por completo.

Tudo ficou escuro... É eu devia ter imaginado que algo que fosse daquela tal família Kiravantil não seria bom.

Mas jamais teria pensado que seria algum tipo de droga ou remédio para desmaiar as pessoas... Pergunto-me quantos idiotas também caíram nessa.

Porém está tudo bem, era exatamente algo desse tipo que desejei que me tirasse daquele mundo, pode ter me pegado desprevenido, contudo acho que eu não deveria reclamar...

Entretanto, comecei a sentir os meus olhos ficando mais leves, eles pareciam estar se preparando para abrir.

O pior de tudo é que até mesmo quando os Kiravantil começam a me fazer pensar bem do produto deles, o próprio acaba tendo um efeito muito pequeno.

Ao fim, os meus olhos se abriram... Mas eu não me recordava do lugar.

Sentei-me e vi que estava em ruínas de uma cidade, cheio de destroços, prédios quebrados pela metade e um céu totalmente coberto por nuvens escuras.

– Como... Cheguei aqui? – Perguntei-me, surpreso.

Observei o local mais uma vez, aquilo era um cenário apocalíptico! Como diabo vim parar aqui? Eu acordei, então deveria ter ido pro meu quarto, certo?

Ou talvez não devesse.

Levantei-me e bati em minha calça para tirar o pouco de poeira que ficou nelas enquanto eu estava no chão.

– Uma... Alucinação talvez. – Comentei.

Sim, talvez realmente fosse isso. Aquele tal chocolate me desmaiou e eu acordei, porém o efeito dele está fazendo com que imagine o meu quarto de outro jeito.

O problema é como irei fazer isso parar, afinal, pelo que me lembro da caixa, não tinha nada mais nela a não ser a embalagem.

– Acho que se eu balançar minha cabeça, tudo deve voltar ao normal... – Falei.

– Mas você não gosta do normal, não é? – Disse uma voz atrás de mim.

Ao virar-me... Aquela pessoa que falou aquilo... Eu não conseguia acreditar no que estava vendo.

Parecia um espelho... Ela era igual á mim, a única diferença é que usava jaqueta cinza aberta com o capuz cobrindo seu cabelo, mas de resto era idêntico.

Então além de alucinações, o tal do chocolate também faz esses tipos de ilusões...

– Isso não é uma alucinação e muito menos uma ilusão, meu gêmeo. – Respondeu o meu “outro eu”.

– O Que... O Que quer dizer com isso? – Interroguei um pouco nervoso.

A minha cópia levou a mão direita até o bolso e tirou dela uma pistola, apontando-a para mim enquanto sorria de leve.

– Bem vindo ao País das Maravilhas. – Ele respondeu.

–-- Mudança de ponto de vista: Rule Samoh. ---

A aula finalmente tinha chegado ao fim! Graças á deus, eu já não conseguia mais aguentar o falatório do professor.

Levantei-me e peguei a mochila, saindo da minha sala correndo e indo até a da Sabrina, mas não tinha ninguém ali.

– Devem estar tendo educação física... Melhor ir para a quadra. – Disse.

Mudei meu caminho e fui correndo para o ginásio onde aconteciam as aulas de educação física, ao chegar lá foi dito e feito, as meninas estavam jogando vôlei na quadra coberta enquanto os meninos jogavam futebol na descoberta.

Apoiei os meus braços na grade que ficava em volta da quadra das meninas e fiquei olhando para Sabrina, a mesma bateu sua mão na bola para lança-la na direção do campo adversário.

– Isso ai! Manda ver, Sabrina! – Exclamei.

A mesma olhou para mim e arregalou seus olhos um pouco, estava surpresa de me ver ali.

– Eh... Rule... ? – Murmurou Sabrina.

– SABRINA, OLHO NA BOLA! – Gritou uma das companheiras.

– O Que?! – Indagou Sabrina, virando seu olhar rapidamente de volta para o jogo.

Contudo foi tarde demais, a bola atingiu a face da minha amiga e a fez cair de bunda no chão, além de fazer seu nariz ficar um pouco vermelho.

– Ai... – Choramingou Sabrina com pequenas lágrimas nos olhos.

As companheiras dela foram até a mesma e ajudaram-na á se levantar, a menina que tinha batido na bola também foi ver como a minha amiga estava.

– Está tudo bem? – Perguntaram as garotas.

– Sim, sim... Só preciso descansar um pouco. – Respondeu Sabrina mostrando um carinhoso sorriso para suas parceiras.

A professora apitou e deu uma parada no jogo, a mesma levou Sabrina para fora da quadra e a deixou ali comigo, voltando para dentro da quadra e recomeçando a partida.

– Sua cara parece uma pimenta. – Brinquei.

– A culpa é sua! – Ela resmungou, ficando emburrada. – Enfim... Não esperava que você viesse me ver aqui.

– A minha aula acabou e como não fomos capazes de terminar nossa conversa antes, pensei que agora seria uma boa hora. – Expliquei.

– Eu bem que queria... Mas graças á sua distração, necessito ir até a enfermaria da escola. – Reclamou Sabrina, cruzando os braços. – Da próxima vez me chame com cuidado, seu bobo.

– Certo. – Afirmei enquanto coçava a cabeça. – Mas de qualquer forma, você vai para a enfermaria?

– Sim e irei aproveitar esse tempo para arrumar minhas coisas, já que sua aula acabou a minha logo irá também. – Acrescentou Sabrina. – Quer vir comigo?

Eu até tinha um pouco de vontade de acompanha-la, porém não podia esquecer de que precisava continuar minha busca pela Alice no País das Maravilhas.

– Sinto muito... Mas tenho que fazer uma coisa, quem sabe na próxima. – Falei um pouco envergonhado.

– Entendi. – Sabrina assentiu. – É algo muito importante?

–... Sim. – Respondi sério. – Muito importante.

– Então dê seu melhor! – Sabrina abriu um largo sorriso e colocou suas mãos em meu ombro. – Entendido?

– Pode deixar. – Retribui o sorriso e me despedi dela, saindo de lá.

Saí da escola e peguei o caminho que sempre uso para ir até á minha casa, normalmente eu demoro uns 20 minutos para chegar lá.

Usei todo esse tempo para colocar alguns pensamentos meus em ordem, como por exemplo... Por mais que eu tenha que encontrar a Alice, o que farei?

Digo... Mesmo que eu consiga tirá-la daqueles malucos, de acordo com ela, a mesma é incapaz de sair de Wonderland, pois ultrapassou o limite de idas e voltas.

Além de que hoje a Sabrina me fez pensar uma coisa... Caso eu me isole de tudo e todos só por causa dessa missão, não seria a mesma coisa de me afetar para salvar outra pessoa?

Certamente eu não havia pensado por esse lado e a minha conversa hoje com a Sabrina me fez lembrar o quanto é bom ter pessoas perto de você, pessoas que te queiram bem...

Talvez esse tenha sido o motivo chave de Alice ter exagerado bastante nas idas para o País das Maravilhas... Pergunto-me se eu tivesse feito algo, a mesma não teria ficado presa naquele mundo.

Bem, ficar com aqueles pensamentos não ajudaria em nada no momento! Balancei a cabeça e entrei em casa, meus pais estavam fora e tinham deixado a minha comida guardada na geladeira.

Peguei-a e a levei para o meu quarto, junto de um copo e uma garrafa de suco, ao chegar nele, sentei-me e comecei a degustar do prato.

Como sempre a comida da minha mãe estava ótima, e diferente das últimas vezes em que comi apenas pra não morrer de fome, dessa vez eu fui capaz de sentir o gosto com mais calma.

Não demorou muito e logo minha pessoa terminou o prato, assim peguei as coisas, desci as escadas, entrei na cozinha e as limpei, colocando de volta no lugar onde deveriam ficar.

Subi novamente, porém dessa vez fui logo em direção ao banheiro, tirei as minhas roupas, escovei os dentes, e aí sim fui tomar o banho, o qual não demorou muito, afinal tinha pressa.

Sequei-me, e deixei para arrumar os meus cabelos – os quais estavam caídos devido a estarem molhados – mais tarde. Fui até meu quarto, abri o armário e peguei as roupas que usaria na aventura, uma camisa cinza com uma calça preta, nada muito extravagante.

Após terminar de me vestir, me aproximei da escrivaninha, abri a primeira gaveta, peguei o tablete de chocolate que estava lá, parti mais um pedaço, o engoli e depois disso deitei-me sobre minha cama, uma das coisas que provavelmente tinha passado mais tempo comigo até hoje devido aos acontecimentos de ultimamente.

Não demorou muito para que o efeito da droga funcionasse, e meus olhos fechassem-se sem mais delongas, assim me levando novamente até o tal mundo fantasioso que prendia Alice... O País das Maravilhas.

Ao chegar lá, abri meus globos oculares e levantei-me. Como esperado, eu tinha voltado ao local em que tinha parado antes, o que era uma coisa boa a se anotar sobre esse estranho lugar.

A cidade pós-apocalíptica continuava a mesma, e aquele céu cinza permanecia escuro como sempre, só que a diferença é que dessa vez minha pessoa não sentia medo e nem receio.

Chequei o bolso da minha calça, e vi que minha carta imaginária estava lá, dei um suspiro de alívio, e então comecei a seguir em frente, visto que tudo permanecia em seu devido ponto.

Ou ao menos eu pensava isso, pois logo um barulho de tiro pode ser ouvido, o que fez com que alguns corvos – os quais se mantinham reunidos sobre o que restava dos prédios, placas ou postes – voassem para longe.

Virei-me na direção da onde o som veio, e felizmente tinha vindo da qual minha pessoa estava indo, então aquilo era apenas mais uma dica de que realmente existia algo por lá.

Sem esperar, meu corpo começou a correr por conta da ordem de meu cérebro, e fui seguindo pelo caminho.

– Não sei dizer se isso é uma coisa boa ou não, contudo qualquer coisa aqui vale a pena verificar caso tenha uma chance de conseguir uma dica sobre onde Alice está... – Pensei comigo mesmo.

No meio da minha corrida peguei novamente a carta imaginária, e então a fiz tomar a forma do cabo espada, afinal eu precisava estar preparado para todo tipo de coisa que viesse, ainda mais em um lugar tão imprevisível quanto o país das maravilhas.

Ao alcançar o ponto no qual o disparo tinha sido feito, minhas pernas pararam e fui finalmente capaz de observar o que fora aquilo.

Na minha frente existia um ser estranho que tinha sua nuca e costas escondidas por um capuz e seu casaco, e logo após ele estava uma pessoa bastante familiar, no entanto eu não podia acreditar que era ela...

O outro que se encontrava ali no meio da cidade destruída desse mundo dos sonhos era Neko... Neko Kireekoh... O aluno recluso da minha sala! Entretanto o que diabo isso significava? Como alguém que havia se excluído da sociedade fora capaz de adentrar no país das maravilhas?

Entretanto os meus pensamentos logo foram quebradas pela voz do tal colega que destruiu o silêncio do lugar.

– Merda! Por que você atirou em mim?! – Reclamava Neko com lágrimas nos olhos, ao mesmo tempo em que estava com sua mão direita sobre seu ombro esquerdo, o qual se encontrava sujo de sangue. – Isso dói... Isso dói muito... Ai...

– Você é uma peça mesmo, meu gêmeo... – Debochava o outro, girando a pistola que carregava através do gatilho do seu dedo indicador. – Deseja que as coisas mudem, mas quando elas mudam... É apenas um covarde chorão.

Pude ouvir claramente o portador da arma falar a palavra “gêmeo”, o que acabou me fazendo lembrar do meu Ego dos Sonhos, pois o mesmo ficava me chamando por essa palavra várias e várias vezes.

– Talvez... – Murmurei para mim mesmo, tentando conectar as peças do quebra cabeça.

Quando teve um tempo melhor para observar, o garoto ferido conseguiu notar a minha presença logo atrás do atacante, o que fez com que uma pequena chama de esperança aparecesse – de forma metafórica – em seu olhar.

– Ei, você! – Chamou Neko. – É aquele garoto que me entregou as atividades da escola... Não é?

Que maldita hora para me chamar, hein? Foi ele só falar aquilo que o cara armado virou-se, parando de girar sua pistola e a apontando em minha direção.

– Não se preocupe... Contanto que não atrapalhe o que está acontecendo aqui, você não precisará ter que sofrer a mesma dor que meu gêmeo. – Garantia o encapuzado, e mesmo que tenha sido horrível me descobrirem, graças á ele ter se virado fui capaz de olhar sua face... A qual era idêntica á do garoto de cabelos pretos.

Minhas dúvidas acabaram bem ali, o inimigo era o Ego dos Sonhos de Neko que apareceu devido a essa ser sua primeira vez nesse mundo.

– O que está acontecendo, loiro?! Quem é esse cara? Por que ele atirou em mim, e onde diabos nós estamos?! – Neko me bombardeava com perguntas, porém não tinha tempo para respondê-las.

– Depois te explico com mais calma... – Garanti enquanto colocava a mão sobre o fim do cabo e começava a passa-la pelo “ar”, assim criando a lâmina de energia alaranjada aos poucos até ela estar completa.

– Então vai escolher o pior caminho possível? – Comentava o Ego dos Sonhos, preparando sua arma.

Suspirei fundo, e então apontei minha lâmina de Luminaris na direção do meu alvo.

– Eu não odeio vocês, Egos dos Sonhos. – Afirmei. – Contudo... No momento, qualquer um que atrapalhe ou atrase minha busca pela Alice... Com certeza não tem a minha simpatia.

Por mais que não aparentasse, compreendi muito bem a situação. Sabia que o oponente estava usando uma pistola e que apenas um movimento dele poderia custar a minha vida, entretanto... O meu sentimento de querer salvar minha amiga de infância era muito maior do que aquilo.

No entanto por mais que tivesse esses pensamentos, o meu coração batia com mais velocidade, e a tremedeira começou a tomar conta de meu corpo, mas não era nada que minha pessoa não esperasse que fosse acontecer.

– Você sabe que nunca conseguirá ter reflexo o suficiente para reagir contra um disparo, não é? – O Ego dos Sonhos fazia uma pergunta retorica, ainda sem tirar aquele maldito sorriso de seu rosto.

– Fale isso para quem se importa. – Retruquei, irritado. Já estava cansado daquela ansiedade tomando conta de mim.

Após minha frase ter sido terminada, o inimigo nem ao menos esperou e puxou seu gatilho ao mesmo tempo em que movimentei a espada de energia junto de meu corpo, assim fazendo com que a bala por sorte não atingisse meu peito, porém acabou acertando bem entre o meu ombro e o início do braço esquerdo, o que fez o sangue começar a sair junto de um grito agudo de dor meu.

Por sorte a minha ação não fora completamente inútil, pois fui capaz de ouvir o som estranho que meu sabre fazia ao atingir algo, e depois de me ajoelhar, olhei na direção do atirador e vi que sua pistola tinha sido cortada ao meio.

– Como fez isso?! – Indagou o Ego dos Sonhos, observando que o tamanho do alcance da lâmina feita de luz havia aumentado.

– Te peguei... – Comentei abrindo um pequeno sorriso com certa dificuldade devido ao dano levado. – Criei minha lâmina de Luminaris exatamente para poder enganar meus adversários... Por isso ela consegue mudar o comprimento do seu alcance livremente depois que for ativada, só não sei dizer qual o tamanho máximo ainda.

– Interessante... – Admirou o oponente, rindo de leve. – Contudo... Ainda não é o bastante!

O oponente levou uma de suas mãos até atrás de sua cintura e tirou outra pistola, a apontando contra mim e começando a prepara-la o mais rápido possível.

– Droga...! – Pensei irritado enquanto tentava me recompor para utilizar a espada.

Entretanto antes que eu pudesse fazer isso, Neko jogou-se contra as costas de seu clone, fazendo com que os dois caíssem no chão – eles se encontravam do meu lado, estando a uma distância media — e a arma de fogo se afastasse de seu dono por conta do impacto que os corpos tiveram.

– Neko?! – Indaguei surpreso, realmente não esperava que aquele recluso fosse corajoso á esse ponto.

– Não sei bem o que está acontecendo aqui, no entanto... – O moreno levantava-se. – Me nego ver alguém com a minha face fazendo esse tipo de coisa...

Ele ainda continuava um tanto quanto tímido para falar, porém pelo menos parecia ser capaz de finalmente dizer algo sem se atrapalhar todo, o que era algo a se levar em conta.

Contudo o seu Ego dos Sonhos também começou a se erguer enquanto ria um pouco do que tinha ouvido de sua parte real.

– Se nega... ? – Interrogava o adversário, ficando de pé e virando-se na direção do meu colega. – Você diz isso... Só que a verdade é que tanto eu quanto você desejamos a mesma coisa bem no fundo.

– A mesma coisa... ? – Repetia Neko confuso.

– Não caia no que ele está dizendo, cara! – Exclamei para que o recluso me ouvisse, no entanto já começava a me aproximar da onde a pistola tinha caído para me prevenir.

– Você sabe muito bem do que estou falando... – O inimigo cruzava os braços. – Sobre como quisemos que mais coisas iguais á morte de Nerada continuassem acontecendo conosco.

Quando consegui pegar a arma de fogo, a mesma simplesmente desapareceu das minhas mãos e voltou para a cintura do Ego dos Sonhos.

– Qual é! – Reclamei, cerrando meus punhos.

– Do que... Está falando... ? – Perguntava o menino de olhos vermelhos, afastando-se um pouco.

– Eu não vou deixar! – Aumentei o alcance da minha espada até 5 metros, o que fez com que o clone também se preparasse, no entanto a voz de Neko que veio logo em seguida fez com que nós dois parássemos.

– Espere! – Ele gritou. – Quero saber... O que aquilo quis dizer...

– Isso não é algo que você vá gostar de ouvir, caramba! – Gritei.

– Calado! – Ordenou Neko, ele parecia bastante apreensivo com aquilo julgando por como sua face e seu olhar estavam.

Queria fazer algo, entretanto decidi ficar parado um pouco para que o recluso pudesse encarar sua mente de frente... Mas claro que no primeiro movimento descuidado, eu ia decapitar a cabeça daquele atirador.

– Bem... Independente do que aconteça aqui... Eu serei o vencedor mesmo. – Comentava o Ego dos Sonhos, rindo.

– O que você quis dizer quando falou isso... Da Nerada... ? – Por algum motivo, o meu colega tinha bastante interesse nesse assunto dessa tal garota.

– O fato é que por mais horrível que tenha sido você, aliás... Nós gostamos daquela cena da morte dela. – O adversário começou a explicar o que tinha dito antes. – O mundo é tão entediante, as pessoas apenas sabem me irritar, e nunca serei aceito pela gama da população mesmo... Então qual o problema de ter coisas fora do comum acontecendo? Qual o erro em querer uma adrenalina desse tipo na nossa vida?

– Não... Eu nunca gostaria daquilo, e jamais iria querer algo daquele tipo novamente, nunca! – Negava Neko, começando há suar um pouco.

– Se contradizer não vai levar em nada, gêmeo. – Garantiu o inimigo, sorrindo. – Fui criado através do seu desejo mais forte, então... Não adianta tentar negar, pois não irá funcionar.

O moreno ficou em silêncio por alguns segundos, e minha pessoa também só conseguia observar a cena durante aquele momento, porém o silêncio logo fora quebrado, e novamente foi pelo meu oponente.

– Eu posso te dar essa adrenalina que tanto deseja. – O Ego dos Sonhos se aproximava de sua outra parte e apontava a pistola bem para a testa dele. – Afinal... É isso que nós dois queremos, não é? Viver ao limite, sem se importar com o que existe á nossa volta...

– Viver... Ao limite... – O jovem de olhos vermelhos repetia aquela frase como se estivesse em um tipo de transe.

Por mais que Neko quisesse continuar ouvindo aquelas bobagens, eu não aguentava mais! Corri na direção deles e ao me aproximar o bastante, balancei a lâmina de Luminaris, assim... Decapitando o atirador de uma vez por todas.

Ainda não estava completamente acostumado com aquilo, e novamente pude sentir o recuo pesado da minha mão ao novamente matar alguém, mesmo que fosse apenas algo através da imaginação de uma pessoa, o sangue e a forma como o corpo reagia ao ser atingido eram idênticas.

– Desculpe por ter acabado assim, mas não podia deixar que ele continuasse falando... Você já estava caindo na ladainha deles. – Expliquei para meu colega, desativando a energia do meu sabre e fazendo o mesmo voltar à forma de carta, assim o guardando dentro do meu bolso novamente.

Porém... Algo estranho aconteceu. Ao olhar na direção da face de Neko... Os seus olhos, boca, nariz, lábios, queixo, orelhas e cabelos tinham desaparecido completamente, sobrando apenas um rosto em branco, o que fez com que eu me assustasse e desse um pulo para trás, caindo no chão.

– Ei?! – Gaguejei falando aquilo, o que diabos tinha acontecido ali?!

O recluso continuava se aproximando até mim como se estivesse resmungando algo, e as partes do seu corpo não paravam de começar a sumir... Seus dedos transformavam-se em pequenas partículas que logo eram levadas embora pelo vento, suas pernas também eram afetadas por isso, o que o forçou a ter que se rastejar pelo chão.

– Que... Que merda é essa... ? – Minha pessoa continuava sem entender nada, achei que quando o Ego dos Sonhos de uma pessoa morresse, o mesmo iria se tornar em uma carta imaginária para que sua parte real pudesse usá-la, porém... Por que... Por que não tinha acontecido como imaginei?!

Espere...

Uma pequena lembrança percorreu pela minha mente por um instante, o que fez com que meus olhos esbugalhassem e minhas sobrancelhas franzissem.

~ Flash-Back, Capítulo 1 ~

– A carta imaginária é um objeto que você consegue após matar seu Ego dos Sonhos nesse mundo... Ela permite que você ganhe uma habilidade aleatória dependendo do naipe, mas... – Começou Alice.

– Matar seu Ego dos Sonhos significa assassinar sua própria imaginação e pensamento. – Interrompeu a jovem de cabelos brancos. – Assim que um Usuário adentra no País das Maravilhas, seus maiores sonhos tomam uma forma física que seria a representação de como o mesmo seria nesse mundo... Porém você deve saber que duas pessoas iguais são incapazes de conviver uma com a outra, não é?

~ Flash-Back ~

– Será que... A carta imaginária só aparece para pessoas que mataram seus sonhos elas mesmas... ? – Ponderei, e devido a estar perdidos em meus pensamentos, acabei esquecendo que meu colega continuava a se aproximar, só que quando finalmente ia me tocar... Ele desapareceu por completo.

Fiquei em silêncio por alguns segundos enquanto olhava para baixo e o fato do que tinha acontecido ali continuava a ecoar por minha mente.

Mesmo que tenha sido de forma indireta... Eu, aquele que estava lutando para salvar Neko... Na verdade... Foi o que o matou no final de tudo.

Já havia matado dois Egos dos Sonhos, contudo conseguia proteger minha mentalidade por pensar que não eram pessoas, e sim apenas fruto das nossas imaginações, no entanto... Dessa vez... Sem escapatória... Minha pessoa tinha matado alguém.

Com minhas próprias mãos, eu, Rule Samoh... Tirei a vida de alguém.

– Alice... – Chamei o nome da minha melhor amiga de forma inconsciente. – O que... Estou fazendo... ?

E foi a partir dali que entendi uma coisa que levaria para todo o sempre... O país das maravilhas nos transforma.

=== Fin. ===

Laços perdidos há muito tempo...

...

Rainhas que dançam pelo castelo da desigualdade...

...

Talvez lutar por ela não tenha sentido?

Próximo Capítulo: Igualdade.

Notas finais
Curiosidades que não servem para nada: A habilidade de Rule "Lâmina de Luminaris" pode aumentar seu alcance em até 7 metros; Numa versão antiga da história, o personagem de Neko sobreviveria e ajudaria Rule á ir em busca de Alice, porém isso foi mudado nessa nova versão;
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.