Notas iniciais
Olá, hj de presente, vo postar duas vezes, essa é a primeira! Te vejo lá embaixo Bruna! ;)

No momento em que ela o viu subindo as escadarias da escola, Amelie soube que havia algo errado. Jeffe nunca tinha olheiras, porque nunca passava noites em claro, era responsável demais, Jeffe nunca parecia assustado, como se as pessoas ao seu redor de repente fossem saltar sobre ele a qualquer momento. E definitivamente, Jeffe não tinha aquela expressão meio enlouquecida. Sua irmã, do seu lado, arrumava os cabelos, mas nem mesmo ela deixou de notar.

Mon Dieu, o que o Jefferson tem? Parece que visitou o Inferno e viu o Demônio! — Amelie viu seus olhos cor de jade se arregalarem. E se estava alarmando até sua irmã pouco ligada nos sentimentos dos outros era porque o bicho estava pegando de verdade.

Ele se aproximou das duas e sorriu nervosamente, com aquele toque meio louco.

Jeffe, você está bem? — Amelie perguntou, colocando uma mão em seu braço e sentindo a tensão dos músculos sob a jaqueta preta do uniforme dele – Aconteceu alguma coisa?

Não, estou bem, juro – ele balançava a cabeça freneticamente ao dizer as palavras – Bom dia, Alienor.

Sua irmã, com os vincos de estranheza e desconfiança alinhadas em sua testa, deu um aceno de cabeça e depois lhe lançou um olhar discreto do tipo que gritava claramente “Ele não está bem coisa nenhuma!!!”

Tem certeza de que pode entrar na sala, Jefferson? Não quer sei lá, matar uma aula pra conversar? Sabe que não vou me importar – insistiu Amelie.

É, ou talvez comer alguma coisa te ajude, você está parecendo completamente mal – Amelie lhe lançou um olhar de “cale a boca”, mas ela encolheu os ombros – Desculpe, mas é a verdade, ponha alguma proteína pra dentro, Jeffes, parece que você veio do reino de Hades correndo do Cérbero.

Amelie percebeu, que apesar da sinceridade da irmã ser um tanto agressiva, ela surtiu efeito. Os olhos ensandecidos dele pareceram adquirir o brilho racional de sempre, sua expressão precária de calma vacilando.

E-está bem, eu vou – ele concordou, dando um aceno rápido de cabeça — Só me tire daqui.

Amelie virou-se pra irmã.

Diga alguma coisa convincente ao nossos professores. Use seu charme.

Os olhos verdes da irmã reluziram momentaneamente.

Eu usarei – ela deu um sorriso suave e casto – Tenham um bom passeio.

Teremos – respondeu Amelie, já puxando Jefferson pelo braço – Venha, vamos colocar comida no seu sistema.

Eles andaram seis quadras em silêncio. Amelie lançando olhares preocupados pro rosto de Jefferson algumas vezes, embora ele provavelmente não tivesse notado.

Chegaram ao Pastelão, uma lanchonete muito frequentada pelos estudantes e que sempre estava lotada a qualquer hora, independente do dia da semana.

Ela deixou Jefferson sentado na cadeira de plástico de cor laranja e moderninha e seguiu pro balcão, pedindo uma boa quantidade de comida, com o máximo de carboidratos e proteínas que ela conseguiu contar. Quando voltou pra sua cadeira ao lado dele, seus olhos estavam nela, agora bem mais tranquilos.

Você acredita em coisas sobrenaturais, Amelie? — indagou, seu olhar tão intenso nos dela, que um arrepio foi inevitável. Ela se encolheu, pra afastar a sensação.

Bem, você é sobrenatural, Jeffe. Eu não conheço mais ninguém que possa queimar árvores só de olhar pra elas – ela tentou soar despreocupada e calma, pra transmitir isso pra ele, mas ao ver que sua expressão não mudou, percebeu que tinha falhado.

Estou querendo dizer... — ele parecia hesitante, como se suas próximas palavras fossem parecer ridículas — … coisas que estão por aí há séculos, lendas, mitos.

Como o quê? — ela sentiu o estômago revirar e pensou que talvez devesse ter tomado mais sangue na caçada noturna que fez com Marc, era sempre Jacques que ia com ela, mas ele estava mais preocupado em ajudar sua mãe a contatar seu pai na África, ele havia apenas mandado uma mensagem de dentro do avião e depois não dera mais notícia. Mas Amelie não estava preocupada, seu pai devia estar absorto com os problemas de seus funcionários mortos ou feridos nas minas pra ligar. Ele se importava muito com seus empregados.

Jefferson encarou seu rosto com olhos grandes, maiores do que já costumavam ser, algo tenso perpassando por eles, como se não ousasse verbalizar o que pensava.

Amelie tocou sua mão sobre a mesa com a ponta dos dedos e falou com seriedade:

Jefferson, você pode me contar qualquer coisa, sabe que nada que irá me dizer poderá mudar o que sinto por você. Anda, fala.

Então com um suspiro fundo, ainda sem deixar de encará-la com receio, suas palavras seguintes a atingiram como uma avalanche:

Eu vi dois vampiros hoje de madrugada, Amelie – ele mordeu o lábio inferior com força – Eles estavam com duas mulheres, cheguei exatamente no ponto em que elas já estavam mortas. Eles tentaram me atacar, mas eu usei o fogo pra afastá-los, e eles se foram, porque pareciam mesmo ter medo de ser queimados. E... — ele enfiou os dedos nos cabelos escuros e brilhantes — … eu fui tentar salvá-las e … — lágrimas se formaram na beirada de seus olhos castanho-claros — … eu não pude, elas estavam mortas. Completamente mortas...

Aqui está o pedido de vocês – demos um pulo nas cadeiras, mas a garçonete não notou e continuou sorrindo de um modo simpático – Mais alguma coisa? — ela tinha uma caneta e um bloquinho de notas nas mãos.

Será que ela teria uma arma com balas de prata? Pra Amelie poder atirar em sua própria cabeça e ficar tão incapacitada que não lembraria daquela conversa? Ou talvez pudesse providenciar uma pira em que pudesse se lançar e não ter que passar pelo que teria que passar, sem chance de escolha?

Esses pensamentos voaram pela cabeça dela como relâmpagos que pressagiavam uma tempestade que se formava.

Mas tudo que fez foi sorrir de volta pra garota:

Não, obrigada, ficamos só com isto por enquanto.

Se precisarem é só chamar – a moça disse, antes de se retirar.

Amelie voltou-se pra Jefferson, o rosto muito bem composto, apesar do peso que já a esmagava dentro do peito. Uma das coisas que aprendera muito bem com Jacques era manter as emoções fora de sua expressão.

Jefferson a observava, espectante, como se uma palavra que ela dissesse pudesse aliviá-lo quanto deixá-lo sentindo-se miserável.

Coma – simplesmente mandou, com voz suave, mas firme.

Mas...

Enquanto você não comer e ficar com alguma cor nesse rosto eu não vou falar nada – cortou, antes que ele se alongasse muito. Precisava ganhar tempo. Mas... pra quê???

Ela teria que contar, de um jeito ou de outro. E teria que arriscar seu coração que batia uma vez por minuto no processo. Porque não havia meio termo. Quando dissesse que era como as criaturas que ele tinha visto, ou ele continuaria do seu lado, ou iria se afastar... e odiá-la. Pra sempre.

Com um suspiro entre cansado e exasperado, ele se rendeu, seus olhos baixando pra grande porção de batata-frita, bolinho de carne, e o pastel gigantesco cheio de frango dentro, em seu prato. Amelie abriu a lata de refrigerante ao lado do prato dele. E esperou.

Quando ele terminou de comer e limpou a boca no guardanapo de papel, Amelie usou de todo o seu auto-controle, tentando pegar o exemplo de seu pai e irmão mais velho.

Finalmente ele ergueu seus olhos pra ela, a fixando com expectativa.

Decidiu não se torturar por muito mais tempo.

Eu acredito no que você viu, Jefferson.

Ele sorriu de leve, o alívio cobrindo seu rosto de ossos altos.

E não é só isso – continuou Amelie, sem fazer pausa pra respirar.

Você sabe deles? Como? — ele se adiantou, rugas se formaram em sua testa.

Fácil – ela fechou as pálpebras por um segundo e depois as abriu de novo – Porque eu sou como eles.

Notas finais
E agora? sera q o jeffe vai aceitar isso? dúvidas, dúvidas...