Série Pacto - Conspiração
14 O Ardiloso (Jean)
Notas iniciais
Jean sabia que ela tinha entrado no salão de refeições antes mesmo de voltar seus olhos de safira para as portas. Elisabete tinha um poder e aura que faziam as pessoas a olharem de imediato, mesmo que ela não notasse essa atenção.
Ela não estava particularmente arrumada pro ambiente caro e formal do hotel, mas não parecia que estava se importando. Na verdade, Jean sorriu ao perceber tal fato, ela parecia não ter se arrumado de propósito, como se pudesse afrontá-lo com isso.
Mas ela tinha o mesmo nível de charme e beleza tanto de jeans e suéter de lã rosa, quanto teria num vestido puro de seda. Nisso ela parecia com Anne. As duas eram atraentes de um jeito magnético, como imãs. Mas eram totalmente diferentes em personalidade. De certa maneira Anne tinha sido mais frágil e dependente, mesmo que fosse uma pessoa forte, até mesmo sua aparência denunciava isso, na sua estrutura franzina.
Elisabete parecia o tipo que realmente socaria você se a provocasse, ou mais eficientemente, te daria um chute no meio das pernas. E além do quê, seu físico não tinha nada de frágil, ela era alta e ampla, como uma corredora, ou pelo menos alguém que praticava esportes com frequência.
Bem, eu diria bom dia, mas não direi – ela sentou à sua frente, praticamente se atirando na cadeira de chintz – O que você quer?
Jean deu um sorriso inocente. Queria saber sobre a relação dela com Átila, já que sua próxima jogada envolveria o garoto, e seria a cartada que tiraria os D'Crécy de vez do seu caminho. Mas é claro que era melhor apelar pra cautela quando se tratava daquela garota.
Nada demais, Elisabete. Não posso querer ter uma relação amigável com você? — ele lhe estendeu o menu do restaurante – Escolha o que quiser, nada é caro demais pra mim.
Ela o apanhou, mas seu olhar de desconfiança não se retirou.
Como você é tão rico? — ela indagou de repente o surpreendendo – Você comentou algo sobre ir pra Paris depois de ser amaldiçoado, foi lá que conseguiu tanta grana?
Sim, me juntei à Ordem Templária. Só aumentei o que tenho ao longo do tempo – pra ele não foi uma resposta surpreendente, tão pouco algo digno da expressão incrédula que Elisabete tinha no rosto – O que foi? — não pôde evitar de sorrir – Algum problema com Jacques De Moley?
Deus, como você pode ser tão desinteressado sobre algo como isso? — ela praticamente gritou – Você fez parte da ordem de cavalaria mais famosa do mundo até hoje, está doido?
Quer saber alguma coisa? Se tínhamos o Santo Graal? — zombou, enquanto o elegante maitrê se aproximava com a cartilha de vinhos.
Bom, tinham? — Elisabete parecia ao mesmo tempo cética e curiosa.
Claro que não, mais uma lenda muito boa sobre nós. Assim como aquelas pelas quais fomos julgados.
Cuspir e urinar em crucifixos? — lembrou Elisabete, com um toque de riso na voz que fez Jean sentir que estava ganhando espaço com o assunto.
Arrumou o sorriso mais malicioso em seus lábios.
Bom, creio que alguns dos meus companheiros o tenham feito realmente, estávamos bastante ultrajados de nossa maior aliada ter nos abandonado por causa de um rei invejoso e infantil.
Não me diga que conheceu Felipe IV pessoalmente?! — Elisabete parecia a ponto de ter uma síncope só de imaginar uma coisa daquelas ocorrendo.
Jean deu uma palmadinha não mão dela que estava sobre a mesa. Ficou um pouco surpreso dela não ter retirado.
O vi uma vez, mas felizmente nunca fui importante a ponto de ter que me dirigir ao verme. Mas é com pesar que lhe anuncio que ele merecia o título de O Belo.
Quem vê cara não vê coração – sentenciou ela, depois se virando pro maitrê que voltara com o vinho e pra anotar os pedidos – Você vai tomar vinho logo de manhã?
Esqueceu que não me afeta? — a taça à sua frente borbulhou com o líquido de cor escura. Muito parecido com a cor do sangue – Te convidaria a tomar uma taça comigo, mas creio que meu pedido não será aceito.
Ela ergueu as sobrancelhas muito alto.
Não, não será, eu prefiro um suco de laranja com algo que eu consiga comer sem tomar um susto. Não entendi muitos dos nomes no menu, então me faça um favor, peça por mim.
Com prazer – ele fez o pedido ao maitrê, que acenou polidamente e saiu.
Onde está seu guardião? Achei que agora ele estaria de prontidão atrás de você – comentou, colocando o assunto de interesse em pauta.
Os olhos azuis-escuro de Elisabete se acenderam.
Se você se refere ao Átila não vejo porquê ele tenha que bancar meu guarda costas, posso me defender muito bem sozinha – ela respondeu, azeda.
Não é o que parece, ao julgar pela mordida que estou vendo no seu pescoço. O que houve? Sabe que não precisa ter receio de me contar.
Elisabete baixou a cabeça, de repente muito interessada nos traços de suas mãos em cima da mesa.
Me atacaram ontem, dois deles, eu estava voltando pra casa, fui salva por Átila e Jacques – seu tom deixava claro que ela detestou não ter sido capaz de se defender sozinha, era uma afronta para uma feiticeira – Mas juro que da próxima vez que eu os ver, vou fazer com que o vento arranque suas cabeças.
Jean ignorou essa última parte, sua atenção se focou nos atacantes de Elisabete.
Como Átila te tirou dessa?
Ele atirou pra todo lado, e deve ter acertado algum, se não estaria morto a essa hora, e eu também provavelmente.
Jean se forçou a não parecer tenso. Malditos Stuart! Como podiam ter atacado a única opção que tinha de voltar a ser humano???
Tinha ido vê-los de madrugada, e encontrara a casa num pandemônio, aparentemente James se acidentara na caçada, mas ao perguntar, Mary lhe disse que não era nada demais.
E então fora falar com Will, mas ele não conseguira grande coisa em sua caçada e estava irritado, a conversa se limitou a um aviso de que ele estava saindo caçar de novo com Peter, que disse alegremente que o chefe dos D'Crécy estava muito bem escondido e cheio de balas de prata, sem a mínima possibilidade de escapar.
Mas essa vitória se apagava diante do que ele compreendia agora. O imbecil do James fora o que atacara Elisabete e levara um bom par de balas. Idiota. Teria que falar com eles mais tarde.
Eles podiam ser perigosos, mas ele também era, e bastava um aviso aos D'Crécy e eles se armariam contra os Stuart, e estariam em pé de igualdade pra lutar, não dando o elemento surpresa aos estúpidos vampiros ingleses.
Seu amigo deve ter um auto-controle muito grande pra não ter atirado no D'Créy também. Que eu saiba caçadores em qualquer circunstância não deixam seus principais inimigos escaparem.
Ela encolheu os ombros, e deu um rabo de olho em direção às portas. Jean sabia que ela estava doente por ir embora, mas ele não podia permitir sua saída enquanto não ouvisse algo que o ajudasse a tirar os D'Crécy do caminho.
Eles entraram numa espécie de trégua. Mas não posso dizer que Átila ficaria infeliz se pudesse acabar com todos eles.
Eu imagino. A briga deles é antiga ou é só moralismo de caçador mesmo?
Eles aparentemente vem brigando desde os anos de mil e quinhentos, parece que os D'Crécy quebraram um acordo que eles estipularam, pra não matar ninguém da cidade. Mas eu não questionei muito sobre isso, acho que de qualquer forma não importa muito, sei que eles são capazes de matar. Eles fizeram isso com a minha família.
Ótimo. Ele já tinha uma fogueira na qual colocaria mais lenha. Era maravilhoso que já houvesse uma desconfiança inicial, sua próxima manobra ia parecer nada mais que algo que possivelmente aconteceria.
Ele é o único que hage da família toda? — procurou parecer o mais surpreso possível.
Ele tem mais parentes que protegem os lugares onde moram, pelo que sei, já que ele não gosta muito de ficar falando. Mas aqui é só ele mesmo, o pai dele só se mexe em casos extremos. Confia que ele possa fazer as coisas sozinho – ela deu um sorriso de orgulho, me encarando diretamente nos olhos – E é certo que faz mesmo, não?
A contragosto, Jean deu um aceno de assentimento.
Certamente. Por acaso eles firmaram um trato novamente, com os D'Crécy?
Sim, mesmo que seu grau de confiança não passe de um fiapo. Eles levam como podem, e Jacques e a família são bem sérios em relação a esse acordo.
Imagino. Ah, aí estão nossos pedidos.
De qualquer maneira ele já tinha o que queria. Não precisava saber mais nada. Agora só faltava uma prova crucial. Mas o que seria tão incriminativo? Um vampiro matar um caçador não era incomum mas como ele faria parecer que especificadamente um grupo fez isso, ou no mínimo um deles? Precisaria deixar uma prova no local do crime, com toda a certeza.
Num rompante, a resposta veio, e estava nas mãos de Elisabete, linda e reluzente. Em forma de prata pesada, com uma pedra azul engastada.
Esse anel é do Jacques – comentou, fingindo surpresa – Ele te deu?
Ela encarou o objeto em seu dedos indicador.
Bem lembrado. Não foi bem uma doação, era na verdade um meio de ajudar a reconhecer o anel que estaria com minha própria família. Meu pai o deu pra mim, acho que terei de devolver este.
Sim, seria o correto, era o anel de Anne, deve ter grande significado pra ele – ele agradeceu ao maitrê que os serviu e rapidamente se retirou.
Pra você não tem? — Elisabete estava de sobrancelhas erguidas, o observando atentamente, como se esperasse vê-lo chateado. Na verdade ele se ressentia, mas não podia fazer nada, pelo menos não naquele momento. Ele tinha certeza de que Elisabete devolveria o anel, e quando o fizesse, Jean teria o que queria. Mas antes Jacques tinha que recebê-lo de volta.
O anel não é meu, por quê teria? — respondeu em tom calmo, mas com uma resquício de frieza – Seu café vai esfriar.
Ele a sentiu olhando por mais alguns momentos, então ouviu o barulho da xícara, que denunciava que Elisabete agora estava concentrada em sua comida e bebida.
Não foi chocante ver que ela se apressou o máximo que pôde pra poder ir embora. E quando o fez, Jean não a reteve. Não era necessário. Se despediu polidamente, desejando que tivesse um bom dia.
Elisabete devia aproveitar o quanto ainda podia de um pouco de calma, porque mesmo que odiasse admitir ela ficaria em pedaços ao descobrir que o homem que amava seria o responsável pela morte do pai de seu melhor amigo.
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