Série Pacto - Conspiração
15 "Sim, até para a morte"
Notas iniciais
Não posso dizer que não fiquei surpresa ao perceber que Jean não queria nada além de bater papo. Acho que viver sozinho durante tanto tempo faz você apelar até pra companhias que não vão muito com sua cara. Claro, ele é lindo, mas não significa que vou começar a passear com ele por aí. E até que foi bem útil, ele me fez lembrar que estou com uma coisa que não era minha.
Uma pontada de apreensão e nervosismo me fez diminuir os passos. Uma onda tão forte, que arquejei de choque.
Eu não tinha motivo pra ficar assim – pelo menos não no momento – então supus que não eram meus sentimentos. O aviso de Jacques me voltou a memória, o que pareceu intensificar a sensação de preocupação. Devia estar acontecendo alguma coisa com ele.
Mas o quê poderia deixar o firme e sério Jacques D'Crécy tão nervoso?
Meus pensamentos foram interrompidos pela campainha desesperada do meu celular, era surpreendente Alexandra estar acordada tão cedo.
Uau, caímos da cama hoje! Ou você não dormiu?
“Na verdade, querida amiga, eu passei boa parte de ontem arrumando os últimos detalhes pra sua festa de aniversário. Será um baile de máscaras!”
Pequena pausa para o celular rolar ao chão. Me recuperei a tempo de ouvir Alê gritar um monte de “alô!!!!”.
Desculpe, acho que entrei em estado de choque. Você disse baile de máscaras??? Você não pode fazer um baile de máscaras pra comemorar meu aniversário! — surtei, quase dando de encontro com uma árvore no meu caminho pela calçada.
Entre o constrangimento de uma super festa elegante e glamourosa e os vampiros? Sim, eu ficava com os vampiros!
“Me dê pelo menos um motivo pra seu aniversário não ser comemorado com tanto estilo”, ela estava rindo, como se estivesse prestes a ser trancada dentro da MaisonChanel.
Eu... eu... é, ora, é um baile de máscaras! Isso é chique e elitista demais! Minha mãe sequer concordou com algo desse tipo? — eu não estava acreditando. A palavra complô era muito leve pra aquelas duas!
“Meu bem, ela teve a ideia! E eu não acho que seja nem um pouco elitista, não seja preconceituosa!”, ela me repreendeu, mas não sem uma pitada de humor na frase, “Ah, vamos, Elisa, você vai adorar, até pensei em alguns modelos de vestido pra você usar! E já comprei minha máscara!”
Eu suspirei. Quem eu mataria primeiro? Mamãe ou Alê??? Era tentador as duas ao mesmo tempo.
Bom, agora já era tarde demais. Mas tinha alguma coisa errada...
Peraí, meu aniversário é no final de setembro, nós ainda estamos em Agosto, Alexandra!
“Ah, isso. Nós adiantamos um pouco, devido a grande envergadura da festa, e pra quê esperar? Seu níver cai num dia de semana, sem graça alguma! Até porque está tudo pronto, desde a lista de convidados ao bufê e o salão, não se preocupe, seu único dever é estar linda de matar e receber os convidados”.
Adiantar? — meu Deus, ninguém jamais conseguiria controlar Alexandra? — Pra quando exatamente é este “adiantar”?
Dessa vez ela pareceu hesitante em responder, como se a carga do que ia falar fosse grande demais pra despejar em cima de mim.
“ Você vai saber pela sua mãe,de qualquer jeito. Aconselho a se apressar, seu aniversário será na semana que vem”.
QUÊ??? VOCÊS ENLOUQUECERAM??? — dessa vez eu estava gritando, e além de ter assustado alguns passarinhos por perto, as pessoas ao redor me encararam como se vissem alguma louca. E bem, eu estava mesmo.
“Não seja dramática, só pense no que eu disse, seu dever é aparecer e mais nada”.
Eu não posso acreditar que você e minha mãe tenham me traído dessa maneira! Não é possível! E como você já convidou as pessoas se eu nem dei uma olhada na lista???
“Pare de se estressar, os convidados são o de menos, até por que, quem você convidaria que eu e Átila não conhecemos, hem?”
E como você faz um baile de máscaras sem mais de três pessoas, hem? — retorqui, passando todos os filmes que me lembrava com esse tema. Meu Deus, todas tinham muita gente.
“ Sim, claro que haverá mais gente, mas pra quê se preocupar com eles? Só se divirta e receba os presentes e uma festa que vai ficar pra sempre na sua memória!”
Sério. Não havia modos de combatê-la. Não mesmo.
Suspirei e passei a mão livre nos cabelos.
E se eu não aparecer?
Alexandra gargalhou pra valer.
“Até parece que você faria desfeita a sua mãe um dia! E eu vou garantir que você vá, de qualquer jeito, então de um jeito ou de outro, você irá. E tenho certeza de que não vou precisar mexer meus pauzinhos, seu amor por sua mãe é poderoso o suficiente!”.
Ela tinha razão, infelizmente. Eu jamais magoaria minha mãe. Não se ela se esforçara pra me dar um baile de arrasar.
Bufei. Pelo menos minha avó já estaria ali. Não podia piorar.
Bem, vocês venceram. Não há nada que eu possa fazer – concluí, em voz derrotada, parando no fim da calçada e esperando o sinal fechar.
“ Sim, há muito pra você fazer. Onde você está?”
Atravessando uma faixa de pedestres a caminho de casa – respondi, dando uma corridinha pra chegar no outro lado.
“ O nome da rua, palhaça”.
Ah, não, ela não ia me pegar. Eu ainda precisava fazer meu sistema psicológico aceitar que eu teria que ir atrás de um vestido e uma máscara em apenas uma semana e alguns dias. A festa obviamente seria no sábado da próxima semana.
Eu falo com você mais tarde, é melhor não me forçar nada agora, você pode correr perigo.
“Tá bom, tá bom. Às quatro horas venha aqui pra casa. E não ouse me deixar esperando”.
Até mais tarde – me despedi e desliguei, antes que ela ajuntasse mais algum pedido. Ou no caso de Alexandra, exigência.
Não andei muito tempo até chegar em casa. Estava tão silencioso que me senti um pouco deprimida de ficar lá.
Passei um tempo no computador digitando o restante do meu projeto de pesquisa e depois fiquei à toa vendo televisão. Acabei pegando no sono e entrando num sonho. Um sonho que parecia muito real.
Estava correndo, e a barra do meu vestido se arrastava no chão, era noite e chovia violentamente, os relâmpagos recortando o céu como chicotes luminosos. Eu tremia de frio, e de medo. Eu precisava chegar lá, eu precisava. Era questão de vida ou morte.
Meus pés pararam diante de uma estrada de chão que levava a um rochedo, onde estava encravado um castelo de pedra que parecia uma fortaleza impenetrável. Os raios no céu davam ares de assombrado a construção, mas mesmo com o coração na mão eu me adiantei, a barra do meu bonito vestido branco se rasgando em contato com as pedras. Era difícil correr com ele, mas não podia tirá-lo, pelo menos não o espartilho, que escondia uma arma, a arma com a qual eu o salvaria. E se ela não funcionasse, eu ainda podia usar o que sabia, ainda que muito mal aprendido.
Não me restavam alternativas. Não sabia se a ajuda chegaria a tempo.
Ergui a cabeça e me vi parada diante dos portões imponentes do castelo, pingando água. Meu Deus, como eu entraria?
Testei o trinco de ferro pesado e as portas gigantescas de madeira antiga, puxando e torcendo a primeira e empurrando com as mãos a segunda. Tentativa ridícula, mas necessária.
Fechei os olhos, as mãos ainda nas portas.
Ar que gera e dá vida, ar que me obedece e que respeito, ajude-me! — eu senti ele se acumular num redemoinho nas minhas mãos, sibilando e soprando.
Eu forcei mais a porta. Cada vez mais. Sempre forçando o ar a se tornar mais forte e rápido. Lágrimas quentes já estavam escorrendo no meu rosto, esquentando minhas bochechas enregeladas.
Vamos, você consegue Elisabete, uma Thomas não pode se dar por vencida!
Mais uma vez empurrei as mãos contra as portas, as rajadas de vento ao meu redor erguendo meus cabelos e os atirando pra todos os lados. A pressão contra as portas finalmente conseguiu dar algum resultado. As dobradiças estavam rangendo e mexendo, o trinco exatamente o mesmo. Então, respirei fundo e juntando toda minha força e controle sobre o ar, eu me joguei contra as portas, o ar fazendo uma pressão assombrosa, como se me acompanhasse.
Ouvi o som das dobradiças se retorcendo, e com um crack! o trinco se partiu e as portas se abriram, batendo com todo o peso contras as paredes de pedra cinza do castelo. O que era um feito, dado seu tamanho e peso. Caí pra dentro, me estatelando por cima de pedras e grama, exausta e ofegante. Meu corpo tremia pelo esforço feito e surgiram pontos pretos diate dos meus olhos, mas não havia tempo, eu não podia desperdiçar um minuto ali. Logo eles perceberiam que havia um invasor no castelo.
Fiquei de pé e corri em direção às portas principais, por mais uma trilha de pedra, mas dessa vez mais curta.
Subi as escadas de pedra da entrada, minhas sapatilhas também brancas em estado lastimável. Esperava que não se desintegrassem até eu cumprir minha missão suicida.
Até onde eu sabia, eu estava sozinha. Pelo menos por enquanto.
A porta de entrada era menos forte do que os portões. Havia uma gárgula à guisa de campainha, e agora que eu estava perto do alvo foi mais fácil avaliar um método de entrada e saída. Claro que eu não iria bater a gárgula, eu precisaria entrar por uma das altas janelas que me encaravam, e uma delas estava iluminada. Quantos será que eu iria encontrar???
Havia uma sebe ali, que subia luxuriante até a grande janela da esquerda, cujo interior estava escuro. E não havia proteção, como grades, só estava trancada, e se consegui derrubar portões sabe-se lá quantas vezes maiores que eu, o que seria uma tranca? O problema é que eu estava cansada, e não seria fácil naquele estado. E eu achava que era melhor procurar outra janela, uma que não fosse vizinha do aposento que estava iluminado. Mas e se fosse a prisão dele?
Mas não, eles o teriam colocado num calabouço, ele não teria tratamento vip. Muito pelo contrário. Desci as escadas e comecei a dar a volta ao largo do castelo. Não era uma corrida pequena. Havia quatro torres, apenas uma muito distante de mim, estava com sua janela iluminada por luz amarela.
Foi difícil achar um ponto onde a escuridão reinasse, mas consegui ofegar até o que pareceu o lado mais remoto do castelo, e menos ocupado, a julgar pela falta de iluminação em qualquer canto. Estranhei que não houvesse ninguém vigiando os lados de fora. Não foi uma sensação boa imaginar que poderia ser pega de surpresa. Até agora eu tinha sido discreta, menos com a parte do portão.
Escolhi uma das janelas mais próximas e baixas. Não tinha sebe. Eu teria que apelar pra minha magia com o ar.
Droga, mas eu estava cansada. Cansada de doer. Meu ossos protestavam, e a julgar pela pontada desagradável no meu tornozelo esquerdo eu o torcera sem perceber.
Novamente, pedindo, implorando, eu pedi a ajuda do ar. Eu pulei uma vez e senti-o elevar meus pés e meu corpo mais alto do que alguém normal poderia se elevar com um salto. Mas não foi o suficiente, eu caí de costas, minha coluna ardendo contra o chão. Sem hesitar me ergui de novo. Forçando as minhas energias em mais um pulo. Como antes um sopro me ajudou com o impulso.
Mas então, antes que eu subisse demais, algo se agarrou no meu tornozelo machucado, uma mão de ferro e fria como a morte, eu desci rápido e letalmente, dessa vez batendo contra algo mais duro que pedra. Só consegui conter meu grito de agonia quando ergui a cabeça e deparei com um par de olhos azuis cruéis que fizeram minha pele se arrepiar e minha dor se transformar em terror. James.
“Hello, beautiful, você fez um ótimo trabalho com o portão, queria ver até onde chegava”, eu não ousava me mexer. Até porque se eu o fizesse eu certamente ia gritar de agonia. Tinha certeza que havia uma dano sério no meu tornozelo e na minha cabeça. Mas eu precisava falar, mesmo que fosse doloroso.
“Você não vai me impedir, eu ainda sou forte o suficiente pra te matar”, rusguei, o ar passando entre meus dentes trincados.
O sorriso dele apareceu, os dentes perigosos e pontudos anunciando uma morte prazerosa, mas mesmo assim desumana.
“Realmente, não posso deixar você continuar, ordens são ordens”, ele chegou mais perto, sua arma de morte cada vez mais próxima.
Mas tinha um porém, James podia me matar. Mas eu o levaria junto comigo.
Ele me alcançou num só movimento, os dentes cravando no meu pescoço, mas antes de processar a dor nauseante que me nocauteou, antes de processar que uma chama luminosa e incandescente brilhava na minha visão periférica, a estaca dentro do meu espartilho já estava na minha mão. E carregando-a com toda a força que eu podia e tinha, torcendo pra pelo menos incapacitá-lo eu a empurrei contra seu peito.
James grunhiu, me largando num instante, seus joelhos cedendo e batendo na grama, sem nenhum grito ou tentativa de defesa. Sua pele branca murchou, enrugando-se, os olhos azuis se tornaram pretos, sem íris, e com um gorgolejar, ele caiu, sem movimento.
“Você não acertou o coração, ele vai se recuperar em no máximo quinze minutos”, avisou a voz que eu esperei ouvir o mair urgente possível depois que adentrei o castelo. Me virei pra meu irmão mais novo, cujos olhos ferviam na cor de fogo líquido, fumaça saindo de suas roupas. Jefferson era louco, tinha pedido pro fogo trazê-lo, isso deveria ter consumido toda sua energia.
“Ainda pode queimá-lo?”, perguntei, notando que a chuva estava começando a diminuir. E portanto, abafando menos barulhos externos.
Ele abanou a cabeça. Afundei de decepção. Tínhamos que dar um jeito enquanto ele estava incapacitado.
Foi aí que meu irmão sorriu, um sorriso exausto, mas triunfante.
“Mas posso acertá-lo no lugar devido”, ele tirou uma estaca como a minha de dentro da jaqueta e se aproximou de James. Eu só vi o borrão de prata passar pelo ar, e um rugir breve e fraco então James se transformou em nada mais que um cadáver enrugado e decrépito. Jefferson o chutou e poeira se ergueu.
“Eca”, ele olhou pra mim, “Qual é o plano?”
Apontei a janela que tentei escalar.
“Subir”.
Jefferson suspirou e coçou a cabeça.
“Nós vamos conseguir, mesmo que eu esteja completamente esgotado e você esteja praticamente com um pé quebrado”.
“Nenhum Thomas desiste”, reforcei, dando um aceno enfático de apoio a sua frase.
“Não, nunca”, ele confirmou, sério, os olhos brilhando no escuro, mesmo sem o fogo que os fazia queimar.
Claro que o plano era péssimo, mas não havia outro a longo prazo.
Depois de mais três tentativas frustradas eu consegui me pendurar na beirada da janela, tendo uma boa vista do interior do lugar que guardava. Era um quarto, e parecia abandonado e sem utilidade, a julgar pela poeira que cobria tudo. Não deu muito trabalho pra abri-la, a tranca estava quebrada e bastou um chacoalhão. Saltei pra dentro, procurando aluma coisa que ajudasse Jeffe a subir.
A cama de madeira pesada ainda tinha lençóis, então foi ele mesmo.
Quando o alcei pra dentro, nos encaminhamos juntos pra porta,que parecia tão frágil quanto a janela.
“Não sabemos o que vamos encontrar aí fora, está pronta?”
“Estou pronta pra qualquer coisa, Jefferson”, disse, nunca sentindo tanta verdade em minhas palavras como sentia agora.
“Até pra morte?”
Eu o encarei, a decisão em meu coração já estava formada.
“Sim, até para a morte”.
Como se tivesse levado um tapa eu acordei, ofegando e suando, meu coração batendo frenético, quase saindo pela boca. Olhei pros lados, me certificando que estava na sala da minha casa, deitada e enrolada por uma manta no sofá. A porta de entrada bateu e eu ouvi os sons de conversa do meu irmão e minha mãe. Olhei no relógio do celular. Minha nossa, era meio-dia e meio!
Saltei do sofá e corri pro meu quarto, antes que minha mãe passasse pela sala e me visse com a cara de assustada que eu certamente tinha.
Minhas roupas estavam úmidas, eu sabia que era de suor, mas poderia ser muito bem de ter me molhado numa chuva, não torrencial como no meu sonho, mas mesmo assim.
Enquanto procurava roupas secas perguntas giravam na minha cabeça. O que diabos meu irmão fazia no meu sonho? Ainda mais usando todo aquele fogo?! E James, o vampiro que tinha me atacado ainda na noite anterior, o que ele estava fazendo lá???
Deus, será que era mais que um sonho??? Ultimamente tudo que se relacionava a mim podia ter algum significado oculto, afinal das contas, pro bem ou pro mal eu era uma bruxa, magia é o que não faltava.
Abanei a cabeça. Mas não, aquilo devia ter sido um sonho, indo pra pesadelo, e como todo sonho-pesadelo as coisas eram confusas e não faziam sentido. Então por quê aquela sensação de ter que salvar alguém importante ainda não tinha se esvaído junto com meu despertar? E quem era essa pessoa a quem eu daria a vida pra mantar vivo?
Querida, você está em casa? — era a voz de mamãe, no corredor do meu quarto.
Estou, em um minuto vou pra cozinha. Preciso falar com você seriamente! — eu podia ter tido um sonho-pesadelo maluco, mas eu ainda não tinha esquecido da maldita festa.
Ela riu.
Não adianta reclamar, já está tudo encaminhado, você vai ter uma festa fabulosa!
Era isso que eu temia! — exclamei em resposta.
O almoço fica pronto em vinte minutos, venha logo!
E foi isso. Eu não tinha escapatória. Teria uma festa, e eu teria que comparecer, caso contrário minha mãe – e meu pai, com certeza – me renegaria como filha.
Foi uma surpresa, entretanto, ter meu irmão batendo na porta.
Eu posso entrar e falar com você? — sua voz me dizia claramente que mesmo que eu dissesse não, ele entraria. E era bem estranho, ele nunca usou esse tom comigo. Não era bom pra saúde física dele.
Espere um segundo, estou me trocando.
Vou te dar um minuto – mais uma vez a nota de que ele entraria comigo vestida ou não se eu demorasse – Estou contando.
Merda. Irmão pé no saco!
Exatos sessenta segundos depois ele estava entrando, enquanto eu enfiava minha cabeça dentro de um moletom.
Seu tempo acabou.
Eu uso o tempo que eu quiser pra me vestir pirralho nerd.
Eu não seria tão grossa comigo se fosse você – ele retrucou, no momento que eu saí de dentro da roupa, os cabelos pra todo lado – Não quando assim como você, eu tenho alguns truques extras que posso usar. Acho que não quer ter o cabelo em chamas, quer?
Eu abri a boca, como se ele tivesse me dado um soco. A palavra “chamas” ecoando no meu quarto.
O que você está querendo dizer? — esganicei, parando de lutar com minha roupa.
Talvez eu devesse mostrar em vez de falar, né? — ele ergueu a mão direita, e como se eu estivesse dentro do meu sonho-pesadelo de novo, uma pequena labareda pairou ali, até Jefferson fechar a palma e não restar nada além de uma fumacinha.
Eu estava imóvel, como uma estátua de pedra, ainda de queixo caído. Não, aquilo não era possível, só as mulheres tinham magia.
E então, quando você ia me contar que era bruxa e que nossos vizinhos eram vampiros e que bom, basicamente você tem que salvá-los de serem isso? E mais uma coisa, por quê eu posso usar o fogo? Eu sou homem, afinal.
Quem te contou tudo isso? — em vez de ir direto ao ponto, que era como alguém do sexo masculino tinha magia eu fui pro fato de menor importância.
Amelie. Mas não mude de assunto. Por quê eu lido com o fogo? Aliás, você lida com o quê? Amelie não me disse.
Deus. Por quê sempre as coisas explodiam diretamente em cima de mim???
Eu suspirei cansada, e o empurrei pra minha cama, o fazendo sentar.
Meu Deus. Aquele sonho-pesadelo parecia uma profecia, e eu não gostei nada disso. Me dava vontade de me esconder embaixo da cama e nunca mais sair. Aterrorizante.
Eu controlo o ar, e não sei porque você tem poder com o fogo. E também não sei porque você tem magia, sendo que é homem. Vamos ter que esperar vovó chegar pra esclarecermos toda essa bagunça.
Os olhos dele se arregalaram.
Ah, sim a vovó, então é verdade?
É. Ela é bruxa. É dessa parte da família que vem a magia.
E eu achando que isso não podia ficar mais estranho – ele comentou, dando um sorrisinho – Faz parecer aquelas histórias dos irmãos Grimm.
Acredite, não tem nada de encantado relacionado a nossa família.
Eu acredito nisso. Vampiros nunca estão nos contos de fada – ele lembrou, enrugando a testa – Parece que você tem uma dívida com os D'Crécy.
Isso é um modo de ver as coisas – encolhi os ombros. Eu não tinha que fazer nada. Ninguém podia me obrigar a nada. Nem mesmo meus sentimentos por Jacques.
Está bem, talvez um pouquinho, mas eu ainda tinha guardado na memória o fato dele ter assassinado duas parentes minhas. E que uma vez tinha me deixado bem mal.
Agora eu é que pergunto: o que você quer dizer com isso? — ele parecia muito interessado em saber qualquer detalhe a mais. Mas eu não queria ele metido em nada dessa confusão, eu e vovó poderíamos resolver sozinhas. As mulheres da nossa família sabiam sair de enrascadas.
Nada, apenas não se meta no assunto – respondi secamente, procurando minhas pantufas – É perigoso demais.
Desculpe te informar, mas acho que já estou envolvido antes mesmo de saber sobre os D'Crécy. Eu já vi vampiros antes – ele respondeu, suas sobrancelhas erguidas de um jeito presunçoso e irritante.
COMO É??? — foi quase um grito, eu parei na metade do caminho pra colocar um pé de pantufa no pé – Isso é impossível!
Eu os vi ontem, e eles teriam me pegado, se eu não tivesse mostrado o fogo pra eles, desapareceram num instante. Pena que não pude salvar as duas mulheres que mataram, mas dei o alerta pra polícia, provavelmente vamos ouvir sobre isso no noticiário – ele relatou, com expressão sombria e um tanto assustada.
Eu queria dar um abraço de consolo, mas eu estava dividida entre isso e estrangulá-lo.
Por quê diabos você estava fora de casa de madrugada??? Você enlouqueceu??
Jefferson me deu uma encarada de desculpas.
Eu estava preocupado com você, não conseguia dormir, e fiquei desconfiado que não estava no lugar que Átila disse que estava. Pode me dizer, Elisa, você não estava com ele e nem na casa de Alexandra, não é?
Fiquei sustentando seu olhar até não o suportar mais. Se eu um dia poderia duvidar que meu irmão não se preocupava muito comigo, ali estava a prova do contrário. Ele me amava, e tinha quase sido comido por vampiros por minha causa.
Não – suspirei, colocando o outro pé da pantufa – Estive em uma situação parecida com a sua, na verdade bem pior. Se não fosse Átila e Jacques, a essa altura você seria filho único.
Jefferson fez uma careta de surpresa chocada.
O que Átila tem a ver com isso?
Ai, Deus – virei os olhos para o teto — Quer saber, estou exausta de ter que dar mais detalhes, pergunte você mesmo pra ele ou peça pra Amelie. Preciso de pelo menos um dia na minha vida que me faça sentir normal. Sem vampiros, e sem a história de feiticeira. Vou almoçar, vem junto ou pretende passar o dia aqui no meu quarto? — eu queria mesmo pensar em outra coisa que não envolvesse nada sobrenatural – pra todas as pessoas em geral – ou ancestrais malucas que ficam jogando maldições em outras famílias.
E se eles não quiserem me responder? — Jeffe indagou em dúvida.
O fitei com ceticismo.
Até parece que um deles vai negar te contar alguma coisa, agora que já sabe – revirei os olhos de novo – Venha.
Bom, de fato é difícil pra qualquer um negar informação pra alguém tão inteligente e bonito como eu – ele sorriu pra mim, sua expressão convencida me fazendo girar os olhos nas órbitas mais uma vez.
Cale a boca, homem labareda – mandei, enquanto nos dirigíamos pra cozinha – O que me espanta é você não parecer estar sentindo um pingo de medo. Está agindo como se mexer com fogo e vampiros serem seus vizinhos fosse alguma coisa tão comum como andar de bicicleta.
Foi a vez dele rolar os olhos.
Claro que estou com medo Elisa – seu tom veemente não deixou dúvidas quanto a esse ponto – Mas o que eu deveria fazer? Me esconder dentro do meu armário? Eu não vou fazer isso, posso muito bem engolir meus temores e fingir que eles não existem, mesmo tremendo por dentro. Você não faz o mesmo?
Na maior parte do tempo, embora o desejo de me esconder no armário seja uma constante.
De novo recebi um par de sobrancelhas erguidas, dessa vez pensativas.
Não posso te culpar por querer ficar com essa opção. Mas os Thomas nunca fazem escolhas fáceis, né?
Concordei com um aceno.
Não, não fazem.
Ainda bem que eu podia contar com Alexandra e minha mãe pra me manterem com os pés no chão.
Depois de almoçar e saber que papai não nos acompanharia hoje por causa de uma reunião que se arrastou pelo horário de almoço, Jefferson se retirou para seu próprio quarto, pra seu cochilo da tarde, então mamãe me fez ir até o quarto dela e do papai, porque aparentemente ela queria me dar um presente.
É seu vestido de aniversário. Sei que era você que deveria escolher, mas quando o vi não tive dúvidas de que deveria comprá-lo. Há uma máscara também. Claro que ainda pode trocar se quiser – ela acenou pra caixa em cima do edredom preto da cama. A caixa era longa e branca, dando um contraste bonito. E parecia ter saído de uma loja fina e cara. Nada de vestido de shopping.
Toquei o laço discreto na tampa, de um dourado pálido.
Mãe, você não pagou muito por ele, pagou? Não quero você gastando dinheiro em...
Não importa, Elisa. Eu só quero que você esteja perfeita pra essa festa, nada mais, nada menos – ela colocou uma mão sobre meu ombro, e de repente me senti mais otimista em relação à comemoração adiantada dos meus dezenove anos.
Abri um sorriso em sua direção.
Obrigada, mãe – ela se aproximou mais e me abraçou. Como era bom saber que mesmo uma filha meio biruta como eu ainda tinha o amor incondicional de sua mãe. Me fazia sentir bem, como se só com isso ela pudesse apagar todas as minhas angústias, mesmo que ela não soubesse de metade delas. Ou se for pensar bem, de todas elas – Eu confio no seu bom gosto, é bem provável que eu não precise trocá-lo.
Antes abra, melhor confirmar essa sua teoria! – ela riu animada, acenando ansiosa pra caixa – Vamos, abra logo!
Rindo também, tirei a tampa e o papel celofane do caminho.
Meu riso esvaiu-se como fumaça.
Transformou-se numa pura onda de arrepios, que desceram da minha nuca, fazendo um caminho gelado e ágil pela minha espinha até chegar em sua base.
O vestido era de cetim vermelho, tal qual sangue. A saia caia em uma onda de camadas até os tornozelos, com suavidade, e a parte de cima era apenas um corpete, cujas alças eram decoradas com flores negras, onde no centro iam lindas pérolas falsas.
Era ele, o mesmo vestido do sonho, a cor era a única diferença, nada mais.
Minha mãe logo colocou outra caixa em minhas mãos. Ela era menor, e eu sabia muito bem que seriam os sapatos. Quando abri a tampa e verifiquei, foi uma surpresa que as sapatilhas não estivessem ali. Tive que me conter pra não escorregar pro chão de alívio.
Eram sapatos pretos de salto alto, onde o fecho era uma incrível amarração de cetim vermelho, como o vestido.
Procurei pela máscara dentro da caixa, embaixo do vestido. Ela era muito simples. Apenas cobria a parte dos olhos, feita de acrílico transparente e arrematado com renda preta. Era óbvio que não esconderia minha identidade, apenas servia pra dar um toque a mais, num figurino fabuloso. Não que cada vez que eu me lembrava da minha corrida na chuva, e esse mesmo vestido, apenas diferente por ser branco, acompanhando minha luta contra forças que podiam tirar de mim aquele alguém que eu tanto queria proteger, não me revirasse o estômago e mandasse mais arrepios pelo meu corpo.
Era de novo aquela sensação de presságio, como se meu sonho-pesadelo fosse um aviso de tempos que estavam por vir. Aquilo fazia com que eu me sentisse fraca e impotente.
Porque se não era uma espécie de presságio, no mínimo era uma aviso de perigo, porque certamente duas coisas tinham vindo na minha direção depois do sonho: a revelação de que meu irmão podia usar fogo, e portanto também era bruxo, e o vestido.
Filha? — o chamado de minha mãe me tirou dos pensamentos confusos – Você parece assustada ou é impressão minha?
Dei uma risada nervosa.
Sim, estou, com o quantia que você deve ter gasto nisso tudo! — era melhor não tentar negar, meu rosto devia estar muito óbvio.
Ela riu, como se fosse um absurdo eu estar preocupada com algo tão supérfluo como o preço de uma roupa.
Não seja exagerada, posso ter gasto um pouquinho mais que o normal, mas vai valer a pena. Estou doida pra ter ver usando essa maravilha, e a máscara de renda?! Perfeita! — mais parecia que o aniversário era dela e não meu. Bom, de certa forma podia até ser um modo dela me dar o que não teve, podia entender, eu faria o mesmo na situação inversa.
Sim, é tudo muito lindo. Mas... você já contou pro papai sobre essas comprinhas extras?
O que você acha? Ele foi o que mais apoiou tudo isso!
Eu sabia. Eu tinha um complô formado contra mim desde o início, era impossível escapar das artimanhas dos três.
Muito bem, só espero que a festa não saia tão cara quanto a roupa – me ergui da cama, com as duas caixas muito bem seguras nas mãos. Mamãe inclinou a cabeça pra um lado e seus lábios se entreabriam, como se ela fosse falar alguma coisa, mas voltou atrás no mesmo instante.
Bem, talvez você deva perguntar pra Alexandra – ela encolheu os ombros.
Então eu já sei que é perda de tempo, ela nunca vai dizer nada – respirei fundo, e lancei um olhar longo e agradecido à minha mãe – Obrigada, realmente não era necessário.
De nada, querida – ela me abraçou, acariciando meus cabelos – Ah, e sua avó ligou, ela estará aqui pro seu aniversário, está feliz de poder rever seu filho, netos e sua nora! — ela balançou as sobrancelhas, claramente contente.
Fico feliz de saber – eu estava mais que ansiosa pela presença da minha avó. Eu poderia finalmente, sanar algumas dúvidas cruciais sobre minhas capacidades mágicas.
Conversamos mais um pouco, no geral sobre assuntos que não envolviam nada incomum. Apenas como estavam suas aulas, as minhas, os planos de onde passaríamos as nossas férias de verão e assim por diante.
Quando voltei pro meu quarto foi apenas para deixar meus presentes. Eu tinha que fazer uma devolução. Afinal das contas, o anel de Jacques já tinha ajudado em seu propósito. E eu já adquirira o meu. Não o usava muito, mas ficava muito bem guardado em minha caixa de jóias. Nem sabia porque tinha colocado o anel de Jacques ao sair de manhã. Talvez meu subconsciente registrasse o fato de que ele me salvara muitas vezes, e por isso algo relacionado a ele me dava segurança. Sei lá, podia ser algo do tipo.
Mas como Jean enfatizara, devia ter valor para ele, sentimental. Afinal, tinha sido o anel de Anne, que o dera para ele. Pensar nisso fez uma bola se formar na minha garganta. Uma parte ainda não conseguia se livrar do sentimento de rejeição, e ainda por cima por alguém que não merecia tamanha devoção e estava morta, por Deus!
Percebi que estava respirando rapidamente, como se tivesse corrido muito. Procurei me acalmar, eu não podia enfrentar Jacques desse jeito.
Ele podia ter me deixado de lado por um estúpido fantasma que ajudara ele a ser o que era, mas eu não deixaria as emoções tomarem conta.
Ainda tinha muito orgulho me sobrando.
Fale com o autor