Série Pacto - Conspiração

10 O elo perdido (Jefferson Thomas)


Notas iniciais
O último do dia, Bru, amanha tem mais! bjokas!

Eu olhava o relógio da parede na sala, onde eu estava lendo um livro velho e surrado, que continha desenhos. Não eram desenhos comuns. E também não era comum minha irmã se atrasasse tanto pra chegar em casa. Mesmo que meus pais dissessem que ela estava com Átila no Rock's e que ia mesmo chegar mais tarde, eu tinha a sensação esquisita que não era a verdade. Como não tinha sido verdade a lorota do assalto da vez passada. Ela andava tão esquisita, agitada e nervosa... Nunca fomos muito de sentar e conversar, com o tempo que eu gasto com a escola , futebol e atividades extra, e com a faculdade dela, é meio difícil. Nem nos finais de semana.

Bateu meia-noite. Larguei o livro e segui pro meu quarto. Eu daria uma olhada melhor no dia seguinte. Estava cansado demais pra decifrar rabiscos, embora um deles tenha feito sentido: a cruz celta na capa.

Meu pai tinha explicado que isso não passava de lenda na família, e que a única coisa assustadora que ele tinha visto até hoje dentro da nossa família, tinha sido a capacidade de seus membros de ficarem mudando de lugar em lugar como ciganos.

Não era muito animador.

Além da cruz, havia outros, mas eu não consegui entender sua importância. De resto, mais nada. Essa coisa de bruxaria devia ser lenda mesmo. Mas se fosse isso, como eu poderia explicar meu poder com o fogo? Aquilo não me parecia ser algo normal, que acontecesse com todo mundo. Ainda bem, se não tudo estaria num caos completo.

Vesti o pijama e me enfiei na cama.

Eu não tinha conseguido falar com Amelie. Quando liguei pro celular ninguém atendeu, e quando tentei o residencial, um de seus irmãos – acho que era o Marc pela voz – avisou que ela já estava dormindo.

Eu estava me sentindo tão inquieto sobre ela e minha irmã. Era como se estivesse acontecendo algo sério com as duas e eu não soubesse.

Que Amelie tinha um segredo eu sabia, ela mesma tinha me dado a pista, mas eu jamais iria forçá-la a falar contra a vontade. Mesmo assim eu me sentia apreensivo.

Ergui uma mão contra o escuro do meu quarto, e uma chama se materializou na palma quase instantaneamente. Claro que não me machucava, o fogo gostava de mim. E eu gostava dele, éramos como almas gêmeas, feitos um para o outro.

Fechei a mão, e no lugar da chama só ficou ar.

Fiquei rolando na cama, tentando dormir, mas não consegui. Eram duas horas da manhã, de acordo com o relógio do meu celular. Eu não tinha ouvido um ruído sequer dentro de casa.

Elisa ainda não havia voltado, isso era fato.

Levantei, empurrando as cobertas pro lado e bufei, exasperado. Alguma coisa estava errada. Não dava pra deixar de lado.

Apanhei as primeiras roupas que minhas mãos alcançaram dentro do guarda-roupa e o meu surrado sobretudo de sarja preto.

Mas quando cheguei, na ponta dos pés, em frente a porta, me peguei pensando no que estava prestes a fazer. Minha irmã podia estar na casa de Alexandra ou Átila, estava com ele no Rock's.

Um calor percorreu meu corpo, e queimou dentro da minha cabeça, suave.

Havia um ponto fora do lugar. Meus pais tinham falado com Átila, não com Elisa. E ela sempre telefonava pessoalmente. E todas as coisas estranhas que haviam acontecido com ela ultimamente, as desculpas não vinham de chamadas com sua própria voz.

Abri a porta, lentamente, e a fechei do mesmo modo.

Quando pisei fora dos portões, fiquei indeciso. Onde ela estaria de qualquer maneira? Talvez eu estivesse só paranóico, mas de novo a inquietude e o fogo brando em minha mente, me alertou que eu estava certo.

Saí, disposto a percorrer o caminho até o Rock's e começar de lá.

Não tive medo de encontrar algum obstáculo – de qualquer tipo que sua imaginação conceber – eu me sentia estranho, como se o fogo me protegesse, caminhasse junto comigo.

Não topei com ninguém possivelmente perigoso, a não ser mendigos ocasionais, dormindo por algum canto das ruas.

Depois de tanto tempo andando, só notei que estava na Praça de São Miguel quando me deparei com a cena mais grotesca e assustadora que meus olhos já tinham visto.

Havia dois homens na praça, cada um deles segurava uma mulher nos braços, com as cabeças afundadas em seus pescoços, o sangue que escorria por suas roupas pingava no chão, manchando as figuras em mosaico no chão de vermelho-vivo.

Um deles, como se sentisse que era observado, ergueu a cabeça, a boca escancarada, gotejando sangue, duas presas mortíferas brilhando brancas mesmo com a cor vermelha as manchando parcialmente.

Como se fosse feito de engrenagens poderosas, meu cérebro, em velocidade máxima, juntou todos os acontecimentos sobre pescoços perfurados que eu mantive na memória, juntando o elo perdido sobre todas as mortes. O fascínio diante desses assassinatos evaporou como nuvens de fumaça. Porque não havia fascínio, só havia terror e choque. Meus pés pareciam chumbo, e minhas mãos começaram a tremer.

Todas as minhas explicações lógicas caíram por terra definitivamente com a cena à minha frente.

Eu era o garoto que tacava fogo em árvores.

E vampiros existiam.

E a julgar pelo rosnar baixo e diabólico que eu ouvi da garganta dos dois, que me encaravam com toda sua atenção, eles ainda estavam com fome.

Notas finais
;)