Série Pacto - Conspiração

3 Lua alta no céu (Jacques D'Crécy)


Notas iniciais
Aewwwwww, vo arrumar toda essa formatação depois, ta dando muito serviço! Lê a vontade Bru!

Ela não correu, e tampouco desviou os olhos azuis escuros e lacrimejantes dos meus. Eu via que ela estava se esforçando para não ceder às lágrimas, ainda se agarrava com unhas e dentes ao orgulho.

Ela disse alguma coisa ao caçador ao lado dela. Ouvi a resposta apreensiva, “Tem certeza?”, um aceno firme de cabeça lhe foi dado em resposta.

E então Átila a beijou no rosto e se foi, passando por mim sem me dirigir o olhar, “Você tem água benta, não esqueça!”, exclamou, virando a cabeça por sobre os ombros.

Elisabete assentiu com um revirar de olhos e notei ela remexendo no bolso externo da jaqueta.

Me mantive na minha posição rente à calçada, ao lado do meio-fio, porque não podia prever qual seria a reação dela se eu tentasse me aproximar. Só por sua expressão eu já sabia que Jean Dupré fizera seu trabalho sujo, e provavelmente minha reputação escorrera para a sarjeta de vez.

E lamentavelmente eu diria: mea culpa.

Porque eu tinha assassinado Teresa Botulli no auge da ira. E em todos os anos a vergonha e a culpa nunca me abandonaram por causa disso.

Eu tinha sido cruel. Ou em bom e velho vernáculo, um verdadeiro monstro.

Agora era enfrentar as consequências.

Elisabete se aproximou com cautela, medindo os passos, até estar diante de mim, em sua postura altiva e graciosa. Ela não era frágil, era alta, e tinha aquela espécie de corpo saudável, como as garotas que jogavam vôlei.

Elisabete.

Jacques.

Provavelmente Jean lhe contou meu passado sangrento, não?

Sim, contou – percebi que ela se encolheu um pouco, de modo quase imperceptível, como se estivesse se protegendo – É verdade?

Não sei o quanto ele contou, mas sim, eu matei Teresa, se é isso que deseja confirmar.

Os olhos dela brilharam de lágrimas, arrasados. Um nó se formou em minha garganta.

Humm... — ela respirou tremulamente, olhando pros lados da rua iluminada e barulhenta de carros.

Estiquei a mão, mas ela recuou.

Não, Jacques, eu estabeleci um limite pra você, e ele está em vigor agora mais do que nunca – ela balançava a cabeça, os cabelos castanhos roçando rápido nos ombros.

Eu jamais tentaria matar você, Elisabete – declarei, mesmo sabendo que ela não acreditaria. Eu não tinha muitos bons precedentes.

Foi como pensei, o rosto dela entortou de descrença e sem se aperceber, uma de suas mãos subiu acima da sobrancelha direita. A cicatriz do soco que eu dera reluzia fina e branca, assim como a minha.

Você sabe que não acredito nisso, Jacques, já vi seu pior lado, lembre-se – ela resmungou, de testa enrugada – Agora não sei o que pensar, preciso ficar sozinha e tentar... — ela remexia as mãos como uma criança aflita — … nem sei mais, só quero ficar sozinha. Espero que vovó chegue logo – suspirou, mexendo nas pontas dos cabelos desamparada.

Quer que eu me afaste? — perguntei, me surpreendendo com o mau-estar que aquilo já me causava.

Quero que vocês todos se afastem – ela corrigiu, ainda segurando as pontas dos cabelos e olhando diretamente pra tudo menos pra mim. Tudo bem, eu podia aguentar isso. Era o preço.

Não posso falar por minha família, Elisa. Nós iríamos contar tudo pra você, até mesmo as partes que nos denigrem, mas esperávamos que sua avó estivesse junto pra...

Me fazer entender? — ela completou num tom descrente – Não preciso que minha avó esteja aqui pra saber o que é assassinato, Jacques.

Franzi o rosto, chateado.

Eu e Hugo somos culpados, sim. Mas não significa que não nos arrependemos do que fizemos, porque acredite, não houve um dia depois daquele que eu não tenha me sentido culpado pelo que houve – me movi devagar na direção dela, que não se mexeu – Mas até assassinos podem ser perdoados, não podem, Elisabete?

Eu... eu não sei, eu... — ela fechou os olhos e se calou por segundos que pareceram séculos – Eu preciso digerir isso, e farei melhor se ninguém de sua família ficar me sobrevoando.

Eu não pude evitar sorrir.

Você sabe que não podemos nos transformar em morcegos, Elisa.

Muito à contragosto, percebi, ela deu um sorriso de lábios.

Ainda bem que não – disse em voz baixa – Eu vou... pra casa, acho. Não tenho pra onde ir mais, de qualquer modo... — ela encolheu os ombros, ausente. E foi se afastando, andando de costas por algumas passadas, ajeitando a bolsa cheia de livros nos ombros, me deu uma última olhada triste e então se virou, e tudo que eu pude ver foram seus cabelos no meio das costas.

Encarei o hotel. Desgraçado Jean Dupré. Ele se veria comigo. Mas não hoje.

Eu tinha problemas maiores que ele em minhas mãos.

A tênue confiança que Elisabete sentia por mim e minha família agora virara fumaça. E eu tinha que recuperá-la, antes que ela começasse a acreditar em tudo que Jean lhe dizia. Porque ele também precisava das Saint Germain, e usaria tudo que estivesse em seu alcance pra conseguir isso e nos deixar na escuridão pra sempre.

Se havia alguém que sabia matar como ninguém era Jean Dupré. Eu me recordava o suficiente da nossa cruzada e da Guerra dos Cem Anos, pra afirmar.

Mas claro que ele não diria nada disso a Elisabete.

Meu celular apitou e quando o abri descobri uma mensagem de Alienor:

vc sabe onde amelie está? Se estiver com vc, por favor, responda.

Achei estranho, apesar de estarem em pé de guerra por causa de Jefferson, geralmente as duas sempre andavam juntas:

Amelie não está cmgo. Alias, pq qr sabr?

Mamae sta preocupada. Sabe, axo q ainda c lembra do probleminha q nossa irma tem..

eu me lembro mto bem. E caso vc tenha esqcido faz tempo q ela naum tm uma crise. A ultima foi qndo ela tentou chupar o pescoço da elisabete. Diga a mamae pra parar de ser tao paranoica.

Eu não vou dizer nada. Venha vc mesmo acalmar essa maluca, sab q ela nunk me escuta.

Pq crá?

Vá pro inferno, Jacques.

Já estamos nele a séculos, sua tola.

Ela não respondeu. Devia estar ultrajada por tê-la chamado de tola. Verdade, nada mais que verdade. Ela não era como Amelie, que apesar da doença usava o cérebro como ninguém, suas notas eram as melhores da sala.

Bom, talvez isso se deva a tempos de prática pelos milhares de escolas pelas quais ela passou. O engraçado é que mesmo assim Alienor ainda se fiava em seu belo rosto e corpo pra conseguir o que queria. Uma pena. E uma tolice sem tamanho.

Quando cheguei em casa e me encaminhei desanimado pra espaçosa sala de estar, no coração da nossa mansão, encontrei Hugo lá, não ao piano como devia, mas observando a lua pelas janelas francesas. Ele parecia muito com aqueles anjos de cemitérios, melancólico com a luz da lua batendo sobre sua pele, mas cândido e adorável. Só mesmo quem o conhecia como eu e o resto da família pra saber que nem sempre ele era tão adorável assim, se havia alguém forte e duro ali, esse alguém era Hugo. O nosso arqueiro.

Você parece estar com problemas – ele comentou quando me sentei na poltrona mais próxima dele, sem desviar a vista da lua.

Todos estamos, Hugo. Jean contou alguns fatos desagradáveis de nossa família para Elisabete.

Ele me encarou, os braços cruzados sobre o peito, mas não fez mais nenhum movimento além desse.

Uma hora ela saberia, e talvez mesmo que pretendêssemos contar com a avó dela aqui a reação fosse a mesma. Sei que não foi boa só de observar seu rosto, Jacques – ele colocou as mãos nos bolsos dos jeans.

Era sempre tão estranho vê-lo com roupas modernas. Pareciam deslocadas nele, como se este século não combinasse com sua estrutura e personalidade. Sempre pensei que o século XIX pertencia a meu irmão, com suas roupas românticas e gravatas elaboradas, a música, o espírito. Mesmo quando ainda éramos pessoas normais, o tempo em que vivíamos parecia difícil e triste pra Hugo, com toda aquela religiosidade extrema. Ele era artístico demais pra aqueles anos sufocados pela igreja.

O problema é que ela quer que fiquemos longe e...

É o que faremos, Jacques, o que você esperava? Ela deve estar com medo! — ele me fitou com olhos surpresos – Pensa que talvez possamos fazer o mesmo com ela e a avó.

Mas não o faremos – declarei obstinadamente.

Uma sobrancelha clara se ergueu sobre a testa imaculada do meu irmão mais novo.

Quem garante? Nossa natureza é dada à violência, Jacques.

Eu sei disso, Hugo, mas nós não podemos cometer mais erro algum, já perdemos a confiança da Elisabete, não sabemos se ela concordará em reverter o feitiço.

Pro meu espanto, um sorriso suave deslocou os lábios de Hugo e as duas fileiras de seus dentes brancos e retos apareceram. Meu irmão permanecia com os mesmos dentes que tinha na época em que crescemos, sem a mínima falha, o que era um verdadeiro milagre, afinal escova e pasta nem sonhavam em aparecer naqueles tempos.

Ela ama você, essa é a fraqueza dela.

Estreitei meus olhos suspeitosamente.

Eu não vou usar isso pra beneficiar nosso caso, Hugo, não é certo.

E o que é certo, hem? — ele mudou o tom de voz, estava seco – Ficarmos assim por mais tempo??? Eu estou cansado, irmão, cansado, tenho 833 anos, eu não suporto mais a idéia de que poderei viver ainda mais! Eu quero voltar a ser humano, eu quero poder esperar pela morte! — ele começou a andar de lá pra cá pelo grosso tapete persa – Eu quero poder me redimir da culpa que carrego por infringir esse feitiço à minha família inteira!

Me levantei e tentei segurá-lo, mas Hugo me repeliu.

Você sabe que a culpa não é sua, Hugo, apenas fomos vítimas de um senhor feudal maluco e de bruxas assustadas.

Ele estava de costas pra mim, com a cabeça baixa.

Não, Jacques, não tente redimir a minha parcela de responsabilidade.

O único pecado que você cometeu foi amar demais, Hugo. E infelizmente é o mal desta família. Veja eu e Anne...

Foi então que ele girou o corpo, ficando de frente.

Você e Anne? — ele repetiu com alguma centelha de desprezo na entonação – Você sabe muito bem o que eu pensava dela, Jacques. Aquela garota nunca poderia ter feito você feliz. Se lembra do que Amelie ouviu, não lembra?

Eu gostaria que não tocasse nesse assunto, Hugo – pedi, em tom gélido.

Meu irmão mais novo chegou muito perto do meu rosto, focalizando seus olhos claros nos meus intensamente, como se pudesse ler meus pensamentos e sentimentos.

Sabe que é o irmão que mais admiro, não sabe, Jacques? Você sempre foi muito corajoso e generoso em tudo na sua vida, mas eu lamento que também foi muito ingênuo em relação a várias coisas também, Anne foi uma delas – ele abanou a cabeça – Meu Deus, Jacques, tire essa mulher do seu coração, as lembranças dela são um veneno, não bálsamo!

CALE A BOCA, HUGO!!! O QUE VOCÊ ENTENDE??? — rugi, enquanto ele dava um passo pra trás, cauteloso, mas sem alterar a expressão. Era sempre difícil assustar Hugo.

Entendo que quanto mais se afoga no passado menor será a chance de ser feliz quando voltar a ser humano, Jacques. Que caminho irá trilhar se não consegue esquecer a víbora que trepava com outro enquanto estava com você??? — ele elevou a voz na última frase, os olhos saltando nas órbitas de maneira alarmante.

Foi como se uma navalha afiada já em meu peito cravasse ainda mais fundo.

Acho melhor eu subir e conversar com nosso pai, esse assunto está encerrado – anunciei entre dentes, meu maxilar tão duro que parecia pedra. Eu fervilhava, se meu coração batesse normalmente ele estaria disparado com um corcel sem rumo, mas ele mantinha o ritmo de uma batida por minuto.

Girei nos calcanhares, precisava me afastar de Hugo antes que cedesse ao meu impulso de quebrar sua espinha.

Tudo bem, irmão, fuja o quanto quiser. Sempre soube que não era muito inteligente, mas hoje sua burrice atingiu um nível mais que sobrehumano, minhas sinceras felicitações – Hugo comentou calmamente, embora eu captasse uma leve sugestão de zombaria.

Meu corpo parou ao ouvir as palavras, e ordenei a mim mesmo manter a paciência, enquanto minhas mãos se fechavam em punhos de aço e meus músculos se retesavam, o calor que subia pela minha pele era dilacerante e eu podia sentir o rosto saltando em veias grossas e ameaçadoras.

Mas antes que eu desse vasão ao meu eu violento o som de risos no corredor atravessou minha fúria e me distraiu.

Amelie entrou na sala acompanhada por Jefferson, que a encarava como se visse a salvação de sua vida. Certamente ele o era da minha irmã mais querida. Por isso fiz um esforço pra consertar a expressão.

Os dois pararam a uns dois metros de mim e encararam.

Estamos interrompendo alguma coisa? — indagou Jefferson, dardejando os olhos castanhos e grandes de mim para além dos meus ombros – Você está bem?

Sim, eles estão bem, não se preocupe, Jefferson – Amelie o puxou pela manga, claramente na intenção de sair da sala.

Não precisam sair crianças, eu e Jacques estamos de saída – avisou Hugo, em algum ponto a minha esquerda. A direção onde estava a porta de comunicação com a biblioteca – Até logo – ouvi o clique alto da porta se abrindo e depois fechando num baque surdo.

Até logo – passei pelos dois, notando que minha irmã não me tirava de vista, sua expressão desconfiada.

A ignorei, deixando-os para trás. Eu iria enfrentar o chefe da família. E isso exigiria meu alto nível de concentração.

Ele estava em seu escritório, falando ao telefone com a capital. Sabia disso pelo tom formal e cheio de autoridade. Devia estar resolvendo algum problema com nossos fundos de investimento. O dinheiro acumulado em séculos estava repartido em frações, cada uma em coisas diferentes: imóveis e ações, por exemplo. Meu pai comandava uma grande rede de lojas de departamento dentro do país, e grandes centros de mineração na África, ouro e diamante. Mas ele tinha ótimos subordinados, duas famílias obedientes, que sabiam sobre nossa condição real, mas que não se importavam, pois lucravam muito à serviço de Julian D'Crécy. Realmente nenhum de nós precisaria trabalhar ou estudar, temos riqueza a perder de vista, e diplomas em excesso. Mas isso geralmente nos tira do tédio em que os anos nos submeteram.

Ele desligou o telefone e suspirou.

Problemas na África, uma explosão mal calculada dentro de uma das minas matou vários dos meus trabalhadores, o que é lamentável – ele passou a mão pelos cabelos – Terei que ir dar uma olhada por lá, não tenho escolha... Tem alguma coisa pra me falar?

Sim, e creio que não são notícias boas.

Uma notícia ruim a mais não vai me deixar mais triste – ele fez um gesto com a mão, me convidando a continuar.

Essas não lhe deixarão triste meu pai, o deixarão furioso.

Finalmente ele me encarou diretamente, com olhos cautelosos.

Foi Jean, ele conseguiu encontrar-se com Elisabete, e infelizmente pra nós, contou nosso passado manchado, com o caso das Bottulli.

Mau pai socou a mesa ao mesmo tempo em que xingava baixo.

Maldito garoto! Claro que ele irá tentar levar a garota pro lado dele de alguma maneira, precisa dela tanto quanto nós. Tentou conversar com ela?

Assenti com a cabeça.

Sim, mas ela pediu um tempo, quer que nos afastemos por enquanto.

Você esclareceu o quanto isso foi um ato lamentável cometido por nossa família, Jacques?

Sim, mas não creio que somente nosso arrependimento a tenha convencido de que não somos mais que um bando de assassinos – comentei, encolhendo os ombros impotente.

Os olhos azuis me avaliaram pensativamente no momento de silêncio que se seguiu.

Nós nos afastaremos, como foi o pedido dela, mas você não o fará, Jacques – ele finalmente falou, ainda com a vista cravada em meu rosto.

Como? — interpelei, com um piscar de olhos surpreso.

Exatamente o que ouviu. Ela ama você.

Ergui uma sobrancelha.

Não há comprovação desta afirmação, meu pai.

O olhar que a vi lançar pra você ontem é prova suficiente. Sabe muito bem que raramente erro num julgamento – ele lembrou enfaticamente.

Oui, pére – concordei, obediente.

Fique perto dela, não a deixe sozinha, reconquiste a confiança dela, creio que não será difícil. Mantenha-a longe de Jean Dupré. Ele não vencerá essa guerra. Ficou claro, Jacques? — havia um tom sério e definitivo em sua voz.

Provavelmente não adiantaria um protesto, mas eu sou conhecido pela determinação – teimosia nas palavras de meus pais e irmãos.

Mas não...

Acho que entendemos que isto não é um pedido – ele cortou, de modo eficiente – Faça-o.

Sustentei seu olhar duro até meu limite, e depois disso baixei o rosto.

Como quiser, pai – fiz um aceno breve de cabeça e me ergui da cadeira – Com sua licença.

Toda – ele abanou a mão pra porta uma vez e baixou pra apanhar o telefone novamente.

Saí na hora em que ele tornava a falar com o outro lado da linha.

Quando entrei em meu quarto e me dirigi às janelas, os raios da lua me atingiram como num banho de prata, era a cheia, e estava fabulosa. Parecia um lembrete da noite em que fomos amaldiçoados.

Agora era meu dever fazer com que na próxima o poder das Saint Germain estivesse do lado da minha família e não de Jean.

Eu podia contar com alguma vantagem, mas não tinha uma noção de quanto podia me valer dela.

Não que fosse ser um trabalho indesejado. Eu não gostava da ideia de me afastar de Elisabete, e certamente apreciava sua companhia. Mais do que deveria.

Procurei não pensar sobre este fato em específico.

Eu não queria saber.

Notas finais
;)