Série Pacto - Conspiração
4 Sutileza
Notas iniciais
Eu não voltei pra faculdade.
Na verdade fiquei vagando pelas ruas, andando à esmo até me sentar numa das praças no centro. Não tinha muita gente, mas eu podia contar com um monte de carros passando sem parar. As luzes me traziam um pouco de calma, luzes artificiais eram modernas, eram seguras. Me passavam a sensação de normalidade.
Ergui as pernas e envolvi os joelhos com os braços, apoiando a cabeça neles. As buzinas, o cheiro de gasolina, os risos das pessoas por ali, tudo me acalmava. Não queria mais pensar em coisas remotas, de tempos que eu não entendia, das pessoas que eu não entendia.
Respirei fundo, ordenando a mim mesma que fosse forte, que resistisse.
Ar, se me escuta, me ajude, preciso de você, do seu poder... — sussurrei frenética, as lágrimas quentes que tentei conter escorrendo.
Uma lufada de ar frio me atingiu, fazendo um pequeno tornado com as folhas do chão, agitando os galhos das árvores mais próximas.
Não é suficiente – reclamei, com voz fraca.
O ar girou com mais força, pude até sentir quando o fez, e rodopiou à minha volta, me despenteando de forma violenta.
Nossa, será que vai chover? O vento está tão forte... — uma voz de garota comentou alto do banco à cinco metros de distância do meu.
Dei um sorriso involuntário.
Tudo bem, ar, pode descansar, não precisamos chamar atenção – declarei, sentindo uma sensação de alívio me invadir. Era tão estranho que eu mesma não me assustasse com o fato de poder comandar o ar, parecia tão natural...
Meu telefone celular tocou, interrompendo meu momento eu-sou-mesmo-uma-feiticeira.
Antes de atender Alexandra vi um mini envelope no canto do visor, indicando que havia mensagem. Mas eu podia ler depois.
Espero que você não esteja me ligando de uma balada – fingi severidade quando atendi.
“Grande piada, estou em casa, com meus pais, que finalmente lembraram que têm uma filha”.
Não seja dramática. Como você está?
“Bem, Marc disse que perdi muito sangue e que precisei de transfusão, mas me sinto bem, parece que nem fui atacada por um vampiro doido varrido”, ela riu deliciosamente, enquanto eu gritei.
COMO É QUE É???
“Opa, desculpe, pensei que te contando dessa forma você não ia ficar tão chocada, mas pelo visto superestimei seu auto-controle. Você e Marc são mesmo ingênuos. Agora percebo que os dois pensaram que eu ia esquecer a noite de ontem, meu Deus, até parece!”
Enquanto isso eu estava engasgando na minha saliva, tossindo.
Como você pode lembrar? E saber?
“Bom, pelo menos você não está tentando me convencer que bebi demais e que comecei a delirar, já é uma evolução. Marc tentou de todas as maneiras me convencer de que estava perturbada demais quando falei que sabia que ele era um vampiro também”.
Murchei no banco, como uma flor sem água a dias. Era tudo que eu não queria. Mais um amigo envolvido com a história sinistra dos vampiros.
Oh, Deus... — foram minhas únicas palavras.
“Fala sério, como ele acha que eu podia acreditar que ele era alguém normal? Dá um tempo, o coração dele mantém o ritmo de uma batida por minuto, e ele tinha esperança de que eu não repararia? E quando eu cortei o dedo na hora de fazer salada na última vez que ele esteve aqui em casa antes de me dar o fora? Ele praticamente enfiou minha mão inteira na boca dele! Achei meio erótico no começo, mas meio bizarro também...”
Pedi mentalmente ao ar pra me dar uma força novamente, caso contrário eu ia desmaiar. Eu simplesmente não podia estar ouvindo aquilo.
“E ele é branco feito uma cera, e frio feito gelo, e às vezes as veias do rosto saltavam um pouco quando Marc se irritava, e eu ficava morrendo de medo do olhar psicopata que acompanhava tudo isso... E sabe, quando aquele vampiro pirado e lindo me agarrou e me ameaçou perto do rio ele tinha as veias, o olhar e mais dentes saltados pra fora, e dizia que ia sugar todo meu sangue. Meu Deus, não sou retardada, foi só somar dois mais dois!”, ela suspirou, cansada, “Lisa, ainda está aí?”
Estou... — assoprei a palavra entre os lábios.
Me diz que eu não estou louca. Eu sei que não estou mas preciso de uma confirmação.
Você não está louca – afirmei. Não me restava outra opção, se ela se lembrava, não havia nada que eu pudesse fazer – Marc é vampiro, assim como o resto da família.
“Sim, eu imaginei que seriam, todos tem aquela pele cor de papel sulfite. E são lindos de doer na alma, principalmente uma daquelas meninas, esqueci o nome dela...”
Alienor?
“Sim, ela também é linda, mas acho a outra, a morena, uma verdadeira boneca de porcelana”.
Amelie.
“É, essa mesma! A boneca que anda e fala. E tem o Hugo, parece um príncipe nórdico, não que Jacques também não seja bonito, ele é, só que de um jeito mais rústico, sei lá, ele parece saído de um livro de romance de cavalaria...”
Por favor, eu não quero... Ei, peraí, como você sabia que eu sabia de tudo isso de vampiros?
“Átila me disse que você sabia. Não tentou fingir nada e não mentiu sobre nada quando liguei pra ele. Confirmou tudo que vi. Só precisava que confirmasse também, então podia começar meu processo de adaptação mental. Já aviso que não estou assustada, amiga bruxa”, ela soou muito solene, como se prestasse um juramento.
Dei um riso.
O dia em que alguma coisa conseguir te assustar o Apocalipse vai acontecer – falei, voltando a meu bom humor – Aliás, como você se sente em relação ao Marc?
Alexandra deu uma de suas risadas maliciosas incomparáveis.
“Deve estar conversando com meus pais lá embaixo, não saiu do meu lado nem um segundo. Tratamento vip. Completo”.
E isso significa...? — não entendo porque ainda me dava ao trabalho de perguntar. Provavelmente os dois tinham feito sexo selvagem a noite inteira.
“Café na cama, dormir juntinho...”
Comecei a rir, e fiquei ainda mais contente de perceber que ainda conseguia fazer isso com gosto.
E se contentou só com isso?
“E claro, sexo quente”, ela finalizou.
Eu sabia que era bom demais pra ser verdade. Então significa que vocês voltaram? — eu bem que queria ouvir que não, mas não seria o caso. Até porque eu sabia que Marc nunca iria machucar Alexandra, ele não precisava dela pra desfazer um feitiço. E deu pra notar que ele se importava com ela pelo desespero em que ficou quando soube que Jean a tinha pego.
“Acho que sim, ele não pode me fazer suar por uma hora inteira e simplesmente se mandar sem pagar o preço. Em falar em relacionamento, como estão você e Jacques?”
Você sabe muito bem que eu e ele nunca tivemos nada – fiquei surpresa do meu nariz não ter crescido como o do Pinóquio, minha afirmação era uma mentira das sujas.
“Não pense que sou cega, e muito menos burra, eu vejo o jeito com que se olham”
Olhares não significam muita coisa, sabe disso – retorqui, mais uma vez esperando meu nariz se alongar.
“Não subestime meu radar de romance, não vai demorar muito pra vocês dormirem juntos, eu reconheço tensão sexual quando a vejo”, ela afirmou, em um tom professoral.
E eu reconheço um surto psicológico quando vejo um, portanto vá se tratar, que tal mais uma hora suando com Marc? Vai ficar ótima, e não esqueça, faz bem pra pele.
“Boa tentativa”, ela elogiou, sem fisgar a isca, “Mas você não vai escapar de mim, lamento. E está ficando maluca? Não posso transar com Marc com meus pais em casa, a ideia é simplesmente constrangedora! Vai que eles entram no meu quarto bem na hora H?”
Muito bem. Não pude me conter depois dessa. Caí na gargalhada, e até a garota à cinco metros e o rapaz que a acompanhava me olharam com testas franzidas. A louca que ri sozinha.
Meu Deus, Alexandra, você é impagável! — ri alegremente, as lágrimas que transbordavam do meu rosto agora, de contentamento.
“ Como se eu tivesse falado uma coisa muito anormal! Você dormiria com Jacques na frente dos seus pais?”.
Muito bem. Voltamos ao ponto deprimente. Valeu, Alê.
Quer parar de falar em Jacques D'Crécy?! — reclamei, meu nível de voz descendo à um murmurar – Tudo que eu quero é não ouvir sobre ele hoje.
“Tá bom, está me deixando preocupada, o que ele fez pra você não querer nem ouvir o nome dele? Anda, me fala”, Alexandra tinha adotado sua postura séria, algo que acontecia quando seus melhores amigos estavam pra baixo.
Eu não queria falar sobre isso, Alê – respondi com um suspiro. Não queria tanto isso, quanto não queria minha amiga ainda mais envolvida em problemas que não poderia ajudar.
“Mas, Lisa...”
Por favor? — implorei, sentindo minha garganta se fechar.
Ela respirou alto, com frustração óbvia.
“Tudo bem. Mas quando estiver pronta, vai me contar, não vai?”
Sim, eu vou contar – pequena anotação mental: nunca estar pronta pra esta conversa!
“Ótimo. Não quer vir aqui em casa se curar assistindo um filme comigo? Comprei um box com todos os do Piratas do Caribe, vamos lá, tenho certeza de que o Jhonny Depp é um excelente terapeuta!”
Tenho certeza que é, Alê, mas no momento prefiro ficar sozinha com meus problemas. Deixamos pra outra hora?
“ Dessa vez passa, mas te pego na próxima. E não esqueça, estou sempre aqui, no mesmo bat bairro, na mesma bat casa, e você tem o número do meu bat celular, certo? Me ligue se precisar de qualquer coisa, nem que seja um lenço de papel!”
Eu prometo que ligarei! — ri, mesmo com as novas lágrimas descendo em enxurrada.
“Boa menina, vou desligar, tenho que salvar Marc dos meus pais que só sabem falar de leis! Fui!”
E com um clique, o telefone emudeceu. Ia guardar o aparelho quando me lembrei da mensagem não lida.
A abri e quase desmontei no banco:
poderia me ligar depois de terminar seja o que for que estiver fazendo?
estou começando a ficar preocupado.
Era do Jacques, de horas atrás. Contive um soluço e joguei o celular com raiva dentro da bolsa, a colocando no ombro e tomando o rumo do ponto de ônibus. Podia pegar as últimas aulas na faculdade. Podia usar minha tristeza pra ficar mais inteligente, quem sabe se eu tivesse feito isso antes não estaria apaixonada por um vampiro dos infernos que matara membros da minha família à sangue frio?
Quem me garantia que ele não faria o mesmo comigo quando estivesse furioso? Eu tinha duas cicatrizes pra provar o perigo.
Eu tinha que me lembrar delas antes de colocar meus sentimentos à frente de qualquer coisa.
***
O pior de tudo foi ter de fingir que Jacques não tinha os olhos grudados em minhas costas em todas as aulas de Antropologia.
Sim, ele também tinha voltado pra faculdade, o que fez meu peito dilacerado arder naquela dor gelada e cruel. Foi por pouco que não dei meia volta e saí correndo como uma menininha assustada ao descobrir o Bicho Papão debaixo da cama.
Mas eu não era uma menininha, e portanto, não fiz nada disso.
Sentei na minha carteira e anotei rigorosamente o que o professor dizia, e tentei não me remexer muito na cadeira, poderia ser atribuído a nervosismo, e eu não queria que ele pensasse que eu estava agitada.
Só sob meu cadáver ele notaria o quanto sua presença me machucava.
Pra variar, Suzana não estava na sala, provavelmente se escondendo em alguma parte da faculdade com um gatinho muito bem selecionado pra dar uns amassos. Ela bem que podia ter feito isso nas primeiras aulas de Historiografia.
Meu celular zumbiu dentro do meu estojo. Lamentavelmente o apanhei com mãos trêmulas, o que era visível nos fundos da sala.
OI LISA! O QUE AXA DE ESCAPAR DEPOIS DA AULA PRO ROCK'S? VAI TER UMA BANDA AO VIVO TOCANDO HOJE!
Abençoado fosse meu ex-namorado!
CLARO QUE VOU! ME ENCONTRA AQUI NA PORTA DA SALA!
Sim, era bem isso. Eu queria uma escolta. Quem diria que o Alan poderia ser, hem? Olhei o visor do celular e pra minha felicidade faltavam apenas cinco minutos pro fim das aulas.
Nessa sobra de minutos mais uma mensagem resolveu encher minha caixa de entrada.
Eu gostaria de falar com você, Lis. Sei que quer que eu fique longe, mas serão palavras breves.
Me debati entre a vontade de responder e a vontade de sair da sala como Tiago, um dos meus colegas, estava fazendo.
Quase derrubei a carteira na pressa de me dirigir à porta.
Antes que o professor pudesse me lançar um olhar maligno eu já estava fora da sala, protegida pelo corredor e por mais alguns alunos que não conseguiram resistir até o fim das aulas.
E graças à Deus, Alan era um deles. O vi aparecer no exato momento em que recebia uma nova mensagem:
sua sutileza merece aplausos, elisa.
Estreitei os olhos de raiva. Claro que ele estava tirando uma com minha cara, o desgraçado!
Vampiro, estúpido! — xinguei, socando o aparelho dentro da bolsa, o sangue subindo pelo meu rosto.
Espero que essa raiva não seja culpa minha! — brincou a voz de Alan, me fazendo erguer os olhos e tirar os cabelos do rosto. E o celular remexeu de volta. O peguei nas mãos.
Ah, não, não tem nada a ver com você, Alan – abanei a cabeça, dando um sorriso nervoso – Me tira daqui o mais rápido que puder?
Uau, por quê a pressa? — ele riu, tirando a bolsa do meu ombro quando começamos a andar em direção às escadas que davam pro térreo, antes que eu a rasgasse de ódio.
É sério, vc pode mais que isso, Lis, você controla um elemento! Em vez da magia t dar coragem, t deu covardia, hem?
Porque vou cometer um assassinato se continuar aqui! — exclamei, o sangue latejando na minha testa. O calor de mil brasas se espalhava pelo meu corpo, me fazendo suar e tremer. Eu apostava que poderia fazer estilhaços do celular na minha mão.
Vampiro do inferno! Será que valia à pena dar a volta pra sala e cortar a cabeça dele??? Tentei respirar num ritmo normal, mas tudo que veio foi um fiapo estremecido.
Caramba, seja lá quem for o sujeito, é melhor ele não sair de casa hoje, ou vai estar morto! — Alan conhecia meus surtos de raiva — Estamos quase saindo, Elisa, segure seus nervos!
Grunhi alguma coisa ininteligível, e me obriguei a me acalmar quando vi as luzes do corredor central do térreo vacilarem à minha passagem. Não queria causar um apagão.
Mas Jacques ia ver só se me provocasse mais uma vez.
Ele ia encarar as consequências de me chamar de covarde e ia aprender que não se deve deixar uma feiticeira irritada.
Nunca.
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