Série - Pacto
12 LOUIS
Notas iniciais
Observei quando ela sumiu pelas portas de metal, me deixando só com meus pensamentos. A garota tinha um ótimo timming.
Eu não queria companhia. Não enquanto aquelas lembranças desagradáveis passavam diante dos meus olhos como um desfile.
A noite da morte do meu irmão mais novo.
Coimbra era uma cidade bonita, e eu gostava imensamente de levar Louis pra passear a noite e eventualmente se estivéssemos com sede eu mesmo arranjava algo pra ele, sempre longe da cidade, já que o acordo era esse. Não gostava de vê-lo atacar as pessoas, era medonho ver um garoto de doze anos matar alguém, então eu mesmo pegava a presa e a dividia. Até porque ele também não sabia ser discreto. Sempre deixava algum rastro, como sangue na própria camisa de linho e nunca era bom que alguém pudesse pegar-nos assim. Numa época em que a Inquisição arrumava qualquer desculpa ridícula pra te jogar na fogueira prevenir nunca era demais.
Estávamos andando pelo mesmo caminho de sempre em direção a nossa casa quando Louis respirou fundo o ar. Suas pupilas dilataram e as veias suaves e azuis saltaram do rosto como as raízes expostas de uma árvore.
O que há? — indaguei, o segurando pelos ombros.
Tem alguém vindo. O cheiro, sinta o cheiro...
Não há ninguém vindo, Lou, vamos pra casa – a ruela escura estava vazia e os únicos cheiros que eu captava era de carne estragada, perfume barato e urina de gato. Nada agradável, mas bem comum no século XVI e em qualquer ruela da Europa. Paris devia estar ainda mais desagradável depois dos longos anos fora dela. E Provença... ah, a Provença. O verão costumava ser radiante na terra em que morei por longos anos. A última vez em que vi a lavanda roxa fora a muito tempo atrás, tão distante que era doloroso.
Não, tem alguém vindo sim, vamos lá, você tem que estar sentindo isso, é como... — meu irmão dava pulinhos de ansiedade, os babados dos punhos da camisa balançando. Ele tinha uma boa altura, cabelos castanho-claros e olhos azuis cujo brilho era como de diamantes. Seria um bonito rapaz, se tivesse tido a chance de crescer como deveria.
Percebi porque ele tinha parado de falar. Uma moça com expressão distraída vinha caminhando pela rua a direita, a qual meu irmão tinha preso os belos olhos. Ela iria dar de encontro conosco, parados como dois palermas no meio da rua sem ninguém.
Louis apertou os dedos da minha mão e compreendi o motivo do gesto quando o cheiro entrou no meu nariz num golpe. Minha boca parecia um mar de saliva. O cheiro era inebriante, e mesmo não tendo me mexido eu podia sentir o gosto do sangue na minha língua, ardendo na minha garganta, doce e espesso, me alimentando, me preenchendo.
Me dá ela, Jacques, por favor, me dá ela... — sussurrou meu irmão caçula, os olhos quase totalmente negros, as veias latejando.
A moça entrou na luz da lua e dos poucos archotes e reconheci aquele rosto adorável, e ela também me reconheceu.
Mesmo que Louis implorasse, e o sangue dela cantasse pra mim dentro de suas veias eu não poderia tocá-la.
Jacques? — ela chamou, o cabelo ainda mais escuro na pouca luz da rua, dando um passo hesitante na nossa direção, observando Louis, que a devorava com os olhos – É seu irmão mais novo? Meu pai disse que tinha um mais moço.
Sim, este é Louis – respondi, cravando meus dedos em seus ombros tensos. Ele era dado a se descontrolar muito rápido e pra frustração da minha família tinha ótimos reflexos e conseguia nos escapar com facilidade – Não deveria andar por essas bandas sozinha, Maria, é perigoso.
Principalmente quando havia dois vampiros na sua frente e ela soubesse bem disso. Os de Castro mantinham toda a família alerta.
É o caminho mais rápido para casa, e não tenho medo, todas as pessoas me conhecem por aqui – um aviso velado. Se lhe acontecesse algum “acidente” nunca iríamos sair vivos da situação. Pereceríamos na fogueira do Santo Ofício ou teríamos estacas enterradas no peito. Ou esperariam o sol nascer. Acredite-me. Somos fortes, seres que correm rápido, mas quanto mais nos utilizamos dessa arma mais fracos ficamos por conta do esforço, e precisamos de nosso elixir pra ficarmos bem, assim mais gente matamos e mais ódio é dirigido contra nós. Então é questão de tempo até nos atirarem balas de prata ou nos jogarem água benta.
Discrição é uma palavra de ordem caso não se queira que coisas assim sucedam.
Fico feliz que se sinta protegida – me inclinei na direção dela, numa reverência cortês que me foi retribuída – Lhe desejamos muito boa noite, senhorita de Castro.
Lhes desejo o mesmo, senhores. Até mais ver Louis – ela sorriu pra ele, que deu um passo a frente. O segurei pelo casaco de veludo.
Não, Lou – sussurrei – Ela não, ela é sobrinha de um dos caçadores. Nos matariam.
Ele respirava em arquejos, no limite do auto-controle. Parecia mais do que nunca um tigre faminto. Mas já tínhamos tido nossa cota noturna.
A testa de Maria estava franzida de preocupação. Eu sabia que ela tinha irmãos do mesmo tamanho que o meu, então sabia que o sentimento era genuíno.
Ele está bem? Está tremendo... — ela deu um passo na direção dele, que se arqueou pra ela. Ergui a mão em sua direção.
Não, Maria, fique longe, vai passar logo, ele só precisa ir pra casa – o envolvi com um braço.
Deixe disso, ele é uma criança, posso tentar resolver – ela ignorou e foi se aproximando mais.
Foi uma sequência de fatos rápidos demais. Num momento Louis estava embaixo do meu braço e no outro estava sobre Maria que gritou.
Fique longe dela! — ouvi um grito vindo da passagem a esquerda. Era o tio dela, e os primos. Todos armados, se me faço entender.
Saltei sobre meu irmão e tentei arrancá-lo do pescoço da mulher, mas o garoto tinha uma força absurda, foi inútil. Me voltei pra Maria, que berrava em pânico, dando socos, pontapés e empurrões. Tinha que puxá-la debaixo dele.
Nem pense nisso.
Parei meus movimentos de imediato ao sentir a ponta da estaca em minhas costas e observei quando as balas de prata atingiram as omoplatas do meu irmão mais novo. Que urrou, caindo de lado, chorando lágrimas vermelhas.
Não! — guinchou Maria em sua agonia – Não façam isso, é uma criança! Jacques ia controlá-lo!
Não, querida, eles nunca deviam ter sido aceitos aqui, não passam de aberrações do Diabo – respondeu Pero, o tio robusto e alto que a ergueu em seus braços – Não merecem piedade.
Não, por favor, ele não me matou, só estou ferida, vou ficar curada em breve – Maria passava a vista de mim pra Louis, que tinha a cabeça forçada contra o chão pelo pé de Abelardo, o de Castro mais cruel e astuto que eu já conhecera. Seu rosto estava vermelho de lágrimas e sua boca gotejando sangue, estava ofegante e me olhava num pedido de ajuda.
Se fizerem qualquer coisa contra meu irmão, juro em nome do Inferno – olhei pra Pero, a voz contida de uma ira tão profunda que podia ouvi-la rugir dentro de mim – Que todos estarão mortos antes do amanhecer.
Não está em posição de ameaça, D'Crécy – zombou Tobias, espetando mais fundo a estaca em mim – Quebraram o trato. Tem de pagar por isso.
Eu não estou morta! — lembrou Maria novamente, sua voz fraca mas segura. O sangue escorria pelo corpete de seda rosa que usava – Deixem-os ir, tenho certeza de que não ocorrerá novamente, não é monsieur Jacques?
Não, madame, não acontecerá de novo.
É não irá. Garantirei que não. Abelardo – Pero abanou a cabeça na direção de Louis – Sabe o que fazer.
Não!!! – rugi, me projetando pra frente.
Foi num jorro que queimava sem piedade. Caí pra frente enquanto Maria gritava e implorava para que parassem. Meus olhos estavam em fogo, duas brasas, me impedindo de enxergar.
Jacques, me ajude, eles vão me matar! — eu ouvia ele chorar – Não, por favor, eu não quis machucar ela! Por fav...
Tentei me erguer, mas outro jorro de água benta me fez vergar de rosto pro chão, minha pele em carne viva. Era como usar uma máscara de fogo.
Non! — foi a última exclamação de Louis, depois o som de um crack violento fez tudo ficar em silêncio.
Um chute no meu estômago veio junto com um aviso.
Tem até o amanhecer pra irem embora e nunca mais voltarem. Façam ou conhecerão a Inquisição.
Eu assenti com a cabeça, meu ódio subindo a ponto de entrar em ebulição. Mas eu mal conseguia me mover tal era a dor que atingia todo o meu rosto e cabeça. Podia sentir os fios de cabelo desgrudando do meu couro capilar.
Não queria pensar que meu irmão estava morto a alguns passos de distância, em como diria a meu pai. Caí numa espécie de torpor semi-consciente, e só me recobrei quando duas mãos grandes e calosas me viraram de barriga pra cima.
O sibilado foi um aviso de que a noite de Coimbra saberia que ninguém aniquilava um D'Crécy sem ter uma moeda de troca.
A nota agourenta de Marc terminou em uma única palavra.
Mortos.
Ouvi os soluços baixos dele ao encontrar Louis. Queria chorar também, mas havia tempestade dentro de mim, e enquanto ela não passasse não teria como as lágrimas escorrerem.
Só pude enxergar por mínimas frestas de visão, e foi em ritmo lento, que eu cambaleando e Marc com nosso irmão chegamos em casa.
Meu pai recebeu o filho nos braços, e mesmo vendo pouco, a sua expressão fez até com que eu tremesse de pavor e medo. Sua face era um bloco de gelo do Ártico. Uma fúria tão enregelante que eu senti arrepios e calafrios me percorrerem.
Ele mandou minhas irmãs em choro desesperado entrarem e arrumarem toda a bagagem. Elas obedeceram, os rostos brancos agora vermelhos. Minha mãe carregou o filho menor pra dentro, uma dor silenciosa, feita de olhos tumulares, e de lágrimas que escorriam ininterruptas. Sem palavra, sem expressão. Apenas a dor e o sofrimento personificado.
A cidade em breve dormirá profundamente – declarou meu pai, numa voz que mal parecia a dele, tão distorcida que estava pelo ódio – Eles não irão mais respirar antes de amanhecer. Jacques, já pode me ver? — ele tocou meu braço, o frio mortal em seus olhos derretendo um pouco.
Não muito bem, pai. Mas sinto cheiros, é o instinto que basta.
Magnifique – o aperto deixou meu braço – Quem foi responsável pelo ataque, mon fille?
Tobias, Abelardo, Pero.
Tobias é meu, até sei onde achá-lo – disse Hugo saindo na nossa grande varanda, o colete de seda vermelha brilhando num raio de luar – Depois disso ele certamente irá se deitar com alguma prostituta e beber até não poder mais.
Hugo tinha os olhos em chamas, parecia mais do que nunca o demônio com quem as pessoas gostavam de nos associar. Eu sabia que naquela noite qualquer um que o provocasse iria morrer.
Meu pai assentiu pra ele e depois encarou meu rosto com avidez.
Quem assassinou Louis, Jacques? — a calma em sua voz era deliberada.
Abelardo – disse sem emoção.
Oui. Vocês ficam com Pero.
Com certeza, aquela água benta e a estaca vão sair caro, pra ele – respondi, meu tom ainda inexpressivo.
Marc me olhou animado, os olhos verdes cintilando.
Ficarei feliz em auxiliá-lo, irmão.
Eu fico feliz em te divertir, irmão – dei um sorriso – Suponho que vai assustá-lo um pouco, não vai?
As pestanas castanho-avermelhadas bateram uma na outra, formando uma piscadela.
Que graça teria se eu não fizesse isso?
Nenhuma, por certo – foi Hugo quem respondeu, os olhos azuis parecendo labaredas. Seu rosto estava tomado por eles – Quanto tempo, pai?
O rosto de pedra do meu pai ficou reflexivo.
Duas horas, no máximo. Vou cuidar pra que as meninas partam antes. Não quero nenhuma delas metida nisso. Quero-as todas em Lisboa.
Reveja seus planos, pèr – Alienor flutuou pela varanda, parecendo um espectro. E muito agourento. Os olhos estavam injetados, e manchas vermelhas estavam por todo seu rosto, vestígios das lágrimas derramadas.
Você fica, mon chér – meu pai abanou a mão em sua direção, em um claro gesto dedispe nsa. Só que ele se esquece de quem a filha herdou a determinação, ou teimosia, se preferir.
Non, papa, eu não fico – respondeu, a coluna se empertigando, os cabelos louros esvoaçando ao redor da cabeça com uma lufada de vento fresco – E se não me deixar ir junto, irei sozinha e matarei a família toda sem pestanejar. Nem que eu acabe virando pó na matança.
Julian ergueu uma sobrancelha pra Hugo. Este encolheu os ombros.
Ela é bem capaz de matar o homem só de aparecer na frente dele com essa aparência. Está parecendo um fantasma.
Merci, Hugo – ela fez uma mesura na direção dele, que bufou um sorriso torto – Quem vou perseguir com você?
Tobias.
Ahh – ela colocou um dedo longo no canto dos lábios – Magnifique – um sorriso diabólico iluminou seu rosto enquanto ela se virava na direção da porta – Pér, o que digo a mamãe?
Diga pra seguir e não parar até chegar a próxima cidade, vamos até Lisboa. Lá veremos o que fazer.
Oui. Mas acho melhor dizer o senhor mesmo isso à ela. Temo que nem sequer me ouça... — seus olhos ficaram tristes por um segundo.
Esperem aqui – foi a ordem dada à nós antes dele seguir Alienor.
Nós, os três irmãos, ficamos parados, somente admirando o céu de estrelas e ouvindo barulhos distantes.
Ele era maravilhoso com o violino – lamentou Hugo com um suspiro trêmulo, os olhos em chamas fixados na grama à frente.
Louis não merecia esta vida, sempre parado no tempo... — juntei, os olhos ainda no céu.
Vingá-lo é o mínimo que podemos fazer.
Sim, era o mínimo.
O primeiro a morrer, pelas contas de Marc, que era o melhor em cálculos de nós, foi Tobias.
Hugo e Alienor partiram juntos, duas aparições louras e lindas. Letais na noite escura e calma.
Foram os primeiros a sair. Alienor pôs o melhor vestido, de seda vermelho-escuro, os cabelos soltos, caindo numa cortina de ouro pelas costas brancas.
Hugo estava de veludo preto, a corrente pesada de ouro com pedras de ônix nos ombros.
Meu pai foi o segundo. Também estava usando preto, mas nenhuma jóia. Nem mesmo um anel.
Eu e Marc saímos minutos depois. Marc estava inteiramente de verde-escuro, até mesmo com a boina de veludo com plumas. Parecendo mais ameaçador do que normalmente era com a espada guardada na bainha. Encarei desdenhoso a arma.
Como se fosse precisar dessa porcaria – virei os olhos e torci a boca.
Vamos lá! — ele exclamou alegremente, batendo nas minhas costas fraternalmente – É uma questão de elegância e poder. Ele vai morrer sabendo que mexeu com alguém importante. Vou dar a ele essa honra!
Abri um sorriso relutante, afastando uma pluma branca, que caia insistente diante do meu único olho bom agora. O outro ainda estava inutilizável. Assim como meu rosto estava deformado de uma maneira grotesca. Dei um risinho cruel ao dobrar a esquina que levaria a casa de Pero, pensando que pelo menos na hora de sua morte ele teria razão em me chamar de monstro do Diabo. E que eu ficaria feliz quando ele pronunciasse tal coisa.
Ele não merecia partir desta terra tendo como último vislumbre meu rosto inteiro e imaculado. Queria que Pero tremesse de medo e que mijasse nos gibões.
Na verdade ele fez mais do que isso.
Quando abriu os olhos de súbito ao sentir as mãos do meu irmão se fecharem sobre sua garganta ele se debateu ao ver meu rosto acima do dele. Se borrou todo.
Marc fez uma careta.
Mon Dieu, morra com dignidade! — sussurrou indignado – O que vai fazer, irmão?
O que você quer, Pero? Isso – arreganhei os dentes pra ele, que gemeu no auge do terror, serpenteando na cama, sem conseguir escapar de Marc – Ou aquilo? — chiei e apontei na direção da cintura do meu irmão, onde a espada balançava um pouco.
Não... — ele conseguiu engrolar, num esforço que deixava seu rosto ainda mais vermelho – Violaram o tra...to. O garo...to ...q...rrer.
Aquilo foi como estalar um chicote em mim e Marc. A espada fez um tinido brando quando ele a puxou da bainha. Ele tirou a mão do pescoço de Pero, mas colocou a ponta afiada da espada em seu lugar.
Não grite, pro seu próprio bem – ele advertiu em uma voz de eriçar os pêlos de todo o corpo.
Pero obedeceu.
Por acaso Maria está morta? — indaguei, num murmurio gutural.
Ele me encarou com desprezo, mesmo em sua situação precária. Não respondeu.
Fiz um gesto com a mão na direção de Marc e depois abrangi pra Pero.
Gotinhas de sangue escaparam da pele do pescoço dele quando a espada avançou em sua garganta mais um milímetro.
Vou perguntar de novo – assoviei – Maria por acaso está morta?
Não – ele respondeu secamente, sem me olhar. Estava ocupado demais fazendo isso pra arma que lhe perfurava – Mas foi um ataque claro. Era o acordo, se vocês atacassem alguém, era violação do trato.
Ela disse pra não matarem meu irmão, porque mesmo ela sendo uma de Castro, ela entendia que uma criança vampira é mais difícil de lidar. Eu teria controlado meu irmão, e se não o fizesse salvaria Maria de qualquer modo. Mas vocês preferiram ignorar, não é?
Maria estava desorientada, não sabia o que dizia. Mulheres nunca sabem! — rosnou, seus olhos negros queimando de raiva ao me fitarem.
Marc soltou um riso baixo e o encarou divertido.
Mulheresnãosabem? Ora, ora, Jacques, será que devo chamar Alienor?
Sorri calmamente para Pero, apreciando o medo que atravessou seus olhos. A família dele conhecia a reputação sanguinária de minha irmã. Aquela ali sim, parecia ter sido feita pra ser vampira.
Acho que ele será poupado da presença dela, infelizmente Marc – me dirigi especificadamente a Pero – Ela e Hugo devem estar ocupados com seu primo, Tobias.
Hugo? — ele sussurrou – O gentil?
Era estranho que ele visse Hugo como gentil. Ele certamente o era. Mas era bom não deixá-lo irritado.
Marc franziu a testa, sua expressão entre irritada e impaciente.
Por que todos acham que ele é o bonzinho da família, Jacques?
Encolhi os ombros, sem tirar a vista de Pero.
Não sei, Marc. Talvez porque ele tenha uma aparência mais afável e franzina – abri outro sorriso. Nossa vítima se encolheu. Existe gente muito sensível à visão de presas – Mas não se engane Pero. Hugo é sim gentil, mas dentro dele há um lobo feroz, e hoje ele está a solta. Quer apostar comigo que ele e minha irmã irão fazer de Tobias retalhos e tripas?
Ele guinchou involuntariamente. Acho que enfim ele percebeu que não importava o argumento, ele iria encontrar Deus aquela noite. Ou o Diabo. Torci pra segunda opção.
Bem, você matou meu irmãozinho. Já escolheu como vai deixar este lugar, Perinho? Dentes ou espada?
Escolha a espada meu caro, acho que seu gosto não deve ser muito bom, considerando seu cheiro nesse momento – comentou Marc com nojo.
Por favor, por favor, deixe-me fazer um pedido antes, eu imploro! — arengou ele, as lágrimas nas bordas dos olhos.
Ergui as sobrancelhas.
Acho que posso ceder nisso. Fale.
Não machuque minha família. Deixe-os em paz. É só isso que lhes peço.
Claro que não vamos tocar neles, porque ao contrário de você Pero, eles são educados e sábios o suficiente pra saber que ninguém se mete conosco sem sofrer as conseqüências. Agora, por favor, escolha logo como quer morrer, estou ficando entediado – resmungou Marc, o rosto inteiro enrugado de impaciência.
Faça de uma vez antes que eu mesmo lhe arranque um membro pra começar, homem – ameacei, embora não me sentisse tentado em meter meus dentes limpos naquele porco.
A espada, por favor, a espada – ofegou, o corpo imóvel na cama.
Como quiser – abanei a mão pra Marc – É todo seu.
Ótimo! Boa noite, meu caro, para sempre! — ele girou a espada em um movimento circular e rápido, nem que Pero tentasse ele conseguiria escapar nessa fração de tempo. O reflexo de prata silvou o ar e um corte metódico e perfeito decepou a cabeça de Pero. Jorrou sangue em mim e Marc. O cheiro me atraiu, mas nem se eu estivesse louco de vontade iria beber aquilo.
Observamos o pescoço dele esguichar por uns momentos. Sua cabeça parara perto dos meus sapatos caros, manchando a camurça preta. Chutei-a pro lado, chateado. Marc riu disso.
Sujou os sapatos, hem? Sei que detesta quando acontece.
Você não está muito melhor – resmunguei, indo em direção às janelas amplas pelas quais tínhamos escalado pra entrar – Suas plumas agora são vermelhas.
Ele abanou a mão.
Tenho mais de uma boina, meu caro. E vou me livrar de qualquer maneira desta roupa.
Chegamos ao mesmo tempo que Hugo e Alienor. A visão deles me chocou por um instante. Estavam cobertos de sangue, dos pés a cabeça, e riam como loucos, lambendo os dedos de tempo em tempo.
Vocês podiam ir tomar um banho – comentei, arrancando os sapatos dos pés e os atirando no chão de madeira.
Você também! — os dois exclamaram alegremente.
Como foi com Tobias? — indagou Marc, apoiado despreocupado no batente do portal da varanda.
Hugo e Alienor se entreolharam e deram risadinhas endiabradas.
Divertido! — disse minha irmã.
Não sobrou um pedaço do desgraçado – falou Hugo, sua voz estranhamente bruta e arrepiante.
Marc encontrou meus olhos.
Era melhor nem pensar em como nosso irmão tinha deixado Tobias, era perturbador, mesmo pra nós. No momento ele se assemelhava muito a um lobo sedento e carniceiro. Provavelmente, se ele tivesse tido misericórdia – o que eu duvidava – tinha sobrado um dedo ou pedaço de orelha de Tobias pra contar seu triste fim nas mãos de Alienor e Hugo.
Nosso pai foi o último a chegar. E sem um fio de cabelo fora do lugar e nenhum vestígio de sangue em sua roupa escura de veludo.
Não há tempo pra banho, garotos, Jacques, terá que colocar seus sapatos de volta, todas as bagagens já partiram na frente com sua mãe e é pra lá que iremos agora.
Como iremos? Correndo? — indagou Alienor, contendo uma risadinha.
Não, sabe que percorrer longas distâncias correndo não faz bem algum a nós – Julian respondeu. Estava calmo, a fúria gelada extinta de sua expressão. Só parecia ele mesmo, eficiente, tranquilo e bonito. Os olhos brilhavam do modo inteligente e perspicaz de sempre – Vamos de carruagem. E temos que ser rápidos. Logo, logo, os mortos vão ser descobertos. Jacques, pode se encarregar disso pra mim? E Alienor, por favor, trate de vestir uma capa ou ao menos lavar as mãos e o rosto, não quero que você assuste o cocheiro, o mesmo vale pra vocês garotos – ele entrou pra dentro da nossa agora ex-casa – Vou buscar algumas coisas lá dentro.
Fiz o que me foi mandado e cerca de vinte minutos depois todos nós estávamos dentro da carruagem, um tanto espremidos uns contra os outros, mas finalmente indo embora. Coimbra já não tinha nada mais a oferecer.
As ordens que meu pai dera ao cocheiro foram de não parar até chegarmos na cidade de(ainda a decidir) pra tomarmos outra carruagem. Chegamos ali com o sol perto demais do horizonte, ameaçando sair e nos queimar. Ficamos na primeira estalagem que encontramos e nos trancamos em nossos quartos pelo resto do dia. Minha mãe e Amelie já estavam lá.
Quando a noite cobriu o dia com seu manto escuro e aveludado partimos novamente, agora em duas carruagens. Claro que houve mais paradas durante o dia, mas por fim chegamos a Lisboa sem interferências graves.
E por sorte foram as estrelas e uma lua crescente maravilhosa que nos recebeu.
Não desfaça as bagagens, meu filho, só ficaremos aqui durante dois dias – avisou-me papai enquanto eu retirava um pouco das roupas de meu baú.
Como? Por quê?
Um sorriso cansado respondeu:
Definitivamente, mon fille, a Europa já me cansou e à sua mãe. Que tal o Novo Mundo?
Pensei por um minuto e depois despejei de novo meus trajes de volta no baú.
Pra mim, pèr, parece uma excelente ideia – eu me aproximei dele e tentei achar um tom de voz neutro, ou ao menos cauteloso – Onde está...?
Os olhos dele se toldaram de uma tristeza tão profunda que meu estômago despencou.
Sua mãe foi enterrá-lo na praia, ela acha que é um bom lugar.
Oui. É um bom lugar. Lou gostava do mar – assenti – Pai, como foi...?
Abelardo morreu rápido filho, eu não daria sofrimento ao infeliz, mesmo que tenha sido cruel com meu menino. Um pescoço quebrado e veias sem sangue algum foram suficiente pra ele.
Creio que não foi muito agradável pra você, não é? — tirei os sapatos usados a dias e atirei no canto mais remoto do quarto, ficando só de gibões e com a camisa de linho branca.
Meu pai suspirou, passando as mãos pelo rosto.
Não, não foi. Sabe que não gosto de matar, mas essa questão era de justiça, e eu estava com raiva. Não me arrependo de nada.
Bati com a mão no ombro dele, solidário.
Nenhum de nós está arrependido, pai, disso eu estou certo.
Papai apertou meus dedos por um segundo e depois, com um aceno de cabeça, deixou meu quarto.
Meu irmão ainda está lá, misturado às areias de Lisboa. E cada vez que uma onda batia na embarcação que nos levou ao Novo Mundo sua lembrança invadia a mente de cada irmão e de seus pais. Não foi fácil dar adeus ao Velho Mundo, que tinha sido nosso lar antes e depois da maldição do sangue manchar nossa família. Mas havia dor demais naquelas terras também, e às vezes tudo que se precisa é um recomeço, de preferência num lugar desconhecido.
Meus olhos voltaram a ver a rede de proteção ao redor da quadra de vôlei, que protegia a arquibancada de levar uma ocasional bolada. Essa era a verdadeira história, mas eu não ia tentar contá-la ao moleque caçador, por dever era o pai dele que deveria fazer isso, mas como eu podia ter certeza de que ele não recebera a versão deturpada? Com certeza sim.
Coloquei o capuz na cabeça e os óculos no rosto, era hora de voltar pra casa e me arrumar pra festa no Celestial, a danceteria mais disputada da cidade. Precisava me distrair, mesmo que fosse dando uma de bábá pras minhas irmãs. Em breve eu seria apenas mais um no meio de um lugar lotado. E não teria de me preocupar com a luz do dia e muito menos com o cheiro de sangue.
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