Série - Pacto
13 Tudo que é ruim pode piorar
Notas iniciais
Depois da conversa eu-sou-um-caçador-de-vampiros com Átila cheguei em casa disposta a me afundar no Senhor dos Anéis.
Mas pra meu desespero e perplexidade encontrei Alexandra no meu quarto, chorando como uma louca, o rosto manchado de preto pelo rímel e lápis que escorria por seu rosto – e eu pensando que ela usava cosméticos à prova d'água – um lenço de renda ensopado apertado entre as mãos.
Alê, o que aconteceu??? — me ajoelhei diante dela no pufe cor-de-rosa noqual estava sentada, como uma criança abandonada.
E-E-Ele t-t-t-terminou comigo!!! — ela uivou, caindo em soluços que balançavam todo seu corpo.
Arregalei os olhos.
Marc? Marc terminou com você?
Eu nem sabia que estavam namorando. Mas, veja bem, nem era minha culpa, é raro Alexandra avisar que está numa relação mais profunda que sexo.
Seus olhos escuros me fitaram como se eu estivesse com chifres.
Quem mais poderia ser, Elisa? Eu estive dormindo com ele por um mês todo! — guinchou, enfiando a cara no lenço – Esse desgraçado, adivinha por quem ele me trocou, adivinha? — ela ergueu o rosto outra vez, a raiva e a mágoa em cada bochecha que avermelhava.
Não tenho essa informação, desculpe. Nem posso imaginar... — me sentei ao lado dela, enlaçando o braço em seus ombros.
A Caroline! Aquela puta de esquina!!! — agora ela estava gritando, o pé batendo no chão, num rompante que me assustou um pouco. Mas não me afastei dela, já tinha minha cota de Alexandra-está-puta-da-cara na vida. O problema é que eu nunca tinha tido uma Alexandra -puta-da-cara-porque-levou-um-pé-na-bunda em minha vida, porque quem dava os pés na bunda no geral era ela.
Dei um suspiro resignado.
Tudo tem uma primeira vez.
Eu sinto tanto, Alê, sinto mesmo. Não sabia que você gostava tanto assim do Marc.
O choro atingiu um limite histérico. Meu Deus, eu tinha que fazer alguma coisa mais útil do que ficar ali parada como uma monga.
Eu... acho, que amo aquele filho da puta! — Alê continuou lamentando, num tom miserável.
O fogo da cólera fez cócegas na minha pele, fazendo com que meus olhos ficassem toldados de vermelho.
Alexandra podia não ser o melhor exemplo de garota pra algumas pessoas, dormindo com um cara por semana, excesso de festas e libertinagem, e claro, estourando o limite de todos os cartões de crédito que o pai tinha pra comprar sapatos e bolsas, mas ela era minha amiga.
Minha melhor amiga.
Aquela que sempre vinha me dar uma força caso eu precisasse e que dizia que me amava o tempo todo e era sincera. Alexandra me aceitava do jeito que eu era, assim como eu a aceitava.
E ninguém, nem mesmo um maldito vampiro, na verdade especialmente se fosse um vampiro, partiria o coração dela daquela maneira. E pelo amor dos Céus, trocar uma beldade como Alexandra por uma... piranha? Pode soar hipócrita, mas se Alê dormia com um por semana, Carol dava pra dois a cada dia da semana! E usava shortinhos de lycra no frio, dá um tempo!
Marc tinha mexido com a pessoa errada.
Olha, Alê, não vou ficar perguntando como aconteceu porque acho que agora você nem está em condições de falar. Mas estou tendo uma ideia... — eu mesma estava pensando que pudesse ir, mas estava morrendo de preguiça. O que as amigas fazem pela gente sem saberem... — Por que a gente não vai ao Celestial? Você pode beber um monte de Bloody-Mary's e dançar até não sentir mais os pés, o que acha? Chamamos a Suze, sabe como ela ama cair na night...
Esperei até ela se manifestar. Não obtive nenhum sinal por longos minutos, até que ela se desvencilhou de mim e se colocou em pé nas maravilhosas botas de couro roxo. Os cabelos estavam embaraçados mas ainda caim pelas costas e ombros dela de um modo de dar inveja.
Bom... — ela fungou, limpando a maquiagem borrada com o lenço úmido — … o que você tem no seu guarda-roupa? — uma sobrancelha negra e perfeita subiu.
Dei um risinho malicioso pra ela.
Você sabe muito bem que meu guarda-roupa não serve pra você.
Nem mesmo pra você, boba! — ela piou, e virou os olhos – Deixe um bilhete pros seus pais avisando que vai chegar tarde hoje. Ligamos pra Suzana no caminho pra minha casa, vamos! — ela agarrou meu braço e me arrastou pra fora de casa, dando pulinhos de impaciência quando demorei pra trancar a porta de casa.
Ela tinha deixado o carro umas dez quadras longe da minha casa, por isso fui pega de surpresa quando a encontrei se descabelando em meu quarto. De acordo com sua explicação achou melhor parar do que bater seu carro num poste por causa da água nos olhos. Pelo menos de uma coisa ela gostava mais do que Marc.
Liguei pra Suzana na metade do caminho, e quando chegamos na casa elegante e praticamente feita de vidro de Alê estava tudo combinado. Às onze ela já estaria nos esperando no Celestial pro agito.
Nesse meio tempo Alexandra me fez experimentar os mais variados tipos de roupa, maquiagem, casaco, sapatos e botas. O que ela fez consigo mesma também.
Eu nem liguei, estava ali por ela. Se a fazia feliz ficar me fazendo de manequim vivo que fosse.
Depois de inúmeras provas, na cama queen-size de colcha azul-claro dela estavam os trajes da noite.
O dela era basicamente um vestido preto de manga comprida muuuuiiiiitooooooo curto, botas amarelas quase até as coxas e um bolero de cetim dourado. Uma árvore de Natal brega em algumas pessoas, uma roupa sexy e glamourosa em Alexandra.
Não me pergunta como aquilo ia suportar o frio.
Minha roupa era chamativa demais pros meus padrões: meia-calça de lã rosa-shocking, um vestido de jérsei verde-musgo de manga comprida, uma jaquetinha jeans branca e botas azul-marinho com um salto impossível. É, eu não tinha escolhido a roupa, foi Alê que ordenou que eu colocasse. Sou uma boa amiga e fiz o que ela mandou.
Ela sorriu contente:
Você está absurdamente linda, por que não me deixa vesti-la sempre?
Porque não quero ter uma crise de nervos toda vez que me olhar no espelho – respondi com sinceridade, meio aterrorizada com a altura a mais que tinha ganho. Juro que a qualquer momento as vertigens poderiam começar.
Alexandra só olhou pro teto ante minha resposta e depois veio cuidar do meu cabelo. Ela girou, torceu, até que largou os fios sobre meus ombros.
Fica melhor natural, aliás, você não tem uma ponta dupla – ele esticou o lábio de baixo – Que inveja. O meu é cheio deles.
Cale a boca, seu cabelo é perfeito. O que vai fazer com ele?
Nada, vai assim, desgrenhado mesmo.
E foi. De verdade.
Suzana estava perto da porta, nos esperando, de jeans preto justo, sandálias prata de um milhão de centímetros e uma jaqueta de náilon branca que devia estar escondendo uma blusa bem decotada. Bem, ela tinha peitos pra mostrar!
Fiz de tudo pra ficar animada, enquanto Alê e Suze se divertiam desde que entraram pela porta, engolindo Bloody-Mary e Dry Martini. Eu só estava sentada lá numa das mesas ao redor da pista, enquanto elas quase perdiam as pernas dançando.
Eu queria mesmo é estar em casa, dando um tempo com a coisa de vampiros, bruxas e caçadores de vampiro. Pode parecer careta, mas eu sou do tipo que dá um tempo vendo um filme, lendo um livro ou comendo um pacote de bolacha. E eu tinha que acabar logo meu projeto. Já estava me dando nos nervos.
Mexi a batida de morango com o canudinho colorido. Tinha até um guarda-chuva nele. Bebi mais um gole, pensando na minha avó. Em duas semanas ela estaria ali pra me ajudar! Era um alívio saber que eu não teria que lidar com os problemas bizarros sozinha.
Então o motivo de estar ali na danceteria me veio a mente. Marc. Que tinha dado o fora em Alê.
Será que o irmão mais velho dele seria assim, tão... cachorro, como ele? Mesmo sendo um sugador de sangue?
Realmente esperava mais dignidade de um francês. Eles não se acham os refinados da Europa toda?
Fiz um muxoxo com a língua.
Não sei o que estava esperando de um tipo daqueles. Grande, lindo e com cara de mau. Só tinha que dar em coração partido.
Ergui os olhos na direção de Alexandra. Era a pessoa que mais rebolava no ambiente e claro que tinha caras babando como cachorrinhos pra ela.
Dei uma risada pro meu drinque. Ela podia estar triste, mas sabia como deixar pra lá como ninguém. Nada como um bando de homens te comendo com os olhos pra inflar um ego murcho.
Levantei da mesa pretendendo ir buscar mais bebida, talvez uma coisa mais forte que me fizesse ir dançar como louca. Uísque?
Eis o dilema de quem não tem costume de ficar de porre.
Isso não é muito elegante, e se acha, bom... problema seu.
Bebida tem que te relaxar, não te fazer ficar doidão e tirar as roupas. Ou sei lá mais o quê.
Fui descer o degrau que separava as mesas do espaço de dança quando o salto agulha escorregou e fui lançada pra frente, perdendo totalmente meu equilíbrio já precário.
Alguém me segurou pela cintura com firmeza e me puxou de volta sobre meus pés. Tirando os cabelos do rosto e me virando pra sorrir em agradecimento àquela alma tão generosa, que me impedira de quebrar um nariz, qual foi minha surpresa ao reconhecer o dono do braço.
Ele ainda era mais alto, mesmo que eu estivesse com um salto dez, as luzes batiam em seu cabelo cor de trigo fazendo com que ficasse com estranhos reflexos roxos e vermelhos. Seus olhos claros, refletiam as mesmas luzes, parecendo com um caleidoscópio de cores vivas. E esse foi um estranho hipnotizante. A única coisa que parecia normal – pra alguém como ele – era a cor da pele, ainda mais branca ali dentro, a cicatriz da têmpora até o queixo e o sorriso alinhado e sensual.
Sabia que você está muito sexy com essas botas? — a boca que eu sabia ser vermelho-escuro pronunciou – Tome cuidado ao voltar pra casa.
Jacques, diga ao seu irmão babaca que vou fazer o traseiro dele queimar quando aprender a colocar fogo nas coisas! — eu rusguei, sentindo ascócegas de fogo me pinicarem de volta a pele – Ele não tinha o direito de fazer o que fez com Alexandra! Ele esqueceu quem é amiga dela, por acaso?
Jacques perscrutou meu rosto e depois colocou a cabeça de lado.
Ele terminou com Alexandra porque é um covarde, Elisabete. Não é porque deixou de gostar dela.
Me afastei dele, minha pele quente como brasa. Coloquei as mãos na cintura, me sentindo muito independente e corajosa com mais dez centímetros de altura.
Não consigo entender a mensagem, Jacques. As pessoas que se gostam não tem que ficar, tecnicamente, juntas e não dispensar os parceiros? E ele já está com outra!
De novo aquele olhar prolongado e pensativo.
Algumas pessoas, Lis, como meu irmão, tem medo do que sentem e mentem pra poderem cair fora, como é o caso da mentira sobre Caroline. Você nunca teve medo de um sentimento?
Ok. Isso serviu pra mim parar de queimar como uma labareda e largar os braços. Minha boca se entreabriu um pouco.
Jacques mordeu o lábio inferior. Não sei o que significou esse gesto.
Está me dizendo que Marc chutou Alê porque ama ela?
Jacques assentiu com a cabeça.
Mas que falta de ousadia – eu dei uma risada – Achei que ele fosse melhor que isso.
Se pensar bem há mais um motivo, Lis – ele me passou sua taça de vinho, gentil – Esqueceu quem somos, ou somos tão bons que até você já nos toma por gente normal?
Com a taça na mão, fiz uma careta. Droga. Ele sabia refrescar nossa memória. Fechei os olhos por um momento antes de responder.
Vocês são vampiros. Não tinha pensado nesse detalhe.
Percebi – ele piscou um olho castanho – Tome um pouco do vinho, aquela batida que estava tomando não é tão inocente como pensa.
Estreitei as pálpebras por cima da borda da taça.
Como você sabe o que eu estava tomando?
Ele fez uma cara engraçada. Como se eu tivesse falado que ia viajar pra Marte no dia seguinte.
Um sorriso torto brincou em seus lábios.
Acho que a bebida te afetou mesmo. Seus neurônios estão começando a dar curto circuito. Elisa, eu sinto o cheiro da bebida no seu sangue, e além do mais, eu estava sentado a três mesas de distância de você.
Como eu não te vi? — indaguei, surpresa, avaliando as mesas próximas. As três mesas a direita estavam ocupadas por garotos e garotas, que riam e bebiam. As três mesas a minha esquerda estavam vazias. Ops. Exceto a última, mais afastada e menos iluminada pelas luzes, num canto discreto. Tinha uma jaqueta de brim da mesma cor do meu vestido em cima de um dos sofás – Ah, claro, sempre esquivo. Nunca ia reparar mesmo. Aliás, o que está fazendo aqui? Não pensava que era do tipo baladeiro.
Assim como eu julgava que não era – ele respondeu, passando a mão nos fios louros – Estou de olho nas minhas irmãs. Pra ser realista em Amelie, ela não é acostumada com essa barulheira. E você?
Mordi a borda de vidro, sem querer batendo a ponta da bota no ritmo de Video Phone da Beyoncé.
A princípio trazendo minha melhor amiga de coração partido pra uma farra. Ela parece melhor agora.
Não a estou vendo – Jacques dardejava os olhos pela pista.
Ela aparece logo, não esquenta – agora eu batia a mão na perna com a música – Deve estar no bar com Suzana. Suas irmãs também não estão a vista.
O riso dele encheu meus ouvidos, mesmo com o som alto do lugar.
Devem estar todas no mesmo lugar, no bar!
Vampiros podem beber? — perguntei de um jeito idiota, me sentia meio tonta. Porcaria de batida.
Não precisamos comer e beber, nada disso satisfaz ou nos afeta, mas o gosto das coisas é bom, então comemos e bebemos. É um modo de lembrar que fomos humanos um dia. Nos dá esperança.
Não respondi, só devolvi a taça de vinho vazia pro dono alto e lindo. Ele não estava arrumado pra uma festa, e sim pra um dia comum de aula. Jeans escuro, camiseta cinza e tênis. E talvez fosse por isso que ele parecia mais bonito que o normal. Ou eu estava bêbada. Um dos dois.
Me abanei com as mãos, parecia que a batida de Telephone da Lady Gaga estava estocando dentro do meu peito. Tive vontade de tirar a jaqueta e a blusa. Tudo, se quer saber.
Uma mão fria recostou entre minhas omoplatas. A sensação era boa. Então os braços me puxaram pra mesa, me fazendo sentar sobre pernas musculosas.
Como eu sempre ia parar no colo de Jacques D'Crécy? Será que minhas ancestrais também tinham esse péssimo hábito? E por que estava tudo girando à minha frente?
Ele riu na minha orelha, as mãos na minha nuca.
Você está completamente bêbada, chérrie. Acho que foi péssima ideia te dar mais o vinho pra beber – a jaqueta me foi arrancada — Não é melhor eu te levar pra casa?
Não – engulhei, as luzes incomodando meus olhos – Não saio daqui sem as meninas. E além do quê você pode bem se aproveitar de mim nessa condição.
Mais riso.
Como o quê? Transar com você aqui em cima da mesa? É uma ideia interessante – algo macio e pesado me cobriu e senti o cheiro de lavanda conhecido. Devia ser a jaqueta dele. Ou a tolha da mesa, como eu iria saber?
Eu não transo em cima de mesas, muito menos com alguém que pode morder meu pescoço e me sugar toda... — murmurei, tentando me levantar, mas fracassando e caindo nas pernas dele novamente.
Você é bruxa, Lis, não me arrisco a levar outra queimadura de terceiro grau, obrigado. E seu sangue deve estar com um gosto esquisito com todo esse álcool. Talvez eu fique bêbado e eu não gosto dessa ideia – ele arrumou meu cabelo num nó no alto da cabeça. Minha vista melhorou quando as mãos dele percorreram minha nuca e minha testa. O encarei piscando. Não era o tipo de cara que faz sexo em cima de mesas, definitivamente. Mas eu podia vê-lo muito bem numa cama grande. E por um segundo me imaginei lá com ele.
Tudo bem. Hora de voltar pra realidade. E era a de que eu estava bêbada. E que este fato estava mexendo com minha imaginação já sensível.
Se sente melhor? — questionou Jacques, apoiando a cabeça no meu ombro.
Acho que sim.
Que bom, porque vou me aproveitar de algum vestígio de sobriedade – ele tinha um brilho ofuscante naqueles olhos incríveis.
O quê...?
Nada a declarar. Porque fui tomada por choques elétricos quando ele sugou meu pescoço com a boca e mordeu o lóbulo da minha orelha.
Jacques... — sussurrei, agora bem sóbria — … estamos numa danceteria.
Não estamos fazendo nada demais – ele respondeu contra minha bochecha – Fique tranquila, não vou levar sua ideia da mesa à sério, até porque não gosto de me expor, e fazer o que sugeriu nos levaria pra cadeia e... — ele ficou rígido de repente e parou de falar. Os olhos estavam voltados pra pista de dança.
Coloquei os meus na mesma direção e vi algo que me lançou um arrepio de alerta pelo corpo. Era o mesmo tipo de sinal que eu ainda tinha, mas de maneira bem mais sútil ao ficar perto de Jacques.
Ali no meio dos corpos retorcidos, estavam Alexandra, Suzana. Até aí ótimo.
O único porém era que Suzana agora estava dançando junto com um grupo de garotas, e Alê... estava colada num homem deslumbrante.
Mesmo com o lusco-fusco de luzes seus cabelos eram de um negro notável, e seus olhos eram de um azul tão cintilante que fariam pedras de safira terem vergonha de seu brilho opaco. Parecia ter a mesma altura que Jacques.
E a mesmíssima cor de pele. Branca como uma caveira.
Péssima notícia.
Jaqcues... — me virei pra ele, que ainda me segurava com firmeza.
Quero que você vá até lá agora, e tire sua amiga de perto dele, o mais depressa que puder no estado em que está – ele se ergueu, fazendo o mesmo comigo, os saltos das minhas botas batendo no chão com um estalo.
Fiquei parada, minha vista correndo do moreno lindo pra Jacques.
Você sabe que ela está mais bêbada que eu, Jac, e vai ser difícil ela desgrudar de alguém como ele – fui avisando, tirando a jaqueta dele e colocando a minha – Ainda mais chateada do jeito que está.
Dê um jeito – ele resmungou, apanhando sua jaqueta – Vou procurar minhas irmãs e … mais uma pessoa, se não conseguir arrancá-la de lá, ao menos impeça de todo o jeito deles saírem de dentro deste lugar.
Ainda admirando minha amiga e o vampiro moreno, enruguei a testa, intrigada com a reação do vampiro loiro e agitado ao meu lado.
Por acaso você o conhece?
Ele parou na minha frente, as mãos nos meus ombros e a expressão paciente.
As respostas virão depois, agora faça o que estou dizendo.
Você é irritante – rosnei, apertando os olhos.
Ele tocou meu queixo e piscou.
Digo o mesmo de você, ande rápido! — e deu as costas, me deixando pra trás fumegando. Detestava seguir ordens e ainda mais quando a ordem vinha de um vampiro metido a besta e que estava me escondendo o jogo. Ugh!
Bati os saltos na direção de Alê, determinada a arrancar ela dos braços do vampiro gostosão.
Depois de trombar com incontáveis corpos em meu caminho, consegui chegar até eles e bater no ombro de Alexandra.
Menina, onde você estava escondida?? — berrou minha amiga, os olhos arregalados e vermelhos. Porre, muito porre – Achei um amigo, o nome dele é … ah, deixa ele falar! Essa é minha amiga, Elisabete! — ela me puxou pelos ombros e me jogou pra frente, quase me fazendo cair em cima do cara.
Prazer te conhecer, Elisabete, eu sou Jean. Jean-Philip Dupré – uma mão grande se estendeu pra mim.
Jean-Philip? Afinal, quantos vampiros franceses uma cidade como a minha podia conter? Talvez eu arrancasse a resposta de Jacques mais tarde.
- O prazer é meu – disse, mecanicamente, balançando sua mão gelada e finalmente o observando de perto. Os olhos pareciam ainda mais azuis, e se quer saber tinha algo neles que me deixava perturbada. Seu rosto era anguloso e jovial, os dentes eram impecavelmente brancos e retos, sua pele era lisa e perfeita e o cabelo era ainda mais negro, perto do azulado na distância curta.
Nós já não nos conhecemos, Elisabete? — ele perguntou, num lev enrugar de testa, os olhos fabulosos percorrendo meu rosto vagarosamente – Tenho a impressão de que já vi seu rosto em algum lugar...
Beleza, hora de cair fora.
Tenho certeza de que é a primeira vez que nos vemos, Jean – puxei minha mão mais rápido do que você diria “água benta” e me coloquei ao lado da minha cambaleante amiga, que acenava sei lá pra quem do outro lado da pista – Eu não esqueceria alguém como você – acrescentei pra ficar mais convincente. O cara estava tão fixado em mim que me fez corar como uma virgem inocente. Coisa que obviamente eu não era mais.
Eu também não esqueço mulheres como você, mademoiselle – Jean não precisou falar alto, eu li as palavras em seus lábios, e também soube o que significou o escurecer de seus olhos.
Perigo, perigo, perigo!
Agarrei o braço de Alexandra.
Vamos pra casa, estou cansada e caindo pelas tabelas, quero minha cama! — exclamei, de um jeito urgente que não passou despercebido a Jean. Pude ver pelo canto dos olhos ele abrir um sorriso enorme e ardiloso. Filho da mãe! Ele devia estar pensando que eu era uma amiga super protetora tentando tirar a amiga das garras de um aproveitador, não porque eu soubesse que se eu não fizesse isso ela ia aparecer amanhã em alguma lixeira, com o pescoço degolado e sem sangue nas veias pra contar história.
Está louca?! — ela afastou minha mão mau-humorada – Eu quero sair daqui só com o sol nascendo!
Mas eu não, falou? — insisti, começando a entrar em pânico – Quero ir pra casa agora!
Dá um tempo, não faz duas horas que a gente chegou, Elisa! — então ela sorriu e pulou nas botas amarelas – Já sei! Está chateada porque não tem um gatinho pra você? — ela deslizou a mão pelo peito coberto de camiseta branca de Jean, que pegou seus dedos e os beijou – Que tal você ligar pro Jacques?
Alê, por favor... — recomecei num choramingo, percebendo que seria impossível separá-la de Jean.
Ela fez uma careta de raiva de repente.
Não, pensando bem, ele não! É irmão do Marc, vai fazer você sofrer como o idiota do irmão!
Daí apareceu Suze do nada pra piorar.
Ei, quem é esse? — ela escorregou os olhos azul-claro e maliciosos por Jean, que sorriu em retribuição – Sou Suzana e você?
Antes que ele abrisse a boca Alexandra respondeu:
Caia fora, ele está comigo. Vá procurar outro!
Ah, eu nem queria mesmo! — Suze balançou os ombros e fez uma caretinha falsa de desdém – Por que está aí parada feito uma porta, garota, venha vamos dançar! — ela sacolejou meu braço, quase conseguindo me arrastar.
Não, quero ir embora! — grasnei, já que minha voz estava rouca – Estou cansada!
Você está débil – Suze balançou a cabeça incrédula – Vão pegar uma mesa, eu vou até o bar e pego mais uns drinques! — ela se dirigiu a Alexandra e Jean – E você nem pense em fugir pra casa! — ela saltitou pra fora do alcance da minha vista.
Vem, anda! — Alê enrolou os dedos no meu pulso e me arrastou quase que literalmente pra mesa a qual eu estivera minutos atrás.
Tudo bem. Plano A, ralo abaixo.
Plano B: não deixar ela sair dali com o tal Jean.
Fosse quem fosse que Jacques fora procurar era bom ele voltar logo. O olhar do vampiro de cabelo preto estava faminto ao beijar o pescoço de Alexandra, que se desmanchava em risadinhas.
Que maravilha ter uma amiga sem-noção do perigo.
Trinquei os dentes, contendo a respiração.
Marc D'Crécy ia ser ver comigo, era tudo culpa dele!
As bebidas chegaram pelas mãos de Suze e foram tomadas tão rápido que me choquei um pouco. Aí eles decidiram dançar de novo.
Você vem? — Jean, perguntou apontando a pista com um aceno de cabeça.
Abanei a mão.
Não, prefiro ficar aqui com meu vinho – que estava intocado. Não era boa hora pra ficar doida e cair de bunda no chão.
Ele assentiu e puxou Alexandra pra dentro do espaço pulsante de gente.
Eu podia os vigiar dali mesmo. Na vigília notei que as irmãs D'Crécy haviam sumido, evaporado como fumaça.
Encarei minha taça de vinho, relembrando saudosa da minha vidinha monótona de antes. Que saudade.
Onde ele está, Elisa? — uma mão desceu sobre meu ombro, mas não era de Jacques.
Dei um pulo e me voltei pra trás.
Átila??? O que está fazendo aqui??? — Jacques surgiu logo atrás dele, com cara de poucos amigos.
Meu trabalho – ele bateu em seu peito coberto por uma jaqueta de couro preta, vi uma forma se elevar. Parecia... ai meu deus,uma arma!
Mas onde ele está? — quem perguntou foi Jacques, a voz dura – Onde eles foram, Elisabete?
Sim, diga, precisamos pegar o cara – a testa de Átila estava enrugada de tal forma que ele me lembrava um daqueles cachorrinhos Sharpei.
Estão bem ali, na pista, dançan... — a frase foi morrendo até não haver mais vestígio dela.
A pista estava ali, as pessoas se balançando freneticamente ao som da música eletrônica.
Mas Alexandra e Jean certamente não faziam parte do cenário.
Porque eles haviam desaparecido.
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