Série - Pacto
8 Elisabete Thomas
Notas iniciais
Estava frio, a neve congelava meus pés por um caminho de grandes cedros, mas eu estava feliz. Mais feliz do que podia imaginar. Ele estaria me esperando no fim da trilha, o meu cruzado, como eu gostava de chamá-lo.
Afastei alguns ramos de árvores insistentes do meio do caminho e desci apressada, atravessando o campo de lavanda agora branco. Eu o tinha conhecido quando o campo estava no auge de seu explendor de cor roxa e o cheiro doce e fresco impregnava o ar irresistivelmente. Na primavera dos meus sete anos.
Esfreguei os braços por baixo da capa de veludo surrada e velha. Eu realmente tinha que mandar fazer vestes novas. Não que houvesse muitas condições pra isso.
Demorei mais alguns passos até vislumbrá-lo perto de um grande carvalho congelado, encostado com calma no tronco, olhando pro lado oposto ao meu.
Senti meu coração bater rápido como as asas de um passarinho. Ele era a coisa mais importante da minha existência, o único a quem eu podia confiar, tanto meu segredo quanto minha própria vida. A capa azul por baixo das peles tremulou no vento e seu cabelo comprido ondulou nos ombros. Ele virou a cabeça e me viu.
Seus olhos castanhos sorriram pra mim antes dos lábios, num boas vindas feliz.
Mon amour... — sussurrei, começando a seguir na direção dele com pressa. Eu não o via há meses e queria abraçá-lo, beijá-lo, rir com ele, ouvir sua respiração, qualquer coisa!
Quase tropecei numa pedra disfarçada pelo monte de gelo, mas mãos quentes seguraram as minhas antes que eu pudesse cair.
Tome cuidado, Anne, não quero um arranhão em você... — ele disse e rapidamente me envolveu num grande abraço de faltar o ar.
Senti tanto sua falta... — murmurei em seu ouvido e respirando seu cheiro. Lavanda e couro, metal, ferrugem, sangue... — Não sei porque insiste em partir quando podia ficar aqui em segurança.
Ele me afastou, mas me manteve presa entre seus braços.
Eu irei gostar de lutar. E sabe que haverá lucros com isso. Não que tenha algo contra os sarracenos – ele respondeu, me observando com olhar sincero e doce – E soube que há areia, deserto, deve ser um lugar lindo.
Talvez um dia possa me levar até lá e me mostrar, eu gostaria muito.
O sorriso em sua face ampliou numa dimensão maravilhosa, como se fosse um raio de sol no frio torturante do inverno.
Faremos isso. Mas por enquanto tenho outros planos...
Ele inclinou a cabeça na minha direção e me beijou com força, fazendo meu sangue voar num fluxo escaldante dentro das minhas veias, deixando meu corpo quente como uma fogueira...
Acordei de súbito, ouvindo o vento rugindo e a chuva caindo com estrondo do lado de fora da casa.
Que não era minha, assim como o quarto.
Então ele não tinha me levado pra casa. Maravilha.
Mais maravilhoso ainda é ter um sonho onde você claramente não era você, como se tivesse trocado de corpo com outra pessoa por um dia e visse tudo de seu ponto de vista. Como um rosto jovem e radiante de um louro bonito que parecia ter entre dezoito e vinte anos.
E tinha todos os dentes na gengiva, se é que me faço entender.
Na Idade Média não tinha pasta e nem escova dental e isso é igual a: pessoas banguelas.
Respirei fundo e sem pressa, não ousando me mexer muito, já que sentia meu corpo dolorido e uma ardência desconfortável na cabeça e na testa.
Notei que estava deitada numa cama cujo colchão era incrível de confortável e tinha uma coberta de pêlos preto grosso em cima de mim, me mantendo muito bem aquecida. Suspirei.
Pelo menos aquele vampiro lutador de boxe tinha tido um pouco de decência. Não que ele fosse escapar de um soco no olho em resposta a gentileza. Eu não ia deixar barato o estrago que ele podia ter me causado no rosto. Eu nunca deixava barato.
Foi nessa linha de pensamento que fiquei até sentir algo estranho. Tinha um vento quente soprando minha nuca levemente, quase como uma... respiração. Era suave, como um ressonar. Como se...
Virei minha cabeça devagar pra trás e engoli em seco, uma onda de medo e desejo passando ao mesmo tempo pelo meu corpo. A cabeça de Jacques D'Crécy estava apoiada no meu ombro, a centímetros do meu rosto, seu nariz afundado nos meus cabelos e seu braço musculoso enrolado na minha cintura como um torno. Como eu não tinha notado isso quando acordei?
E desde quando vampiros dormiam a noite?
Só que ao olhar pras janelas eu vi claridade por baixo das cortinas, iluminando opacamente o assoalho de madeira. Então devia ser manhã, não muito alta, mas definitivamente manhã.
Ele se mexeu. Me mantive imóvel como uma estátua. A mão do braço em cima de mim e da coberta se moveu dali até meu pescoço, mais fria que o normal. Fora do meu controle, arrepios subiram pela minha espinha. Nem queria saber de que tipo eles eram, tinha medo de descobrir.
Você está bem, Elisabete? — Jacques sussurrou no meu ouvido.
Fiquei calada por uns segundos, pensando em qual resposta dar a ele.
Número 1: “Sim, estou bem, e meu corpo tá implorando pra ficar aqui nessa cama, apertado contra você”.
Número 2: “Estou bem, e mal posso esperar a oportunidade de te dar o troco por esse soco, seu vampiro idiota!”
Fiz careta. Nenhuma das respostas me parecia muito adequada.
Acho que estou. Exceto por sentir sensações estranhas na minha testa e cabeça – respondi baixinho. Ouvi ele suspirar. Parecia chateado.
Olha, sinto muito, muito mesmo, nunca foi minha intenção machucá-la. Perdi totalmente o controle. Me perdoe.
Ainda não conseguia olhá-lo no rosto. Mas senti a sinceridade evidente naquele pedido. Eu sabia que ele não estava mentindo quando dizia que sentia muito.
Fechei os olhos e respirei fundo.
Eu devia te meter a mão, mas melhor manter a diplomacia.
Garota inteligente – ele riu na minha orelha, seus dedos percorrendo minha jugular com suavidade – Está com fome?
Não – respondi, e me deixei ficar ali, sendo acariciada.
Então ele se moveu tão rápido que arfei de susto.
Eu agora estava presa embaixo dele, pressionada contra o colchão, não com força, mas sem dúvida limitada em meus movimentos caso quisesse fugir. E sem sequer pedir minha permissão, Jacques retirou o cobertor de cima de mim, separou minhas pernas e as colocou em volta de sua cintura, como se fizesse isso todos os dias. Ergui uma sobrancelha desconfiada.
O que significa isso? — indaguei, observando melhor nossa posição e tentando ignorar as áreas do meu corpo que latejavam dolorosamente de prazer com aquilo.
Significa que você não pode fugir e... — ele sorriu inocentemente — … que podemos conversar mais à vontade.
Você fica a vontade assim com todas as mulheres que encontra? — continuei, tentando dessa vez fingir que não estava notando ele roçar o nariz na minha orelha e que estava sem camisa.
Não – Jacques ergueu o rosto e me encarou com olhos castanhos ardentes de malícia – Só com aquelas que me provocam.
Acho que não foram muitas... — chutei, admirando a musculatura dos braços apoiados de cada lado da minha cabeça.
Ele enrugou a testa e o semblante ficou sério.
Até ontem nenhuma tinha feito algo do tipo. Mas claro que você seria diferente, não cairia totalmente na rede de um vampiro. Está no seu sangue. Me diga, o que quis dizer com a história dos alarmes pra ficar longe de mim?
Hãmmm... — procurei me lembrar do que tinha falado, mas parecia difícil no momento. Me diz, quem consegue se concentrar numa memória perdida quando se tem um vampiro cheio de músculos em cima de você, numa posição tão sensual que era complicado até respirar?
Lisa... — ouvi ele chamar, como se eu estivesse longe. Talvez fosse o caso mesmo.
Abanei uma mão, com impaciência.
Eu não sei. Era só algo como um sinal. Pra me manter longe de você. E sempre achei seus irmãos estranhos também. Seus pais... acho que nunca fiquei próxima tempo suficiente perto deles pra sentir o mesmo, assim como de suas irmãs.
E como fez isso aqui? — ele apontou pra baixo.
O mirei confusa.
Isso o quê?
Jacques deu um sorriso grande e quente, que fez cada osso do meu corpo ficar em chamas. Sério, eu tinha que me controlar. Meu nome não é Alexandra.
Você gosta de fazer tudo ser mais difícil – ele pegou minha mão direita na dele e a espalmou em seu peito. Não tive como escapar. Afinal, eu estava sentindo sua pele contra minha mão.
Era gelada, mas firme, como alguém que tivesse feito musculação por anos. Só que um cara que frequentava academia nunca ia conseguir chegar perto do que eu estava apalpando. Era como tocar naqueles sacos de areia com que se treina em aulas de boxe.
Finalmente olhei em que ponto exatamente minha mão estava. Era em cima do que parecia ser uma queimadura recente, e ela tinha um formato.
Era um cruz. Abri a boca incrédula.
Você não pode estar insinuando que eu fiz isso em você?! — esganicei, sem retirar a mão.
Pra meu desespero a expressão de Jacques dizia claramente que ele acreditava que tinha sido eu sim. Comecei a girar a cabeça de um lado pro outro de um modo louco no travesseiro.
Não, eu não fiz isso, de maneira nenhuma...
Fez, assim como me deu aquele empurrão nada suave antes de apagar.
Você está maluco! — exclamei, não querendo acreditar no que eu ouvia. Estava definitivamente comprovado que chupadores de sangue perdiam o juízo. Exemplos: Amelie e agora Jacques.
Que sorriu triste pra mim.
Essa probabilidade é remota. Pense bem, chérrie, qual foi a última coisa que fez antes de desmaiar?
Mais uma vez foi difícil pensar, dessa vez por causa do “chérrie”. Mas o flash veio rápido como um raio. Me lembrei dele apertando meu pescoço, e então tentei empurrá-lo... e o que fiz foi atirá-lo a uns cinco metros de distância, de volta pro quarto e pra longe de mim. Engoli em seco.
Eu tinha feito algo estranho. De verdade.
Enquanto me mantinha emersa nessa constatação, outras coisas foram voltando. Além do costumeiro aviso pra me manter longe de Jacques – que foi vergonhosamente ignorado – tinha aquela visão arrepiante que tive ao ser tocada por ele: o sangue, os cavalos, espadas brandindo, agonia e gemidos de morte e … o sonho!
Não percebi quando levei a mão aos lábios.
O rapaz bonito e louro, de sorriso afetuoso, de rosto corado de frio e sem cicatriz.
Era Jacques. Um Jacques em versão estéreo, radiante em sua juventude. Me lembrei do nome pelo qual ele me chamou. Alguém que não era realmente eu, não havia dúvida.
V-Você conheceu alguém, uma moça, chamada Anne?
Foi horrível. A expressão dele.
Era como se eu tivesse lhe atravessado com uma flechada. Ou tivesse o jogado numa pira em chamas.
Anne... — Jacques sussurrou, a dor em seus olhos me atingindo como uma bofetada, minha vista se embaçando com lágrimas – C-Como...?
Estava sonhando, e foi assim que... você a chamou – expliquei virando o rosto no travesseiro e piscando pra não chorar – Eu, de algum jeito, era ela no sonho.
Um sorriso de lábios tão arrasado quanto os olhos surgiu no rosto dele.
Onde estávamos? — as mãos dele brincaram com meus cabelos distraidamente.
Num campo de lavanda, coberto de neve, ao lado de um carvalho grande – respondi, a garganta apertada e ainda sem o encarar – Quem era ela?
Sua respiração suspendeu ao som da minha pergunta. Depois senti braços passarem por debaixo da minha nuca, apoiando minha cabeça, e um rosto colar no meu. O silêncio se manteve por longos minutos, onde eu só pude ouvir sua respiração cadenciada no meu ouvido.
Anne foi uma mulher muito especial. Pra ser sincero, ela foi o amor da minha vida, num tempo em que eu era muito jovem e relativamente feliz. A conheci quando tinha oito anos, mas de fato só me aproximei de verdade quando tinha quinze. A família dela, os Saint German, eram habitantes de nossa vila, e infelizmente pra eles não tinham boa fama entre as pessoas, eram acusados de fazerem bruxaria, mas minha família jamais deu ouvidos a fofocas, gostávamos que as pessoas se sentissem bem e dávamos o máximo de tratamento igual a todos em nossas terras. Apesar de não sermos verdadeiramente donos delas.
Vassalos? — arrisquei tentando me localizar no tempo. Os mil e cem eram os primeiros tempos do feudalismo se minha memória estivesse correta.
Sim, mas este fato nunca me incomodou, por que incomodaria uma criança de oito anos? — ele ergueu a cabeça e encarou meu rosto atentamente – As coisas só mudaram quando cresci e vi como tudo realmente era. Por isso fui pra minha primeira Cruzada, não por ser um grande fiel a igreja, e sim porque eu sabia que nem sempre o motivo de uma batalha contra os muçulmanos era por religião e sim por conquista política e riqueza. Por que não tentar trazer algo mais que uma plantação e um solar que realmente não era nosso, à minha família?
Finalmente o encarei, lutando contra o choque de falar com alguém que tinha vivido na Idade Média. Seus olhos percorriam meu rosto sombriamente, como se reconhecesse algo que desgostasse intensamente.
Suponho que foi em batalha que conseguiu os músculos... — tentei fazer uma piada. Sério, eu era inteligente suficiente pra sacar que um vampiro de muitos anos estava em cima de mim e se quisesse podia muito bem me comer. Passei os dedos lentamente pela pele branca e macia de seu antebraço.
Sua testa vincou e seus lábios se estenderam numa linha fina.
Não somente isso... — Jacques me encarava, seu tom de voz amargo , os olhos se tornando mais escuros, mais perigosos. Ele tirou minha mão de seu braço rudemente e a encostou em seu rosto. Na cicatriz.
Arregalei os olhos e engoli seco me encolhendo instintivamente. Mas então uma onda de orgulho se abateu sobre mim, violenta como a tempestade que eu escutava rugir lá fora.
Por que diabos eu deveria temê-lo?
De repente ele sorriu, assim, do nada, ao admirar a expressão do meu rosto.
Não há dúvida que você é a ancestral dos Saint Germain. Uma autêntica bruxa.
Virei o rosto pro lado incomodada.
Sério, pare com esse negócio de bruxa. Provavelmente o que eu fiz foi nada além... — parei de falar no mesmo instante – Peraí, ancestral dos Saint Germain? A família...
De Anne e de sua mãe, Claire Saint Germain. Magia, passada de geração a geração... — ele terminou por mim, com alguns detalhes a mais – Você é o sangue de quem amei e de quem irei odiar pra sempre, mesmo que consiga voltar ao estado normal.
A mãe de Anne... — murmurei pestanejando, tentando formar alguma coisa no cérebro. Mas é difícil com pouca informação.
Sim, ela destruiu minha família, condenou minha irmã a levar seu inferno pessoal pelo resto da eternidade e nos enterrar vivos nessa lado escuro da existência, matando pra poder viver – as veias do rosto dele estavam pulsando, sua respiração feroz e os olhos agora negros como a noite, ferventes de fúria. Eu senti medo sim. Mas o orgulho recém inflamado não me deixou demonstrar, não iria tornar a situação melhor, de qualquer jeito, Jacques parecia estar longe, resgatando o tempo em que algo extremamente ruim aconteceu a sua família. Fosse lá o que fosse. Fiquei em silêncio, esperando – E Anne ajudou-a, e embora eu saiba que não teve escolha não posso deixar de pensar que... — sua voz morreu e ele fechou os olhos escuros com força pra abri-los de volta em seu tom claro e suave de castanho – Não importa agora. O que importa é que você vai nos dar nossa liberdade de volta, você pode fazer isso. Seu sangue carrega o poder de uma geração de feiticeiras poderosas.
Dei um suspiro impaciente.
Certo, certo. Eu não sou bruxa, só pra te lembrar.
Então por que teve esse sonho? Como me fez essa marca? Como conseguiu me afastar e reagir quando eu estava quase a matando? Explique Elisabete, estou todo ouvidos a uma nova teoria – ele alçou uma sobrancelha clara, num óbvio gesto de ceticismo.
Eu... eu... — abri a boca, tentando vasculhar uma explicação lógica pras coisas que me aconteceram sucessivamente ao conhecer aquele ser extraordinário e de pele fria como gelo pressionado contra mim, não deixando um mísero músculo do meu corpo relaxar, fora as outras partes, tensas por outros motivos... — Eu não posso crer nisso. De qualquer forma, se eu fosse, acha que já não teriam me contado?
A ideia era inconcebível. Tudo bem, eu podia ter feito coisas meio absurdas pra alguém comum, como a marca a fogo no peito dele, e ter visões e sonhos bizarros mas o ser humano é absurdo no geral, não é? Talvez sei lá, eu tenha chegado numa idade em que era normal fazer isso.
Passei as mãos nos cabelos, frustrada. Meus amigos nunca tinham feito coisas assim, que eu soubesse, não podia encarar a compulsão sexual de Alexandra e as escapadas sem explicação de Átila como coisas absurdas... eles eram assim.
Ah, por favor! Aquilo não podia ser de longe a explicação pras minhas coisas estranhas!
A hipótese que tenho é que o segredo foi ocultado de você própria como um meio de protegê-la, Elisa. Um artifício inteligente e bem articulado. Agora me responda, onde está sua avó paterna?
Canadá – respondi automaticamente, os dedos pinicando o lábio inferior, matutando alternativas pra toda a loucura que me envolvia, tentando achar uma saída. De preferência uma em que eu conseguisse entender o que eu mesma tinha feito – Ela mora lá a anos, desde que eu era pequena e meu avô morreu.
Hum, quem imaginaria – Jacques comentou parecendo surpreso – As ancestrais dela a ensinaram bem. A última pista que tivemos dela foi quando era solteira, quase a pegamos, mas ela foi mais rápida e mais esperta, deve ter rodado por muitos lugares com nomes falsos, nos confundindo por um longo período. Mas então ela deixou um rastro, fez faculdade sob nome verdadeiro, e foi fácil ver com quem se casou, os documentos das igrejas não são bem guardados, e então sumiu de novo.
Dessa vez eu ouvira atentamente e claramente. Minha avó? Uma bruxa? E eles a perseguiram?
Por favor, eu quero morrer agora, pensei, achando que uma cova seria melhor que a maluquice generalizada em que tudo se encontrava. Fiquei olhando pra ele com a boca semi aberta, o que pareceu um sinal de encorajamento pra história continuar. Mas só o que eu queria é que ele calasse a boca.
Só que ela deixou mais uma pista. O registro de nascimento de seu pai no hospital, numa cidade bem próxima daqui. Muito prático dela voltar a cidade onde nasceu, você são mesmo ligadas a sua terra – ele ergueu as duas sobrancelhas depreciativo – E então caímos de novo em uma agulha no palheiro. Nesta cidade, seu sobrenome é tão comum quanto Silva e tivemos um outro imprevisto... — seu olhar tremeluziu momentaneamente de raiva — … então tivemos que desistir da empreitada por um tempo. Então ao voltarmos, mais discretamente que pudemos, eu topo com você... — suas mãos grandes acariciaram meu rosto — … e ontem quando tentei te erguer e você gritou pra eu te soltar, eu levei um choque pelo corpo, e só uma bruxa poderia fazer isso, e então descobri seu sobrenome. E enfim, não adiantou muito Silvia fugir tanto. Eu achei a herdeira dela e da magia de sua família – seu hálito soprou em meu rosto, quente e agradável.
Não entendia como poderia ser. Alguém que parecia um picolé ter respiração quente e também a parte em que minha avó Silvia, cuja última vez que vi foi aos sete anos podia ser... uma feiticeira fugitiva. Sentia que ia chorar a qualquer momento, então me agarrei a meu último argumento.
Se tudo for verdade, de minha avó não ter me contado pra me proteger, e de eu ser de fato uma feiticeira poderosa, você não acha que mesmo assim ela ou meu pai não teriam me dado um sinal da verdade, mesmo que eu nunca o reconhecesse? — constatei que minha voz saiu clara e objetiva, o que me orgulhou. Embora eu soubesse que ia mesmo despencar em lágrimas alguma hora. Minha garganta já estava fechada.
Antes de responder, Jacques beijou meu queixo, deslizando os lábios até chegar ao meu pescoço. Fechei os olhos, minha respiração curta e rápida ao sentir a língua dele percorrer minha jugular, minhas pernas ao redor dele se estreitando em sua cintura sem mesmo eu ter comandado. Enfiei os dedos em seu cabelo ao mesmo tempo em que Jacques voltava ao meu rosto, roçando sua boca na minha.
Se lembra do anel em meu dedo, que usei no primeiro dia que me viu? — ele perguntou num sussurro, passando a língua devagar nos meus lábios, os contornando.
Com falta de ar e agarrada nos fios loiros assenti lentamente com a cabeça, que parecia enevoada. O puxei mais perto, me apertando contra ele o máximo que minha força me permitia.
Aquele anel é uma relíquia de família. Anne deu o dela a mim. Mas a Claire permaneceu com o dela... — suas mãos foram abrir os botões da camisa com a qual estava vestida. Uma camisa masculina, que ficava enorme em mim – Deve ter passado a frente, como sei que faria. Feiticeiras costumam passar os pertences valiosos pra próxima geração. Pergunte a sua avó... — o rosto dele baixou pro meu colo e as mãos subiram lentamente até ficarem abaixo dos meus seios, perigosamente — … ou ao seu pai, se vocês tem algo assim. Quer apostar como você vai achá-lo?
Não gosto de apostas... — murmurei, me amaldiçoando por ter hormônios tão vulneráveis. Então saí de súbito do meu estado excitado e letárgico. Porque puta merda, eu estava ardendo em todas as partes inimagináveis, e se eu ficasse mais um pouco embaixo daquele vampiro enlouquecedor – em todos os sentidos – eu sabia muito bem onde eu ia parar. Seria uma opção agradável. Muito agradável mesmo. Mas eu tinha que fazer umas coisas antes. Como por exemplo saber mais sobre minha própria história. Porque meu último fio de esperança tinha sido cortado.
Jacques, vendo minha imobilidade voltou a se comportar de um jeito mais digno. Traduza-se: fechou os botões da blusa que obviamente era dele, mas que me serviu como pijama e colocou os braços de cada lado da minha cabeça, como antes, e diminuiu a pressão de seu corpo no meu.
Fiquei o encarando tristemente.
Não, Elisabete, não chore, não há motivo pra isso... — as sobrancelhas dele se uniram e ele aproximou uma mão do meu rosto. Fui mais rápida. As costas da minha mão saíram molhadas, o que significava que eu estava chorando sem sequer perceber. Droga.
Se acalme... — ele beijou meu rosto úmido devagar, com mais cuidado ainda perto dos meus olhos. Senti uma pontada dolorida ali mas não liguei. Continuei chorando como uma criança que perde a mãe no meio de um lugar lotado.
Bruxa? Como podia ser? Por quê não me contaram? Eu tinha o direito de saber! Não era justo terem me deixado no escuro, e olha só na confusão que tudo tinha dado?!
Meus soluços chegaram, arranhando minha garganta, implacáveis. Enfiei as mãos no rosto, desolada. O que mais tinha sido mentira na minha vida? Porque claramente eu era diferente, ninguém que conhecia faria e veria o que vi. Fazia parte de quem eu era. Um eu que me fora ocultado por anos e que provavelmente morreria sem ser libertado se não fossem... os D'Crécy e minha força de vontade em viver na hora que Jacques estava louco tentando me matar.
Ele saiu de cima de mim com pressa, me erguendo com os braços pela cintura. Sem resistir fui parar em seu colo, onde minha cabeça ficou em seu ombro largo, respirando aquele perfume já familiar.
Quando parei de desabar, o que me pareceu um longo tempo depois, talvez uma hora, entre intervalos de soluço, fungadas e lágrimas, Jacques tocou meus cabelos e depois aquele ponto desconfortável, bem no cocuruto.
Eu tenho que trocar seus curativos, Lis. Você está sangrando nos dois.
Dei um riso triste e fungado.
Meu corpo deve chorar de modo diferente, talvez lágrimas de sangue, o que acha?
Ele torceu o lábio vermelho-escuro e me olhou com desagrado.
Acho que essa piada foi de péssimo gosto. Mas te dou um desconto. Em parte é culpa minha você estar nesse estado psicológico, te dei informação demais pra uma manhã que mal começou.
Pelo menos disse a verdade. O que é bem mais do que meu pai e avó fizeram – retorqui ressentida.
Não os julgue mal. E talvez seu pai também não saiba de nada. A poderosa da história é sua avó – ele se levantou, me erguendo junto, meus pés em cima dos dele, unidos num caminhar até a cadeira Luís XV na qual fui colocada com muito mais gentileza do que na primeira vez. Deixei ele lidar com os curativos sem reclamar, de qualquer forma a dor provocada não era nem o princípio da que me corroía por dentro.
Uau, isso é uma mudança e tanto, você nem sequer está se movendo – comentou Jacques com bom-humor.
Suspirei melancolicamente.
Não tenho mais nenhum motivo pra me mexer, a não ser que você esteja pensando em me dar um soco novamente. Só que dessa vez você vai se dar mal se fizer isso. Vou me defender muito bem.
Pare de lembrar disso. Não sabe o quanto me odiei por ter perdido o controle. Geralmente sou mais civilizado. O máximo que minha condição permite. Não costumamos ser criaturas muito dóceis – ele respondeu em tom de lamento enquanto tirava esparadrapo da caixa de primeiros socorros.
Bom, eu te provoquei, tenho uma parcela de culpa. Também ficaria fula se alguém chamasse minha família de demônios. Mas sinceramente eu xingaria de volta em vez de perder meu tempo metendo a porrada no imbecil.
O riso dele foi baixo e nervoso.
Foi o que Amelie me sugeriu, pena que o aviso veio tarde demais.
Tudo bem, agora você está precavido – dei um sorriso achando graça do rumo da conversa. Meu olhar recaiu sobre o quadro de Jacques perto da porta – Você fica lindo de veludo.
Ele parou de mexer no meu couro cabeludo que ardia pra burro. Acho que estava observando também.
Talvez, mas acho que prefiro jeans, muito mais confortável – disse com indiferença.
Jeans não deixam pessoas parecidas com príncipes – argumentei sem me deixar abalar – Quem pintou essa tela? Parece coisa pra ser colocada em museu...
Da Vinci.
O QUÊ? — eu gritei e pulei no lugar, me arrependendo no mesmo segundo. Parecia que tinham enfiado uma faca na minha cabeça, o que enviou uma onda de dor tão aguda que tive vontade de me encolher e vomitar.
Por todos os infernos! — resmungou Jacques rispidamente – Pare quieta! Quase cheguei no seu cérebro com essa agulha!
Desculpa! — pedi, mas com irritação – Mas você não pode simplesmente falar que Da Vinci pintou um retrato seu e esperar que eu haja como se não fosse nada! — então senti outra pontada dolorida entre meus cabelos – Afinal o que está fazendo enfiando uma maldita agulha em mim?
Dando pontos de volta, os antigos tinham aberto. Diga aos seus pais que sofreu um assalto tão violento que não quis preocupá-los e aceitou passar a noite na casa da minha mãe.
Ergui as sobrancelhas pro retrato, já que não podia fazê-lo pro original, já que estava às minhas costas, me costurando.
Afinal das contas qual foi a desculpa que você deu a eles? Porque se eu não tivesse dado notícia aqueles dois certamente já teriam colocado o exército e a marinha atrás de mim.
Minha mãe ligou pra sua casa e disse que a convidou pra dormir aqui. Claro que agora você vai ter que dizer o que falei pra explicar o porque de estar toda estourada. Deixe sua carteira aqui e o celular, lhe darei tudo novo pra compensar – suas mãos pararam – Pronto. Agora vamos pro seu supercílio.
Ele apareceu na minha frente em toda a sua musculatura. Se ele colocasse uma camisa acho que eu me sentiria menos intimidada. E meu coração iria parar de saltar daquele jeito obsceno.
Quer anestesia? Esse pode doer um pouco mais... — ele apontou a seringa nova e descartável dentro da caixa branca. Abanei a cabeça rápido.
Não, posso aguentar. Sou muito resistente.
Tem certeza? — ele estava olhando pra região da minha testa em dúvida – É um lugar bem mais sensível...
Jac, tudo bem. Faz logo.
Ao som do apelido e não de seu nome, os olhos castanhos se voltaram pros meus, brilhantes como as jóias do colete de veludo que ele usava no retrato, que Da Vinci retratara tão maravilhosamente.
Ele deu um sorriso delicado de lábios. Gostava da cor deles. Eram de um vermelho-escuro, como sangue...
Que seja feita sua vontade – ele se inclinou sobre mim e começou a trabalhar. Eu estava longe demais pra sentir os puxões ou a dor. Pensava na minha família e no que Jacques tinha dito sobre o tal anel. Mas eu não me lembrava de termos nada assim em casa, muito menos uma coisa tão antiga, passada de geração a geração...
Minha boca se fez em uma linha rígida. Um frio se entranhando em cada pedaço da minha pele. Raiva. Se isso fora escondido de mim era hora de aparecer, e eu faria acontecer, por bem ou por mal.
Quando Jacques terminou, me mandou voltar pra cama pra dormir mais um pouco pois ainda não eram sete horas. Mais tarde, fui acordada pelo cheiro de ovos e café.
Não tinha ninguém no quarto, mas a bandeja de café-da-manhã mais fantástica do planeta estava na mesinha onde não havia um vestígio do kit de primeiros socorros. Ainda meio trôpega de sono, me sentei na cadeira Luís XV e admirei a rosa vermelha como sangue dentro de um vasinho comprido de cristal. Ao lado dela havia um bilhete em letra floreada e inclinada:
Lis
Tenha um bom café da manhã. Você está livre pra ir pra casa, embora eu tenha gostado muito de ter você em minha cama por uma noite. Minha família e eu estamos dormindo, e sei que vai entender se não pudermos acompanhá-la até a porta. Quando quiser eu te explico como minhas irmãs vão pra escola de manhã. Sei que vai ficar curiosa sobre o sol.
Jac
P.S: Você pode me acordar pra se despedir se quiser.
P.S2: Podemos sair mais vezes? Dessa vez sem chocolate e becos escuros? Mas com um pouco mais de classe, sou um cavalheiro nas ocasiões certas...
Sorri e engoli um gole de café. Era mesmo curioso pensar que as irmãs dele estavam na escola com meu irmão naquele momento, mas como podiam sair ao sol? E eu também tinha gostado bastante de dormir na cama dele, mas preferia enfiar uma faca no peito a ter de admitir isso. Quanto a sair com ele... pensar mais de duas vezes seria bom. Mordi um sanduíche e me perguntei onde estariam minhas roupas originais. Não podia simplesmente ir pra casa com a camisa do Jacques, embora ela fosse uma Armani autêntica.
Mas meus olhos foram parar no quadro de novo. Onde Jacques parecia algo saído de um livro de romance. Mesmo na pintura era visível a escuridão dos olhos à espreita e uma curva de boca dura, que ameaçava. Mas ao mesmo tempo era tão atraente...
Suspirei e enfiei mais um sanduíche quase inteiro na boca. Os integrantes da família D'Crécy eram tal como lobos: lindos, imponentes e frios. E perigosos quando ameaçados, irritados ou... quando estavam com fome.
Toquei o curativo acima da sobrancelha. Eis a prova.
Tomei o resto do café e reli o bilhete até ele ficar amassado e meio mole nas minhas mãos.
Andei pelo quarto até achar minha roupa da noite passada dentro do banheiro, mas o que encontrei fui uma pilha com peças novas em cima de um pufe de vinil azul com rodinhas. Havia um bilhete ali também, mas a letra não era do Jacques:
Elisabete
Sinto muito pelo meu filho, acredite, ele ficou terrivelmente arrependido. Minha prole, especialmente Jac, tem temperamentos um pouco difíceis.
Só posso expressar o quanto lamento ajudando no mínimo.
Temos o mesmo manequim, por isso deixei essas peças. Ficaria grata se aceitasse.
Suas roupas estão na mesma pilha.
Isabelle D'Crécy
Nem podia acreditar que alguém tão glamourosa quanto Isabelle D'Crécy podia vestir quarenta e dois como eu, ela tinha me parecido tão mignon...
Bem, que fosse.
Vesti as roupas novas. Não quis me ver no espelho, mas sentia que tinham ficado perfeitas. Eram peças simples, calça jeans preta, uma camiseta de manga comprida branca e um suéter de tricô branco. Minhas roupas estavam lamentavelmente estragadas, os jeans tinham manchas de barro, e minha pólo rosa estava coberta de sangue seco. Só meu casaco e a blusa grossa de lã tinham sobrevivido. E minhas botas.
Me lembrei do que Jacques tinha dito e depois de apanhar meus documentos e o mísero dinheiro, deixei minha carteira e o celular em cima da cama dele, como um lembrete de que ele me devia uma.
Saí pelo corredor e fiquei encarando os dois lados pelos quais podia seguir, não lembrava ao certo por qual deles tinha vindo. Eles bem que podiam colocar setas pra indicar, a casa era mesmo grande pra burro.
No fim das contas acabei me achando no salão onde havia acontecido o coquetel mais sangrento que a cidade já tinha visto. Estava tudo diferente. Parecia uma sala de descanço ou sei lá, só um lugar onde você sentava num dos sofás de camurça bege e pensava na vida. E podia tocar o piano de calda se quisesse também. Me aproximei dele e vi o caderno de partituras aberto numa das sonatas de Chopin. Devia ser a que Hugo estava tocando quando cheguei na casa.
A partir da sala encontrei o corredor que levava à saída, mas não coloquei os pés pra fora antes de me despedir.
Como eu sabia onde eles estavam dormindo?
Fácil.
Enquanto o caminho por onde eu tinha vindo estava iluminado pelas luzes do dia, cujas cortinas de musselina fina não conseguiam esconder, adiante, mais alguns passos, talvez uns cinco metros no corredor a esquerda da porta de saída havia um breu de dar arrepios. Era impossível enxergar o próprio nariz.
Não acendi luz alguma no caminho, tanto por precaução tanto por ter testado um interruptor que localizei pelo tato. Não funcionava. Aquela parte da casa era bloqueada para o dia ou qualquer tentativa de luminosidade.
Tropecei em vários tapetes pela textura, até mesmo nos meus pés enquanto continuava andando tendo como guia as paredes.
Só que apesar disso passei por várias fechaduras. E não tinha noção de quem ou o quê estava por trás das portas.
Parei por um momento e respirei fundo. Se eu era de verdade alguém cujo sangue tinha magia , então ela teria de me ajudar.
Pensei em Jacques adormecido, sua respiração suave e nas pálpebras fechadas, os cabelos louros espalhados...
Um vento forte que sem nenhuma chance remota poderia ter entrado por janelas lacradas rugiu no corredor, levantando meus cabelos por um momento, enquanto eu ouvia a alguns passos de mim, um barulho de maçaneta sendo girada e porta rangendo.
Tateei no escuro e no instante em que cheguei na soleira da porta, o vento cessou, como se nunca tivesse ocorrido.
Dei um gemido de angústia. Estava mais que provado que eu realmente era mais do que pensava. E isso fez minhas veias latejarem de medo. Nesse segundo de pulsações apreensivas captei um sussurro, que parecia algo que o vento que estava ali antes provocaria, como uma ilusão.
Mesmo que eu soubesse que ilusões provavelmente não chamariam por meu nome.
Jacques? — sussurrei de volta, dando um passo cuidadoso pra dentro do quarto onde não havia nada além de escuridão.
Aqui... — a resposta foi muito próxima, assim como o som da porta fechando.
Onde? — perguntei, a voz murmurada, e parada no mesmo lugar, sem noção de pra que lado andar.
Aqui, Lis.
Contive um grito ao sentir duas mãos de gelo tocarem meu pescoço, bem às minhas costas.
Desculpe-me. Parece que tenho um estranho dom de assustá-la toda vez que entra em meu caminho – Jacques disse, sua voz tão rouca que era quase irreconhecível. Era o tipo de voz de quem está quase desmaiando de sono.
Eu que peço desculpa – pisquei inutilmente, tentando enxergar meus pés – Devia ter ido embora sem incomodar você – ergui o braço e toquei uma das mãos em minha nuca. Elas se moveram pras minhas costas e depois os braços me envolveram pela cintura.
Não é incomodo algum, Lis. Eu pedi pra você vir. As roupas da minha mãe ficaram ótimas no seu corpo.
Ainda tentando achar oxigênio pros meus pulmões, consegui raciocinar pra falta de lógica nisso. Pelo menos pra mim, que não enxergava nem as mãos à frente dos olhos!
Você pode me ver? Como? Está mais escuro que noite aqui dentro!
Visão de vampiro. Não enxergo exatamente, como na luz, é mais como um sensor de calor, quanto mais quente, mais detalhes posso ver. E você é sinceramente a coisa mais calorosa desse quarto. Tome isso – algo foi colocado dentro da palma da minha mão esquerda – É meu anel, o presente da Anne. Peço com todo o coração que cuide dele. Acho que pode ajudar você na busca da história de seu mais novo eu.
Apertei-o dentro da mão, sentindo a frieza da pedra que eu sabia ser azul.
Obrigada Jacques. E agradeça sua mãe pelas roupas, vou devolvê-las em breve.
Não será necessário. Ela tem aos montes, não fará falta alguma – ele me virou de frente pra ele, mesmo que mal visse seu rosto, apenas um vislumbre de pele branca – E espero que pense bem em meu convite.
Convite? — fiquei pensando sobre o que ele podia estar falando. Então lembrei do bilhete de café da manhã – Ah, sim! O convite pra sair... Sério, Jacques, não acho muito seguro sairmos juntos outra vez. Somos uma dupla um tanto perigosa pra saúde um do outro.
Creio que a situação pode ser contornável, depende de você também, é claro.
Tive de conter um sorriso.
Não vou te queimar de novo, se é o que está pensando. Nem sei como fiz aquilo. Mas de qualquer maneira vamos deixar isso pra mais tarde, quem sabe? No momento preciso redescobrir minha própria linhagem.
Tudo bem, mas não vou me esquecer desse “mais tarde”. E quanto à sua linhagem, acredite-me, você é excepcional, como todas o foram. E em breve você irá ajudar-nos.
Ergui a mão livre pra tocá-lo. Antes que eu chegasse em seu rosto, lábios tocaram meus dedos.
Quanto a isso de ajudar, Jacques... Acho que tem a ver com Anne e Claire, não tem? Você não me contou toda a história, contou? — rastros de beijos frios como a Antártida eram deixados na minha mão. Era estranho. Eu tinha uma lembrança bem vívida de como o boca dele era quente, e aquilo ali definitivamente não era quente.
Irei contá-la inteira quando chegar a hora certa. Agora te aconselho a ir, estou com muito sono e cansado.
Por isso está tão gelado? — indaguei, retirando a mão e soltando o braço ao lado do corpo.
Sim, meu corpo expressa a exaustão desta maneira. Só vou voltar ao normal quando, bem...
Beber sangue?
Sim, mas minha pele permanecerá fria. Mesmo que retenha calor, meu organismo o queima rápido demais pra ser sentido. Por dentro é diferente. O sangue me mantém existindo.
Engoli seco e vi uma nuvem branca sair da minha boca. Caramba, quando aquele lugar tinha virado um frigorífico?
Eu vou ir antes que comece a bater os dentes, Jac.
Senti um sorriso se formar no escuro, num lampejo de dentes brancos a minha frente.
Claro, Lis. Não quero que vire uma estátua de gelo.
O ritmo das minhas pulsações se acelerou um pouco ao ouvir o apelido novo, que só ele empregara até agora.
Boa noite – desejei, sabendo que ele já não estava mais nas minhas costas.
Tenha um bom dia... — o sussurro rouco era quase inexistente, como se ele já estivesse meio dormindo.
Agora onde e no quê nem me pergunte. Era algo que nem eu mesma estava querendo saber.
Não foi difícil achar o caminho de volta, agora que já tinha andando por ele. Cheguei na porta e a abri, sentindo o ar úmido bater no meu rosto. A chuva tinha dado uma trégua, mas nuvens ameaçadoras estavam se formando de novo, prontas pra desaguar sobre a cidade de novo. Era uma verdade incontestável que agora tudo que envolvesse chuva seria memorável pra mim. Com chuva eu tinha descoberto a verdade sobre mim mesma.
Me encolhendo dentro do casaco caminhei apressada na direção dos portões altos e negros, agradecida pelo trinco pesado e grosso abrir com facilidade.
Em algumas passadas eu estava em casa, onde o silêncio calmo reinava. Não pude refrear um sorriso suave. Era bom voltar pra sua casa, onde ninguém podia sugar seu sangue.
Abri a porta devagar e pé antes pé segui na direção do meu quarto.
Daqui a pouco meu irmão iria estar de pé, e meus pais iriam dar aula. Precisava de um tempinho pra elaborar a história do assalto pra que ficasse bem convincente.
Tirei as botas, e apanhando um cobertor no guarda roupa, me deitei no divã da minha sala particular.
A chuva estava caindo de volta, quase como se tivesse esperado que eu entrasse em casa em segurança antes de desandar. Mas o som era bom, parecia clarear minha mente.
A tarde, eu ia ligar pra uma pessoa. E ela teria que me dar as respostas.
Depois do que eu tinha passado, eu merecia nada mais que a verdade.
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