Série - Pacto
9 Átila
Notas iniciais
Não foi fácil manter a compostura durante a semana. Aparentemente minha avó estava em algum lugar ermo, acampando no Canadá, enquanto sua neta quase tinha uma crise nervosa. Falei muito pouco com Jacques. Pra ser sincera, nossas troca de palavras se resumia a oi, boa noite, e tchau na faculdade, e raramente o via zanzando fora de casa.
Fui ao treino de natação do Alan pra ver se esquecia um pouco do meu inferno pessoal e tive muitas sessões de cinema com Átila e Alexandra.
Claro que o meu “assalto” fora o assunto da semana.
Meus pais ficaram profundamente agradecidos pela acolhida dos D'Crécy e perguntaram tantas vezes se eu estava bem que até perdi as contas. Os bandidos só tinham levado meu dinheiro – guardado dentro da minha lata de rabicós – o celular e deixado meus documentos.
Não foi surpresa dois dias depois, uma carteira nova ter sido achada na minha mochila enquanto guardava meu caderno, e um celular novo ter sido entregue na minha casa na tarde seguinte.
Ele tinha até conexão com televisão!
Quem te deu isso? — engrolou meu irmão ao me ver abrir a caixa com o aparelho novo, enquanto eu vasculhava ao redor do monte de papel pra ver se achava algum bilhete.
É isso que estou tentando saber... — olhei dentro da própria caixa e nada.
Acho que está procurando isso, não é? — Jeffe se ergueu do chão abanando um pedaço de papel, um sorrisinho no rosto.
Arranquei das mãos dele com uma carranca.
Não se meta no que não é da sua conta.
Dá um tempo – ele resmungou, mexendo empolgado no celular – Você tem mais sorte que eu. Pelo menos alguém daquela família parece amarradão em você.
Virei os olhos e até me ajeitei melhor no sofá da sala pra ler:
Lis
Pra compensar o estrago.
P.S: Me encontre hoje no ginásio da faculdade às cinco. Preciso falar com você.
Enruguei a testa. Ele não dava um claro sinal de vida desde o incidente de domingo. Então o telefone tocou.
Nem me mexi do sofá, porque Jeffe saiu correndo pra atender.
É pra você, nossa avó do Canadá – ele voltou com o telefone da sala de TV e jogou em cima de mim – Vou pro treino de futebol. Se divirta – ele acenou pro celular novo e ao sair piscou por sobre o ombro pra mim.
Irmãos, ruim com eles, pior sem eles.
Com o coração a mil por hora encostei o ouvido no fone.
Vó?
Um suspiro veio do outro lado da linha.
Eu sabia que um dia iria ligar minha querida, Elisabete – sua voz era doce e paciente, algo que eu nunca associaria a uma bruxa, pelo menos não ao esteriótipo delas.
Sabia?
Sim, não se pode fugir de quem é. Eles te acharam, não foi?
Se a senhora se refere aos D'Crécy, sim, eles me acharam, vó. E pelo que ouvi uma de nossas ancestrais está envolvida em algo ruim da vida deles, estou certa?
Outro suspiro, este parecia exausto, como se ela tivesse percorrido uma longa distância e já não tivesse mais forças pra continuar.
Eles não estão isentos de pecados minha menina, não há um único inocente nessa história, a não ser talvez a pobre garota Amelie. Ela de todos nós, nunca mereceu a eterna desgraça.
Amelie... — sussurrei, me lembrando da garota bonita de cabelos longos e escuros, os olhos tão parecidos com os de Jacques – Você a conheceu?
Vampiros são eternos, esqueceu, meu bem? — senti o sorriso triste que vi se formar no rosto dela. Um rosto que eu não via a muito tempo – O que você fez pra ser reconhecida?
Foi uma série de esquisitices – murmurei, me deitando no sofá, subitamente cansada. Toda a história era mais que cansativa – Ao tocá-lo eu vi, flashes, aparentemente algo que Jacques viveu, e depois dei um choque e o marquei a fogo com uma cruz... Jacques me contou sobre um anel, vó, por acaso você tem algum?
Ele está com seu pai, querida, embora ele não saiba de nada.
Ah, Deus. Então era verdade. Irredutível agora, com a confirmação de tudo por minha avó.
Acho que está na hora de nos visitar, vó. Preciso de você aqui – me sentei novamente, ajeitando meu vestido de lã por cima da legging.
Oh, sim. Eu irei. Terá de esperar algumas semanas.
Quantas?
Algumas, preciso estar em plenas forças. Estar na mesma cidade que os D'Crécy é um perigo constante, mesmo com os Castro por aí.
Peralá. Castro? Levantei do sofá, meus pés batendo no tapete com um pouco de força a mais.
CASTRO? — guinchei, minha voz saindo estranha, como se alguém estivesse me sufocando.
Opa. Acho que eles mesmo deviam te contar a coisa toda. É melhor falar com seu amigo, Átila, ele vai saber o que lhe dizer. Querida, preciso desligar, mas antes me responda uma coisa.
Com a mão livre torcendo uma mecha de cabelo nervosamente assenti pra parede, quase quebrando o fone que estava encostado na minha orelha. Átila, ele sabia. Como algumas coisas faziam sentido agora...
Sim?
Este Jacques, como ele é?
Louro, alto, olhos castanhos expressivos. Sabe, aquele tipo que te faz prender a respiração – descrevi, em tom de quem comenta o tempo.
Ah, sim, pensei que pudesse ser o mais jovem deles, ele também é louro, e começou a guerra toda...
Hugo?
Sim, ele mesmo. Quanto ao Jacques... o que você tem exatamente com ele?
Meu rosto esquentou imediatamente e finalmente coloquei meu cérebro pra pensar em específico nessa questão. O que eu e ele tínhamos afinal? Atração ou raiva um do outro? Medo um do outro? Desejo? Tudo isso misturado?
Boa pergunta, vó. Mas se quer uma resposta posso te dizer que somos amigos, de uma maneira estranha... — me examinei no espelho acima de uma das mesinhas de mogno onde minha mãe adorava colocar toalhinhas de renda ou algum vaso de flores. Os pontos no meu supercílio estavam ali, me dando uma recordação vívida do nosso tipo de amizade, o corte no topo da cabeça não era visível, mas muitas vezes coçava ou ardia, como naquela hora — … mas somos, de qualquer forma. Foi ele que esclareceu as coisas.
Sim, claro que ele faria isso. Eles não podem perder uma das últimas chances. Tenho que ir, em breve nos veremos. Ligarei mais tarde pro seu pai, pra avisá-lo. Peça o anel a ele, é seu.
Obrigada, vó – agradeci mecanicamente. Queria que ela desligasse de uma vez – Até breve.
Em breve... — o telefone ficou mudo.
Fui pra sala de TV e coloquei o fone no lugar.
Então Átila sabia dos vampiros, foi o que eu tinha entendido. Por isso a reação do meu amigo de infância no dia do coquetel ao estar no meio deles. Mas o que minha avó tinha querido dizer com aquele, “ Estar na mesma cidade que os D'Crécy é um perigo constante, mesmo com os Castro por aí”? Isso era algum indício de que os D'Crécy podiam ter alguma ligação com eles? De amizade eu tinha certeza de que não era.
Olhei o telefone por mais algum tempo, pensando se devia fazer o que ia na minha mente. Peguei o fone de volta e disquei o número.
Alô? — o huno atendeu, com voz sonolenta. Devia estar tirando um dos seus cochilos de domingo, depois de uma semana exaustiva só vendo todo aquele negócio de engenharia.
Oi, Áti, como vai indo seu domingo?
Lisa! — ele exclamou contente – Não esperava por sua ligação, em especial quando agora você tem com quem dar escapadas no final de semana... — havia um tom amargo em suas últimas palavras. Epa. Quem tinha de estar rancorosa ali era eu!
Está se referindo ao Jacques?
Quem mais seria? — o toque mudou pra um de sarcasmo.
Sugiro que controle sua língua, amigão – o sangue estava no meu rosto, circulando por meu corpo em velocidade máxima. Eu já podia sentir a fúria tomar conta de toda minha alma – Eu não estou saindo com ele, Átila, mas vinha vida está mais entrelaçada na dele do que gostaria, e acho que você também tem algo mais do que ressentimento pelo Jacques. Aliás, você poderia me explicar o por quê disso, sendo que nunca soube de nada que ele pudesse ter feito a você?
Eu não vou com a cara dele, assim como você também não vai com a cara de outras pessoas, Lisa! — ele estava totalmente na defensiva agora.
Eu podia sentir minha têmporas pulsando no ritmo da minha raiva. Eu estava farta de estar presa numa teia de mentiras.
Átila, pare. Apenas me diga o que você tem contra os vampiros – meu tom de voz foi talvez tão frio quanto o corpo de Jacques – Minha avó me deu uma dica. Fala de uma vez.
Ouvi um grunhido no outro lado da linha e depois houve um silêncio sepulcral. Será que ele tinha desmaiado?
Podia ter sido pior – ele finalmente falou, sua respiração acelerada – Eu quis matá-lo quando soube que ele machucou você, quase enfiei uma bala de prata no desgraçado! Você tem que ficar longe deles, Elisa, eles são monstros.
Como você sabe que a gente brigou naquela noite??? Andou nos seguindo??? — eu quase gritei no telefone, meus batimentos cardíacos à toda.
As luzes da sala piscaram.
Quase derrubei o aparelho das mãos.
Tentei respirar e manter o fluxo de oxigênio pra cabeça. Aparentemente se não fizesse isso ia dar um blackout em minha própria residência.
Quando ouvi sua história sobre o assalto, acha que acreditei? Claro que o vampiro idiota tinha batido em você, ele podia fazer picadinho de um ladrão! — rusgou Átila, e pela primeira vez senti o ódio em sua voz – Juro que o transformaria em pó se não fosse a mãe dele se meter. Não que ela não seja igual aos outros, mas conseguiu me convencer que Jacques não tem um gênio muito fácil e que se descontrolou. Ele mesmo me pediu perdão, e pra variar o chupador de sangue estava arrependido de verdade, sabe como sou bom pra captar mentiras bem rápido...
Pena que não é capaz de contar a verdade a seus amigos. O que você tem a ver com eles? Pode me dizer? O que te faz pensar que pode se meter na minha vida? E não me venha com o papo de amizade, eu nunca me intrometi em nada seu! — eu cuspi, vendo as luzes piscarem de novo.
Por favor, Lisa, não fique com raiva de mim. Tudo que faço é pra proteger pessoas que amo. Você e Alê são duas delas. Não posso te falar tudo por telefone, é impessoal demais. Que tal a gente se ver mais tarde, posso passar aí se você quiser...
Uma ideia fervilhou minha mente junto com a mágoa e o ressentimento.
Me encontre às seis horas no ginásio da faculdade. Eu já tenho um assunto pra tratar por lá mesmo. Vai ser bom pra mim ter duas versões de toda essa meleca! — bati um pé no chão, frustrada – Por que tem de ser logo eu a passar por toda essa merda?
Juro que te conto tudo – ele prometeu, o tom de voz mais tranquilo – Mas... com quem você vai falar?
Não é da sua conta.
Mas, Lisa...
Suspirei, cada nervo se tensionando de irritação.
Nos vemos às seis horas – tirei o fone do ouvido e desliguei.
Agarrei os cabelos e bufei. Eu que pensava que essas coisas só aconteciam nos filmes.
Só faltava Alexandra ser um lobisomem disfarçado também.
Daí ficaria perfeito, não?
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