Série - Pacto

11 Elisabete Thomas


Notas iniciais
A ação verdadeira começará em breve pessoal!

Estava cedo demais, isso era óbvio. Eu mal tinha conseguido manter minha bunda no sofá depois de berrar com Áti no telefone. Parecia uma barata tonta andando por todo o quarto, então resolvi sair mais cedo pro meu encontro vampiresco pra clarear as ideias. Meus pais estavam numa festa de casamento e iam voltar tarde, e meu irmão estava desaparecido como fumaça, eu é que não ia ficar vagando como um poltergist em casa sozinha.

No caminho pra faculdade aproveitei pra comprar um refri, um saco de batata-frita e uma boa barra de chocolate. E agora estava admirando os meninos da natação em seu treino na área aberta de esportes, todos dando braçadas vigorosas na água, incluindo meu ex-namorado, que me deu um tchauzinho assim que me sentei na arquibancada. Nem mesmo um dia de tempo ruim conseguia fazer a equipe ficar sem a água da piscina.

Fiquei ali mordiscando uma última batata-frita até ele aparecer. Em ponto. Se o relógio do meu celular novo estivesse correto.

Eu poderia o ter reconhecido em meio a uma multidão. Seu jeito de andar era inconfundível, a confiança de que nada podia atingi-lo. A não ser talvez, eu, pensei sorrindo sem controle.

Jacques usava óculos Ray-Ban enormes, que quase cobriam seu rosto branco de gesso, o capuz do blusão cobria sua cabeça, mesmo que nem houvesse um motivo. Estava tão nublado que parecia noite.

Ele alcançou o degrau onde eu estava, subindo de dois em dois, segurando o capacete da moto. Não o olhei quando se sentou do meu lado, mesmo que aquele cheiro irritante e familiar de lavanda estivesse em toda parte agora.

Você veio – ele disse à guisa de cumprimento.

É, eu vim – respondi, vendo um dos meninos nadar no estilo borboleta com agilidade — Embora seja estranho estar sentada com alguém que não fala comigo a dias.

Pude sentir ele revirar os olhos claros por trás das lentes escuras dos óculos.

Não seja dramática – sua mão fria envolveu a minha e a ergueu – Pensei que o anel já estaria em seu dedo a esta altura.

Puxei a mão e a coloquei no colo de volta. Não gostava quando Jacques me tocava, era perigoso.

No sentido que quiser imaginar, fique livre.

Mas logo estará, vou pedir pro meu pai, minha avó disse que ele o guardou.

Jacques não respondeu, em vez disso se pôs em pé e ficou na minha frente, fazendo fracassar minha tentativa de evitar contato visual.

Vamos pra dentro do ginásio, a claridade está me incomodando – ele se encolhia dentro do blusão preto. O avaliei melhor. Ele estava todo de preto, desde o blusão até os coturnos bem engraxados com um milhão de voltas nos cadarços.

Ah, você vai ter que me explicar como suas irmãs não tem problemas com isso – levantei do degrau, ajeitando minha saia plissada de linho bege, esperando que não estivesse muito amarfanhada.

Sim, irei. Venha. — ele esticou a mão na minha direção, os lábios formando uma curva amistosa.

Mordi os lábios, encarando aquela mão grande e branca.

Acha mais formal lhe oferecer o braço? — foi o que ele fez, o sorriso aumentando, a cicatriz se estendendo no rosto. Um cavaleiro da Idade Média. Suspirei chateada. Infelizmente ele sabia meus pontos fracos.

Envolvi os dedos no antebraço, testando de volta a sensação de que tocava num saco de areia. Deixei ele me levar pra dentro das portas abertas do ginásio coberto, onde alguns alunos da faculdade jogavam uma partida de vôlei despreocupados. Meu lábio inferior virou pra baixo.

Eu devia ter aproveitado mais quando pensava ser alguém normal.

Na hora de subir a arquibancada pintada de verde claro, o braço dele me puxou pra cima pela cintura, como se eu não pesasse nada.

Tive que me soltar, se não ele poderia ter feito isso até chegarmos no último patamar. Eu sabia muito bem andar sozinha!

Pena que tive de dar uma de desajeitada, pra variar. Pisei em falso na hora de subir o degrau mais alto, e num reflexo me impulsionei pra frente e caí.

Em cima dele.

Opa... — ele me segurou com os dois braços, como se temesse que eu rolasse lá pra baixo, o que teria sido bem possível.

Desculpe – murmurei, sentindo meu rosto esquentar de um jeito ridículo. Tentei levantar com alguma dignidade, mas ele me restringiu.

Tudo bem – ele tirou os óculos do rosto com uma das mãos tão rápido quanto um avião a jato. Os olhos estavam claros, quase num tom de mel.

E aconteceu de novo.

As imagens agora eram como no sonho que tinha tido como Anne.

Só que dessa vez eu era alguém diferente.

A saia do meu vestido azul flutuava, a noite era estrelada, e eu sentia medo do que ia fazer, mas era isso ou eu iria queimar, e minha filha viria junto. Lamentava que ela tivesse que participar, ela amava aquele rapaz de olhos doces e inteligentes. Era uma boa pessoa, apesar de o achar um pouco mau-humorado.

Lágrimas escorriam pelo meu rosto quando me aproximei do solar. A lua estava cheia, o que daria ainda mais força ao ritual. Eu me sentia tão mal, e era só a primeira parte...

Eu quase caí, e mãos fortes me seguraram. De novo.

A visão se transformou em nada, e eu encarava os olhos claros e bonitos de Jacques D'Crécy de volta. A única coisa que sobrou foi aquele medo irracional, sem motivo.

O que você tem? — ele sussurrou com urgência, fazendo com que eu me sentasse nos seus joelhos.

Fiquei o encarando sem dizer nada até que levei as mãos ao cabelo.

E-Eu n-não sei. Foi quase como aquela vez que te toquei e vi a batalha. Só que era mais clara, como o sonho que tive, como Anne... só que dessa vez não era ela. Era outra pessoa. Ela estava com medo, mas o medo de queimar era... — eu parei, os lábios despencando ao concluir de quem eram aqueles sentimentos.

Claire – foi Jacques quem respondeu, a voz amarga – Você é boa. Anne não tinha essa visão clara que você tem.

Não é uma visão. Ou, bom, são, mas... — eu estava confusa — … parecem mais impressões. Não estou vendo o futuro, estou vendo e vivendo sensações passadas, Jac – o apelido escapuliu antes que eu pudesse refreá-lo.

Ele deu um aceno lento de cabeça, como se estivesse me entendendo.

Suponho que seja por minha causa.

Joguei as mãos pro alto, desistindo.

Deixa pra lá, minha avó que explique isso com mais detalhes.

Falou com ela, então? — acenei com a cabeça, relaxando o corpo no peito dele. Não senti a frieza da pele, só a lã do moletom, que era muito grosso.

Falei, ela estará aqui em algumas semanas – avisei, os olhos fechados e a cabeça apoiada no ombro dele. Que se danasse que tinha um monte de gente que podia estar vendo.

Eu imaginei que ela viria. Silvia tem muitas coisas pra te esclarecer.

Virei um pouco a cabeça, pra vislumbrar o perfil dele, as sobrancelhas no alto.

Você também tem umas coisas a esclarecer, eu não sei a história inteira.

Ele afastou meus cabelos pra trás, que caíram por sobre seu ombro numa onda castanha meio desgrenhada.

Quando sua avó chegar todos teremos que sentar pra conversar. Então... tudo irá ser revelado. Já ouviu dizer que quem tem pressa come crú? — o tom de riso era óbvio demais pra ignorar.

O que eu sei é que hoje você está preso a alguns esclarecimentos, Jacques – comentei suavemente. A mão direita dele mexia na raíz do meu cabelo, tocando de leve em minha testa – Teremos uma visita daqui a pouco pra colocar tudo em pratos limpos.

Ele parou de mexer em mim.

O que quer dizer?

Eu descobri o segredinho do Átila, ou pelo menos o cerne dele. Meu amigo de infância não gosta de você e de sua família.

Ouvi ele dar um risinho zombeteiro.

Ele foi criado pra nos detestar, não o recrimino.

Ergui a cabeça de supetão, o observando em cheio no rosto. O capuz estava jogado pra trás, e os cabelos louros estavam bagunçados. O que o deixava estranhamente com um jeito de colegial inocente.

Coisa que ele NUNCA ia ser.

Então você sabe o motivo??? — guinchei, me torcendo no colo dele, minhas mãos em seus ombros.

Jacques abriu um sorriso brilhante e misterioso.

Sim, costuma nos dar muitos problemas.

Ah, não, desembucha!

Nem morto! — ele ria divertido, retirando as minhas mãos de cima dele e colocando-as ao lado do meu corpo – Ele vai ter que contar sozinho! Vou acrescentar só algum detalhe ou outro se for necessário. Nada mais.

Fiz minha careta mais irritada. Aquilo não era justo!

Ao ver meu rosto, Jacques fechou um pouco o sorriso e acariciou meu pescoço com os dedos.

Não fique chateada. Nem é tão sério assim. Não mais do que descobrir que você beijou um vampiro e que é uma bruxa. Acho que vai aceitar muito bem a nova situação. Vai parecer bem normal perto das outras...

Dei um pulo quando a boca dele encostou na pele que cobria minha jugular. Ele empurrou minhas pernas firmemente no meio das dele, me prendendo.

Calma, não vou te morder... — ouvi ele suspirar pesadamente — … embora vontade não falte.

Contive minha respiração e tentei achar algo imparcial em que me focar. Escolhi a bola de vôlei, que voava de um lado pro outro na rede, até cair em algum lugar ao fazer um ponto ou por um saque mal dado.

Era isso ou eu ia perder o controle de vez. Aliás, quando eu o tinha mandando pro espaço? Nada me veio a mente.

Como sua irmãs podem sair no sol? — indaguei, tentando ignorar o modo como ele escorregava uma das mãos pra dentro da minha jaqueta de náilon e acariciava as minhas costas.

Coisa de gênero. As mulheres podem sair no sol, nós homens não – ele respirou perto da linha da minha mandíbula – Não sabemos por quê. Só é assim.

Será que é por que somos menos perigosas à luz do dia? — palpitei, arrepios indo e vindo na minha nuca.

Menos perigosas? — ele parecia um pouco ultrajado com a ideia – Mulher em si é um ser muito perigoso.

Estou na lista? — eu estava com um pouco de receio de perguntar, mas não pude aguentar. Eu precisava saber se eu o afetava além do sangue, como ele me afetava.

Com toda a certeza – a outra mão fez meu rosto se mover pra ele, delicadamente – Já pensou no outro P.S do bilhete que te deixei?

Qual? — fiquei tão distraída admirando as linhas agressivas do rosto dele que foi difícil lembrar até que dia da semana era. A boca vermelho-escuro distendeu num sorriso charmoso.

Será que vou ter de relembrar você de outra maneira? Já estamos meio caminho andado.

Pisquei, totalmente perdida. De que bilhe...

Ah! Ahhhh, lembrei! O pedido pra sair!- exclamei alto. Ele afastou um pouco a cabeça, torcendo os lábios, como se eu o tivesse ofendido – Jacques, o que foi? Também está tendo visões? — brinquei, dando um sorriso.

Nada – ele deu uma olhada no relógio – Que horas Átila vai chegar?

Marquei às seis, mas não importa a hora, ele sempre acaba chegando atrasado. Mas não mude de assunto, o que foi que eu disse pra você ficar com essa cara de quem comeu uma meia velha?

Ele me olhou pasmo por dois segundos e caiu na gargalhada. Era um som tão bom, tão normal que minha boca se esticou num sorriso contente.

Meia? — as sobrancelhas claras estavam erguidas, me encarando perplexas, enquanto ele com dificuldade tentava parar de dar risadas – De onde saiu isso?

Sei lá – abanei a mão, despreocupada, meu sorriso ainda maior na cara – Acho que era algo que Alê falava quando eu ficava de mau-humor quando éramos crianças. Nem me pergunte de onde ela copiou essa tirada!

Certamente é eficaz em fazer rir! — os olhos dele estavam em chamas, reluzindo. O jovem de cabelo comprido surgira diante dos meus olhos num respirar. Era mágico de presenciar, como se todo o lado escuro dentro dele tivesse sido apagado e Jacques só conseguisse refletir o lado com luz.

Uma ponta de tristeza fez meu estômago dar um solavanco. Se eu pudesse fazer algo pra trazer tudo que aquele garoto de olhar gentil tinha perdido... eu faria sem hesitar. Sufoquei o choro, que vinha queimando pela minha garganta. O que será que tinha atingido aquela família realmente?

Você está bem, Lis?

Ao som do diminutivo que ele adotara pra me chamar eu ergui os olhos. Jacques parecia mesmo preocupado. E por culpa minha lá se fora o homem radiante de segundos atrás.

Num relâmpago me toquei do que o deixara irritadinho minutos atrás. E uma pequena ideia me ocorreu.

Uh. Ultimamente eu estava tendo muitas ideias. Nem sempre eram boas, mas...

Estou. Mas acho que descobri a causa de sua cara azeda de um minuto atrás... — apoiei o cotovelo no ombro largo dele.

Uma sobrancelha se elevou, num desafio claro.

Mesmo?

É. Ia fazer alguma coisa?

Ia, mas você sabe cortar clima como ninguém – ele tirou uma mecha de cabelo do meu rosto, aproximando o dele.

Bem – encolhi os ombros, como se me desculpasse – Pode continuar o que começou, prometo ficar de bico calado.

Espero que sim – ele passou os braços em volta de mim, libertando minhas pernas, as colocando em cima das dele – Vamos fingir por um minuto que não sou um vampiro e você não é uma bruxa, bien mademoiselle?

Oui, monsieur – respondi, um dos braços em volta do pescoço dele, já sentindo o hálito dele no rosto, os olhos que pareciam queimar e ficar cada vez mais escuros. Não nego que me deu o maior medo. O Jacques de olhos negros não era boa companhia. Ignorei as veias azuis no rosto, salientes demais.

Recebi um beijo no rosto, e até aí estava tudo bem com meu coração, então a boca dele deslizou devagar pro meu queixo, e lá se foi minha pulsação, como um carro de fórmula um. Ele me puxou mais apertado contra ele, e meus dedos se agarraram nos cabelos louros e lisos, escorregando um pouco. Jacques continuou deixando rastros de beijos pela linha do meu queixo e correu pro canto da minha boca, onde demorou mais.

E daí...

Acabou a festa no momento em que alguém deu um pigarro alto e zangado.

Vocês estão em público, sabe.

Pulei tão rápido que realmente quase saí rolando arquibancada abaixo. De novo, Jacques me amparou.

Lancei um olhar malévolo pra nossa companhia.

Oi, Átila – cruzei os braços – Sente e comece.

E é por isso que não gosto nada de suas companhias... — Átila finalizou, o olhar hostil na direção de Jacques ao meu lado.

Eu só fiquei ali, de boca aberta, como uma idiota.

Meu Deus. Uma família caçadora de vampiros... E isso nem é um filme do Blade! — reclamei, torcendo os dedos na minha saia, que estava mais amassada do que bolinha de papel – Era por isso que você ficava desaparecendo tanto? Tinha a ver com isso?

Sim, às vezes um ou outro sempre acaba passando pela cidade. É meu dever vigiá-los, e caso tentem matar alguém é minha obrigação enfiar uma estaca neles – ele respondeu de modo casual, como se fosse normal sair por aí usando estacas – Eu não tinha ocupação há dois anos, até que...

Ergui a mão, o nariz enfiado no meio das pernas.

Eu sei, os D'Crécy apareceram e te tiraram da monotonia – completei, sentindo como se alguém tivesse me dado uma machadada – Mas eu sei que você já conhece a família deles a mais tempo. Minha avó deixou escapar.

É, meu pai ouviu do meu avô e foi repassado pra mim. São conhecidos desde meus ancestrais que vieram de Coimbra. O aviso é de que eles eram perigosos. Mataram bastante gente da última vez que estiveram aqui – ele continuou num tom cortante como navalha. Era tão estranho ver aquela hostilidade dentro de olhos sempre tão compreensivos. Nem parecia que era meu amigo de anos, e sim um estranho de cabelos pretos e bochechas coradas.

Ergui um tantinho da cabeça e espiei Jacques, esperando ouvir alguma declaração de defesa da parte dele. Embora eu tivesse certeza de que não havia nenhuma.

Somos vampiros – respondeu, a voz monótona – Temos que comer em algum lugar.

Enfiei o rosto na minha saia de volta, com um gemido, querendo virar pó.

Tudo bem, acho que posso lidar com isso – falei, minha boca contra o linho de fio grosso – Mas o que houve em Coimbra? Essa história está ficando cada vez mais remota no tempo...

Você teria que conversar com meu pai. Não tenho detalhes de tudo, mas parece que um dos seus amigos matou alguém da minha família...

Vocês começaram a briga primeiro — a voz de Jacques era como uma navalha afiada cravando na pele – Tínhamos um tratado, vocês o quebraram.

Que eu saiba só foi quebrado por que vocês começaram a morder todo mundo na cidade – retrucou Átila, destilando veneno. Mesmo com a cabeça entre os joelhos eu podia ver o rosto dele retorcido de desprezo e raiva.

Um riso de escárnio veio do meu lado esquerdo.

Mas é claro que você não conhece os detalhes, não querem que pense que podemos ser honrados, mesmo sendo quem somos!

Não preciso de detalhes pra saber quem são os monstros da história – o sibilar de Átila feriu meus ouvidos.

Tirei a cara da saia e soprei os fios de cabelo dos meus olhos.

Chega. Assunto encerrado ou vou transformar os dois em sapos – resmunguei meu sangue fluindo pro rosto ao encarar um de cada vez – Acho que já sei o suficiente, huno– ele sorriu ao ouvir o apelido – Agora só quero ir pra casa e assistir o Frodo destruir o anel de Sauron, de preferência com muita pipoca ao meu lado.

Desculpe não ter contado antes, Lisa, não parecia ser algo em que você pudesse acreditar – Átila bateu na minha perna com carinho, no seu degrau abaixo de mim — Mesmo você sendo uma bruxa.

Virei os olhos e ele riu, como sempre fazia quando achava que eu estava engraçada.

Obrigada por lembrar, bárbaro – mostrei a língua pra ele, sentindo vontade de lhe dar um abraço. Caçador de vampiros ou não ele ainda era meu amigo querido. Sempre seria.

Babaca, é inconcebível você saber sobre mim antes mesmo de eu saber! — continuei, fingindo indignação – Mas que seja, de qualquer jeito minha avó cozinharia você vivo se me contasse. Obrigada por não abrir a boca, passei bons momentos sendo uma simples pessoa, sem poderes de ver coisas e fazer piscar as luzes da própria casa.

Os olhos castanho-claro dele se arregalaram a tal ponto que achei que poderiam cair no chão e sair quicando até a quadra de vôlei.

Piscar luzes? Visões? Que negócio é esse?

Dei uma palmadinha em seu ombro tenso e dei um risinho.

Pois é, quando se tem magia essas coisas acontecem. Não se preocupe, minha avó está a caminho, daí te conto tudo que eu descobrir.

Pelo menos não precisa de varinha! — ele zombou, arrumando uma das fivelas soltas da minha bota.

Eu ri. Era bom ter o meu Átila de volta. Mesmo que ele não gostasse das “minhas companhias”.

Como vão os preparativos pro seu aniversário? — ele indagou, sentando do meu lado direito, ignorando Jacques completamente. Aliás, ele nem parecia estar mais ali mentalmente, olhava pra algum ponto cego do ginásio sem expressão nenhuma.

Meu riso morreu e bufei chateada.

Vai indo, minha mãe e Alê estão planejando uma coisa grande, com um bando de convidados e um bufê espetacular. Como se eu precisasse me sentir mais boba. São dezenove anos, não quinze! — grunhi exasperada, lembrando de minha mãe e melhor amiga no telefone durante a semana e na cozinha no sábado, tramando o que mais parecia uma festa de casamento do que de aniversário. E eu nem podia reclamar. Quer dizer, até posso, mas quem vai me escutar de qualquer jeito?

Melhor poupar saliva.

Não fique assim, pensa que pelo menos você nunca vai esquecer essa festa. Soube que Alexandra planejou um tema...

O quê? Ela não me disse nada! — engasguei, derrubando meu celular novo no chão – Ninguém vai planejar nada pelas minhas costas!

A mão de Jacques colocou o celular de volta na minhas mãos.

Então a avise disso. Este não é o número dela? — ele disse, sem me encarar, os lindos olhos castanhos ainda no mesmo ponto fixo. Será que era na bola de vôlei, como eu tinha feito? Esperava que não fosse na Carol com seu shortinho de lycra curtinho.

Mirei o visor de fundo azul que piscava. Era mesmo Alê.

Epa, mas eu nem dei esse número pra ninguém. Como...? — encarei o perfil dele, que arqueou a sobrancelha daquele lado.

Pedi pro Marc passar pra ela. Os dois passam tanto tempo juntos que não sabia se ela sabia que você tinha sido assaltada.

O muxoxo de sarcasmo do Átila foi audível.

Preferi ignorar a atitude.

Obrigada Jacques, por isso e pelo próprio aparelho.

Enfim ele virou-se pra mim.

Era o mínimo que podia fazer – a cor de suas íris eram escuras, o que me deixou com a impressão de que ele podia estar pensando no nosso momento interrompido. Ou estivesse com vontade de arrancar o pescoço do huno fora. Era difícil saber qual das duas opções era a real.

Um relampejar de ultraje na direção da pessoa em meu outro lado me fez saber.

Ok. Segunda opção.

Rejeitei a ligação de Alê. Falaria com ela mais tarde, no conforto do meu quarto. Ela ia ver só!

Fiquei mais um tempo entre o caçador e o vampiro, até que cansada do silêncio resolvi anunciar minha partida pra casa. Átila saiu primeiro, dizendo que estava atrasado pra um grupo de estudos.

Revirei os olhos.

Só você mesmo pra ficar estudando num domingo.

Devia fazer o mesmo, pelo menos eu sei que não vou ficar em exame final – ele piscou um olho castanho pra mim.

Mostrei a língua.

Vá pro inferno.

Ele balançou a cabeça e rindo desceu os degraus da arquibancada, saindo pelas portas do ginásio.

Até logo, Jacques.

Ele não tirou os olhos do que seja lá que estivesse vendo.

Até logo, Elisabete.

Franzi as sobrancelhas, achando aquela distração estranha. Parecia que ele estava a milhões de distância dali.

Encolhi os ombros e pisei no degrau de baixo, fazendo isso até chegar no chão.

Se ele queria ficar sozinho que fosse. Eu bem sabia que às vezes se precisa de um tempo pra se reorganizar a mente.