“E quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize seu desejo.” (O Alquimista Paulo Coelho)

Estava escurecendo então Evan pediu que Lyss passasse no quarto para pegar um casaco. Ela ia protestar dizendo que: se ele tivesse perto o suficiente seria o bastante para o frio ficar longe, mas, optou por obedecer. Ela tirou um casaco vermelho do guarda roupa, Evan a observava, não se cansava disso.

– Você conhece as três melhores formas de perder o fôlego?

Lyss franziu o cenho.

– Acho que não. – vestiu o casaco, ele posicionou-se atrás dela para ajudá-la, depois segurou sua mão e trouxe-a até a janela.

– Confia em mim?

– Acho que sim. – ela sorriu desconfiada com o brilho que via nos olhos dele. Fez uma trança nos cabelos compridos e não tirou seus olhos dele.

– Certo, “achar” já é um começo. Vem, quero fazer isso com você sóbria dessa vez.

Ela riu enquanto ele abria a janela no máximo.

– Quero te levar em um lugar. Suba nas minhas costas.

Lyss arregalou os olhos.

– Tá falando sério?

Ele riu e puxou-a para si.

– Vem minha pequena.

Lyss duvidava da própria coragem, apertava suas pernas ao redor da cintura de Evan, os braços envolvidos no pescoço dele, a última vez que ficara naquela posição fora com seu pai, eles estavam no parque, e por sinal ela devia ter quatro ou cinco anos.

– Ok, o que eu faço agora?

– Se não for pedir muito tente parar de tentar arrancar minha cabeça, posso te garantir que não vai conseguir.

Afrouxando os braços ela riu.

– Desculpe, estou temerosa.

– E é pra ficar.

Segurou uma de suas mãos, uma de suas pernas e num salto Evan simplesmente saiu do chão e passou pela janela. Estavam voando! Exatamente! Voando. O vento batia forte no seu rosto, enquanto ele subia Lyss podia tocar alguns galhos das árvores se quisesse, ele desviou de um galho mais alto e aumentou a velocidade, subindo. Lyss permitiu-se lembrar de uma cena de Super Homem, um clássico, de deixar Mary Jane Watson e o Homem Aranha no chinelo. Sentiu-se a própria Louis Lane, numa versão mais moderna, claro. O vento agitava seus cabelos, ela não sentia medo, a sensação era deliciosa, alguns fios escaparam da trança comprida, Lyss estava bem consciente á mão que ele colocara em uma de suas pernas para segurá-la, quando estavam lá em cima ele tirou a mão. Fez falta. Em dado momento ela fechou os olhos, o coração batia descompassado, na cabeça os pensamentos mais bizarros, as mãos estavam úmidas então podiam escorregar e ela cairia com toda força no chão. Você não é imortal! – lembrou-se. Mas, ele não a deixaria cair, sabia disso com cada célula de seu corpo, ela estava tão certa disso que seria capaz de soltar os braços, mas, conteve-se. O corpo de Evan estava quente, a sensação era maravilhosa de ter aquele corpo enroscado nela, as folhas bateram-se neles quando eles subiram além de seu topo. Abrindo os olhos ela observou ao redor, a vista era linda, as árvores tinham um verde intenso, parecia um tapete de folhas sob eles, quando Evan subiu um pouco mais ela conseguiu ver a extensão da Ilha, era mesmo pequena, num certo momento foi possível ver o vilarejo, Evan então, desceu um pouco mais: Medida de segurança! – ele dissera. As ondas pareciam abraçar a Ilha num ato de proteção, pela direção em que iam – Lyss percebeu – estavam indo para a praia que Evan gostava.

– Terceira melhor forma de perder o fôlego. – ele disse. Lyss teve que concordar.

Estavam perto quando Evan abriu os braços, pairando como uma águia numa corrente de ar, iam mais devagar dessa vez. Lá adiante Lyss avistou uma espécie de escultura de pedra gigante, parecia um dedo apontando pra cima, ela não havia visto aquilo, nem da vista de sua janela, estavam indo pra lá, Evan simplesmente pairava ao sabor do vento, nisso que parecia uma escultura gigantesca havia uma parte plana que só era notada de perto, quanto mais aproximavam-se mais lento Evan ficava.

– Confia em mim? – ele perguntou falando acima do som do vento.

Lyss balbuciou um Sim, percebeu-o sorrindo, Evan fez um sinal com a mão para que ela se soltasse Lyss não soube como nem por onde, mas, quando desprendeu seus braços e afrouxou suas pernas Evan puxou-a e segurou Lyss em seus braços, ela resfolegou e sorriu com o susto.

– Não devia fazer isso. – sorriu pra ele.

Os lábios de Evan estavam inclinados para a esquerda numa expressão marota. Ele ficou na vertical e pousou delicadamente na protuberância.

– O dedo de Deus, era como isso aqui era chamado.

Ela olhou em volta, de perto ela não parecia um dedo.

– Gostou da viagem?

Ela sorriu

– Melhor que qualquer companhia aérea.

Evan estendeu a mão pra ela.

– Vem.

Sentaram-se lado a lado com as pernas balançando acima do tapete verde, Lyss arriscou uma olhadela, aquilo era mais alto do que pensara, uma queda dali não havia chances de sobrevivência, não só pelo formato, mas, também, por causas das pedras pontiagudas lá embaixo.

– Aqui é meio assustador.

Ele fez um muxoxo

– Acha isso porque está olhando para o lado errado. Tudo é questão de perspectiva.

Então Evan pôs o dedo em seu queixo e ergueu o rosto dela delicadamente. A vista era deslumbrante, o sol tingia o céu de laranja, levaria algum tempo para que ele se pusesse, o mar brilhava á luz do sol, o azul do mar confundia-se com o azul do céu. Algumas aves pescavam outras simplesmente balançavam suas penas úmidas a luz do sol.

– É lindo. – ela disse

– Sabia que você ia gostar.

Evan aproximou-se mais, Lyss colocou a cabeça em seu ombro.

– Costumava vir pra cá quando estava chateado, ás vezes era difícil ouvir sem falar nada.

– É bom ficar aqui.

Ele suspirou

– E a voz?

Por um momento ela se surpreendeu com a pergunta, na verdade havia esquecido. Agora não havia presença alguma em sua cabeça.

– Não a escutei mais. – era mentira, mas, ela sorriu com a preocupação.

– Esse colar – ele apontou para a joia – Sabe o que significa?

Lyss segurou o pingente e encarou-o.

– Demetree falou algo sobre proteção. Essas flores que formam a flor de lis são chamadas de Alyssum ou algo assim.

– Demetree lhe deu. – ele pareceu meditar na informação – Ele está certo. Mas, você vê essas pequenas joias violeta e transparente? – apontou – Esse material é encantado. Eu consigo sentir mesmo sob o seu bloqueio. Ele realmente protege, e esse foi um feitiço por ervas. Demetree perdeu os poderes há alguns anos atrás, então dedicou seu tempo a estudar as ervas daqui, ele é especialista em todo tipo de feitiço.

– Como assim: Perdeu os poderes?

– Existem casos de Wateaires que perdem os poderes ou nascem sem ele.

– E isso acontece com frequência?

– Não. Ás vezes ocorre, geralmente com Wateaires de idade.

– Sem motivo nenhum?

– É, acho que sim.

– Demetree nem é tão velho. – ela deu de ombros

– Me fale um pouco de sua vida fora daqui. – ele pediu

– Moro com minha tia, — Lyss sorriu só de pensar em Lucy – ela é minha tutora legal até que eu complete dezoito anos, Lucy é incrível, parece uma garotinha e adora isso, ela desenha.

– O quê ela desenha?

– Quadrinhos, na verdade são tirinhas.

– Você gosta muito dela. – afirmou sorrindo

Lyss acenou com a cabeça

– Ela é minha tia e enfrentou uma barra pesada comigo.

– Quando perdemos nossos pais parece que a gente perde a nossa melhor parte, não é?

Lyss suspirou concordando com a cabeça.

– O quê mais? Namorados? Escola?

– Nunca gostei do colégio, eu não me... – hesitou – me encaixava, sabe? Eu era líder de torcida, mas minha identidade era retorcida. Eu sabia que era diferente de todo mundo e isso meio que me impedia de aproximar de outras pessoas, pareciam que elas sabiam o que eu era. Meu único amigo de verdade era Chris, além de Lucy, claro.

– Chris?

– É. Ele é um bom amigo.

Ela cortou a parte sobre ele ser seu ex-namorado, um relacionamento que não deu certo.

– Sua vida se resume á esses dois nomes?

Ela pensou um pouco

– Nunca tive muitos amigos, mas, desses poucos todos são verdadeiros.

Evan sorriu

– Gosto disso. Também nunca tive muitos amigos, só Demetree, Herbie e outros já falecidos.

Era estranho para Lyss se comportar daquela maneira com Evan, ela queria tanto que não existissem regras e ela pudesse dizer que seu coração perdia uma batida na simples menção do nome dele, era estranho e incrivelmente necessário estar perto dele, estava sendo tão difícil, aquela história de Mestre e Elementar era uma droga vendo por aquele lado, aliás, toda a história de magia e poderes era uma droga quando você se apaixona pela pessoa que não deve se apaixonar, mas, o coração não pensa, só sente, como ele ia saber que não devia se apaixonar por Evan?

– No que está pensando? – Lyss perguntou

– Sabe, Lyss, durante todos esses anos eu desejei, com todas as minhas forças, acabar com a minha vida, é uma coisa difícil quando se é imortal, ela nunca havia encontrado razão pra viver, entende? Nunca... até... agora! – ele encarou-a e seu coração bateu desenfreado no peito – Quando eu te vi... Eu sabia que te conhecia de algum lugar e talvez... Bem, talvez isso seja errado porque você é minha Elementar e talvez seja de onde eu te conheço, porque você me completa e é a parte mais bonita de mim. Durante todo este tempo era você que eu procurava, ou estava esperando, não sei. – ele segurou a mão da garota entre as suas. Um encaixe perfeito.

O sol ia se despedindo, traços de rosa e carmim espalhavam-se no céu escuro.

Ele ficou de pé e ela imitei-o, estávamos de frente para o outro, os primeiros sinais do amanhecer já surgia no horizonte, aquilo não era tão belo quanto Evan olhando profundamente em meus olhos. Evan... O único homem capaz de fazer meu coração saltar do peito, ela o amava, estava claro. Ela o amava mais que a minha própria vida, queria perto e comigo para todo o sempre, aliás, nem o sempre parecia suficiente.

– Evan? Pouco antes de te conhecer ela estava me perguntando á que mundo eu pertencia, então você chegou e eu finalmente descobri. Você é meu mundo, é a você que eu pertenço.

Ele sorriu meio de lado

– Quando eu comecei a sentir o que você é capaz de fazer aqui – ele apontou para o lado esquerdo do peito – eu fiquei desesperado porque você é minha Elementar e me sentir desse jeito vai contra a regra, mas... Que se danem as regras. – ele fechou os olhos – Lyss... ela não sou forte o suficiente pra conseguir me manter longe, não consigo mais... estou tentando, porém...

– Não quero que tente... Não quero que consiga! – ela tocou a perfeição de seu rosto e ele abriu os olhos – Que se danem as regras! Não sou capaz de viver sem você.

Ele riu baixinho

– Ela precisava ouvir isso.

Ele envolveu o rosto de Lyss com as mãos e ela entreabriu os lábios instintivamente, não conseguiu sequer piscar, seu corpo tremeu de expectativa ao mesmo tempo em que fechou os olhos á espera do toque suave de seus lábios quentes sobre os dela, e aconteceu. Alyssa ficou em dúvida se ainda estavam no chão, ela se sentia flutuar, envolveu-o com os braços trazendo-o para mais perto, eles queriam permanecer assim para sempre, lábios unidos e se movendo em sincronia perfeita, se existia paraíso, ela não tinha dúvidas que havia acabado de encontrá-lo.

– A segunda melhor forma de perder o fôlego. – ele sussurrou, os lábios ainda próximos, ela não ousou abrir os olhos com medo de descobrir que era tudo um sonho bom.

– Sem dúvidas. Mas, acho que esse merece o primeiro lugar.

Ele riu baixinho e ela abriu os olhos para me perder na perfeição de seus traços, seus rostos estavam muito próximos, os lábios ainda encostados um no outro.

– Primeiro lugar? – ele repetiu – Há outra forma ainda melhor de perder o fôlego.

Ela corou entendendo o que ele queria dizer.

– Segundo lugar então.

Eles riram. Lyss apoiou a cabeça no peito de Evan e ele encostou o queixo em sua cabeça, ficaram muito tempo assim, sem se mover, apenas escutando a respiração um do outro, talvez para ter certeza de que aquilo tudo era real. Estava realmente muito escuro agora. Algumas luzes ao longe mostravam o vilarejo, Evan suspirou antes de sussurrar:

– O verdadeiro não volta porque o que é verdadeiro não vai. O que é verdadeiro permanece para sempre.

– Nicholas Sparks? – ela perguntou surpresa

– É.

– Para sempre. – confirmou acenando – Faz ideia de como isso vai ser difícil? – ela sussurrou

– Eu amo você, isso é a única coisa que eu realmente sei... – ele desenhava contornos imaginários na pele macia dela. Evan nem se lembrava de quando havia se sentido assim, em paz. Completo.

Lyss prendeu a respiração. Era a primeira vez que um homem dizia que a amava. Assim de verdade. E algo dentro dela pareceu se desprender e flutuar levando-a consigo. Então era assim? –ela pensava – Era assim ser amada. Era assim pertencer á alguém e querer isso. Lyss podia sentir as borboletas no estômago, a visão embaçada os pensamentos confusos. Ela podia ficar ali para sempre.

Lyss e Evan ficaram abraçados até que a luminosidade do dia os encontrou. Se ela viu o nascer do sol? Bom, se ela perdeu algumas partes dele foi fazendo algo muito mais lindo: Contemplando a beleza perfeita de Evan...

Meu Evan!

Notas finais
Um dos meus capítulos favoritos.