“Enquanto eu respirar me lembrarei de você e tudo valerá a pena.”

O céu estava mais azul do que nunca, o ar era fresco e perfeito. Para Lyss tudo estava se encaixando como nunca. Voltava do café da manhã quando Clovis se pôs em seu caminho com um sorriso.

– Bom Dia Lyss. – ele tinha acabado de sair do escritório – Telefonema pra você.

O coração de Lyss deu um pulo feliz.

Foi só colocar o telefone no ouvido que Lyss reconheceu os gritos de Lucy, reconhecê-los-ia em qualquer lugar, encostou-se na mesa de carvalho do escritório de Clovis. Lucy tagarelava:

– Sinto tanta, tanta falta sua, eu só consegui o número daí ontem, e é tão difícil ligar porque tem um negócio de código secreto, a ligação é transferida de Weverston para esse lugar, então foi complicado, demora muito. – pegou fôlego – Ai sobrinha eu sinto tanta falta sua.

– Deve estar mesmo, pra me chamar de sobrinha.

– Ah eu posso te chamar de sobrinha, mas, nem ouse me chamar de tia.

Lyss riu, fechou os olhos e imaginou a tia ali.

– Como você está?

– Bem, né? Tô tentando manter minha vida organizada, mas, é tão difícil sem você aqui, o carteiro reclamou de sua ausência, sabia? Esqueci-me de tirar as cartas de novo. Temos um vizinho novo, esqueci seu nome, mas, ele tem um sobrinho lindo que veio aqui em casa viu suas fotos e agora pergunta sempre quando você vai voltar, Chris não gosta dele – ela riu – aliás, Chris está sendo minha única companhia, mas, agora que as aulas vão começar eu nem sei. Ah, consegui um emprego, vou desenhar para o Jornal da cidade, fazer valeu minha faculdade né?

Lucy era desenhava quadrinhos para Jornais de outros estados, conseguir um emprego fixo era mais confiável.

– Que bom, Lucy, que bom. Por falar no Chris... – fechou os olhos pensando no amigo e, com uma pontada no peito percebeu que estava tão extasiada com a própria felicidade que não lembrara de Chris nos últimos dias – Como ele está?

– Ele está bem, tem se virado bem. – Lucy confirmou – E... – ela fez uma pausa, coisa incomum para alguém como Lucy – Ele sente sua falta Lyss.

Lyss suspirou. Se já fora complicado um relacionamento com Chris devido á suas diferenças imagina agora, com sua atual aceitação á sua condição de Bruxa.

– Também sinto muita falta dele. – era verdade – Chris é meu melhor amigo.

– Certo. – ela entendeu – E as coisas por aí?

– Estão ótimas. – ela não ia contar de Evan.

– Não, Lyss. Assim está fraco, seja mais enfática e feliz. Vamos me conte tudo.

Rindo Lyss começou, falou das meninas, de como Cassie era legal e falante, antenada com tudo sobre moda, falou o quanto Louis era legal, reservada, mas, uma excelente amiga, de como seu cabelo e olhos combinavam perfeitamente, falou de Victoria também, do seu jeito discreto, pulou a parte do jogo de verdade ou consequência mas, citou cada um dos Bruxos, Lucy adorou Cassie e achou que Lyss devia paquerar Marcus, porém, depois que Lyss contou sobre os Mentores e, consequentemente, sobre Evan Lucy mudou de ideia, ela conhecia a sobrinha o suficiente pra saber que Evan era mais que um Mentor pra ela.

– Sinto cheiro de romance.

– Nós não podemos nos relacionar, tia. Só com humanos.

– Ponto pra Chris. – ela riu

Lyss revirou os olhos, Lucy sempre achava que Lyss devia estar com alguém, sentou-se na cadeira de Clovis.

– Sabe que, falando em relacionamentos, estou pensando em paquerar o vizinho, você sabe, estou há muito tempo sem ninguém.

– Como é esse cara, deixe-me ver se aprovarei esse flerte.

Lucy começou a citar os prós e os contras do tal vizinho, depois começou a contar que reencontrara um namorado da época de adolescência – ela lembrou que essa fase não passara há muito tempo -, e a conversa foi se desenrolando, Lyss ria com as loucuras de Lucy, a conversa durou horas a fio, o cheiro de almoço impregnava o escritório quando elas finalmente se despediram com a promessa de se falarem logo.

Lyss foi a primeira a chegar á cozinha, pela primeira vez Joanna puxou conversa com ela, ela já tinha terminado seus afazeres, por isso permitiu-se conversar. Elas conversaram pouco, Joanna tinha um filho, ele vivia na Califórnia, ela perguntava pra Lyss se ela não conhecia, Lyss reconheceu a preocupação e saudade comuns á mães. Cassie, Louis e Victoria chegaram depois, os outros Bruxos ainda estavam em Weverston pelo visto, por incrível que parecesse Victoria estava trocando algumas palavras com elas, quando os Mentores chegaram a conversa entre elas cessou, Evan sentou-se diante de Lyss na mesa, a conversa fluiu normalmente durante todo almoço, pareciam uma família – Lyss observou -, nunca uma família comum, claro, mas, sendo família ser comum é um mero detalhe, certo?

Até Victoria e Félix riam e participavam das brincadeiras, era um belo quadro. Com o findar do almoço eles saíram da cozinha, Evan convidou Lyss para mais um passeio por Lisarb para compensar a última vez. Ela aceitou, claro. Escovou os dentes e prendeu os cabelos compridos numa trança, horas mais tarde estavam caminhando na direção oposta ao Adams.

– É comum um Mentor levar sua Elementar pra um passeio? – perguntou provocando quando chegaram á parte da floresta.

Evan riu

– Claro que é, pra todo efeito já passamos pela ligação, estamos seguros um com o outro.

– Então quando elas cumprirem sua Missão os respectivos Mentores perdem os poderes?

– Só a capacidade de controlar o Elemento.

– Que sorte a sua a gente não ter feito a ligação, não?

Evan riu pegando na mão de Lyss

– Que nada! Tenho mais três cartas na manga. E as vozes? Alguma notícia delas?

Lyss meneou a cabeça negando, não entendera a parte das “cartas na manga”, mas, deixou passar.

– Pra onde vamos hoje?

– Passear. Não quer me contar mais sobre a voz?

Lyss suspirou. O que havia pra contar?

– É uma voz masculina, mas, se você a ouviu naquele dia sabe disso. Acho que é a única coisa que sei. Não parece representar perigo, sabe Evan?

– Essa voz fez com que você fosse á floresta no meio da noite, se isso não é perigo o que é? Aliás, por que a obedece? Não pode ignorá-la?

Era uma boa pergunta.

– Não sei. – ela deu-se conta

– Curiosidade?

– No início sim, mas... Acho que eu confiava na voz – riu de sua bobagem – Que idiotice, não?

Evan não riu, estava com um vinco entre as sobrancelhas, preocupado.

– Acha que essa voz se parecia com a voz de algum parente?

– Não. Nem pensar. Eu não sei explicar, Evan. Só que eu não achava que estava fazendo algo errado ou perigoso indo de encontro á voz, mais que isso, parecia que eu devia ir, entende? Mas, por que tantas perguntas?

Ele suspirou

– Existe um feitiço – falou enfim – permite que familiares se contatem através de pensamentos, mas, não é qualquer pessoa que consegue fazê-lo, temi que alguém tivesse invadido a Ilha, só isso.

– Você tem inimigos? Afinal quem invadiria a Ilha e por quê? E por que me escolheria?

Caminhavam ainda de mãos dadas.

– Vocês não são imortais, Lyss. É por isso que trouxemos vocês pra cá, pra proteger vocês, ou acha que não há DDPs interessados que aconteça O Grande Mal? Existe DDPs de todo tipo, Wateaires também. Já falei sobre isso contigo.

– Acha que alguém pode tentar matar a gente? – um arrepio correu sua espinha

– Todo cuidado é pouco. Por isso, por favor, não obedeça á essa voz, nem se seu pedido for simples como: Respire!

Lyss sorriu

– Acho que ela não me pediria isso.

– Todo cuidado é pouco. – ele piscou pra ela

Eles ficaram em silêncio enquanto andavam, Lyss observava a floresta ao redor de si, as árvores pareciam tão iguais uma a outra.

– Eu acho que eu idealizei você pra mim. – Evan disse de repente

– Como assim? – ela corou

– Ah – deu de ombros, as mãos entrelaçadas – Eu senti que te conhecia desde a primeira vez que te vi... então eu acho que criei você pra mim. Eu nem sabia que sonhos podiam se tornar realidade.

– Eu amo você Evan. – ela se deu conta – Mais do que qualquer cosia no mundo.

Os braços dele vieram em volta dela, eles não se beijaram ali, mas, a sensação para Lyss era a mesma. A sensação de estar completa.

A semana passou depressa por um lado e lenta de outro, os dias haviam adquirido uma confortável rotina, sala de aula pela manhã e estudo prático pela tarde, quando anoitecia Lyss estava cansada demais para pensar em qualquer coisa, outro detalhe importante era a voz, Lyss podia afirmar que ganhara um amigo que respeitava seus espaços e dava conselhos legais de vez em quando, só pecava nas tentativas de fazer piada, mas, fora isso estava tudo muito bem. Lyss também não estava mais tão preocupada com o sonho ou com a visão de Victoria (que já aceitava ser chamada de Vick), Lyss escrevera em seu diário aquela visão só pra recordar-se dela mais tarde. Victoria viu Lyss em uma clareira com todos os habitantes da ilha presentes, ela estava no centro, parecia estar sendo julgada, quando recebeu a sentença eles a cumpriram muito rapidamente matando-a em segundos.

Lyss sabia que aquilo tinha algo a ver com Evan e seu relacionamento – que progredia com rapidez surpreendente – mas, estava disposta á passar por aquilo, até por que sabia que os wateaires não podiam matá-la, não agora. Ela podia ser a número quatro da lista dos banidos, não se importava desde que estivesse com Evan. Ele estava pegando muito leve nos treinos, até então Lyss não fizera mais que “balançar” a água, sentia inveja das meninas que já criava fogo nas próprias mãos, era capaz de ficar no ar por algum tempo ou criava escadas de terra enquanto corria, as outras Elementares estava muito á frente de Lyss e aquilo preocupava Clovis e os outros Mestres, os Bruxos também estavam incríveis, Rick estava tendo aulas de voo com Evan e estava bem melhor, Carlie e Charles estavam aprendendo a usar as habilidades juntos, Marcus ainda não aceitava seu dom por completo, mas, era o melhor nos feitiços e no combate corpo a corpo, Nataly era a melhor na parte dos dons, ela conseguia agora selecionar qual pensamento ouvir, dizia que era como uma playlist de celular, podia simplesmente colocar sua música preferida pra tocar, no caso o pensamento que queria ouvir e pronto, se a pessoa estivesse ao seu alcance o resto não era problema. Nos últimos dias Mathias estava mais afável com Lyss, embora ele não estivesse dando aulas ainda procurava conversar com ela sempre, ela usava o colar diariamente e praticamente todo mundo notava e elogiava sempre, Lucy ligara num dos dias da semana para dizer sobre a casa que Brad tinha colocado no nome da própria Lyss. Perguntou se ela queria ver a casa, mas, ela disse que não. Lucy podia vender se quisesse. Lyss estava decidida a caminhara apenas para frente.

Era noite, Lyss estava deitada na cama, Evan não viria, estava na Ala procurando informações sobre a ligação, seu relacionamento com ele beirava a perfeição, mas, Evan insistia em procurar respostas nos livros, ficava estudando até tarde na Ala duas vezes na semana, os outros dias ele faziam questão de permanecer no quarto de Lyss até que ela pegasse no sono. Hoje ela estava cansada, como acontecia habitualmente, deitou-se, cobriu-se, pegou a foto dos pais e beijou-os antes de guardá-la, a voz não estava ali para dizer-lhe boa noite, geralmente ela estava, deixou a janela entreaberta, devido á temperatura desconfortável, estava pronta para mais uma noite de sono sem sonhos quando ouviu:

– Chegou a hora!

Há uma linha tênue que separa a semiconsciência da inconsciência, Lyss podia apostar que estava sonhando, aquela era a resposta mais óbvia já que passou a obedecer as ordens que ouvia, desceu as escadas sem pressa, estava silencioso e escuro, não tropeçou momento algum, empurrou o pesado portão e saiu do castelo embora não se lembrasse de abrir o cadeado, o vento fresco da madrugada agitou seus cabelos e seu pijama de flanela, ela seguia de olhos fechados ouvindo as recomendações, passou pelas pedras maiores até entrar na floresta, o chão escorregadio também não foi problema, mergulhada em si mesma ela seguia seus pensamentos aleatórios, de alguma maneira não sabia o que estava acontecendo no exterior, demorou bastante tempo até parar de andar.

Mergulhada no sono Lyss sentiu a brisa fresca e o cheiro de terra subir, bocejou acreditando tratar-se de um sonho leve, foi quando um barulho chamou sua atenção, ela abriu os olhos e deparou-se com as imensas árvores que estavam assustadoramente mergulhadas no breu. Foram mais segundos que se passaram até ela perceber que estava no meio da floresta, e só quando quase escorregou numa pedra lisa que percebeu que estava acordada. Mas, como chegara ali e pra quê?

Ouviu folhas sendo esmagadas por passos. Estava em perigo! Sozinha no meio da floresta, longe do castelo e vestindo um pijama que tornava difícil a corrida, com certeza estava em perigo.

Lyss olhou ao redor para ter certeza de onde viera, aos poucos aprendera a identificar o caminho decorando as árvores, começou a andar depressa por onde achava que era o caminho, os passos apressados se transformaram numa corrida desesperada, ela tinha certeza de que estava sendo seguida, podia ouvir os passos atrás de si, a respiração ofegante de quem estava correndo atrás dela, ela corria com toda velocidade que era capaz, tateou o pijama á procura de uma Livium Dolor, sabia que não encontraria, as pernas estavam doloridas de tensão, ela tropeçou, mas, ergueu-se depressa, de repente bateu o corpo contra algo rígido, algo que nem se moveu com o impacto, porém, quando abriu os olhos não havia nada, nada diante de si. O ar saía de sua boca aberta, os olhos já sem foco, as pernas mal a obedeciam, tentou levantar-se e olhou ao redor a procura do que tinha se batido, não havia árvores perto o suficiente. Conseguiu ficar de pé, as pernas sangravam, estavam feridas em alguns lugares, fez uma inspeção visual em seus cotovelos, estavam sujos e um pouco arranhados, tentando assumir o controle do próprio corpo deu um tempo, olhou ao redor outra vez, dessa vez procurando a pessoa que estava seguindo-a momentos atrás, girou o corpo tentando ver alguma silhueta humana dentre as árvores altas.

Passos. Silêncio.

O corpo tenso e dolorido não se moveu. Os olhos fracos identificaram um homem. Sim! Havia alguém ali.

O homem de ombros largos e braços fortes era só uma sombra, como se fizesse parte daquele cenário, este mesmo homem caminhava decidido na direção de Lyss, estava escuro. Ela não viu o brilho em seus olhos e o sorriso que ele carregava.

Murmurando algo ininteligível ela virou-se para correr na direção oposta, o corpo bateu violentamente contra algo, dessa vez ela bateu a cabeça no chão, abriu os olhos zonza, seus olhos mal ganharam foco e ela identificou o homem em pé diante de si. Mas, como ele conseguira? Ninguém seria tão rápido assim. E se fossem dois? E, afinal, quem eram?

O rapaz estava todo de preto, era impossível ver seu rosto, Lyss identificou a mandíbula grande, quadrada, mas, foi só. Ele se mexeu e Lyss encolheu-se instintivamente. O que sabia não era suficiente para proteger-se. Não conseguia pensar em coisa alguma naquele momento, o pânico a dominava, silenciava. Uma mão foi estendida na direção da garota, ela franziu o cenho sem entender.

– Venha, está na hora de nos conhecermos pessoalmente, Lyss.

Não podia ser!

Notas finais
:)