Série Elementares - Escolhas (LivroUm)
7 Partida.
“Toda viagem começa com o primeiro passo, e pra crescer é necessário se afastar do porto e navegar sozinha. Quanto ás tempestades? Bem. Nem elas duram para sempre.”
Querido diário, eu estou iniciando uma viagem agora, isso não tem nada a ver com a Inglaterra, eu estou viajando pra dentro, num auto descobrimento, estou partida em alguns pedaços, como se houvesse uma divisão das partes de mim: Um pedaço humano, um pedaço Bruxa, um pedaço Elementar, depois da cena no escritório de Winfrey, onde eu quebrei o copo e tudo mais, me dei conta de que pouco sabia sobre mim mesma. Eu estava mesmo a fim de controlar meus poderes. Seria bom ficar um tempo, sozinha, me afastar de Chris e de brinde me conhecer melhor. O que me lembra... A mensagem que eu tinha que enviar pra ele.
Lyss pegou o celular, procurou não pensar muito e clicou em “enviar” depois de selecionar Chris como destinatário.
– O que está fazendo?
Depois da conversa com Winfrey, Lyss resolvera caminhar pelo gramado que se estendia diante do Instituto, havia um banco sob uma das muitas árvores, foi ali que ela sentou-se com seu Diário em mãos, passara mais tempo observando ao redor do que escrevendo realmente.
– Escrevendo um pouco.
Lucy sentou-se ao seu lado.
– Você cresceu. – ela disse – Está madura, tomando suas próprias decisões, mas, você não precisa ir se não quiser, Lyss.
– Eu não posso simplesmente fingir que essa parte de minha vida não existe. Eu quero ir.
Um vento frio fez com que os cabelos de Lyss movimentassem, ela afastou a franja dos olhos.
– Desculpe pelo que aconteceu no escritório de Winfrey. – ela murmurou
– Tudo bem. – Lucy deu de ombros
– Nunca lhe perguntei como foi pra você assumir a guarda de uma menina bruxa. – Lyss segurou a mão da tia.
Lucy sorriu lembrando-se do início daquele relacionamento.
– Eu nunca lhe contei que seu pai deixou uma carta pra mim me explicando tudo, me contando sobre essa coisa de poderes e magia, claro que ele não entrou em detalhes, mas, não foi tão difícil pra mim.
– Uma carta?
– É. Logo depois do acidente alguns policiais foram á meu apartamento me comunicar do acidente, eles disseram que foi a neblina na Golden Gate e que o carro estava em perfeito estado antes do acidente, explicaram que... – ela apertou a mão da sobrinha ao lembrar-se dos acontecimentos – explicaram que Brad havia deixado um testamento explicando que a guarda da filha deles viria para sua única irmã. Nessa carta meu irmão dizia que havia um presente pra mim no banco também, nesse banco havia uma carta. Tenho ela guardada até hoje
– Então ele contava que eu era uma bruxa?
– É. Dizia que você era única no mundo inteiro. E eu acho que já estava um pouco mais preparada depois de ler a carta. Parece que tudo fazia sentido. Alguns anos depois o pessoal da Suíça veio conversar comigo, mas, essa parte você conhece bem.
Lyss apoiou a cabeça no ombro da tia.
– Acho que meu pai queria que eu fosse humana.
– Não, não. Acho que ele tinha medo de te perder.
Havia muito tempo que não pensava tanto no pai a ponto de chorar, e mesmo naquele momento, enquanto lágrimas teimavam escapar de seus olhos, ela se segurou, respirou fundo e permaneceu em silêncio.
Estranhamente a imagem de Brad continuava vívida em sua memória, sempre fora mais ligada ao pai, mas, isso não queria dizer que não amava a mãe em igual proporção, mas, o fato é que em alguns dos momentos importantes de sua vida só lembrava-se da presença do pai. Mesmo depois de tanto tempo poderia descrevê-lo sem dificuldades, certamente parte disso se devia ao fato de guardar algumas fotos consigo, mas, os créditos, também se deviam a ter uma memória excelente quando o assunto era seu pai. O que mais brilhava no rosto de Brad era o sorriso, seus olhos faziam rugas quando ele sorria, nos olhos havia uma constelação, o jeito brando de falar, o jeito prático de ver as coisas... Ele tinha uma cicatriz no braço direito, Lyss lembrava-se de ouvi-lo contar como a adquirira, havia várias versões, todas mais elaboradas que a verdadeira. Certa vez ele dissera que tinha viajado no tempo e um Dinossauro mordera ali, Lyss questionara tanto que na outra versão ele admitira que não havia sido um Dinossauro, mas, um tipo especial de Tigre, um que não devorava pessoas, numa outra ocasião ele dissera que ganhou um dia como Robin e por causa da falta de experiência, numa luta incrível com o Duende Verde, este lhe acertara bem ali, Claro que um tempo depois Lyss compreendera que o Duende Verde era arquirrival do Homem Aranha, não do Batman e seu parceiro Robin. A verdade é que Brad estava ficando cada vez mais sem criatividade para explicar a origem da cicatriz. Só mais tarde Lyss descobriu que ele havia caído de moto quando mais novo, surpreendentemente a menina achou essa a história mais interessante, talvez por ser a verdadeira e verdades sempre são mais interessantes que as invenções. Ás vezes se pegava diante do espelho procurando características que herdara de seu pai, como se, parecer com ele, a fizesse uma pessoa tão boa quanto ele, mas, na maioria das vezes se via como a cópia da mãe, os olhos azuis, os lábios pequenos e cheios, o nariz suave, as bochechas naturalmente rosadas, até suas orelhas era iguais as de Alice, sua mãe, mesmo assim teimava quando alguém dizia: “– Ela é a cara da mãe!”, sempre respondia: “- O queixo e as sobrancelhas são de meu pai.”. Certamente era uma grande mentira, mas, a admiração pelo pai era tão gigantesca que era importante que as pessoas acreditassem que aquele queixo e aquela sobrancelha eram de Brad, tinham de ser. De quem mais seriam?
– Você tem que me mostrar essa carta qualquer dia desses.
– Assim que você voltar pra casa, prometo.
Elas se abraçaram do melhor jeito que conseguiram.
– Ei Lucy! Detesto interromper, mas, se quer mesmo conhecer o instituto a hora é agora. – era Douglas acenando pra elas
Lucy desvencilhou-se de Lyss quase saltitante.
– Como assim conhecer o instituto?
– Douglas disse que vou voltar pra casa hoje então tenho que espalhar meu charme nesse lugar, vai que encontre o Super Homem ou aquela delícia do Homem-Aranha. Se eu tiver sorte ambos vão estar solteiros e á procura.
Lyss ainda ria quando Lucy se afastou sorridente na direção do castelo. Abriu numa das últimas folhas do diário e observou o rosto sorridente dos pais na única fotografia que levava sempre consigo. Lyss devia ter dois ou três anos, ela estava nos braços da mãe e gargalhava das cócegas que seu pai fazia, era uma imagem perfeita, daquelas que só se encontra em vasos de margarina. Alice e Brad estavam em pé lado a lado, Alice erguia a filha ao lado do corpo, seus cabelos emaranhados pareciam perfeitos, o sorriso angelical e os olhos azuis e doces montavam um quadro perfeito, Brad era a imagem do pai e esposo perfeito, com os ombros largos e a camisa arregaçada nos braços fortes, com um sorriso genuíno e uma expressão de encantamento olhando para filha. Esta parecia saber o quanto era abençoada por ter pais como aqueles, os cabelos negros e lisos de Lyss estavam presos de cada lado da cabeça e a franja cortada corretamente estava bagunçada, a menina tinha os joelhos dobrados de tanto rir.
Um sorriso bobo formava no rosto de Lyss sempre que ela olhava aquela foto, queria se lembrar dos pais com mais clareza, as únicas cenas que não saíam de sua cabeça era o dia em que fora para o hospital e de lá direto para o enterro. Ela estava de cabeça baixa quando uma garota sentou-se ao seu lado.
– Oi. – ela disse
Lyss fitou a menina, era magra, pele muito clara, olhos castanhos e cabelos na altura dos ombros. Era bonita. Lyss queria ter coragem para cortar os cabelos naquele comprimento, seus fios já quase alcançavam a cintura.
– Olá. – Lyss respondeu sorrindo educadamente
– Novata?
– E, acho que sim. – ela fechou o diário
– Quem são aqueles? Seus pais?
– É. – abriu na foto de novo e acariciou os rostos.
– Você se parece muito com sua mãe, e nem tanto com o seu pai.
Lyss sempre ouvia isso. Sorriu para a menina.
– Já sabe em que quarto vai ficar?
– Hum. Na verdade não, não vou ficar aqui exatamente.
– Então você vai pra Lisarb.
Lyss franziu o cenho.
– Pensei que a existência desse lugar fosse segredo.
– É o que Winfrey gosta de pensar, claro que não é qualquer um que vai, mas, todo mundo sabe que existe.
– Acho que Winfrey vai ficar frustrado. – Lyss brincou
– Provavelmente. Então se você vai pra lá e é uma novata, ou é uma jovem wateaire que vivia entre humanos ou é uma das Bruxas que passaram voando por aqui. Entendeu? Bruxa, voando. – fez aspas com as mãos
Lyss riu
– Sim, sou uma bruxa. Mas, você disse outra palavra... – tentou lembrar-se – Wate...
– Wa-te-aire. O povoado de Lisarb. – ao perceber a persistência da confusão no rosto de Lyss a garota bufou – Tá vendo? Sei mais que você.
– Certo, certo, e o que eles fazem?
– São como guardiões da magia, mas, nada muito elaborado. Algum wateaires possuem poderes e a maioria não. Em Lisarb está concentrada a maior parte de magia que existe e eles a protegem. Daí você me pergunta: Mas, como eles a protegem? Ela está num recipiente? Ou algo assim? E eu te digo que não. Eles a protegem mantendo-se vivos, por isso eles são protegidos por nós também.
– Isso é legal.
– Você é uma bruxa comum ou uma Elementar?
– Elementar.
A menina torceu os lábios surpresa.
– Isso sim é legal, daria um dedo para estar em seu lugar.
Lyss riu.
– Não exatamente legal, mas, necessário. – não entraria nos detalhes da profecia porque não sabia o quanto a garota sabia.
– Está com medo?
Ela poderia mentir e fazer uma expressão tão convincente que não restaria dúvidas da resposta, mas, escolheu dizer a verdade. Por isso falou um duro e sincero:
– Sim! – era estranho lidar com aquele sentimento também, de certa maneira quando estava entre os humanos estava camuflada o suficiente para não pensar em medos daquele tipo, mas, agora era diferente e admitir isso não era tão fácil quanto pensara, mas, menos difícil do que esperava – Muito medo! – experimentou a sensação de novo.
– Posso te dar um presente de viagem. – ela falou
– Tipo o quê?
– Bem, você não me perguntou o que eu faço. Eu meio que sou um biscoitinho da sorte ambulante.
Lyss teve que rir.
– Como assim?
– Primeiro: Eu percebi o quanto te fez bem admitir que está com medo, agora me diz: Por que está com medo?
Desabafar com uma desconhecida? Não era tão má a ideia.
– Bem, terminei meu namoro e de quebra perdi meu melhor amigo, vou deixar tudo o que conheço como família para trás e sair da zona de conforto, tenho medo do que posso saber sobre meus poderes e tenho medo da expectativa que todo mundo está depositando em mim, não gosto de decepcionar as pessoas.
– Agora me diz se você não está se sentindo mais leve?
Lyss suspirou. Admitir medo era bom ás vezes.
– Com certeza. – fechou os olhos e uma brisa fria agitou seus cabelos
– Agora meu presente, meu dom é que sou ótima conselheira, apesar de raramente entender os conselhos que dou, eles são importantes.
– Como assim?
– Vou segurar sua mão e me concentrar o suficiente, então se há algo que você precise saber antes de viajar essa coisa vai surgir. Entende?
Não, mas, estava disposta a tentar. Ela entregou-lhe a mão.
– Não sei se vai funcionar por causa do meu bloqueio.
– Seu bloqueio é pra dons mentais, Douglas já comentou isso, ele não impede uma pessoa de ficar invisível, por exemplo, mas, nunca vai permitir que um Buscador te encontre ou um Influenciador se intrometa nas suas decisões.
– É bom saber disso. – embora não soubesse exatamente o que era um Buscador ou um Influenciador.
– Minha habilidade é mais física que mental, por isso quero tentar.
As mãos frias pareciam estabelecer uma espécie de conexão com as palmas de Lyss, ela viu a menina fechar os olhos e entrar num transe profundo antes de abrir os olhos vazios.
– Você... vai... Você vai precisar fazer difíceis escolhas, e são essas escolhas que definirão o rumo de sua vida. É impossível ser completa por duas metades, precisa se lembrar disso, você só pode ter um complemento, deve escolher entre conhecer-se ou reescrever-se. – a menina balançou-se um pouco – Essa viagem vai definir seu futuro.
Até o ar tinha parado, Lyss sentiu o rosto esquentar e as mãos suarem à medida que a menina ia falando, quando seus olhos finalmente ganharam foco a expressão dela modificou-se de um jeito impressionante. No segundo seguinte parecia que aquele instante nunca tinha existido.
– Você não disse do que se trata as escolhas. – percebeu que não sabia o nome dela
– Nem tente, eu nunca me lembro do que disse, mas, venha, vou te apresentar á alguns amigos. Á propósito: Meu nome é Nadine.
Eu conseguia ver minha vida, agora, como um quebra cabeça, um quebra cabeça que até agora tinha sido fácil de montar, eu reclamava de minha confusão com relação aos dois mundos e sobre minha relação conturbada com Chris, mas, eu era uma garota sortuda. Eu sou uma garota sortuda. Tenho uma tia louca que me ama, tive bons amigos na escola, nunca fui a mais popular, mas, consegui respeito entre elas, por muito tempo fui só a “namorada-de-Chris”, depois eles souberam meu nome e adquiri minha própria personalidade, anda sinto falta dos meus pais mesmo depois dos anos se passarem, a forma como os perdi, o jeito brusco como eles saíram de minha vida foi no mínimo doloroso. Mas, eu estava fazendo escolhas, não estava? Não era isso o necessário para amadurecer? O crescimento – no fim das contas – não era o conjunto de decepções e frustrações que a gente passava? Era dessas histórias que eu tiraria exemplos para o que eu chamaria mais tarde de Maturidade.
Os amigos de Nadine eram jovens DDPs como ela, havia Willian, o menino de lindos olhos verdes, mas, com péssimo gosto pra combinações, Claire, uma loira de sorriso fácil e havia Liam, um moreno enorme e extremamente bonito e charmoso. Eles estavam achando incrível conhecer uma Elementar e para Lyss a experiência era semelhante já que nunca estivera tão cercada de DDPs antes. Os meninos tagarelavam quase sem parar, ela aproveitou para absorver o máximo de informações possíveis antes de viajar.
– Bem que eu gostaria de ir pra Lisarb. – Claire piscou sonhadora – Dizem que seus poderes aumentam quando se está lá.
– Claro, com a quantidade de Bruxos, DDPs, wateaire que passaram por lá isso é o mínimo que se espera.
– Dizem que as Bruxas criaram a ilha para se proteger da Caçada.
– É, elas protegeram o lugar com tanto feitiço que nenhum satélite, nenhum barco, submarino ou foguete é capaz de vê-lo ou encontrá-lo.
– Pena que lá não tem shoppings ou centro comercial.
– Agora Lyss, reze para que seu Mentor não seja um gato tipo Brad Pitty, ninguém aqui quer que você acabe morta e o Grande Mal aconteça.
Lyss franziu o cenho atendo-se á aquela informação.
– Como assim morta? Eu não pretendo morrer.
– Então quer um conselho? Não se apaixone.
– Espera, espera, explica de novo. Rebobina.
– Af, “rebobina” é tão old. – Cassie fez questão de dizer
Lyss riu.
– Certo, então volta um pouco que dá no mesmo, o que é um Mentor?
Os quatro olharam para ela surpresos.
– Que deu em você? Não leu as letras miúdas antes de assinar este contrato? – Liam perguntou meneando a cabeça.
– Mentor é tipo o mestre em seu Elemento, um cara que vai ficar responsável pelo seu desenvolvimento na parte da Magia. Como um professor.
– E o que a morte tem a ver com isso?
– É nossa regra principal Lyss: Uma Elementar não pode namorar com seu Mentor.
– Claro que Bruxos podem namorar entre si, DDPs também, mas, Wateaires e Bruxos nem pensar e Wateaire e Wateaire piorou.
– Algumas pessoas dizem que os Wateaires pegam humanos para se reproduzir e depois os descartam. – Liam disse em tom de segredo
– Claro que são só suposições. – Wiliam tratou de murmurar.
– Mas, e a morte? O que tem a morte a ver?
– Essa é a punição, se você se apaixona por um wateaire e fica com ele, você morre. Uma maneira rápida de resolver as coisas.
Lyss fez uma careta de desagrado diante daquelas informações, ás vezes a ignorância é uma benção. Não demorou muito para Douglas aparecer acenando. A hora havia chegado.
– Como vou encontrar um avião que me leve a Lisarb? – franziu o cenho caminhando ao lado do asiático.
Douglas riu
– Não há aeroporto lá, Lyss. Venha, vamos do modo mais convencional. – ele caminhou até Winfrey e Lyss a seguiu.
Claro que quando ele dissera convencional ela não cogitou que era a forma convencional deles, portanto sua crise de histeria foi perfeitamente entendida quando Winfrey apresentou Adam, um garoto ruivo, cabelos ondulados e brilhantes, pele rosada, olhos azuis e corpo gordinho que caíam muito bem para sua idade: Sete anos.
– Lyss, Adam vai levá-la até Lisarb.
– Será uma honra, milady.
Só podia ser piada!
A expressão de Lyss era cômica os olhos estavam arregalados, face pálida, sua boca estava aberta em uma expressão de espanto e medo. Virou-se para Douglas.
– Quando disse – fez sinal de aspas com a mão – convencional. Não estava falando de helicóptero ou coisa assim não é?
Se ele risse Lyss teria matado-o, mas, para sua surpresa ele corou.
– Ora, Lyss. Pensei que já tivesse conhecido Adam... Ele é bom no que faz. – as palavras saíram cautelosas, talvez porque ele tivesse visto na mente ou na expressão de Lyss que ela pensava nas possibilidades e jeitos de arrancar sua cabeça.
– Ele é só uma criança. E isso é demais pra mim.
Será que ninguém notava isso? – Lyss pensava apertando o Diário com força entre seus dedos
– Não confia em mim, Srta Sinclair?
A voz do garoto soou atrás de Lyss, ela deu as costas pra Douglas.
– Não é isso, Adam... é que... – gaguejou
– Lyss, Adam é o melhor teletransportador que já conheci. A viagem será agradável, pode confiar, você mal sentirá alguma coisa, quando se der conta já estará sob um teto.
Ela conteve-se para não mostrar a língua ao Sr. Winfrey. Claro que ele sabia que a viagem seria agradável, ele via o futuro. Mas, confiar a vida á um garoto de sete anos não estava nos planos de Lyss.
– Mas, e o meu bloqueio? – a última palavra saiu com dificuldade, lembrou-se daquilo de repente e usou-o ao seu favor.
Douglas consultou Winfrey com os olhos e enquanto o pensamento de Winfrey espelhava na expressão dele, Lyss teve certeza de que Winfrey já pensara nisso.
– Seu dom é de proteção, Douglas não pode ler sua mente, mas, se fosse um dom físico, como voar, ou força você não o anularia. O teletransporte é mais físico do que mental, já que compete em deslocamento de matéria. Consegue compreender?
Não!
– Sim! — respondeu
– Ele é um excelente teletransportador, Lyss. – Douglas repetiu as palavras de Winfrey.
Provavelmente ela não teria escolha, mas, tentou adiar até que as mãos parassem de tremer.
– Preciso saber o que Lucy acha disso. Sabe, ela é minha tutora e responsável por mim.
Winfrey sorriu tão abertamente que ela teve certeza que a resposta de Lucy seria a esperada. Ela exultaria com a possibilidade de se locomover daquele jeito. Como eles chamavam o convencional. Lyss usava o teletransporte o tempo todo, todos os dias um teletransportador ia á sua casa levá-la á Suíça, mas, eram adultos e até idosos, Lucy nunca vira o momento do teletransporte porque ninguém da Suíça conseguia confiar totalmente num humano.
– Ela deve estar... olha, ali está ela.
Todos viraram para onde Adam apontava, Lucy vinha sorridente, sabia que – se fosse possível – seu sorriso alcançaria as sobrancelhas.
– Oi, porque não me chamaram para a reunião?
O salto dela fazia um barulho gostoso contra o chão de madeira.
– Onde você estava? – Lyss não pretendia soar como a mãe responsável, a repreensão na voz saiu involuntariamente.
– Por aí! – respondeu com ar risonho – Tinha esperanças de encontrar o Hulk e sua montanha de músculos verdes..
– Argh Lucy.
Ela riu e os outros a acompanharam.
– Que bom que apareceu, estamos aqui tentando convencer sua sobrinha a aceitar a carona de Adam para levá-la á Lisarb. – Winfrey disse
– Olá Adam. – ela pareceu ter se dado conta do garoto naquele momento, afagou os cabelos dele e ele sorriu.
– Olá, senhorita. – fez uma mesura
– O que você faz, Adam?
O orgulho e a satisfação eram quase palpáveis no garoto, Lyss achou engraçado quando ele estufou o peito e disse:
– Sou o melhor teletransportador que o Senhor Winfrey já conheceu. – não se esqueceu de acrescentar: — E ele já conheceu muitos.
– Verdade? Nossa! Parabéns. Se você é tão bom assim nessa idade, imagina quando fizer dezoito ou mais?
Os olhinhos brilharam como se ele não tivesse cogitado aquilo.
Diante de tal cena Lyss concluiu que talvez pudesse confiar no garoto, faria bem para seu Ego. Não estava em seus planos confiar a vida á uma criança, mas, poderia fazer aquela exceção – sim! Confiar sua vida, porque sabia dos riscos de um teletransporte mal feito. Aos poucos, quando as malas vieram para a posse de Lyss, uma pequena multidão formou-se ao redor dela. Era a hora da partida.
Eu sou forte. Eu sou forte. Ela estava repetindo isso pra si mesma. Como um mantra. Dizem que, quando você repete muito uma coisa, isso acaba sendo verdade. Lyss logo descobriu que a parte mais difícil só estava começando, não pensou que a despedida doeria tanto. Depois de tantas despedidas em sua vida achou que estava imune á aquela sensação de aperto no fundo da garganta, imune de sentir grandes mãos apertando seu coração, a vontade de chorar e soluçar, o ardor e quentura nos olhos... Mas, não. Estava tudo ali. Quando abraçou Lucy e sentiu o corpo da tia tremer levemente de encontro ao seu soube que tinha que fincar as emoções no chão para não desabar junto com ela. Ergueu muros ao redor de seus sentimentos e soube que ficaria bem. O mantra estava funcionando. Mesmo que temporariamente. Estava na hora da Partida.
Adam segurou sua mão com um pouco mais de força e aprumou os ombros, Winfrey sorriu, satisfeito e fez um discreto aceno com a mão esquerda, Douglas pôs a mão no ombro de Lucy que enxugava uma lágrima no canto dos olhos com a ponta do indicador da mão direita, Claire, Liam e Willian estavam lado a lado, Claire colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha, Liam sorriu, cutucou Willian que disse algo como resposta. Nadine não estava ali, estava mais atrás, sorriu e acenou, então os olhos de Lyss se fecharam instintivamente. O resto das coisas, os rostos, as expressões, tudo virou um borrão, ela concentrou-se na sensação dos braços da tia ao redor de si, guardou aquele toque o máximo que pôde, e mesmo depois de segurar a mão de Adam e ouvir a piada de Douglas, algo como: Não olhe para a luz!, mesmo depois disso ela mantinha-se concentrada na quentura quase inexistente de onde Lucy tocara. Atrás dos olhos fechados houve uma luminosidade ofuscante, ela pressionou as pálpebras e demorou um tempo para entender que a luz vinha do sol.
Chegara! Hora de juntar os pedaços, os pedaços que foi partida, que a formavam agora e enfrentar um novo mundo. O seu mundo.
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