“Abra os olhos. Não. Esses não. Existem coisas que devem ser enxergadas com o coração.”

O celular sobre a cômoda vibrou duas vezes: Uma mensagem. Chris não queria levantar agora, estava olhando o teto, o pessoal da escola viria logo, eles sairiam para a praia. Um bom mergulho seria o necessário para esfriar a cabeça e parar de pensar em Lyss, ele apertou a bola entre as mãos, estava evitando olhar para outro lugar, aquele quarto estava repleto de lembranças dela. Uma presilha de cabelo na cômoda, ao lado do celular, a cesta de basquete num canto, presente de aniversário junto com entradas para o jogo meses antes, havia um urso de pelúcia fofo demais para os amigos, mas, este estava no fundo do guarda-roupa junto com a quantidade impressionante de fotos deles, havia um porta-retratos no criado mudo mas, este estava vazio, e até esse vazio agourento lembrava ela, havia mais três fotos na porta do guarda-roupa, tinha a foto do papel de parede do celular, tinha também as paredes que haviam sido pintados pelos dois, no chão sob a cama eles desenharam as iniciais, por isso Chris era proibido de redecorar o quarto, sua mãe lhe mataria se sonhasse que estragara o piso. Além de tudo havia outra coisa, algo que estava tão escondido quanto o urso de pelúcia rosa, era um anel. Um presente de aniversário que não teve coragem de dar. Mas, não era um simples anel, era um anel de compromisso. Seria o selo do relacionamento que ia tão bem, era mais um símbolo, tirando as fotos nas redes sociais e o status de relacionamento e as declarações constantes.

Agora Chris sentia que estivera sozinho durante todo relacionamento, não que Lyss não participasse de cada loucura que ele inventava, mas, de certa forma ele se entregara mais. Podia dizer que entendia, mas, seria mentira. Ela não deveria ter ido tão longe se pretendia deixá-lo. E aquela desculpa ridícula de ser uma Bruxa? Lyss era a pessoa mais doce que conhecia, era fria e ás vezes até meio maluca. Ah! E não sabia virar panquecas, mas, nunca uma bruxa ou um monstro, nunca uma pessoa ruim.

Ouviu o celular tocar, atendeu contra a vontade, era Langdon, jogava futebol com ele.

– Estamos passando aí, vamos levar a prancha.

– Certo.

Langdon meio que desconfiava do fim do relacionamento dele com Lyss, era um dos amigos mais presentes na casa de Chris e percebeu o quanto o amigo estava diferente, só não tinha coragem de perguntar diretamente, a técnica de Langdon era outra.

– Tá tudo bem contigo, cara?

– Tá sim. Estava pensando de a gente ir ao cinema depois da praia, estreia um filme legal de ação e...

– Na verdade as meninas estão indo também?

Meninas? Aquele era o jeito sutil de Langdon saber das coisas.

– Lyss vai conosco?

– Sabe que não. – Chris disse impaciente ao ouvir o nome dela

– Joyce está indo.

Chris ouviu risinhos e reclamações depois da informação do amigo, Joyce estava com ele. Era uma loira de cabelos curtos e corpo bem feito, dava mole pra Chris de vez em quando, mesmo quando ele estava com Lyss, tentava entrar na equipe de líderes de torcida, mas, a equipe já estava completa. Porém agora com a provável saída de Lyss (ela enviara uma mensagem falando algo sobre viajar) haveria um espaço vago na equipe... E na vida de Chris. Joyce poderia querer ocupar as duas vagas, mas, e ele? Era isso que queria?

– Vamos assistir a um filme romântico, então. – usou seu tom de galanteador. Só usava esse tom com Lyss para brincar, podia agir naturalmente com a ex.

Alguém do outro lado riu feliz com a informação. Chris levantou-se para se arrumar pra sair, resistiu á vontade de apagar a mensagem sem ler porque viu seu remetente, mas, não podia fazer isso pelo mesmo motivo. Não sentia raiva de Lyss, mas, de si mesmo. E depois de ler a mensagem reconheceu a velha amiga nas entrelinhas.

“Nesse aniversário, dentre todos os pedidos, eu fiz o que era mais importante pra mim naquele momento. Importante pra mim agora. Eu desejei, desejo que você esteja bem. Que você fique bem apesar de tudo, ou por causa de tudo”.

– Chegamos! – a voz infantil anunciou – Acho que quebrei meu recorde dessa vez, provavelmente por causa da quantidade de pessoas, talvez...

Lyss não escutou o restante da frase, mas, percebeu que ele continuava a falar, meio consigo mesmo. Os olhos se acostumaram á claridade intensa, não era tão cedo, mesmo assim a diferença de luminosidade era gigantesca em comparação á Weverston, Lyss procurou instintivamente pelos rostos no círculo que estava ali há alguns segundos – ou minutos, ela não sabia – mas, não havia sequer o círculo. O verde era intenso e o silêncio só não se tornava pesado por causa do barulho de mar ali em algum lugar, uma brisa leve soprava, mas, não era o suficiente, ainda estava irritantemente quente. As roupas! Ela lembrou-se, só então percebeu que ainda segurava a mão de Adam com força, liberou-o e deixou a mala e o Diário cair no chão, puxou o ar devagar saindo do torpor lentamente. Então sua mente despertou.

O céu era de um azul incrível, o sol levaria tempo, mas, estava pra se pôr, o que conferia ao céu uma tonalidade especial, o gramado sob seus pés era muito verde, esticando os braços um ou dois ossos estalaram, Lyss começou a abrir o casaco pesado que estava usando, diante do silêncio o abrir do zíper soou alto, deixou a peça cair aos seus pés também, a blusa de manga comprida ainda era incômoda, mas, preferiu não ficar apenas de camiseta, afinal ali ainda era uma instituição de ensino, a calça pesada agora era uma tortura, mas, nada extremamente insuportável até então.

– Bem vinda a Lisarb, Srta Sinclair. Bem vinda ao Instituto Adams.

Lá, mais á frente havia um castelo, Lyss se perguntava o porquê de não tê-lo notado assim que abrira os olhos. A construção era tão bela que parecia ter sido esculpido, não construído, não havia grades como em Weverston, apenas o castelo com um imenso portão de madeira, os muros eram maiores do que seis pessoas empilhadas, lá em cima torres arredondadas e janelas de vidro, um homem de meia idade saiu pelo portão aberto, acenou antes de ir até eles, Lyss lembrou-se do comentário de Winfrey sobre todos estarem esperando.

– Olha, lá vem Clovis. Você estará em boas mãos. – Adam dizia parecendo estar uns cem anos mais velho pelo jeito que falava.

Clovis era um homem baixinho de cabelos grisalhos, tirando o tom do cabelo ele não parecia ser tão velho.

– É o único humano daqui, mas, não fale nada, ele não gosta.

Lyss franziu o cenho diante da afirmação sussurrada de Adam, mas, deixou aquela passar. O castelo não estava tão longe quanto parecia, Clovis estava ali no instante seguinte.

– Alyssa Sinclair, seja bem vinda ao Instituto Adams. – ele sorria educadamente – Espero que tenha feito uma boa viagem.

Lyss já escutara aquilo a uns minutos atrás, sorriu de volta sentindo-se corar por causa da temperatura.

– Obrigado Sr...

– Me chame de Clovis.

– Clovis. – aceitou – Acho que devo pedir desculpas pelo atraso.

O rapaz não era de perder tempo, Lyss notou, pegou o casaco e o Diário de Lyss do chão e comandou:

– Adam, se incomoda de levar as malas lá pra cima? Alyssa ficará no quarto do corredor três.

Adam acenou e desapareceu com a mala. Teletransporte é bastante prático.

– Não se incomode em pedir desculpas, já sabemos de seu bloqueio e tudo mais, só espero que você se comprometa em pegar os materiais que já foram passados na mão das outras meninas.

– Claro, Sr... Clovis. – Lyss fez menção de pegar seu diário e o casaco das mãos do homem, mas, ele já estava caminhando e fazendo sinal para que ela seguisse-o.

– O que achou da nossa bela construção? – entregou o Diário á ela e distraía-se dobrando o casaco enquanto caminhava

Lyss deu uma corridinha pra alcançar o diário e igualar os passos.

– É muito linda, e diferente... — o que deveria responder? Tentou fazer com que ele lhe entregasse o casaco, mas, ele ignorou.

– Já está a par de alguma informação? Ofereço-me de guia.

Adam já estava ali no outro segundo, chegaram ao portão de madeira que estava entreaberto, Clovis usou a mão desocupada para empurrá-lo, não havia som. Depois da porta eles passaram por uma espécie de túnel, de pedra, e Lyss se viu diante de um pátio pequeno, seu chão era de pedra, mais adiante uma porta de madeira pintada em vermelho, o grande cadeado – apesar de enferrujado – parecia bem forte, ela estava então diante da imensa estrutura de pedra. Clovis tirou uma chave de ferro do bolso e enfiou no cadeado, a porta se abriu e um salão muito elegante revelou-se, sem dúvidas ela não esperava tanto luxo e conforto, os pisos tinham desenhos de losangos na cor branca, as paredes eram brancas com detalhes em dourado, e as luminárias presas nas paredes deveria fornecer pouca luz, a distância entre cada uma delas era de pouco mais de um metro, duas janelas permitia a entrada da luminosidade do dia, uma delas próximo ás escadas que levavam ao segundo andar e a outra do lado oposto, na mesma parede da porta, além disso, um lustre pendurado no teto devia iluminar o suficiente. O ambiente era bem iluminado.

– Acabamos de instalar energia elétrica. – Clovis começou como se estivesse lendo os pensamentos de Lyss – Modificamos muita coisa pra chegada de vocês, é uma construção antiga, mais velha que nossas idades somadas, o mais difícil foi a implantação de energia elétrica, é uma ilha isolada do resto do mundo, lidar com toda aquela parafernália foi complicado – ele se interrompeu ao notar que estava devaneando.

Do lado oposto da escada e na mesma direção havia uma porta, mais adiante outra, ambas idênticas, porém em uma delas havia um brasão dourado.

– Ainda faltam algumas melhorias – Clovis continuou ao entregar o casaco de Lyss – A escada lhe levará aos dormitórios femininos, os Bruxos também ficam aqui, eles estudam com vocês, lá no fundo tem outra escada que leva ás quatro Alas, mas, isso seu Mentor explicará de uma forma mais explícita. – ele fez uma pausa, coçou o queixo – A construção foi feita na metade da década de 20, os próprios wateaire construíram esse castelo, alguns não utilizaram poderes, dons ou como você queira chamar as habilidades adicionais que eles têm. Depois da escada há uma porta na parede oposta, as aulas estavam acontecendo lá, durante essas semanas mas, por agora estamos na floresta por causa dos feitiços que vocês tem de aprender.

Lyss assentiu prontamente olhando o caminho onde ele apontou que levaria á sala de aula.

– Estamos nos organizando – ele continuou – para melhor receber vocês, algumas aulas práticas se darão na vila dos wateaires – parou, pensou – Não sei se falta alguma coisa.

Uma gota de suor escorreu pela face já corada de Lyss, ela suspirou.

– Eu poderia tomar um banho?

Só então Clovis olhou as roupas que Lyss estava usando, ele meneou a cabeça surpreso.

– Isso vai ser um problema, as roupas, quero dizer, espero que tenha trazido peças mais leves, tome um banho e descanse, ou procure as outras meninas, creio que elas estão na vila, amanhã a aula começa cedo, o professor Mathias é um pouco chato, dizem que foi o estudo que deixou-o ranzinza – ele riu – Mas, se você disser a ele que eu falei isso, direi que é mentira.

Lyss sorriu

– Conte com minha discrição.

– Agora vá, menina. Corra ao seu quarto e troque essas roupas. Adam vai mostrar o caminho

Lyss não esperou que ele reconsiderasse, com o Diário e o casaco em mãos ela seguiu escada acima tendo Adam no seu encalço. Chegaram a um corredor extenso e largo, havia portas iguais quase frente a frente, seis ao todo.

– Vocês ficam aqui. Preciso ir, Sr. Winfrey deve estar precisando de mim. O seu quarto é o segundo, Lyss.

Lyss sorriu para ele.

– Obrigada, Adam. – afagou os cabelos o menino – Você é mesmo excelente no que faz.

Ele corou antes de sair em direção á escada.

A primeira coisa que Lyss fez ao abrir a porta foi procurar pela cama, jogando tudo o que estava na mão – menos o Diário, que foi delicadamente colocado sobre o colchão – de qualquer jeito no chão, ela deitou-se e fechou os olhos sentindo o ar fresco entrar pelas janelas abertas. Afastou a franja da testa molhada e enxugou o rosto com as costas da mão, estar ali era como entrar numa faculdade – concluiu, sua parte “não-humana” se sentia realmente bem naquele lugar, era como se ela estivesse prestes a abrir uma porta lá dentro que há muito evitara sequer olhar, como Nadine previra essa viagem definiria meu futuro, e as coisas se encaixariam como desejou á estrela cadente.

Abrindo os olhos sentou-se na cama devagar para analisar a decoração sóbria do quarto que designaram pra ela. As paredes eram um tom creme escuro, o tapete verde, diante da cama de casal e a própria cama era do século dezoito, ela era luxuosa e fazia um contraste bonito com a leve rudeza do lugar, o dossel em um tom delicado de rosa era fixado em quatro pontos no teto baixo de madeira, era uma das poucas coisas femininas presente no ambiente, o colchão macio era coberto por um lençol de seda na cor pérola, a cabeceira de madeira avermelhada combinava com o espaldar da cadeira diante da estante pintada de branco. Aquele era outro detalhe feminino, seria útil para guardar os livros e bugigangas. Havia duas janelas, uma colocada propositalmente ao lado da cama – para que essa fosse iluminada o tempo inteiro -, e a outra na parede oposta para permitir a entrada do vento, as cortinas de tecido leve voavam ao sabor da leve brisa do mar, ela tinha uma visão excelente das ondas lá fora, seria útil quando tivesse que pensar um pouco. Tomando coragem Lyss ficou de pé e se espreguiçou felizmente com a brisa fresca o calor fora amenizado, mas, as roupas ainda a incomodavam, o calor que fazia ali era – ás vezes – sufocante, não que ela estivesse reclamando, preferia mil vezes ser tostada pelo calor a duas horas de chuva, depois que seus pais morreram no acidente em uma tempestade ela adquiriu a estranha e leve fobia por chuva e temporais. Pra completar a decoração do quarto, havia uma porta que dava para um banheiro, Lyss foi até lá na expectativa de livrar-se de tantas roupas, não havia nada de especial nele, era pequeno e todo branco, apenas as toalhas cor de rosa que Lucy insistira que ela devia levar daria vida a ele.

O banho, talvez fora mais demorado que previra, mas, uma vez sob a água fresca do chuveiro era complicado sair. Quando se deparou com a hora ela vestiu a roupa mais leve que havia levado: Um vestido. Ainda estava tudo muito claro para tentar dormir e não estava tão cansada agora depois do banho, consultou o celular, mas, Chris manteve-se mudo diante da mensagem que ela enviara, depois percebeu que ali celulares simplesmente não pegavam, caminhou pelo quarto de braço levantado tentando encontrar um traço de rede que fosse. Nada! Desistiu jogando o aparelho sobre a cama.

Pensou em arrumar as malas, mas, desistiu na primeira peça quente que encontrou. Pensou em conhecer o castelo, mas, não queria deparar com Clovis e incomodá-lo. No fim das contas aproveitou para caminhar um pouco lá fora. No gramado, olhando o horizonte percebeu que alguns lugares ali lembravam a Califórnia, pelo menos o cheiro gostoso de maresia era o mesmo, assim que começou a caminhar sentiu algo dentro de si crescer, as barreiras que havia erguido para não sofrer com a despedida de Lucy ainda estavam ali e mais sólidas, era bom a sensação de proteção, além disso, quase se sentia forte, poderosa. Devia ser sua parte Bruxa despertando, fortalecendo. E era bom. As marcas em seu braço direito formigavam desde o momento que pisou ali.

O vaivém das ondas fez com que ela se lembrasse dos pais, de vez em quando se pegava pensando na morte deles, se eles haviam sofrido muito, se não haveria um meio de salvá-los, Lyss sempre arrumava um culpado, recusava-se a acreditar de que aquilo havia sido planejado e elaborado pelo destino. Quem planejaria isso? Fazer com que uma criança perdesse os pais tão nova?

O acidente na Golden Gate foi noticiado em inúmeros telejornais. “O acidente na Ponte Golden Gate deixou um ferido e dois mortos, aparentemente o acidente foi causado pela espessa neblina que cobria a ponte (...) O carro bateu numa das barreiras de proteção da estrutura metálica, não houve chances de sobrevivência um casal foi encontrado entre os destroços, ainda não foram identificados”.

Eles morreram no dia 24 de janeiro de 1999, Lyss tinha cinco anos, eles estavam indo para a festa de aniversário da filha, Lyss lembrava-se vagamente do instante exato que as pessoas da festa receberam a notícia, lembrava-se de perguntar pelos pais, eles haviam prometido chegar na hora, Brad nunca faltava com sua palavra. Mas, desta vez ele não chegou. Nunca mais chegaria.

No outro dia, Lyss lembrava-se de panos pretos para todo o lado, no lugar onde houvera felicidade e rostos risonhos o tempo inteiro estava agora expressões cautelosas e olhares desconfiados, a garotinha ainda não sabia onde estavam os pais, os adultos se esquivavam das perguntas o tempo inteiro. A casa estava tão cheia quanto antes, haviam tantos rostos, nenhum familiar na memória da adolescente, talvez familiares para a memória de criança, algumas mulheres pentearam seu cabelo enquanto tentava justificar o porquê de ela não poder usar seu vestido rosa.

– Escolha um preto. – a moça falava

­– Mas, eu quero o rosa. Já escolhi. – fez beicinho

– Que tal esse branco?

Lyss-Criança não era de discutir com os adultos, eles não entendiam nada. Terminou com um vestido branco, as pessoas passavam, cochichavam, olhavam com pena para a garotinha. Pobrezinha, perdeu os pais tão nova.

Foi um tempo depois que alguém veio conversar com ela, um alguém de voz doce, calma. Um alguém que sabia que estava conversando com uma criança e tinha que tomar cuidado com as palavras.

Seus pais não vão voltar. – era dessa frase que Lyss se lembrava. Todo o resto não importava, a dor era uma vaga lembrança presa ás paredes de seu cérebro, essa dor havia crescido com o tempo, junto com a ausência. Lyss sabia que as palavras do alguém que conversara com ela (não sabia se tratava-se de uma mulher ou um homem) não doeu de imediato, ela não entendia direito. Como assim os pais haviam morrido? O combinado não era tê-los para sempre? Ela lembrava-se desse termo: Pra sempre! Eles sempre falavam essas palavras e Lyss entendia na época que aquele não era um prazo tão curto, senão não concordaria.

Durante os anos – quando a dor se apregoava ás paredes de seu coração, quando ausência abria um buraco tão grande que ameaçava devorar tudo ao redor – aprendera aos poucos a crescer junto com o sentimento de perda ou ele a dominaria, cada dia era uma vitória. Cada dia tinha que acordar e não receber o beijo de bom dia de seu pai e o abraço de sua mãe, não haveria mais as histórias loucas de Brad, nem as cócegas, nem os aviões de cereais... Cada dia que tinha que passar sem isso ela se tornava mais forte. Se fortalecer dói tanto, mas, sem sofrimento não há ganhos consideráveis.

Lyss-Adolescente suspirou observando a tonalidade do céu, estava caminhando a algum tempo, alguns músculos reclamaram de leve. Parou esticando os braços, sentindo um ou dois ossos estalarem, chutou uma pedra fazendo com que rolasse a alguns centímetros, notou, pela primeira, vez que estava em um terreno inclinado. Olhou em volta. Por quanto tempo estaria andando? Tão imersa em pensamentos não notou quando escurecera tanto. Perguntou-se quando as nuvens esconderam todo o azul do céu? Ou quando ficara tão frio que arrepiou sua pele?

Olhando para o caminho que supunha ter percorrido surpreendeu-se ao não conseguir ver o castelo ao longe, começou a caminhar de volta, mas, realmente não sabia por onde tinha vindo. As árvores idênticas do outro lado balançavam ao sabor do vento que ficava mais forte a cada momento.

Um trovão ecoou acima de sua cabeça. Ela gemeu

– Ah, não!

Lágrimas de frustração embaçaram sua visão. Que droga! Esse tipo de coisa só acontecia comigo. – pensou.

Mais um trovão ecoou. Sem alternativa terminou de subir o terreno íngreme tentando encontrar um abrigo, olhou em volta na esperança de, quem sabe, ver o Castelo. Além de algumas pedras amontoadas, árvores imensas e grama, só havia... É, nada, além disso!

Lembrou-se de algumas coisas do tempo de escoteira questionando se seria o suficiente para que passasse bem aquela noite. Precisou caminhar um pouco além do terreno inclinado, estava prestes a entrar na floresta quando, com um suspiro de alívio avistou uma cabana “abandonada” de madeira. Na verdade ela esperava que estivesse abandonada, mas, duvidava que, além dos insetos e outras coisas nojentas, algum ser vivo habitaria em um lugar como aquele. Na verdade até a palavra cabana era um exagero quando se olhava a construção de perto.

Poucos passos separavam-na da casa, deu-os e estava diante da porta, seu formato quadrado lembrava uma casa de boneca mal feita, não havia varanda ou escadas, toras de madeira empilhadas formavam as quatro paredes, parecia bem forte. Receosa, tocou a porta muito levemente e foi o suficiente para que se abrisse fazendo um rangido alto, provavelmente nem um rato sendo torturado faria tanto barulho, mas, quem torturaria um rato?

– Olá?

Lyss colocou a cabeça pela fresta esperando ouvir algum som, apenas um trovão ensurdecedor ecoou acima dela. Os pingos grossos começaram a cair, um trovão ecoando após o outro, entrou de uma vez antes que a chuva piorasse. A cabana na verdade era um lugar usado para estocar lenha, havia muitas dela no lado oposto á porta abaixo de uma janela pequena. Um vento mais forte fez com que ela estremecesse de frio.

Suas roupas não eram adequadas para um tempo como aquele, vestia apenas um vestido. Quase se arrependia de ter trocado a roupa anterior, de sua chegada.

Já dentro da cabana fechou a porta, não havia trincos então a única alternativa era torcer para que o vento soprasse do lado oposto. Agachou ao lado da porta abraçando os joelhos, se pegou rezando para Winfrey se comunicar com alguém do Instituto e dizer onde ela estava. Ele via o futuro não é? Então devia ter visto que ela se perderia; provavelmente alguém viria salvá-la.

Agarrou-se nessa possibilidade pra não ter uma crise de histeria. Descansou a cabeça nos joelhos, ouviu quando a chuva aumentou, estava muito escuro agora que a porta estava fechada, nem a janela fornecia luz suficiente, também não havia o que ver então se concentrou nos sons.

O vento soprava com força, a chuva de encontro ao telhado fazia sons semelhantes á pedra quando atirada na areia, havia sons de folhas também. Suspirou e fechou os olhos, não havia percebido como estava cansada, ainda devido á viagem. Parte de seu cérebro ainda estava tão concentrado em tentar lembrar o caminho que fizera até chegar ali, o caminho que a levaria de volta, não era mestre em dominar a água e, geralmente, cansava muito rápido quando o assunto era magia, mas, podia tentar, e mesmo que não conseguisse um pouco de água não mataria ninguém. Porém, tinha outro detalhe, o medo daqueles barulhos fortes, a tensão que enrijecia seus músculos como se a tornassem uma estátua, aquela vontade de ser protegida e a histeria tão próxima que dava vontade de gritar... Esse era o outro detalhe. Tentou não pensar nos pais, na chuva que caía, na neblina densa que os impedia de enxergar o caminho, tentou não imaginar seu pai agonizando, sua mãe chorando... Mas, só de tentar não pensar já estava pensando. Respirou fundo tentando oxigenar o cérebro, estava travando uma batalha contra si mesma e numa batalha como essa não existia ganhadores.

Era só respirar... Focar em outra coisa.

Estava tão concentrada em meus batimentos cardíacos que arregalou os olhos e deu um pulo quando a porta se abriu ao lado, de imediato ela achou que era o vento, mas, a sombra masculina a fez prender a respiração.

Reprimiu um gemido e seu corpo tremeu, abraçou os joelhos com força fechando os olhos, manteve a respiração suspensa, com medo de que ele a escutasse. O desconhecido deu dois passos largos e foi o suficiente para estar completamente dentro do espaço, ele fechou a porta e suspirou sonoramente. Até então parecia que ele não notara a presença da outra ocupante, mas, ela não abriu os olhos para certificar.

– Droga de imprevistos.

Foi inevitável, cometeu o erro de abrir os olhos para encarar o dono daquela voz grave, firme, impaciente e arrepiante. Ele estava com os olhos fechados, encostado na porta fechada, alheio á sua presença. Não era possível ver detalhes de seu rosto, mas, pelo perfil conseguia enxergar a mandíbula quadrada, o nariz reto, o queixo firme e os cabelos desalinhados era um claro sinal de que ele tinha boa aparência. Ele passou a mão no rosto e Lyss quase não notou que ele não possuía uma gota sequer de chuva no corpo. Ela ficou tonta e deu-se conta de que ainda não voltara a respirar, puxou o ar para os pulmões e o som foi tão alto que chamou a atenção do rapaz. Ela empalideceu e teve quase certeza de que o som lá fora estava sendo abafado pelas batidas frenéticas de seu coração. O rosto de traços fortes estava virado para ela, que, ainda não tinha movido um músculo, as pernas doíam de tensão, mas, Lyss continuou estática, sem ousar um movimento sequer, ela percebeu – apesar da pouca luz – que ele franziu o cenho.

Lyss cogitou as possibilidades em alguns segundos, inclusive surpresa pela velocidade do seu cérebro apesar da tensão: Ele estava encostado na única porta do recinto e a janela do outro lado era tão pequena que nem o menino Adam seria capaz de passar por ela. Os pequenos pedaços de madeira espalhados pareciam bem fortes para Lyss, se ele avançasse – ela esperava que não –, teria tempo de pegar uma delas e se defender. Podia contar com a agilidade já que o uso da força seria ridículo contra aqueles braços tão grandes e largos.

– Quem é você?

Lyss levou um susto tão grande ao ouvir a voz forte no ambiente silencioso que sua cabeça bateu com força contra a parede de madeira quando tentou recuar. Ela não tinha mais dúvidas se as paredes da cabana eram mesmo firmes.

– Ai! – gemeu baixinho fechando os olhos, a dor fazendo com que ela esquecesse por um momento do perigo que corria.

Que ridículo, aparentar fragilidade e medo diante de um desconhecido! Tocou o lugar dolorido e colocou a mão diante dos olhos tentando enxergar algum líquido vermelho. Viu uma sombra aproximar bruscamente e só percebeu depois que o imenso rapaz agachou-se diante dela e segurou sua mão procurando vestígios de sangue, o toque provocou uma descarga elétrica tão potente que Lyss reagiu puxando o braço com uma força desnecessária, seu cotovelo bateu na parede e ela gemeu outra vez. Ela devia ter feito uma careta ridícula já que o homem começou a rir — um som delicioso.

– É sempre desastrada assim?

Grunhiu, corando, sentindo-se ridícula.

As emoções de Lyss oscilavam com uma rapidez incomum, primeiro medo, depois admiração, depois esperança de escapar e agora ela estava ridiculamente encabulada.

– Está bem?

Ela teria grunhido outra vez se a preocupação na voz não fosse tão evidente.

– Estou. – arriscou-se a murmurar — Apenas minha dignidade se machucou realmente.

Lyss fez uma careta e ele riu outra vez balançando a cabeça, tentou segurar sua mão e, embora outra descarga elétrica a ocorresse, não evitou o toque agradável. Com as mãos nas suas ele a ajudou ficar de pé lhe soltando em seguida, agora ela podia ver seu rosto com mais clareza.

O cabelo em tom chocolate com alguns pouquíssimos fios loiros faziam uma combinação perfeita com os olhos, castanho-claro-esverdeados, o tom de castanho lembrava o cobre, era uma boa descrição: Esmeralda envolvida por cobre, os olhos dele eram assim, a pele levemente morena só deixava seu sorriso mais fabuloso (e que sorriso!), os lábios pareciam eternamente inclinados de leve para a esquerda e deixavam-no com um ar matreiro irresistível. Sua beleza era extasiante. Em toda minha vida– concluiu ela - nunca havia visto algo mais belo. E Lyss já vira muitos homens, todos muitos belos, mas, aquele cara... Era diferente de tudo, naquele momento ficou em dúvida das razões que estavam fazendo seu coração disparar. A emoção e sensação era uma surpresa, medo misturado ao fascínio, de alguma maneira aquele olhar, aquele sorriso... Pareciam tocá-la mais profundamente.

– Acho que não conheço você. – ele disse inspecionando-a

– Ah. – ela disse somente sem outra ideia melhor

– Ilha pequena, habitantes facilmente reconhecidos. – explicou enquanto sua inspeção começava a incomodar á Lyss — O velho Herbie está te escravizando também? Você não me parece uma lenhadora.

Ela franziu o cenho, questionando-se qual idioma ele estava falando.

– O quê? Como assim velho Herbie?

Talvez fosse um animal, ou uma entidade.

Ele sorriu mais abertamente percebendo sua confusão. Era um lindo sorriso! Fez uma careta cômica.

– Você não é daqui.

Não era uma pergunta, era uma afirmação. O velho Herbie devia ser bem conhecido.

– Herbie é o dono desse lugar. – ele explicava

Deu dois passos pra trás e deu de costas com a parede, estava difícil raciocinar perto dele.

– É não sou daqui. Quer dizer, não era, até hoje mais cedo. – tentou sorrir, não deu muito certo.

– É do Instituto Weverston?

Ela não sabia o quanto aquele rapaz sabia sobre o Instituto, mas, lhe ocorreu que guardar segredo em um lugar como aquele era impossível, até porque, provavelmente ele era um Wateaire.

– Sim, sou. Quer dizer... – desviou seus olhos dele e fitou um ponto da parede – Fui... ãnh ... Transferida para o Adams.

Voltou a encará-lo, ele sorria distraído. Lyss mexeu no cabelo, hábito comum á quem está nervosa. Passou a mão pelos braços e só então percebeu o quanto estavam arrepiados, na verdade estava mesmo muito frio ali. Tentou sair do lugar, mas, um movimento do homem a manteve estática, ele deu um passo em sua direção e ergueu uma mão, traçando com a ponta do dedo o caminho da sobrancelha até o queixo. A pele quente era um contraste á de Lyss gelada.

– Por que tenho a estranha sensação que te conheço?

A pergunta foi um sussurro, ela não sabia se devia responder. Nem sabia se havia sido dirigida á ela, de qualquer forma respondeu com um menear de ombros:

– Não sei.

Sentiu-se ridícula outra vez, o dedo quente fazendo sua pele formigar. Ele suspirou e baixou a mão, ela quase protestou. Quase.

Lyss foi se afastando dele o quanto pôde notando a descontração tomando conta do corpo dele.

– Você não me parece adequadamente vestida para uma tempestade.

Ela estava de costas para a janela e um vento mais forte a fez gemer de frio.

Ele se aproximou com um movimento um pouco mais brusco, por instinto Lyss deu mais dois passos para trás, porém, tropeçou em um galho e caiu sobre alguns pedaços de tronco.

– Ai, que droga!

Ele riu outra vez e ela riu com ele quase sem perceber. Sua cota de idiotices já estava chegando ao limite.

– Não precisa ter medo de mim. – a voz abafada pelo estrondo do trovão lá fora – Machucou-se?

Aceitou a mão que ele ofereceu e com facilidade foi puxada para perto de seu corpo. Ele estava tão quente. Lyss não raciocinou com rapidez suficiente pra responder, mas, percebia como as sombras deixavam sua silhueta um pouco assustadora. Claro que, pelo jeito ele não pretendia matá-la, não por agora pelo menos, mas, existia essa possibilidade.

– Você está congelando. – ele notou com surpresa — Pretende morrer deliberadamente?

– Eu não sabia que faria tanto frio. – deu de ombros, sentindo o queixo tremer sem controle.

Ele tirou o grosso casaco dos ombros e ela demorou a perceber sua intenção.

– Vista isso! – estendeu-o

– Ora, não posso aceitar. Você... – as palavras saíam com dificuldade

– Estarei mais aquecido que você. Tome. – não parecia um pedido, era mais uma ordem clara.

Porém, notando os fatos até a camisa de mangas compridas que ele usava por baixo do casaco parecia mais quente do que aquele vestido. Aceitou sem jeito, evitando encará-lo.

– Obrigada! – conseguiu dizer

Pessoas que querem matar a outra não oferecem casacos. Oferecem? Felizmente não tinha experiência no assunto.

A temperatura que inundou o seu corpo foi tão agradável, que, uma moleza gostosa apossou-se de seus músculos, atravessou o espaço ficando o mais longe possível do homem. Sentou no chão frio tomando cuidado para não sujar o casaco. Bocejou disfarçadamente. As pálpebras pesavam, um reflexo das horas de viagem e do stress sofrido por receber tantas informações, mas, ela lutava para manter os olhos abertos, apesar de gentil, aquele rapaz ainda era um desconhecido.

Ele, ao contrário dela, não parecia estar prestes a dormir, pegou um tronco mais grosso e sentou sobre ele, seus olhos não se desviaram de Lyss, ele analisava seu corpo, rosto. Quantos anos ele devia ter? Vinte? Vinte e dois? Apesar do corpo formado seus traços eram joviais como os de um adolescente.

– Está aquecida o suficiente?

Aconchegou-se mais ao casaco. O cheiro dele estava entranhado na peça, aquilo chegou a intoxicar o sistema de Lyss, estava difícil pensar. Talvez fosse só o frio.

– Sim, estou. – murmurou sentindo os tremores abandonarem seu corpo

– O que você faz aqui? Se Herbie não está te escravizando, então o quê?

Ela estava cansada o suficiente pra não cogitar riscos que estaria correndo revelando sua vulnerabilidade.

– Me perdi. Parece ridículo, eu sei.

– Não devia ter saído desacompanhada. E não é ridículo, é comum se perder por aqui. E ainda tem o tempo, ele muda depressa demais. Em uma semana você conhecerá isso aqui como a palma de sua mão. Ouvi dizer que o Adams aceitaria alguns adolescentes de Weverston, só não sabia que seria tão cedo, já que há visitantes especiais aqui em Lisarb.

Ela meneou a cabeça fitando a silhueta dele. Os lugares que havia machucado começaram a latejar cicatrizando-se, mas, a cabeça parecia prestes a explodir, Lyss encolheu-se mais tentando ignorar os trovões consecutivos, Evan arregaçou as mangas apoiando os braços nos joelhos.

– Vai precisar de gelo quando voltar ao Adams.

– Eu sei, não sou tão destrambelhada assim sempre.

Ele sorriu

– Acha que essa chuva vai passar antes do amanhecer?

– Duvido muito, te aconselho a dormir um pouco, se a chuva passar eu te chamo. Combinado?

Ela franziu o cenho

– Não vai descansar?

– Não estou cansado, ou com sono, mas, provavelmente vou tirar um cochilo mais tarde.

Ela não se sentia cem por cento confiante em dormir com um estranho acordado ocupando o mesmo espaço. Ficaram em silêncio por minutos a fio, Lyss lutava contra o peso de suas pálpebras, por alguns instantes Evan era uma sombra misturada aos troncos da cabana, seu corpo imóvel só podia ser identificado quando os relâmpagos realçavam sua silhueta, então ele se moveu, Lyss teve um pequeno sobressalto, ele fingiu não perceber, levantou-se e foi se sentar na outra extremidade. Certamente percebeu que ela não conseguiria dormir se ele se mantivesse tão desperto. Ele fingiu um bocejo.

– Boa noite e á propósito: Meu nome é Evan.

– Boa noite. – ela respondeu apenas, apertando mais o casaco ao redor de si.

O sangue parara de circular para as pernas de Lyss há algum tempo, agora elas formigavam, mas, a garota se recusava a mover-se pra não atrair a atenção do homem, em alguma parte da noite ela escutou a respiração pausada dele, foi quando estendeu as pernas dormentes e doloridas e permitiu que seus olhos se fechassem.

Evan continuou respirando pausadamente percebendo que só então a moça de belos olhos azuis permitia-se descansar, pelo canto do olho ele percebia que de vez em quando ela espiava pra ver se ele se mexera, estava tarde quando ela finalmente adormeceu. Com os braços sob a cabeça ele observava-a, em silêncio, tentando lembrar-se de onde a conhecia e por que tinha a impressão de que essa não seria uma boa lembrança. Seus instintos não costumavam falhar.

“Encontre-me no sótão” – dizia o bilhete que Chris deixara pra mim dentro do embrulho de presente de aniversário. Chris e suas surpresas... Eu o mataria se fosse alguma piada. Desci as escadas devagar, estava tarde, mas, havia iluminação suficiente para que eu não tropeçasse, não havia som algum ali, por isso eu chamei seu nome algumas vezes. Ele não respondeu.

– Isso não tem graça, Chris. – disse alto

Fez-se silêncio após minhas palavras, então eu ouvi sua voz amedrontada:

– Lyss, você tem que ver isso. É horrível!

Não parecia brincadeira ou fingimento o tom de voz dele.

Então eu praticamente pulei as escadas que faltava, Chris estava apontando pra um espaço escuro no sótão, parecia aterrorizado, estático de pânico, eu não conseguia ver o que ele apontava, corri em sua direção.

– Um monstro. Horrível, Lyss. Horrível! – ele repetia sem parar

Olhei pra onde ele apontava e vi minha própria imagem refletida no espelho, o reflexo me fitava confuso, uma cópia de minha própria expressão. “Onde estava o monstro?” – perguntei pra mim mesma antes de virar pra Chris. Foi quando percebi que era pra mim que ele apontava.

– Um monstro. Você é um monstro! – Chris gritava entre enojado e aterrorizado, deu passos para trás tentando ficar o mais longe possível.

Tentei me aproximar dele, mas, minhas mãos estavam em chamas, ele correu na direção oposta, sacudi as mãos tentando apagá-las, mas, a ordem que veio do meu cérebro foi pra seguir Chris, eu precisava explicar pra ele. Toquei nas paredes do sótão tentando não sucumbir à sensação ruim que me dominava. Eu era o monstro! As chamas de minhas mãos agora subiam pelas paredes do sótão, um protesto fraco saiu de minha garganta enquanto eu me lembrava de Lucy e Chris lá em cima na cozinha. O fogo devorava tudo aqui embaixo quando alcancei a porta do sótão, ela estava trancada, mas, eu tinha que avisá-los. Forcei a porta até que ela se abriu, mas, não era a cozinha que estava ali na minha frente, havia grama, um gramado verde que estendia-se até onde a vista alcançava. Eu não estava mais vestindo minha roupa de festa, nem com mãos em chamas, eu estava de preto, olhando ao redor consegui identificar um grupo de pessoas de pé formando um círculo estranho, identifiquei Lucy no grupo. Eu gritei por ela, corri em sua direção, precisava dizer algo importante, embora não soubesse o quê. Quando a toquei percebi a razão do estranho círculo eles estavam ao redor de um caixão

– Quem morreu? – eu gritei chorando já esquecida do acontecido momentos antes no sótão – Quem foi dessa vez, Lucy. Diga-me!

Um homem alto segurou meu braço, ele não era conhecido meu, porém, de alguma forma eu sabia que podia confiar nele. Não consegui decorar os traços de seu rosto, mas, ele tinha uma cicatriz na sobrancelha esquerda.

– Alyssa, você precisa me encontrar. – ele me chacoalhava — Está me ouvindo? Você precisa me encontrar na floresta. – eu não conseguia desviar meus olhos dos seus — Não diga a eles que estou aqui, só me encontre antes que seja tarde. Alyssa? Está me ouvindo?

– Ei! Está me ouvindo? – Evan tocou de leve em seu rosto

Lyss abriu os olhos devagar, seu corpo tenso demais para esboçar reações bruscas, o pânico a manteve estática.

– Você está bem? – Evan inspecionava-a, preocupado — Estava falando coisas sem sentido e...

Ela inspecionou o lugar com os olhos. Onde estava?

– Eu tive um pesadelo! – falou sentando enquanto ofegava.

Encontre-me na floresta. O homem dissera. Algo dentro de Lyss ansiava para correr até a floresta e encontrá-lo, mas, quem era ele?, a outra parte estava ali, no controle, mantendo-a imóvel. Evan segurava-a pelo pulso, o toque era gostoso, trouxe-a de volta á realidade.

– Ei. – sussurrou – Está tudo bem, foi só um sonho ruim.

Lyss só se deu conta de que estava tremendo quando ele a abraçou, no momento não importava quem a abraçava, o importante era a sensação de que alguém a protegia sem que ela precisasse pedir, sentindo-se estranhamente vulnerável retribuiu aquele abraço com força. Ficaram assim por um tempo até que as imagens do sonho se tornarem menos nítidas. As células de seu corpo responderam imediatamente ao contato, Lyss atreveu-se a fechar os olhos e sentir como a ponta dos dedos dele estava fria se comparada ao resto de seu corpo, como cheiro dele era inebriante, muito mais forte do que o cheiro que estava impregnado no casaco que ela ainda vestia, alguns fios de cabelo dele tocavam o dedo dela, resistiu á vontade de acariciá-los. Naquele momento também teve a impressão de que o conhecia, de que já estivera nos braços dele outras vezes, de que aquele era seu lugar.

– Desculpe! – falou sem graça sem soltá-lo – Foi um sonho meio tenso.

Ele se afastou devagar para fitá-la.

– Tudo bem. Quer falar sobre isso?

Lyss hesitou, ele voltou a abraçá-la, só que mais suavemente.

O que poderia dizer? Que estava se sentindo tão quebrada que se apoiava em um completo estranho? Que queria correr pra floresta e encontrar sabe lá quem por intuir que isso uniria seus pedaços? Que estava com medo? Medo de se descobrir uma pessoa diferente da que estava habituada a ser? Medo de gostar tanto de seu lado Bruxa que renegasse suas origens humanas. Poderia dizer que estava confusa e se sentindo estranhamente fora de órbita, mas, dizer aquilo não adiantaria muita coisa. Precisava de tempo, tempo pra se acostumar com tudo aquilo, tempo pra se conhecer melhor e se apaixonar por si mesma.

– Acho que não. – meneou a cabeça lentamente – Sinto falta de minha família. Só isso.

Evan sentou-se ao seu lado segurando as mãos dela entre as suas.

– Tudo bem. Isso aqui não é uma prisão, sabe. Embora, ás vezes pareça, com o tempo você vai perceber que não somos tão ruins assim, só nos dê uma chance – ele sorriu – você verá sua família em breve.

Ela olhou como as mãos faziam um conjunto bonito, como se completavam. Um encaixe perfeito.

– Acho que não me apresentei ontem. Meu nome é Lyss.

– Muito prazer Lyss.

– Acho que você tem razão quanto á minha família.

– Acho que você é uma menina sensata. – disse fazendo Lyss rir – Está com fome?