“Os ‘era uma vez’ dificilmente terminam com ‘felizes para sempre’.”

Com o sol bem posicionado a ilha era ainda mais bonita e Evan também, os fios dourados de sua cabeça brilhavam como raios de sol, ele tinha esse mesmo brilho em seus olhos cor de cobre com pedaços do mais belo verde das esmeraldas, seu porte atlético saltava através do pano fino de sua camisa, estava mais quente essa manhã, um excelente dia para ser aproveitado na praia, as ondas e a brisa fresca eram um bom convite, quase irrecusável. Evan era um rapaz de sorriso fácil, os olhos franziam com um simples movimento de seus lábios rosados, não muito cheio, perfeito. Combinava com perfeição ao outros traços, o nariz anguloso, os ossos fortes por baixo da pele queimada de sol, as maçãs levemente rosadas, saudável, a curva do queixo, a expressão decidida. O corpo movia-se com uma agilidade impressionante, os movimentos precisos...

– Como disse que se chamava? – ele perguntou

Na verdade Evan recordava bem do nome, mas, ainda estava questionando-se de onde a conhecia, havia algo naqueles olhos azuis, nas bochechas que se erguiam quando ela movia os lábios num sorriso, ou quando ela olhava meio de lado, havia algo ali de muito familiar que despertava estranhas sensações nele. Temor. Não costumava temer muita coisa, mas, entendia que, de algum modo, seu cérebro bloqueara aquela lembrança para evitar algum sentimento negativo. Evan gostou de conhecer a jovem. Lyss... Era um nome incomum, mas, combinava com ela, Lyss não parecia ter consciência do quanto era bonita, talvez isso a diferenciasse das outras. Talvez isso explicasse o porquê de querê-la perto, de não querer que ela se fosse agora. Quando a veria de novo?

– Lyss. Na verdade meu nome é Alyssa, mas, todo mundo me chama de Lyss.

Ele sorriu. Os olhos dele brilhavam quando ele sorria.

Eles haviam terminado de comer há pouco tempo, estavam sentados próximos á cabana, descansavam antes da inevitável caminhada que seguiriam.

– Você é daqui? – Lyss perguntou apertando o casaco que estava enrolado em seu braço direito. Com o brilho da manhã sua marca quase desaparecia, mas, Lyss podia ver que estava maior, cobrindo até o cotovelo agora.

O lugar, onde estavam, era sombreado pelas folhas das árvores altas que circundavam o lugar, o vento fresco ainda vinha frio do litoral, por isso Lyss mantinha-se com o casaco. Ela sentia-se estranhamente próxima á ele, não só pela breve intimidade trocada quando ela despertou aos gritos, não só pelo modo como suas mãos se encaixavam, estava além, também, do fato de ter o cheiro dele em todo seu sistema agora. A intimidade tinha algo a ver como o modo como ele a olhava, como se a conhecesse... pelo modo como a conversa fluíra enquanto comiam, pelo modo como ela não conseguia evitar de olhá-lo e analisar cada um de seus movimentos.

– Sim e não. Acho que estou aqui como você.

Ele podia ser um Elementar. Ou um Bruxo. O que queria dizer que estava disponível se não tivesse ninguém. Não que estivesse interessada nele, Evan era bonito e tal, mas, se relacionar com qualquer um daquele lugar estava fora de cogitação. A não ser que rolasse uma química... A quem estava tentando enganar? Nunca se sentira daquela forma com ninguém. Estava quase flertando.

– Sim e não é uma resposta confusa. – ela apoiou-se nos joelhos para olhá-lo melhor

Evan sorriu.

– Acho que não pertenço á lugar nenhum.

– Mais ou menos como eu.

– Ah qual é. E sua família?

Ela deu de ombros

– Meus pais morreram e minha tia Lucy é tudo o que eu entendo por família. – pulou o nome Chris de propósito.

– Sinto muito por seus pais, mas, com o tempo a gente acaba se acostumando com a ausência deles.

– A gente?

– Eu também perdi meus pais muito cedo. – ele pegou uma pedra no chão e atirou-a.

Lyss dobrou as pernas diante de si e apoiou a cabeça, ajeitou o vestido nas pernas.

– Acho difícil me acostumar com a ausência deles. – admitiu – Ás vezes parece que eles não morreram.

Nunca admitiu isso pra ninguém e até agora, falar em voz alta soou estranho. Como explicar o fato de sempre ter a impressão de ver a mãe entre os rostos da multidão, ou sentir que o pai estava vivo em algum lugar por perto?

– Talvez você só tenha que deixá-los ir. Aceitar. – ele deu de ombros – É difícil não esperar pela volta deles, é difícil entender que eles nunca mais voltarão, mas, é necessário.

Lyss nunca tinha conversado com alguém que a entendesse, também nunca tinha encontrado alguém que também perdera os pais, por isso meditou silente nas palavras de Evan. Devia deixá-los ir. Exatamente como devia fazer com Chris e Lucy.

– Como foi que eles...? – ele não terminou, olhou-a de lado esperando uma reação.

– Acidente de carro. – ela disse depois de hesitar – Neblina, chuva... o carro bateu. A cerimônia foi de caixão fechado.

Como será que eles estavam? Deformados demais para que os amigos e conhecidos suportassem vê-los.

De vez em quando ela se pegava imaginando o que ocorreu dentro do carro, será que os pais recobraram a consciência em algum momento? Será que tentaram sair do carro? Será que deu tempo de se despedirem? O que eles conversavam antes do acidente?

– Seus pais te amavam, eu tenho certeza disso, eles esperaram ansiosamente pra saber o sexo enquanto você era apenas um caroço de feijão, eles se amavam, discutiram juntos, a cor do quarto, mas, sua mãe sempre vencia as discussões, eles fizeram as listas dos possíveis nomes, compraram os móveis mais delicados e as roupas mais graciosas no enxoval. Dá pra ver que eles te amavam mais até do que amavam um ao outro, você é uma extensão deles e isso nunca vai mudar, se eles pudessem escolher estariam aqui, mas, o Destino quis assim, mas, nem por isso eles deixaram de te amar por um segundo sequer.

Evan olhava o horizonte enquanto dizia isso, cada palavra carregada de uma certeza quase palpável. Lyss assentiu com a cabeça, ele segurou sua mão entre as suas e sorriu pra ela.

– Obrigada. – ela só conseguiu dizer isso.

Talvez aquele homem fosse alguma espécie de anjo, um anjo que veio para ajudá-la, ajudar a superar aquelas mudanças, ajudá-la a se adaptar. Fosse como fosse ele sabia o que dizer e as palavras fecharam fissuras profundas que Lyss acreditara até então que levaria para sempre. Ela só conseguiu sorrir depois disso.

– Vamos para um assunto mais leve. – ele disse – De onde você é?

– Califórnia.

– Vai ficar aqui por muito tempo?

– Não se eu puder escolher.

Se pudesse escolher não estaria aqui.

– Esse lugar não é tão ruim Lyss.

De algum modo o nome dela ficava mais bonito nos lábios dele.

– Não estou dizendo isso. Só preferiria não estar aqui.

– Há quanto tempo está aqui?

– Cheguei ontem.

– Ah e se perdeu logo no primeiro dia? Por isso detesta Lisarb. Tempestades, se perder... Não é uma boa impressão pra ninguém. Deixa-me te levar pra conhecer a ilha? Já viu os wateaires? – ele levantou-se empolgado

– Um tour? O único lugar que conheço até agora e posso caminhar por ele sem me perder é meu quarto.

– Vai por mim, quando perceber as maravilhas desse lugar vai se apaixonar.

– Ah não, prefiro continuar viva. – levantou-se também ajeitando o vestido e lembrando automaticamente do conselho recebido: Não se apaixone!

– O quê? Como assim? – ele riu

Era um som bonito, agradável.

– Explica uma coisa?

Ela tirou o casaco dele e entregou, os pelos do braço arrepiaram em contato com o ar frio, tirou as sandálias e resolveu caminhar descalça, ele dobrou o casaco e apoiou no braço dobrado.

– Claro. Até duas se quiser.

Lyss arrumava o cabelo enquanto falava, fez mais uma anotação mental de cortá-lo assim que pudesse, esperava que estivesse apresentável, e já que não havia espelhos por perto procurou algum sinal de repugnância nos olhos de Evan, mas, não encontrou nada. Alívio.

– Por que aqui existe essa rigidez quanto a relacionamentos?

Esperou que aquilo não soasse como: Você é um wateaire? Temos chance? E se não me explica o porquê sem me ofender.

– Ah. Claro! Mas, essa pergunta remete á uma história um pouco longa.

– Adoro histórias.

Ele sorriu e estendeu a mão.

– Vai ter que aceitar meu convite para um tour. Só não se apaixone.

O olhar dele havia algumas intenções, ela corou de leve aceitando a mão.

– Certo, só não prometo nada. – é, estava mesmo flertando

O chão íngreme seguia circundando a floresta, até boa parte do caminho sombreado Lyss podia sentir que alguém sussurrava pra ela, aquele lugar era cheio de magia, ela sentiu assim que pôs os pés ali, tudo parecia intimamente conectado, e agora essa conexão se estendia para ela como tentáculos. A voz que pediu que ela fosse á floresta ainda cantava em sua cabeça, e mesmo agora que a maior parte de sua atenção estava em Evan e no jeito sexy que seus quadris movimentavam-se, e no modo como as palavras fluíam dele combinando com seus gestos... mesmo assim ainda podia ouvir o sussurro: Encontre-me na floresta! Encontre-me! – era um pedido implorado, ambos precisavam, tanto ela quanto a voz que pedia para ser encontrada. Mas, a despeito da porcentagem que queria correr floresta adentro a porcentagem que sabia exatamente qual caminho seguir para encontrá-lo, embora não soubesse quem ele ou ela era. A despeito disso ela continuou, um pé depois do outro seguindo os passos de Evan, tendo a mão forte dele entrelaçada á sua como guia.

– O nosso mundo...

Lyss gostou como ele começou, “nosso mundo” era mil vezes melhor do que ouvir “seu mundo”, quando ele disse nosso ela se sentiu abraçada de novo, não estava só.

–... Já passou por algumas evoluções, à medida que íamos amadurecendo fomos deixando de lado alguns preconceitos, mas, até lá, algumas bobagens foram feitas.

Então ele era um wateaire?

– Os humanos eram usados pela nossa espécie só para reprodução. – continuou – recolhíamos o DNA e pronto. Como você deve saber ninguém aqui é imortal, nenhum de nós, Bruxos, DDPs, Wateaires... Todos envelhecem lentamente é claro, mas, morrem naturalmente um dia. Ninguém deve viver para sempre, não é natural. Todas as criaturas imortais não provêm de uma força comum, de magia pura. Pela ausência de imortalidade era importante que continuássemos a nos reproduzir, a não deixar a linhagem morrer. Principalmente porque existia uma rivalidade intensa nessa ilha. Não existiam Wateaires, mas, sim a Tribo Warm e a Tribo Cold.

– Então esse lugar não foi pacífico sempre?

– Exato. Um lado ilha pertencia á uma tribo e o outro lado á outra. Até então eles entendiam os humanos como uma boa possibilidade de aumentar a população. Cada Tribo tinha seus próprios costumes e características, mas, ambas usavam os humanos como meio de se multiplicar, e era estritamente proibido o relacionamento entre Wateaires.

– E por que isso? Por que não se relacionar com seres da mesma espécie?

Ele deu um suspiro e Lyss sentiu os dedos apertarem-se um pouco ao dos seus.

– Existe uma profecia.

– Este lugar é cheio delas.

– É. – ele concordou com um inclinar de lábios maroto – Mas, acho que os Wateaire têm mais medo dessas do que do Grande Mal. Essa profecia dizia que o filho de dois Wateaires, o filho do erro, despertaria uma onda maligna sobre todos os habitantes do planeta.

– E por que os Bruxos não podem namorar os Wateaires?

– Pelo mesmo motivo, por causa da soma de poderes. Bruxos podem namorar Bruxos, humanos podem namorar Wateaires, Humanos podem namorar Bruxos, mas, Wateaires não podem namorar Wateaires por causa da profecia. namoro entre Wateaire são proibidos até hoje.

– Eu te interrompi de novo – torceu os lábios se desculpando – Você ia me contar uma história.

Ele lançou um olhar de reprovação zombeteira.

– Não faz isso de novo. Onde eu estava? – franziu o cenho á procura do fio que conduziria a história.

Lyss prendeu os lábios sob o olhar atencioso dele, riu diante de um bico que ele fez.

– Vou direto á história e você vai entender as regras de cada povo, é você quem vai decidir se a história é verdadeira ou não. – lançou-lhe um olhar significativo, por um tempo os passos de ambos era a única coisa que podia-se ouvir no silêncio – Os Warms, que traduzido quer dizer Quente e os Cold que quer dizer Frio, tinham esse nome porque o corpo reagia de maneira oposta ao ambiente, se estava quente nosso corpo estava frio, o oposto também era verdade. Nesse tempo, em que éramos divididos a multiplicação de espécies funcionava assim: A jovem que completava idade de amadurecimento, ia aos humanos, para ser engravidada; ás vezes esses humanos precisavam ser mortos, outros simplesmente passavam pela vida da moça, com os homens também funcionava dessa forma, mas, era mais complicado. Na maioria das vezes a jovem precisava ser morta, pois, absorvia informações demais sobre nossa espécie e ninguém acreditava ser possível que os humanos vivessem entre nós. Até por que, os Warms e Colds disputavam em número também e nenhuma das duas tribos queria um humano, fraco por natureza, entre eles, seria motivo de chacota.

“Houve uma jovem, Cassandra era seu nome, ela pertencia ao Cold, esse era um povo mais antiquado e extremamente rígido ás regras. Com o passar do tempo, os Warms começaram a permitir laços afetivos entre humanos, tornando-se assim um povo moderno para a época. Os Colds sentiam-se superiores por causa disso, eles não permitiam esses laços. No povoado Warm os homens também podiam sair daqui de Lisarb e estudar fora, foi esse o caso de Diego, o outro personagem dessa historia, ele passara a maior parte de sua infância entre humanos, sua mãe era uma Warm e seu pai um humano, quando ele, o pai, morreu, Diego e sua mãe voltaram á Lisarb, Diego não tinha poderes, era raro, mas, acontecia de um de nós perder ou simplesmente não ter dons, hoje é mais comum, o fato é que Diego e Cassandra se conheceram antes que ela fosse mandada pra Inglaterra para – fez aspas com as mãos – ‘procriação’, então, conhecendo a principal regra dos povoados eles fizeram uma jogada: Cassandra foi mandada pra Inglaterra ao mesmo tempo que Diego ia para o país para estudar, eles passaram a viver juntos, os Colds descobriram um tempo mais tarde, mas, já era tarde, a garota estava grávida.”

– Eles desobedeceram ás regras. – Lyss surpreendeu-se – Um filho de dois Wateaires. A profecia...?

– Não exatamente. Na época eles não eram os Wateaires, era Warms e Colds, dois povoados opostos. Mas, sim! Eles desobedeceram á regra e... até hoje a punição é uma só: A morte.

Lyss não estava certa de querer ouvir aquela história, até então tudo naquele lugar era tão bonito e calmo, era estranho saber que aquelas adoráveis criaturas eram capazes de matar. Até hoje – Evan dissera, o que queria dizer que se uma delas engravidasse seria morta junto com o genitor e o bebê.

– Então se não servia para a profecia eles continuaram vivos, não?

Estava interrompendo de novo. Prendeu os lábios outra vez mesmo contra a vontade e Evan continuou:

– Não os culpe, eles não sabiam o que sairia daquela união, os videntes de outrora diziam que as forças seriam somadas na união, criando outra espécie, ou um ser forte demais para ser controlado; a criança precisava ser morta ou ela supostamente destruiria tudo e todos. A consequência deveria ser destruída. Caçada, se assim fosse necessário; e destruída. Na verdade eles só tinham medo, porque, jamais viram aquilo acontecer. Como agiriam diante do desconhecido? Eles não sabiam. Cassandra estava com cerca de seis meses quando os Cold’s descobriram, a decisão foi unânime no povoado: Morte aos três foi a primeira vez que os povoados concordariam em algo. Porém a mãe de Cassandra resolveu interferir por ela, pediu para que mantivesse a filha viva, com a condição de que ela jamais veria Diego outra vez. Cassandra não aceitou, preferiu a morte. Diego soube que sua amada seria morta, assim como a criança que ele já se afeiçoara. Contou seu pecado aos Warm’s. A mãe de Diego sumiu pouco tempo depois, os Warms não assumiram a culpa pelo desaparecimento e não se sabe a certo o que houve até hoje.

“Naquela noite, foi a primeira vez que os Warms e os Colds se reuniam sem briga, escolheram uma clareira onde os acusados seriam julgados e punidos. Os Colds apesar de tudo, não queriam perder Cassandra e seu precioso dom, ela controlava a temperatura ambiente e aquilo servia muito no povoado, os Warms não suportariam ser tachados de inferiores. Cada um defenderia os seus e sugeririam uma punição. Os Colds disseram que Cassandra foi seduzida por Diego, que era mais humano do que qualquer outro presente ali, disseram que matariam o bebê, e exigiram a execução de Diego. Os Warms iam assentir; concordar com tudo aquilo, Diego não tinha vínculos afetivos tão fortes no povoado com mais alguém além de sua mãe já desaparecida, era descartável, sem dom”.

Evan parou de contar e caminhar, os olhos vazios, rosto tenso, parecia estar revivendo o que contava. Lyss questionava-se se ele estava presente nesse julgamento, eles estavam no meio da floresta agora, ela mal olhava ao redor, só seguia seus passos.

– Eles... – tentou retomar a ponta do barbante que o conduziria ao resto da história – Eles tinham medo, muito medo de não controlar a criança, de criar uma espécie... – tentava justificar a história, meneou a cabeça devagar – Eles resolveram matar Diego e a Consequência, era uma espécie de lição para os outros não repetirem o erro nos povoados, Diego aceitou morrer contanto que sua preciosa Cassandra continuasse viva, ele se sentia responsável por ela, queria que ela sobrevivesse. Os Cold’s apontaram suas armas para Diego, que, de pé no centro da clareira, aceitou sua sentença. Porém, Cassandra sabia que não haveria vida se Diego morresse, ele era sua vida, ela correu e ficou diante dele, se fosse pra morrer, ela morreria também. Os Cold’s aceitaram perdê-la, eles viram que não havia mais nada a ser feito, a mãe de Cassandra fechou os olhos esperando ouvir o grito da filha. O último grito.

“Ela ouviu, aliás, todos ouviram. Cassandra gritou, e gritou outra vez, mas, não porque alguma arma havia penetrado seu corpo, mas, porque seu filho pedia pra nascer, todas as armas foram abaixadas. Diego era moço estudado, ele entendeu de imediato o que estava acontecendo, ninguém se moveu naquele círculo, nem a mãe de Cassandra. Diego deitou sua amada e se pôs diante de suas pernas, ele chorou de emoção quando viu a cabeça de seu filho sair, aos poucos os outros membros apareceram, então ali estava ele. O amaldiçoado. O bebê – grande demais para um bebê de seis ou sete meses – estava nas mãos trêmulas de seu pai, ele não chorava como era de costume ás crianças, ele sorria. Cassandra ainda ofegava quando pediu para ver seu bebê, ele possuía seus olhos, castanho-esverdeados, sua mão prendeu-se ao dedo de Cassandra, ela sorriu enquanto lágrimas de dor e felicidade banhavam seu rosto pálido, os cabelos dela – vermelhos como fogo – grudavam-se na cabeça, ela levou a criança ao peito, uma saudação, uma despedida. O silêncio era tão profundo que todos ouviram quando a mãe de Cassandra suspirou antes de chorar baixinho.”

Ele não tinha seu olhar direcionado pra Lyss, continuava com expressão vazia, ela não interromperia nem se quisesse agora, percebeu inconscientemente que seus pés não faziam mais barulhos contra o chão.

“– Não vou permitir que você tire-o de nós!” – Diego berrou; sua voz embargada, o medo estampado na face, era claro que ele sabia que, se os Cold’s e os Warm’s quisessem, matariam o bebê e os pais. O chefe dos Colds caminhava em direção ao casal no centro da lareira como se o garoto nada houvesse dito. Sim, um garoto! Para os dois povoados, Cassandra e Diego eram apenas dois jovens estúpidos que, com sua irresponsabilidade, colocava em risco a existência de todos. “– Ele não fará mal a ninguém!” – Diego gritou para o chefe que estava cada vez mais perto. O chefe desviou os olhos do garoto, que estava com a face vermelha de raiva, e olhou para Cassandra, ela sentou-se, ainda sentia dor, mas, o medo era ainda maior, ela apertava a pequena e silenciosa coisa contra o peito, aquilo não era uma criança normal, todos podiam ver, ele era grande, não possuía a pele enrugada, comum em recém-nascidos, sua pele era cremosa, saudável, mas, nunca como o de um recém-nascido. “– Cassandra?” – a voz do Chefe parecia ter eco. Ele estendeu a mão para que ela entregasse a criança, era claro que a decisão ainda era a mesma: morte aos envolvidos. Cassandra também sabia que a coisa – que ainda não tinha nome – não era como as outras crianças dos Cold’s ou dos Warm’s, ele era quente, quente demais, naquela noite não fazia frio, então não era pra ele estar tão quente, a respiração dele também era diferente, ele demorava a respirar, era como se soltasse longos suspiros, demorava quase um minuto entre uma respiração e outra, ela escutava o coração também, não possuía ritmo certo. Não era um Cold’s, nem um Warm’s. Então, o que ele era? O Chefe percebeu tudo aquilo, por isso havia se aproximado, suas passadas eram ainda mais lentas, Diego já não sentia raiva, só o medo tomava conta de todo o seu corpo, ele tinha que lutar, mas, era tão insignificante como formiga, naquele momento. O Chefe parou de repente, estava a pouco mais de dois metros dos dois burladores da lei e da consequência, leves sussurros foram emitidos pelos presentes. A mão do Chefe ainda estava estendida em direção á Cassandra, seus olhos – agora – pregados na criança que se mantinha quieta, se não fosse por sua respiração e o bater de seu coração todos diriam que estava morta, o lábio inferior de Cassandra tremeu e ela meneou a cabeça lentamente, o frio estava aumentando, ela estava fazendo aquilo, fazendo o frio aumentar, mas, aquilo era desnecessário, apenas Diego sentiria frio talvez. E, quem sabe a criança. “– Por favor, o senhor sabe que ele e Diego são tudo o que eu tenho, são as razões da minha existência!”– ela murmurou suplicante, o bebê se moveu no abraço apertado de sua mãe, ela afrouxou os braços. Estava lógico que ela não ia entregar, porém, algo nos olhos do Chefe lhe dizia que ele não faria mal á criança, Cassandra ficou de pé, o vestido ensopado de sangue grudava-se em suas pernas trêmulas, ela deu alguns passos e passou por Diego que segurou seu braço, ele ia protestar, mas, ela meneou a cabeça como se dissesse que tudo ia ficar bem. Ele assentiu e permitiu que ela se aproximasse do Chefe com a criança nos braços. Cassandra revelou a face o bebê virando-a para ele, o sorriso espontâneo na face do Chefe surpreendeu a todos, o garoto piscou os olhos e encarou aquele homem imenso e barbudo, os dois estenderam a mão em um movimento idêntico. O Chefe parou a mão muito perto do bebê, a criança segurou seu dedo polegar, mas, retraiu-se com o toque frio”.

“Eles não sabiam o que o Chefe faria e não entenderam o que estava acontecendo ali, no centro, jamais imaginariam que naquele instante o dom de Diego se manifestaria, eles não sabiam que os sentimentos profundos fazem dons despertarem. Diego tinha o dom de revelar pensamentos e, além de ouvir os pensamentos de Cassandra, o Chefe pôde ouvir o bebê, soube naquele segundo que a criança não representava riscos, Cassandra e o Chefe fizeram um acordo naquele momento, alguém teria que morrer para servir de exemplo para os outros, ela deu sua vida pelo bebê que tanto amava; Diego também aceitou morrer se aquilo mantivesse seu bebê vivo, o Chefe deu sua palavra: Se a criança não oferecesse riscos ela seria poupada. Diante de todos os presentes eles morreram abraçados, sua última frase foi: Eu amo você! Naquele momento uma forte chuva começou a cair. Os corpos foram iluminados por um facho que vinha de cima, a luminosidade era tanta que apenas o bebê viu seus pais transformando-se em estrelas e indo em direção ao céu.”

Voltando á realidade Lyss enxugou uma lágrima que escapou do canto do olho.

– A criança sobreviveu, então? O chefe cumpriu sua promessa?

– Sim e sim, e essa foi a última vez que houve um casal que burlou as regras.

Evan também parecia emocionado, mas, disfarçou bem.

– Também com uma punição dessas. – ela comentou

Olhou ao redor pela primeira vez, estavam numa clareira, o chão avermelhado estava coberto de uma plantação rasteira na maior parte do espaço, um amontoado de flores jazia em cantos do chão junto com a plantação, o lugar era uma circunferência perfeita, as flores de cor violeta estavam nos limites da clareira, elas faziam par com algumas flores brancas. Era tão lindo. Lyss mal se deu conta de que se aproximava de um dos galhos, o perfume das flores era discreto, mas, suas pétalas eram tão macias. Ela deixou a mão tocar de leve nas flores, temia desmanchá-las ao toque.

Evan permanecia distante observando-a, ele também se encantava sempre que ia naquele lugar, a clareira já fora muito maior do que era agora com seus pouco mais de quinze metros de diâmetro, já foi tão maior que era palco pra batalhas e julgamentos, hoje a beleza aparentemente intocável do lugar deixava dúvidas sobre seu passado, mas, como aquele lugar, todos se recuperam de seus traumas e cicatrizes. Nenhuma marca dura para sempre. Não as internas. A não ser que você as cultive.

– Que lugar lindo. – Lyss sussurrou, temia que o som de sua voz quebrasse o encanto que parecia poder ser tocado pela ponta de seus dedos.

– É um dos meus lugares preferidos de toda ilha, é meio complicado chegar até aqui, por isso ainda se mantém tão lindo.

– Parece ter sido esculpido. – ela olhou para cima e girou com os braços abertos olhando o céu, a brisa era quase nada ali, mas, seu vestido balançou e seus cabelos soltaram-se com o movimento que fizera, foi para o que achou ser o centro do círculo.

A cascata macia caiu por sobre os ombros, ela sorriu olhando para cima.

– Esse lugar dá a impressão de que dá pra ser uma pessoa melhor. – Evan também sussurrou

Ela observou-o por um momento. Parou de girar e abaixou os braços.

– Por que alguém como você desejaria ser alguém melhor?

Evan não parecia ser alguém que precisava ser salvo, sequer perdoado, parecia mais alguém acima de tudo isso.

– Sempre dá pra melhorar. – deu de ombros

– Alguém como você? – insistiu

Ele sorriu desviando os olhos. Seu sorriso não alcançou os olhos dessa vez.

– Essa clareira... – apontou – Foi aqui que aconteceu o julgamento.

O sorriso dela desapareceu também, olhou bem para o espaço, Cassandra e Diego estiveram ali um dia. O bebê também. Eles foram mortos e, embora a criança tenha sido poupada, ainda havia dor e luto ali.

– Claro que era um espaço muito maior e muito mais feio.

– É, acho que ninguém teria coragem de matar ninguém num lugar como esse.

– Ah teria sim. – murmurou com o olhar fora de foco, como se estivesse sido arremetido á outra lembrança – Nunca se sabe onde e quando vai precisar.

Lyss arrepiou-se, de repente o encanto do lugar foi diminuindo, parecia estranho se sentir bem num lugar que foi palco para o fim de uma história tão forte como a de Diego e Cassandra.

– Você quer ir embora? – ele percebeu

– Acho que sim. – aceitou a mão estendida

– Devíamos começar o tour por um ambiente mais leve. – desculpou-se – Vamos ao vilarejo, aposto que você vai gostar.

Saíram tomando outro caminho, Lyss tentou não olhar as árvores que ainda cantavam pra ela, cantavam em silêncio. Chamavam. Coisa estranha! Em um espaço de sua mente teve a leve impressão de já ter passado por ali, de já ter sentido aquele mesmo cheiro. Talvez numa vida anterior, ou talvez a história que Evan contara fora tão verdadeira e cheia de detalhes que tinha imaginado. O cheiro de terra pisada e o ar leve misturado á brisa do mar fazia com que ela se lembrasse de uma palavra: Lar.

Ficaram em silêncio a maior parte do caminho, Evan havia brincado de guia turístico explicando durante o trajeto: Aquela ali é uma árvore e aquela outra ali é... Uma árvore. E fez com que ela risse como antes. O caminho não pareceu tão longo, mas, viraram tantas vezes em espaços idênticos que Lyss sabia que jamais seria capaz de ir ao vilarejo sozinha.

O vilarejo wateaire era um conjunto de inúmeras casas pequenas e lindinhas, com gramado e um espaço ao lado de cada casa que servia de celeiro para manter um cavalo ou dois, em algumas casas havia até galinhas. Mas, todos esses animais estavam bem organizados e presos em seu correspondente celeiro ou galinheiro. Havia flores na frente da maioria das casas o que queria dizer duas coisas: os cavalos estavam sempre presos e, muitas mulheres moravam ali. Enquanto ela e Evan passavam entre as casas sempre movimentadas do vilarejo iam atraindo olhares, Evan disse a quem pertencia cada casa e o nome de cada rosto, o chão era de terra, mas, não poeirenta, era misturada á areia da praia, as casas eram de madeira, algumas pintadas outras não, a maioria tinham varandas na frente e pelo menos duas cadeiras de balanço, entre duas ou três casas podia ter, também, uma lojinha. Foi numa dessas que Evan fez questão de parar. A maioria dos Wateaires acenava e o chamava pelo nome.

– Evan! – uma mulher gorducha gritou lá de dentro da lojinha e veio abraçá-lo

A loja era de madeira como tudo ali, tinha uma varanda grande e lá dentro um balcão, nas estantes haviam colares, brincos, bolsas, chapéus, anéis, sandálias e tudo o mais artesanal. Lyss viu que, diante de algumas casas, algumas mulheres, sentadas em sua cadeira de balanço, faziam peças como aquela. Mas, pra quê elas iam querer dinheiro num lugar como aquele?

– Minha linda María. – Evan abraçou-a afetuosamente

Eles estavam na varanda da loja, além da porta de entrada havia uma janela de vidro com uma bonita cortina trançada á mão.

– Minha tia amaria um lugar como esse. — Lyss disse ao ser abraçada pela moça também

– Tudo bem minha pequena?

Pequena era um termo engraçado se considerando que Lyss era muito mais alta que a moça.

– Essa é Lyss, María. – Evan apresentou segurando a mão da garota outra vez.

– Não é uma wateaire, não é? – ela arregalou os olhos castanhos

– Não. – Lyss tratou de dizer ao ver a reação da moça

– Ah! – suspirou aliviada – Só pelo modo como olha pra ela e pronuncia seu nome já é de se preocupar. – ela riu, Lyss corou – Olá minha linda, sou María. Uma das velhas desse lugar.

Velha também não parecia um termo adequado. María era uma moça gorducha de bochechas salientes e rosadas, a mão calejada, as unhas dos pés e das mãos bem pintadas, usava um vestido estampado e sobre ele um avental muito branco daqueles que aparece em comercial de sabão em pó, sobre a cabeça havia uma touca também branca, mas, que deixava alguns dos fios vermelhos de sua cabeça escapar. Ela não era uma velha. Definitivamente. Devia ter quarenta anos.

– Muito prazer María. – Lyss ainda estava meio vermelha por causa do comentário da wateaire.

– Venha ver uma de minhas peças, terminei um conjunto hoje cedo, Evan pode comprar pra você.

– Ah não, chega disso. Já fiquei sem minhas calças por sua causa. – ele riu

– As moças bem que gostaram. – piscou maliciosamente

– As vendas aqui são feitas por troca – explicou á Lyss – Você oferece algo e os wateaires decidem se esse algo vale por uma de suas peças.

– E você deu as calças? Elas valem tanto assim por aqui María?

María riu com a brincadeira de Lyss.

– As calças de Evan são superestimadas.

Foi a vez de ele ficar sem jeito.

Lyss não viu ninguém de sua idade no vilarejo, só mulheres adultas e com o mesmo perfil físico. Os homens eram mais magros, mas, senhores com muita energia.

– Tenho certeza que sim. – ela disse vendo o rosto bonito ficar vermelho

– Não me amole María, onde está o velho Herbie?

– Falou no diabo... – María apontou para o lado direto da loja, num dos pilares que apoiava o telhado da varanda havia um beco que dava para a rua de trás, aquilo ali era quase uma cidade.

– O que você quer comigo sua velha... – ele reconheceu Evan – Ora, ora vejam só. Quem está aqui se não meu menino favorito.

O velho abriu um sorriso gigante ao vê-lo. Herbie era um senhor de cabelos brancos que eram meio ocultos por uma boina surrada, ele era magro, mas, os músculos pequenos eram bem definidos, vestia uma camisa cinza e suspensórios azuis, as calças estavam pequenas demais e sua bainha vinha no meio das panturrilhas, ele mancava um pouco por isso tinha a ajuda de uma moleta. Era uma figura engraçada e muito parecida com a imagem que Lyss criara em sua cabeça. Ele abraçou Evan sem jeito e, do nada, bateu com a bengala na cabeça dele. Evan parecia esperar por aquele cumprimento diferencial.

Lyss assustou-se com o barulho que o movimento produziu, mas, Evan nem se abalou.

– Olá seu velho maluco, estou voltando daquele seu buraco, precisamos de mais lenha para o inverno.

– Não importa, primeiro me diga quem é essa beleza que está com você. – ele espremeu os olhos e não satisfeito colocou os óculos presos á camisa no rosto e forçou a visão através das lentes – Que moça bonita não é mesmo María? – virou para Evan cotovelando-o – Nunca mais se viu belezas como essa, lembro-me de minha juventude entre os humanos – suspirou ainda olhando fixamente pra uma Lyss rubra – Aquelas eram mulheres, bem parecidas como essa aqui. Mas, é linda e... Oh! Ela fica vermelha, Evan, que mulher fica vermelha hoje em dia?

– Tire os olhos dela seu velho eu a vi primeiro. Essa é Lyss, minha amiga.

Lyss sorriu, o rosto quente.

– Muito prazer Sr. Herbie. – estendeu a mão e recebeu um beijo nela

– Nada de “Senhor”, não gosto desses termos chatos. É só Herbie. Bizinho para as garotas. – ele piscou e fez mesura

María gargalhou e Evan riu, Lyss não conseguiu segurar o riso também diante do tom galanteador do homem.

– Já disse que a vi primeiro seu cegueta. – Evan reclamou empurrando-o de leve

– Não sou cego, vocês é que são muito apagados. – tirou os óculos

– Venha Lyss, vou te tirar daqui, estamos perto da lua cheia e esse velho está se sentindo o próprio lobisomem. – ele puxou Lyss pelo braço para fora da lojinha – María quero dois de seus cavalos emprestados e, por favor, mantenha minhas calças.

Eles riram de novo

– Só por causa da moça pode levar os dois lá de casa. Não querem comer algo? Fiz bolo. Leve para Clovis.

– Não, Joanna pode ficar com ciúmes. – ele piscou provocando

Lyss e Evan saíram depressa sob as reclamações de María por causa do bolo, ela gritava algo como seu bolo ser muito melhor do que o de Joanna.

– Não há nada que irrite mais uma wateaire se não dizer que prefere a comida de uma e não da outra, María e a maioria das mulheres têm ciúmes porque Joanna cozinha no castelo para as Bruxas Elementares que chegaram. Já sabe disso?

Um homem puxando duas montarias passou e acenou para eles, algumas mulheres varriam suas portas e aproveitavam para bisbilhotar Lyss, outras estavam entretidas com lavagem de mesa de cozinha, mas, dava um jeito de parar, acenar e prestar atenção em Lyss. Pelo que parecia: Era uma novidade!

– Sobre os Bruxos? Sei sim.

– Já os viu?

– Não, não deu tempo de conhecê-los.

A casa de María era a segunda depois de sua loja, o cheiro de comida tomava quase toda rua, Evan sumiu no celeiro e voltou com as duas montarias, os cavalos eram muito bonitos. O cavalo que lhe foi entregue era marrom com algumas manchas brancas, a crina do animal brilhava mais que seu próprio cabelo e ele parecia saber disso já que fazia questão de balançar-se pra se amostrar, o segundo era um cavalo preto, seus pelos reluziam sob o sol da manhã, trotava como um cavalo condecorado.

Lyss lembrava-se das aulas de montaria na infância, mas, não teria saído do lugar se seu cavalo não colaborasse tanto, os animais caminharam lado a lado sem precisar ser pressionados através das rédeas, a cela era confortável e o trote dos animais era suave. Depois de acenar para milhões de pessoas no movimentado vilarejo eles cavalgaram para o castelo, os animais pareciam habituados demais naquele caminho então eles só deixaram que os bichos caminhassem em sua própria velocidade.

– O que achou do vilarejo? – havia uma ponta de expectativa na voz dele quando fez essa pergunta

– Movimentado. María e Herbie são ótimos, são um casal?

– Não. Nada de namoro, esqueceu? Eles são primos, Herbie tem um parentesco direto com o Chefe dos Colds, por isso ele ás vezes coordena o estoque de lenha, alimentação. Mas, Herbie nunca gostou disso, portanto, faz tudo quando tem vontade.

Ela sorriu lembrando-se do homem.

– Então ele é mais velho do que aparenta.

O sorriso no rosto de Evan desmanchou, ele só assentiu.

– O que foi? – Lyss quis saber

– Herbie viveu muita coisa e como passou muito tempo entre os humanos isso acelerou seu processo de envelhecimento e nós não somos imortais.

– O que quer dizer com isso?

– Há uma fase da vida de um wateaire que inicia um processo de auto-destruição, como se o poder que circula o nosso corpo não entendesse que deve nos proteger e nos ataca, isso nos destrói poucos em poucos.

Ela ficou em silêncio, a morte e seu manto negro e frio rondava todos, desde os melhores até aqueles que precisavam ser salvos.

– Ele vai... – não teve coragem de terminar, mas, viu Evan assentir.

– Ele já está...

Na maior parte do tempo o som dos cascos dos animais contra o chão era tudo o que ouviam, circundavam a floresta outra vez seguindo por uma trilha apropriada para cavalgar, parte do caminho Evan começou a assobiar uma canção.

– Ópera? – Lyss surpreendeu-se ao reconhecer uma linda canção italiana

– É. – ele disse orgulhoso

– Você não tem cara de quem gosta de Ópera. Está tentando me impressionar? – brincou

– E como é a cara de quem gosta de Ópera? – ele fez uma careta — Assim? – virou os olhos — Assim?

– Menos a sua. – respondeu gargalhando

– Tudo bem, mas, e você? Como reconheceu uma ópera tão depressa?

– Já ouvi muito quando criança.

– E hoje em dia? Aceitaria assistir á uma ópera?

– Isso é um convite? – provocou sorrindo

Ele riu

– Por que não? Aceita?

Ela se surpreendia com a leveza do lugar e da segurança que sentia, talvez aquela segurança que não lhe pertencia era por causa de Lisarb, embora a força dos sentimentos ainda estivessem fora de lugar e ainda se encaixando ela gostava da sensação de experimentar aquela nova Lyss, a garota que brincava com estranhos e ria e flertava sem medo de tomar um não, Ela estava experimentando por um dia quem ela gostaria de ter sido durante a vida toda, Lyss não respondeu á Evan, estavam brincando. Só isso.

Seria bom fazer amigos como ele naquele lugar, talvez dessa forma o tempo passaria mais rápido. Tempo! Lembrou-se. Era segunda-feira e, consequentemente, seu primeiro dia de aula. Estava atrasada para seu primeiro dia de aula. Respirou aliviada quando o castelo surgiu no horizonte.

– Acha que podemos ir mais rápido? – perguntou já ansiosa para chegar no Adams

– Só se estiver afim de uma corrida.

Os animais corriam rápido mesmo com o chão tão incerto, Evan ganhou, o gigante negro passou por Lyss na primeira chance, estava habituado a vencer, agitou as crinas e bateu os cascos no chão como se comemorasse. Poucos passos os separavam do Adams quando a expressão de Evan mudou.

– Acho que te conheço Lyss. – ele repetiu a suspeita do dia anterior

– Como assim? – franziu o cenho acariciando o dorso do animal

– Você nunca veio aqui?

Lyss hesitou antes de responder com o cenho franzido:

– Não.

Ele ficou pensativo

– Já viveu na Inglaterra?

– Nunca.

– Espanha?

– Não.

– Brasil? Portugal? Já passou pela França?

– Nunca fui nesses lugares.

– Eu tenho certeza que já te vi em algum lugar. Tenho certeza absoluta.

– Isso é normal, existem milhares de pessoas parecidas no mundo.

– Não. Eu saberia se fosse coincidência, tenho certeza que foi você, mas, creio que alguém assim não me sairia da cabeça facilmente.

– O que você quer dizer com “alguém assim”?

Ele deu de ombros. As montarias lado a lado, mantendo uma distância segura entre eles.

– Alguém com suas características, Lyss. Acho que me lembraria... – parecia falar consigo mesmo

Lyss permaneceu em silêncio, chegou a corar, esperava que fosse um elogio.

A temperatura estava muito agradável quando eles alcançaram o castelo, Lyss ainda não se acostumara com a imponência daquele lugar, estava tudo calmo, pelo menos do lado de fora. Lyss sabia que se atrasaria para a aula, Clovis dissera algo sobe o professor ser um rabugento.

– Está entregue. – Evan falou desmontando e indo á montaria de Lyss

Ele estendeu uma mão pra ela, Lyss deslizou da sela com a ajuda dele ficando de pé em sua frente, perto demais. Evan encarou-a, os corpos estavam quase colados, ele não se afastou, segurou o queixo da moça com o polegar e o indicador.

– Vou me lembrar de onde te conheço, não pode ser simples coincidência.

Instintivamente Lyss entreabriu os lábios, o corpo dele estava tão perto.

– Vou lembrar, tenho certeza.

Inclinando-se ele depositou um beijo em sua testa.

– Cuide-se Lyss. Veremos-nos em breve. – prometeu afastando-se e levando consigo os dois cavalos.

Saindo do transe em que estava Lyss seguiu meio tonta para dentro do Adams. O máximo que conseguiu foi lavar o rosto, escovar os dentes e trocar depressa de roupa, enrolou os cabelos de qualquer jeito num coque desajeitado e seguiu para a aula.

O primeiro sinal de que entrara na sala foi dado pela porta que rangeu aos quatro cantos quando Lyss afastou-a do batente. Oito cabeças viraram em sua direção, na verdade nove, já que o Professor, que escrevia algo no quadro dispensou o giz para cruzar os braços e encará-la.

– Você é...?

– Lyss. – respondeu tentando ignorar tantos olhos, mesmo sendo olhos conhecidos. Todos os Bruxos Elementares e Essenciais da Suíça estavam ali.

– Ah! – ele ergueu as sobrancelhas – A que falta. – falou compreendendo – Sente-se e tente não se atrasar da próxima vez.

A que falta... jeito estranho de mencionar alguém

Alguns risinhos.

– Bom dia! – falou entrando de uma vez, haviam duas cadeiras vagas, a primeira – seu alvo – era aqui no fundo, podia sentar e ficar quietinha em sua calça jeans e camisa vermelha, a segunda era lá na frente, na segunda fila da primeira coluna

Um coro respondeu “boa”. O sangue continuou congelado no corpo de Lyss.

– Entre, sente-se! – ele esperou apontando uma cadeira ali na frente

O tal Professor Mathias era moreno, cabelos castanhos, olhos escuros, barba por fazer. Não era tão bonito, mas, também não era tão assustador. Sua voz era austera e um pouco rude, voz de alguém que não gosta de ser contrariado.

Das cabeças que viraram ela pôde reconhecer Cassie lá na frente, um pouco atrás Louis, Nataly no canto da frente. Aqui atrás estavam Charlie, Carlie – que eram irmãos gêmeos -, Victoria, Marcus e Rick.

Por instinto de sobrevivência optou por ficar mais longe possível do professor, preparava-se pra sentar quando uma tossidela interrompeu seu ato.

– Aqui na frente.

Ergueu-se novamente caminhando entre as cadeiras idênticas. Sentou-se entre Louis e Nataly.

– Como eu estava dizendo antes de ser interrompido: não podemos usar a magia de qualquer jeito, já deixei claro do quanto é perigoso usá-la de maneira irresponsável, mágica não é brinquedo.

Alguém se aproveitou de um momento de distração de Mathias e passou um papel pra cadeira de Lyss. Ela mesma estava prestando atenção na fala do Professor e na decoração da sala, aliás, ali parecia mesmo uma sala de aula, havia duas janelas na parede oposta á porta de onde entrara e mais duas janelas na parede de seu lado esquerdo, todas as paredes eram brancas, assim como o piso. A Louis foi quem passou o papel, seus olhos continuaram pregados no professor, apenas sua mão se movera, ah, e seus lábios tinham um sorriso de canto. Passando o papel para seu colo Lyss abriu-o com o maior cuidado do mundo temendo fazer barulho.

–... As responsabilidades e discrição deve ser maiores que o poder. – o professor continuava caminhando entre as cadeiras – Por isso vamos dar início aos feitiços essa manhã.

A letra bem desenhada no papel bem dobrado dizia:

“Onde você estava?”.

PS:Espero que tenha ficado tudo bem entre você e Chris-Delícia. J

Lyss segurou-se pra não rir. Esperou uma distração do professor e fez um sinal com as mãos querendo dizer: “Mais tarde te conto”, pra Cassie.

– Então as aulas serão na floresta e no vilarejo também, hoje, para dar introdução ao assunto teremos um convidado. – a porta se abriu lá atrás -- Meninos esse é Demetree. Demetree esses sãos os meninos.

Lyss virou-se e surpreendeu-se ao ver como ele combinava com tudo ali. Não foi a única que notou isso. Havia a barba e o bigode comprido que dificultava achar alguma beleza, mas, ele tinha olhos azuis que era percebido mesmo a distância, o sorriso mostrava dentes perfeitos, o nariz fazia um bom par com as maçãs levemente rosadas de seu rosto. Parecia mesmo um mago.

– Bom dia meninos. – ele sorria

Parecia um bom homem, emanava sinceridade e doçura. Lyss gostou dele imediatamente, quase instantaneamente.

– Quero começar pedindo que se apresentem. Como devem saber eu sou Demetree, serei companheiro de estudo de vocês durante os próximos dias. Vamos aprender pra quê serve cada folha, vamos aprender a usá-las, fazer feitiços... – fez uma pausa estratégica caminhando entre as cadeiras, parou no meio da sala e apontou para Marcus, sentado na cadeira na extremidade da sala.

– Marcus. – ele se apresentou

O cara era mesmo muito bonito e... grande. Deixava o capitão do time da escola no chinelo, seus cabelos, mais compridos que o habitual, eram loiros, as pontas eram mais claras que todo resto, os músculos dele ameaçavam saltar contra a camisa justa de malha fina, apenas uma coisa parecia um pouco fora de contexto: as luvas. Mesmo assim, com o tempo de convivência elas já eram parte dele.

– O que você faz Marcus? – Demetree parecia mesmo curioso ao ver as luvas do garoto

– Descubro segredos. – Marcus piscou sorrindo, um burburinho fez-se ouvir na sala.

– Isso deve ser péssimo quando se tem uma namorada. – o homem provocou

– Bom, só posso dizer que, se tem um segredo e prefere que ele se mantenha oculto... não se aproxime de mim. – era um aviso explícito demais considerando o ar leve da sala

– Quantos anos têm?

– Dezoito.

Lyss podia jurar que Demetree não gostou muito do rumo que a brincadeira tomava, ele empalideceu de leve e mudou seu alvo. A próxima pessoa a ser apontada foi:

– Carlie! Tenho dezoito anos. – disse a menina dos sorrisos

Os fios finos de sua cabeça eram loiros, sua pele branca, pintas no nariz, olhos escuros, era magra e com os ossos salientes. Era bonita e sorridente, seus olhos sorriam junto com os lábios.

– Charles! Dezoito.– disse o menino na cadeira da frente, ele era bem parecido com a irmã.

– Vocês são irmãos? – Demetree quis saber

– Gêmeos. – responderam em uníssono

O cabelo de Charles era igual ao da irmã, era cortado em formato de cuia e quase caía nos olhos, de um modo geral se não fosse o corpo feminino de Carlie, eles seriam facilmente confundidos, o menino era magro também.

Demetree continuou pelas fileiras, apontando.

– Nataly, dezessete. – disse a garota

Nataly era muito bonita, parecia ter saído da loja naquele momento, com uma delicada pulseira no braço que competia em brilho com seus cabelos castanhos Nataly era um destaque, Lyss sentiu-se miúda com seu coque desajeitado. Costumava se arrumar mais. As pontas do cabelo da morena eram mais claras, um castanho claro avermelhado, a maquiagem da menina era perfeita, sua pele também ajudava muito. Nataly era linda. Definitivamente.

Na fileira ao lado dela e não menos destacada estava:

– Victória, dezessete anos.

Foi a primeira que Lyss percebeu assim que entrou na sala, Victória tinha uma beleza suave por baixo de uma maquiagem forte e sombria. Sombria – quem emana sombra, pessoa obscura, era uma boa palavra pra ela, Victória se vestia de preto dos pés a cabeça, o lápis exagerado, os cabelos pretos de ponta de um vermelho vivo, era mais que a definição visual de estranha.

Mesmo assim ela era bonita, tinha um estilo roqueiro bem próprio. Como quem tenta dizer pro mundo que não se importa, seu estilo era um “dedo do meio” bem grande para o mundo.

– Rick, dezessete anos. – respondeu o outro

Rick era uma graça, cabelos ondulados, bem cortados, a cor era castanho escuro, seu físico era tipo médio, nem tão forte quando Marcus, mas, não tão magro quanto Charles.

– Louis, dezessete anos.

Essa também merecia destaque, Louis não era incrivelmente bela como Nataly, sua beleza era simples, delicada, angelical, é o tipo de garota que seus pais querem que você ande por emanar inteligência e educação, claro que essa aparência se devia também aos óculos que usava, os cabelos de Louis era de um tom incrível de areia, seus olhos eram muito claros, azuis ela era magra estilo modelo de passarela, não usava maquiagem, então Lyss não era a única de cara limpa.

– Cassie, dezessete anos.

Cassie era linda, tão estilosa quanto Nataly, mas, menor e aparentemente mais elétrica, Cassie era uma coisinha pequena e bem arrumada, a saia era fofa, com pregas e combinava com suas pulseiras, a maquiagem era leve e combinava com a ocasião. Lyss sentiu empatia por ela imediatamente. Cassie piscou pra ela e sorriu, Lyss retribuiu o sorriso.

Era sua vez de se apresentar.

– Você é a atrasada? – Demetree não encarou a menina, ainda andava pelo corredor em direção á parte frontal da sala, onde tinha o grande quadro branco.

– É. – Lyss sorriu esperando que a atenção dele se virasse pra ela

Demetree finalmente olhou a menina e o que viu fez a cor de seu rosto desaparecer junto com o sorriso afável, os olhos do homem passearam pelas feições suaves da menina, os olhos azuis, o cabelo muito negro, a pele cremosa, o sorriso maravilhoso que ela carregava nos lábios bem desenhados, as mãos que se entrelaçavam sobre a mesa... Ele não podia crer que estava diante dela. Demetree continuou olhando Lyss, os olhos arregalados, a boca em formato de “O”, as mãos crispadas, ele deu passos pra trás, distanciando-se como se Lyss tivesse uma doença contagiosa, Demetree arfava.

– Santo Díos! – murmurou espantado

A reação de Demetree não passou despercebida por ninguém, alguns meninos se inclinaram pra ver o quê de tão horrível ele vira no rosto de Lyss.

– Demetree você está bem? – Mathias disse puxando uma cadeira para o velho

Lyss só podia se remexer desconfortável em seu assento, resistiu á vontade de levantar e sair, ficou ali bem quieta sentada, disfarçadamente passou a mão no rosto, podia ter uma aranha na cara e era disso que Demetree teve medo quando olhou pra ela. Mas, não havia aranha nenhuma!

– Desculpem! – ele se recompôs sem graça, evitou olhar para a jovem outra vez, ele também tinha vontade de sair dali. Mas, a razão era outra.

– Tudo bem! – algumas pessoas disseram

Ainda nervoso ele puxou um livro gigantesco e abriu-o em cima da mesa, ao que parece Lyss não precisaria se apresentar, de qualquer forma o velho não lembraria o nome de ninguém mesmo.

– As plantas são parte fundamental da vida de um Bruxo, seja ele Elementar ou não, os Bruxos tiram sua energia da natureza, claro que os feitiços mais fortes são mais mentais, um conjunto de palavras que formam a magia, mas, com a fusão dos dois elementos você tem um feitiço mais potente, mais confiável. – ele passava as folhas grosas do livro – Hoje vamos estudar as Alenas.

– Alenas? – Carlie repetiu consultando Marcus com os olhos

– Isso! – foi Demetree quem respondeu – Alena é o primeiro nome de uma porção de plantas.

– E por que Alena? – Rick quis saber

– Boa pergunta meu jovem. – Demetree evitava os olhos de Lyss propositalmente, o episódio anterior quase esquecido – A família Alena sempre foi uma das mais respeitáveis famílias do nosso meio. Eram Bruxos, que dedicaram suas vidas á pesquisa e catálogo de plantas mágicas. Hoje daremos ênfase á três Alenas. Essa família quase não usava a magia propriamente dita, desse estudo gerou a descoberta de algumas plantas que hoje são usadas pelos humanos como plantas medicinais, porém essas três a família Alena não disponibilizou pra todo o mundo e que só são encontradas aqui – dizendo isso ele pegou dois vasos de planta e colocou sobre a mesa – A família Alena foi extinta há alguns anos, porém deixou esse legado brilhante conosco.

Os espécimes que Demetree mostrava surpreendeu a todos. O primeiro tinha as folhas verdes com a ponta avermelhada, nem pareciam naturais, as linhas das folhas eram branca, o resto da planta era como qualquer outra. A segunda não tinha nada de especial, apenas o formato da folha, meio arredondado, a diferenciava do comum.

– Eis as nossas joias. – apontou a primeira planta, a que tinha a ponta avermelhada – Alena Descansarium – ele pegou o vaso em mãos e aproximou-se dos garotos – Faz com que o corpo relaxe a ponto de adormecer, duas ou três folhas são suficientes para manter alguém desacordado por alguns minutos, ela é utilizada em cirurgias ou tratamentos onde não há equipamentos adequados, Steven tem um estoque delas.

– Steven é o médico, certo? – Victoria perguntou

– Certo. – Demetree disse aproximando-se, parou diante deles e manteve a planta diante de si – Com o feitiço certo você capaz de enfraquecer seu oponente por alguns segundos. – os presentes soltaram uma exclamação

– Vamos aprender a fazer isso? – Marcus quis saber esfregando as mãos enluvadas

– Sim, claro que vão, porém é necessário identificar as plantas pra não fazer bobagem. – Demetree dizia voltando á mesa – Pra ter esse efeito a Descansarium deve ser queimada. – pegou o segundo vaso – Essa é a Alena Ocultarium, se você queima uma dessas num espaço fechado – trouxe diante deles – quem está fora desse espaço não escuta uma palavra do que você está dizendo.

– A Ocultarium tem um longo tempo de vida embora não pareça – Demetree dizia – Vejam! – ele arrancou uma folha, que secou instantaneamente para deslumbre dos garotos – Olhando-a assim qualquer um descartaria de imediato, porém, ela continua tão viva quanto antes. – entregou a folha para os Bruxos, esta foi passada de mão em mão, Lyss demorou-se com ela.

– Existem ervas que fazem um Wateaire ser capaz de prever o futuro? – Lyss perguntou com a folha seca entre os dedos

Demetree fez uma expressão estranha ao ouvi-la, como se estivesse esquecido da presença dela ali e só agora recordasse.

– Não exatamente Alyssa.

– Como sabe meu nome? – disse franzindo o cenho

Ele sorriu sem graça.

– Você disse. – deu as costas, nervoso, e depositou o vaso sobre a mesa, posicionou-se diante do que parecia um cilindro com a ponta arredondada que estava coberto com um pano. – Tenho boa memória.

Mas, ela não disse.

Lyss passou a folha para as mãos impacientes de quem estava atrás dela.

Vamos ao nosso terceiro espécime. – pigarreou – Esse é um espécime mais que especial, anos atrás se iniciou a tentativa de extinguir essa planta, fazê-la desaparecer.

O assunto interessou a Lyss e fez com que ela deixasse aquele último instante de esquisitice de lado.

– Por que iam querer destruir uma planta? – Louis perguntou

– Por que foi essa planta que destruiu a família Alena. – dito isso ergueu o vaso nas mãos e tirou o pano.

Protegido por um cilindro de vidro estava a planta mais linda que Lyss já vira, a maioria dos presentes concordava com esse termo, ela quase reluzia, era menor que as outras duas, havia poucas folhas e nenhuma flor, mas, essa planta não precisava de nada a mais do que já tinha.

– É linda! – alguém exclamou, seguido por muitos outros comentários dos presentes que se encantavam com aquele espécime.

– O que ela faz? – Carlie sussurrou

– Me deixa tocar? – era Rick pedindo

Demetree soltou um risinho

– Ela é tão poderosa que vocês nem sequer deram conta de que eu disse que ela destruiu uma família inteira de bruxos e mais: nem perguntaram como.

Eles piscaram como se estivessem acordando de uma hipnose, encantamento. Outro burburinho, a maioria dos olhares de encantamento desapareceu, eles olhavam a planta com desconfiança agora. Mesmo assim as folhas brancas brilhavam a luz do sol, pareciam pérolas, o caule era vermelho, lembravam uma pedra de rubi. Definitivamente era uma planta incrível, mal dava pra se acreditar que era uma planta.

– Como se deu essa destruição, afinal? – Victoria perguntou

– Essa – ele balançou o vaso de vidro – é uma das plantas mais lindas que existem no mundo. Ela é incrível. Porém, hoje, é odiada pela maioria das bruxas e bruxos. – ele caminhou até a mesa, depositou o cilindro ali, demorou-se olhando a planta – A família Alena se apaixonou por ela. – acariciou o vidro – Como não se apaixonar? Então as bruxas Alena descobriram o que essa planta fazia. – virou para os presentes – A Alena Ilusorium provoca ilusões. – disse e aguardou a reação do público – Não uma ilusão qualquer, senhoras e senhores, a Ilusorium permite que você veja um ente já falecido.

O alvoroço foi geral, demorou minutos pra ser controlado.

Imediatamente Lyss pensou nos pais, passeou pelas lembranças dolorosas da escola, onde nunca tinha mãe para acompanhá-la da festa de Dia das mães, Lucy eternamente como estepe, pensou no pai, sofrendo no banco do carro, talvez ele tenha tentado sair, talvez o cinto tenha ficado preso. Se eles não tivessem partido a apoiaria agora, teriam dito o que fazer com Chris, se pudesse vê-los de novo, por um minuto que fosse, só pra tapar o buraco que ainda havia em seu peito.

– Acho que seria interessante contar a breve história de extinção da família Alena, Demi. – Mathias falou indo para o lado dele.

– Por favor, fique a vontade, Mathias. – Demetree sorriu

– Os bruxos e bruxas dessa família ficaram tão encantados quanto vocês ao ver essa preciosidade, — ele ergueu uma mão esfregando os dedos – nas mãos ela parece feita de veludo, quando ateada fogo, esse fogo fica azul, lilás... Como não se encantar, garotos? Nos experimentos eles viram um ente querido e concluíram que essa planta permitia um contato com o mundo exterior, o mundo além do que conhecemos. Concluíram errado! Com esse falso poder em mãos eles acreditavam que podia obter ajuda de suas avós, bisavós, tataravós ou qualquer parente falecido, para auxiliarem nas pesquisas e estudos de outras plantas. Porém, o lado sentimental – pôs a mão no peito, apontando o coração – a parte irracional deles falou mais alto, usavam a planta pra rever os familiares, até que a ilusão tomou conta dos últimos representantes da família, eles enlouqueceram até iniciar a matança.

– Matança? – sussurrou Charles

– Eles lutaram entre si, homem, mulher, idosos, todos os Alena lutando... até a extinção total.

Lyss olhou a planta atrás de Mathias, ela não parecia tão perigosa assim.

– Provavelmente este é o último representante dessa espécie – Demetree apontou – Se encontrar uma Alena Ilusorium por aí, não hesite: Fuja!

– Não queimem, é assim que a ilusão acontece. – Mathias avisou apontando com o dedo

Eles se entreolharam. Cada pessoa ali tinha uma pessoa especial que gostariam de ver, cada um dariam muito para estar com aquele amigo que se fora, mas, a maioria concordava que arriscar sua vida para isso não valeria a pena. A maioria... não todos.

– Vamos tentar na prática usar as Alenas Descansarium e Ocultarium. – Mathias informou escondendo a Ilusorium de novo

– Escolham um parceiro, um de vocês ficará comigo. – ele informou

Lyss acabou ficando com Victoria, ela tentou sorrir para a menina, mas, como não houve retribuição guardou seus dentes bem dentro da boca.

– Preciso que se concentrem bem nesse primeiro feitiço que faremos, vou ensinar-lhes a palavra que e usada com ele. Por favor, repitam comigo: Atteticus!

Diante do primeiro contato com a palavra a maioria riu na tentativa de falar corretamente.

– Deve-se enfatizar a antepenúltima sílaba e usar a última com a boca meio aberta. – aconselhava Demetree. – Vamos repitam: Atteticus!

– Ap... – alguém fazia rindo

– Antetico!

– Autêntico!

Havia de quase tudo na multidão, os garotos riam e cutucavam-se sob o olhar impaciente de Demetree.

– Prestem atenção meninos! – pediu Mathias

– A palavra Atteticus é proveniente de uma língua morta, ela é usada nesse feitiço, mas, vocês também a encontrarão em outros feitiços sendo combinada a outra palavra qualquer. É importante que vocês dominem essas pronúncias, pois, se trata de algo perigoso e importante, numa batalha se você não pronunciar a palavra corretamente pode não surtir nenhum efeito ou pior: Um efeito inesperado que pode tirar suas vidas.

Com o burburinho espantado proveniente dos meninos Demetree fez uma expressão gozada de quem diz: “Agora eles perceberam a importância” acompanhada de algum adjetivo negativo.

– Por favor, repitam: Atteticus!

Depois de cerca de seis tentativas eles diziam a palavra num coro harmonioso sob o sorriso orgulhoso de Demetree.

– Ótimo, vou iniciar o feitiço com Charles, por favor, estejam atentos – eles ficaram de frente para o outro, Charles não tão afim de estar ali, Demetree fechou os olhos, concentrando-se, colocou a folha entre o indicador e polegar e meio que se inclinou para Charles, o que seria, numa batalha, uma posição ofensiva, uma fumaça quase imperceptível veio da ponta de seus dedos, Charles olhava para ele assustado – Atteticus! – disse sem gritar, apenas enfatizando a ordem, a folha simplesmente transformou-se em cinzas que voaram na direção de Charles.

Demetree esperou alguns segundos para então virar-se para os olhares surpresos e ansiosos, deu dois passos na direção deles e sorriu.

– E é assim que se faz! – os aplausos empolgados quase devoraram a última palavra.

Charles continuava imóvel com os olhos arregalados como se estivesse fitando Demetree ainda, a posição tornou-se cômica, após alguns segundos, todos esperavam pela volta dele ao normal, alguns dos bruxos pediram para tocá-lo enquanto ele não voltava a si, Demetree permitiu que fossem de um a um. Quando chegou a vez de Lyss ela não sabia exatamente o que fazer diante de Charles, repetiu o que alguns dos outros garotos já havia feito: Passou a mão diante do rosto dele esperando que piscasse, tocou a ponta dos dedos e o braço, encostou o indicador em sua bochecha e se deu por satisfeita quando percebeu que ele estava quente e respirando.

– Até que nosso colega volte vamos começar por vocês! – Demetree anunciou esperando que todos retornassem á sua dupla – É importante que saibam que quanto mais forte o bruxo, mais rápido ele reage aos feitiços, se Charles fosse um sete ou um oito, por exemplo, ele já teria retornado a si.

– Qual o máximo de um Bruxo? Quer dizer, até quanto ele pode ir nessa coisa de níveis? – perguntou Nataly

– Bem, nessa coisa – enfatizou a última palavra deixando claro que não gostava de usá-la – de níveis o máximo entre nós é o nove, sabemos que já existiram números dez, mas, eram bastante sacrificados em feitiços complexos ou de magia negra, hoje quase não existem, fora que a maioria acaba sendo consumida pelo próprio poder.

– Como assim? – Carlie ergueu a mão interrompendo

– Quero dizer com isso que se seu corpo material não está forte o suficiente para suportar seu poder ele simplesmente desintegra, como um pote frágil suportando um líquido corrosivo, por isso é tão delicado esse aprendizado e por isso os Mentores existem e nós do Adams, Weverston e tantos outros trabalhamos com isso.

– Você conhece algum Dez? – Rick também ergueu a mão para perguntar

Demetree hesitou. Depois simplesmente meneou a cabeça.

– Não que eu saiba, pelo menos. – a frase não soou verdadeira – Vamos começar! – anunciou com um sorriso enquanto os Bruxos voltavam para sua dupla.

Lyss fitou Victoria e seus cabelos de ponta vermelha e ficou com um pouquinho de medo de servir de cobaia pra ela, pediria pra trocar de dupla se isso não a fizesse correr o risco de despertar raiva na menina. Durante os anos de convivência ela simplesmente comprovou que Água e Fogo não combinam, Victória era a Bruxa Elementar do fogo e, portanto, tinha uma antipatia natural por ela.

Os bruxos alvoroçaram-se quando Charles finalmente saiu do transe que se encontrava, antes que a situação fugisse do controle com a ansiedade dos garotos em saber como era a experiência de estar em transe Mathias deu sinal verde para iniciarem o feitiço um por vez, a primeira dupla foi: Nataly e Rick, depois de discutirem o assunto decidiram que Nataly faria o feitiço em Rick.

– Certo, haverá um momento de cada um. Nataly concentre-se na ponta dos dedos onde está a folha e pense atentamente na temperatura que vem do sol – Nataly fechou os olhos ao ouvir as ordens de Demetree – Isso – ele aprovou – concentre-se, sinta a energia fluir de seu corpo, os elementos que se complementam ao seu redor, foque na ponta de seus dedos e mentalize o fogo.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

A voz de Demetree era um fundo para a cena, Nataly tinha a mão estendida e parecia estar em transe profundo, quando ela finalmente abriu os olhos sob a expectativa da plateia. A fumaça que saiu da folha foi quase imperceptível, virando-se para Rick ela disse serena, com segurança de quem sabe o que está fazendo:

– Atteticus! – e a folha se desfez em minúsculos pedaços que voaram na direção de Rick, ele, que observava atento ás palavras de Nataly, não piscou e assim permaneceu: imóvel, estático e todos os sinônimos possíveis. A multidão soltou a respiração suspensa e aplaudiu o feito.

– Muito bem. Perfeito! – Demetree elogiou

Diante da hesitação de Carlie em ser paralisada por Marcus Demetree passou a vez para Lyss e Victoria.

– Hum. Eu prefiro te hipnotizar primeiro – anunciou a meia ruiva – ou o que quer que seja isso que essa planta faz.

– Essa planta permite que você tenha um instante de vantagem numa batalha, sugiro que memorize essa informação e quantas mais puder para recordar-se até nos momentos de pânicos. – Demetree corrigiu seguramente

Respira, respira... – Lyss ordenava a si mesma

– Podemos começar Victoria. – Lyss disse

Para Victoria a parte de atear fogo na folha da planta foi a mais rápida até então, como era seu próprio elemento ela não precisou de muito esforço. Demetree elogiou-a quanto a isso, ao que parecia o Elemento Fogo era um dos mais inconstantes.

– Pronta Lyss? – Victoria disse quase suavemente, não esperou resposta – Faça uma pose. Atteticus!

Uma leve brisa agitou os cabelos e de repente tudo se apagou, em algum lugar de seu cérebro ela tinha toda noção do que acontecia, até viu as partículas minúsculas que atravessaram o ar em sua direção, penetrando em seus poros, em sua corrente sanguínea, tinha uma noção do que ocorreu ao seu redor embora lhe parecesse uma realidade distante, Lyss sentiu-se calma apesar de não poder mover nenhum músculo, estava bem até que algo estranho aconteceu.

Primeiro os sons ao seu redor desapareceram e ela conseguiu movimentar o corpo, mesmo assim tinha uma leve noção de que aquilo não acontecia do lado de fora de sua cabeça, mas, no seu subconsciente. Havia uma neblina espessa, os pés de Lyss seguiram através dessa neblina, era tão espessa que ela tinha a impressão de poder sentir seus mantos tentando conter seus passos, as ondas brancas aparentemente impenetráveis finalmente foi dissipando e Lyss então se encontrava num lugar escuro, não havia ninguém. A medida que a neblina sumia ia tendo uma maior noção do espaço onde estava, agora tinha dúvidas se não preferia a neblina onde estava, havia uma parede de cada lado, os olhos demoraram a se acostumar com a escuridão, mas, conseguiu enxergar bem os limites da parede e como ela era alta.

Onde estava? Num beco? Podia sentir a umidade vinda das paredes, o ar pesado e o silêncio que incomodava os ouvidos. Com certeza era um beco, um beco comprido demais para ser de uma cidade, ela continuou caminhando até chegar numa esquina, os muros eram extremamente altos, uma água escura escorria da parede em alguns pontos, dobrando a esquina estava a continuação desse beco, só precisou entrar em mais uma esquina para entender que se tratava de um labirinto, com essa informação uma descarga de adrenalina foi injetada em seu sangue.

Odiava labirintos! Principalmente quando não tinha nenhuma noção de como entrara ali, não tinha muita experiência com aquele tipo de espaço, mas, coisas ruins aconteciam em labirintos, assistiu a filmes suficientes pra saber disso. Lyss continuou caminhando, ás vezes apoiava-se na parede molhada e isso deixou seus braços sujos, não podia parar embora não fizesse a mínima ideia de onde estava, sabia que no fundo de sua mente havia uma centelha desesperada que queria que ela encontrasse algo, algo importante, mais importante que a saída, só não sabia o que era, simplesmente não podia parar. Alguns metros adiante teve a estranha sensação de estar sendo seguida, fez as manobras padrão que vira em filmes, primeiro apurou os ouvidos, depois caminhou devagar, parou para só então começar a correr. O som de passos era a única coisa que conseguia ouvir, mas, mal identificava se era seus próprios passos ou estes somados com os de outra pessoa, a respiração saía com dificuldade até que ela teve que parar ou sufocaria no próprio desespero, as pernas mal obedeciam nesse ponto, o sangue circulava com dificuldade. Precisava correr! Era essa a informação que tinha agora e seu cérebro funcionava tão rápido que o corpo não acompanhava. Não podia parar! Mas, a respiração falhava tanto que doía. O ar entrava com dificuldade nos pulmões.

É mesmo ruim não saber pra onde vai, quem não sabe pra onde vai nunca saberá quando chegar, pior que isso: Estava com medo! Seus instintos diziam que era o melhor a se fazer: Ter medo! Assim estaria mais alerta. Mas, até seus instintos pareciam confusos naquele moment...

– Lyss!

Lyss estava dobrada sobre o corpo tentando respirar, apoiando-se numa das paredes, o líquido frio escorrendo pelo seu braço e sujando sua roupa, quando reconheceu aquele som levantou-se bruscamente.

– Não acredito. – sussurrou quase ininteligivelmente, segurava-se pra não cair agora.