Série Elementares - Escolhas (LivroUm)
10 Ilusão.
“Só não cole meus pedaços se você vai destruir-me de novo.”
– Alyssa meu amor, onde está você? Por favor, não pare agora – a voz parou sufocada por um soluço – Por favor, filha eu preciso de você!
Não se lembrava de que a voz dela fosse tão suave, não lembrava, mas, sabia que as canções de ninar ficavam mais bonitas naquela voz, soube que aqueles pedaços que se encaixaram dentro dela ao ouvir aquela voz deveriam ficar daquele jeito e não aos pedaços, mas, já estava tão acostumada com os cacos que só percebeu que havia algo de errado quando eles se regeneraram aos poucos, não estava inteira ainda, de maneira nenhuma. Talvez nunca mais estivesse. Mas, os pedaços faziam mais sentido agora. A centelha que se iluminou dentro dela também deixava a escuridão menor. O medo quase passou. Quase.
– Mãe? – ela respondeu aos prantos, a voz não saiu, ela tentou de novo: — Mãe? Mamãe?
Lyss já não ouvia a própria respiração, estava histérica. Ouvira a voz de sua mãe depois de longos anos. E era ela! Reconheceria aquela voz em qualquer lugar e naquele momento a voz pedia que a ajudasse. Sua mãe precisava de sua ajuda. Sem raciocinar ou parar pra cogitar Lyss começou a correr desesperadamente. Não sabia de onde vinha a voz, só sabia que precisava encontrar sua mãe.
– Mamãe! – gritou utilizando os últimos resquícios de fôlego — Mãe?
– Lyss? Minha menina – ela soluçava – Venha meu amor, você está perto.
A voz dela estava perto, tão perto, Lyss continuou correndo, as pernas obedecendo com dificuldade aos comandos dados, o pânico dominando a cada esquina idêntica que dobrava, o ar pesado do lugar, a umidade que tornava ainda mais difícil pensar, ela caminhou até o fim daquele corredor rompendo todos os obstáculos e virou para se deparar com outro e mais outro até encontrar o centro daquele labirinto. Os cabelos negros e usualmente bonitos estavam úmidos e grudava-se a sua cabeça e braços, ela usava um vestido que um dia foi branco e bonito, mas, não estava pensando nisso, ela estava ocupada indo ao centro do lugar, o espaço onde várias outras passagens se conectavam, devia estar longe da saída daquele lugar, bastou alguns passos para Lyss vê-la.
Em sua memória humana e falha não tinha conseguido guardá-la com tanta nitidez, mas, ali estava ela, e a riqueza de detalhes fez com que Lyss tivesse certeza de que aquela cena não era fruto de sua imaginação. Estava ali, agora com sua mãe. O espaço era pobre de luminosidade, mas, identificou o corpo no centro do espaço, era só uma mancha branca no chão de pedra escura ao longe, não havia nada de belo ali, nada belo além dela. Quando Lyss correu até a mãe com as forças que já não lhe pertencia, conseguiu tocar seu braço, ele tinha várias marcas, ferimentos, sangue seco.
– Mamãe. – pronunciou só pra experimentar a palavra rolando em sua língua e lábios.
Era aquele rosto que procurava em suas lembranças, aqueles braços que queria que a abraçasse, quando ela ergueu um pouco o corpo Lyss viu o quanto ela estava machucada.
O nariz pequeno, perfeito no centro da face, os lábios bem desenhados, os olhos brilhantes, azuis profundo, a sobrancelha fina e um pouco erguida, as maçãs rosadas do rosto. Alice era tão jovem, Lyss tão parecida com a mãe, mas, entendia que Alice era mais bela, mesmo com aqueles machucados em seu corpo. Havia um corte em seu abdômen também, saía sangue dela, os ferimentos não acabavam por aí, Alice tinha um corte no rosto que infeccionaria logo se não fosse limpo, aquele rosto tão parecido com o de Lyss estava retorcido numa careta de dor.
– Filha! – ela sussurrou ao reconhecê-la, lágrimas escorriam pela sua face, arriscou um sorriso.
– Mamãe! Eu senti tanto a sua falta – sentou-se ao seu lado abraçando-a, mantendo-a perto com o cuidado de não machucá-la, tomou-a nos braços como se ninasse um bebê – O que houve com você? – deu-se conta de que todos os ferimentos pareciam piores vistos de perto – Por que você está assim mamãe?
A pele era fria, ela estava tão úmida quanto Lyss, seu cheiro era doce, cheiro de flores. A menina continha-se com o turbilhão de emoções que a invadia.
– Você está tão crescida. – a voz saía com dificuldade — Lyss?
– O quê? – respondeu olhando ao redor procurando uma saída – Vamos sair daqui mamãe, está me ouvindo? Vou te levar comigo e vai ficar tudo bem.
– Não! – ela protestou – Fica comigo. Eu preciso falar com você.
– Não mãe. Vamos procurar ajuda e...
– Filha, filha – interrompeu com desespero segurando uma de suas mãos – escute-me, por favor.
Alice começava a agitar-se, Lyss acariciou-a no rosto tentando acalmá-la.
– Estou te ouvindo, mamãe. Fale!
– Lyss? Você tem que me perdoar. Por favor. Por tudo o que é mais sagrado: Perdoe-me. Eu fiz coisas terríveis – soluçou – coisas terríveis que só fiz para te proteger. Eles queriam matar você filha. Eu e o seu pai não tivemos outra chance. – a voz sumiu sufocada por mais soluços – Tivemos que deixar você. Deixar você sozinha.
– Mãe – ela disse suavemente com lágrimas nos olhos – Acalme-se! Não importa o que você fez, vai ficar tudo bem, só precisamos encontrar uma saída desse lugar. – Alice precisava de ajuda – Onde está meu pai, mãe?
– Não, não, não – tentou levantar-se desesperada – Não vai procurá-lo. Prometa-me! Não vai procurá-lo, vai se proteger. Escute Evan, ele lhe dará os melhores conselhos – Alice perdeu o fôlego e parou ficando tonta – Perdoe Lyss, me perdoe minha filha. Eu te amo, está me ouvindo? Te amo demais. Daria minha própria vida para salvar a sua. Lyss? Filha? – Alice desmaiou
– Mãe? Mãe por favor, não me deixe de novo. – ela deu leves tapas no rosto da mãe, ela ainda estava viva, ainda havia chance, mas, as lágrimas que ela tentava conter escorriam pelo seu rosto sem interrupção — Alguém? Por favor, me ajude! – gritou o máximo que pôde esperando que alguém a ouvisse – Socorro! – gritou de novo
O seu corpo tremia por causa dos soluços, foi quando voltou a si. Demorou, mas, ela identificou os rostos ao redor, a maioria não prestava atenção nela, Nataly, a morena estilosa, e Carlie, a loira gêmea de Charles, estava imóvel sob o feitiço da Alena.
– Foi rápido! – Victoria disse surpresa
Estava na sala do Professor Mathias, o velho Demetree estava de costas para ela auxiliando Charles a fazer o feitiço com Marcus. Lyss olhou as próprias mãos. Onde estava sua mãe? Ela precisava de sua ajuda, mas, não tinha tido força suficiente para trazê-la de volta.
Era fraca. Na única chance que existia de ter Alice de volta... simplesmente deixou passar. Deixou a mãe lá, naquele labirinto. Sozinha.
O nó que formou em sua garganta foi tão doloroso que Lyss não conseguiu responder á Victoria, nem sorrir para alguém que falou qualquer coisa pra ela, só queria sair dali. Precisava. Mas, pra onde? Pra quê? Precisava ver a mãe, uma última vez. Não podia deixá-la.
– Faz de novo. – conseguiu falar com Victoria
– O quê?
– Me paralisa de novo. – falou com impaciência
Victoria tomou outra folha e estava pronta para refazer o feitiço quando Mathias interferiu.
– Uma vez de cada uma Victoria; sinto muito, mas, agora é a vez de Lyss.
– Não quero Mathias. – seus olhos pousaram sobre a mesa, procuraram uma planta específica. Precisava dela.
Mathias não cedeu. Lyss vasculhou uma alternativa em sua cabeça, não encontrou nenhuma. Esteve tão perto da mãe, tão perto de tê-la outra vez e...
Foi só uma ilusão. – ouviu de sua própria consciência
Piscou. A voz foi tão nítida que poderia ter sido proferida por qualquer um dos presentes ao seu redor.
Foi só uma ilusão. A vontade de vê-la é tão grande que você projetou essa memória. – falou mais – Me escute com atenção, mantenha a calma absoluta, quero que respire devagar.
A voz não era exatamente de sua consciência – percebia –, era como outra pessoa em sua cabeça, alguém mais sensato, uma voz forte, masculina, ela obedeceu a voz. Victoria ainda a obervava assustada, mas, de algum jeito parecia entender o que estava acontecendo, esperou silente Lyss recuperar-se.
– Isso! – a voz aprovou – Puxe o ar devagar e concentre-se nos seus batimentos cardíacos. Isso! A calma está dentro de você, apenas busque-a, deixe que a calma te domine. Está vendo? Está ficando melhor.
E estava mesmo, apesar de suas pernas ainda bambearem e seus músculos tensos ainda não obedecerem a seus comandos ela sentiu o desespero abandoná-la. Estava assumindo controle de si mesma. E aquilo fez sentido. Como Alice conheceria Evan? Como pediria que ela escutasse Evan se aquele não fosse um desejo da própria Lyss? “Foi só uma ilusão” sua própria consciência disse, e pareceu certo acreditar naquilo por agora.
Doeu, mas, ela empurrou a dor para o fundo, onde estava. Trancou. Pensaria sobre aquilo mais tarde, mesmo que a memória não tivesse tão fresca, agora não podia fazer nada com tanta confusão ocorrendo ali dentro.
Lyss paralisou Victoria e depois cada um teve que fazer um resumo escrito sobre sua experiência, Marcus fez questão de oferecer uma folha de papel e uma caneta para Lyss.
– E o que mais você quiser, Lyss. – insinuou-se
Lyss teve que rir, mas, sua atenção estava voltada para o que escreveria no papel, não podia colocar o que vivera de verdade. Pulou um monte de coisas e resumiu dizendo que fez uma viagem nas lembranças que tinha da mãe. Ficou feliz quando todos foram dispensados. Agora, com os pés mais firmados na realidade, Lyss conseguiu sorrir para os Bruxos que a cumprimentavam. Estava seguindo a correnteza de alunos que ia para a saída quando uma mão com unhas bem feitas segurou seu braço.
– Oi Sinclair.
Quatro pares de olhos a observavam. A mão que segurava seu braço tinha uma pulseira delicada com pingente em tom de roxo e que combinava com a blusa bonita, Lyss não precisou baixar os olhos para a saia de pregas pra saber de quem se tratava.
– Cassie. – ela sorriu perguntando de volta para a garota baixinha.
Cassie tinha seus cabelos bem cuidados cortados acima dos ombros, tinham um incrível tom de chocolate, os olhos eram quase do mesmo tom, somente um pouco mais escuros. A garota tinha um excelente tato pra moda, dava pra ver pela qualidade de suas roupas e pelos sapatos, que eram sem dúvida de uma grife francesa.
– Por que esse atraso? Como ficou a história com Chris-Delícia? – Cassie sempre o chamava assim apesar de não ter qualquer intimidade com Chris.
De uma maneira estranha Lyss sentia-se a vontade com Cassie, ela quase fazia com que Lyss esquecesse aquele estranho momento na sala. O outro par de olhos que fitavam Lyss estavam atrás de lentes de óculos, olhos esverdeados, extremamente claros, não eram destacado devido á pele. Ao contrário de Cassie, que era um pouco mais corada, Louis conseguia ser mais clara que Lyss, Louis era a Elementar da Terra.
– Oi meninas. É bom ver vocês. Quanto á Chris... Bem, a gente acabou terminando, mas, acho que vai ficar tudo bem agora que ele me odeia. – ela deu de ombros
– Por que ele te odeia? Louis perguntou, elas subiram mecanicamente as escadas dirigindo-se aos quartos
– A gente brigou antes de minha viagem. – os outros tomaram alguns caminhos e só elas três subia as escadas agora.
– Ás vezes eu penso se não seria mais proveitoso se você contasse á ele – Cassie sussurrava – talvez ele entendesse.
– Ou talvez tentasse convencer Lucy de me internar numa clínica. – Lyss falou baixo também.
– E você levou tanto tempo pra vir por causa dele? – Louis questionou
– Não. É que tem minha tradição do aniversário de meus pais. – as meninas conheciam isso.
– Ah. – as duas fizeram em uníssono.
– Me dá detalhes da sua discussão com Chris-Delicia? – Cassie sempre queria mais detalhes.
Elas chegaram ao quarto de Lyss.
– Só se vocês me ajudarem a fazer as malas.
Chris estava acabando de acordar, as costas estavam doloridas e ele não sentia ter descansado nada. Demorou algum tempo pra entender onde estava. Tudo estava muito escuro, não sabia que horas eram, tinha um torpor gostoso nos membros inferiores e podia sentir cheiro de álcool, gasolina e mofo. Tinha também o que parecia cheiro de pizza. Passou a mão pelo tórax nu para espantas os fios de cabelo que lhe causavam cócegas. Fios de cabelo? A noite anterior veio num assalto. Praia, cinema, Langdon foi num carro com sua companhia e ele saiu com Jenny... ou seria Joyce? Era aquela menina que estava tentando entrar nas líderes de torcida. Havia bebido. Sabia disso. Compraram uma pizza em algum lugar que ficava aberto vinte e quatro horas, sabia disso também. Mas, além do fato de saber que tinham transado por boa parte da noite o resto foi num borrão.
Esfregou os olhos e tentou levantar. Estavam no banco de trás do carro dele, a garota estava deitada sobre sua barriga, se não tivesse tão chapado o corpo teria respondido dado á posição da garota. Ambos estavam nus. Chris levantou devagar colocando Joyce-Jenny no banco, tomando o cuidado de não acordá-la. Olhou ao redor pelos vidros e percebeu que, pelo menos não estavam no meio do mato ou coisa assim. Abriu a porta do carro e desceu, os olhos foram se acostumando com a escuridão e ele percebeu que se tratava de uma garagem, tinha uma porta branca na parede ao lado do carro e ele abriu-a delicadamente. Estavam num motel. Reconheceu o pequeno quarto com espelho no teto e tudo o mais, o quarto estava intacto, ao que parecia não tinha dado tempo de sair do carro. Chris gemeu. Voltou para o carro pra pegar suas roupas e descobriu um minúsculo banheiro no quarto, tomou um banho, fez o que pôde pra diminuir o gosto ruim da boca e, quando se viu apresentável voltou ao carro. Jenny-Joyce estava acordando. Isso! O nome era Joyce. Ela abriu os olhos devagar. Tinha uma marca roxa no pescoço e marca de dedos na cintura, Chris tirou o olhar.
– Bom dia. – murmurou
– Bom dia querida. – ele forçou-se a sorrir – Acho melhor levantar, pelas minhas contas a manhã já passou há algumas horas.
Joyce arregalou um pouco os olhos e pareceu se dar conta de sua nudez, sem mais uma palavra ela seguiu para o banheiro indicado por Chris. Este último já estava organizando o carro e ligando o motor, de repente não queria passar um minuto a mais naquele lugar. Joyce voltou ao carro de banho tomado e mais apresentável, os cabelos finos caídos num lado do pescoço para esconder o hematoma.
– Perdoe-me Joyce. – Chris disse olhando-a de soslaio – Sinto por tê-la marcado.
Ela corou.
– Tudo bem, o importante é que tudo foi muito bom. – virou o rosto para a janela a medida que a garagem ia abrindo.
Eles não conversaram mais. Chris não tinha vontade de manter uma conversa nem se o assunto fosse o tempo. Perguntou onde ela queria ficar, pediu que ela aguardasse enquanto abastecia o tanque do carro e aproveitava pra jogar alguns lixos do banco de trás fora e isso foi tudo o que disseram durante todo percurso. Quando ele parou na frente da casa de uma amiga de Joyce – ela não queria ir pra casa sem um álibi -, ela até arriscou perguntar quando se veriam outra vez, ao que Chris respondeu “no início das aulas”, ela insistiu “e antes disso?”. Chris murmurou um “eu te ligo” e arrancou com o carro.
Mais tarde depois do almoço elas caminhavam para a saída.
–Você acredita que não há espelhos nos quartos? Pelo menos no meu não há nenhum. O tempo passa de uma maneira estranha aqui. – Cassie tagarelava
– Era pra gente conhecer os Mentores hoje. – Louis disse – Você sabe, os caras que vão nos ensinar os Elementos.
– Vocês ainda não o conhecem? Nem sequer os viram? Então eu não perdi muita coisa vindo mais tarde. – Lyss comentou afastando uma mecha de cabelo dos olhos.
– Pra você ter uma ideia esse foi nosso primeiro feitiço. Mas, também tínhamos que esperar você chegar, tem uma coisa chamada “ligação”, então acho que precisa de todas nós. É uma espécie de cerimônia. – Louis deu de ombros
– Você acredita que esse negócio impede sentimentos “impróprios”? – Cassie sussurrou
– Como assim? – Lyss
– Sei lá. Eles estão fazendo segredos demais. Coisa chata. Sabemos que é proibido namoros com alguns seres específicos, isso com pena de morte, e ao que parece os Mentores estão nesse contexto de – Cassie fez aspas com as mãos – “seres específicos” e não podemos ter determinados sentimentos.
– É mais que isso, Cassie. – Louis repreendeu – Parece que nossos pensamentos passam a pertencer aos dois.
– Quer dizer que o que eu pensar meu Mentor vai saber? – Lyss fez cara de nojo – Isso é bizarro.
– Acho que deve haver um limite pra essa coisa de pensamentos e tal. – Louis tentou amenizar as informações
Nesse momento elas estavam diante da porta de saída, tanto esta quanto o portão estava escancarado permitindo a entrada da brisa do mar.
– Então, novata! Que tal ser batizada?
A voz masculina veio do lado de fora, Lyss soube imediatamente que o rapaz falava com ela. E soube quem era.
– Marcus! – suspirou Cassie, para Lyss, sussurrando.
– Ele é lindo. – Louis corou
– Shh. Carlie vai te ouvir. – Louis alertou de olhos arregalados
– Você tá querendo me dizer que Car...? – Lyss começou
– Shhhhh! – ambas fizeram com os olhos arregalados
Lyss ergueu as mãos como quem pede desculpas
– O dom dela – Cassie movia os lábios pausadamente sem que nenhum som saísse de seus lábios – ela ouve a distância.
– Ah! – Lyss fez movendo os lábios também, lembrando-se.
Porém, aquilo não explicava aquele terror.
– Ela é afim dele. – Louis complementou – Vai me dizer que nesses anos você nunca percebeu?
Então o terror fez sentido.
– E aí, novata? Morreu? Uma partida de Tri-ball? – Marcus gritou outra vez
– Tribal? – Lyss perguntou referindo-se á um estilo de tatuagem
– Tri-Ball. – corrigiu Cassie caminhando pra saída, de onde vinha a voz – Eles aprenderam isso com os Wateaires e agora é um vício só.
– É um jogo que os Wateaire inventaram – explicava Louis – o objetivo é fazer com que a bola acerte três gigantescos bastões.
Ela seguiu Cassie, e Lyss não teve alternativa além de acompanhá-las, Marcus estava diante da entrada com uma bola em mãos, a bola parecia ser de Basquete, mas, Lyss não se ateve àquilo, mediu-o de alto a baixo, os cabelos meio compridos balançava com a brisa do mar, sob aquele sol sua pele queimada fazia um par perfeito, ele brincava com a bola de Basquete, jogando de uma mão a outra, as veias saltando e os músculos se contraindo. Marcus era o cara das luvas pretas, o que desvendava segredos.
Lyss notou que Carlie aproximou-se na defensiva assim que Lyss surgiu na entrada do castelo. Além de Carlie, Nataly, Rick e Charles estavam em campo. Como não percebeu aquele comportamento antes?
– Como funciona esse tal Tri-ball?
Marcus sorriu.
– É bem simples. – estendeu a mão enluvada que Lyss aceitou de bom grado dessa vez – Está vendo aquelas estacas gigantesca?
Gigantesca era até pouco, Lyss refletiu olhando para os três pedaços de madeira, que mais pareciam árvores sem folhas e galhos, que se estendiam tentando tocar o céu, os três formavam uma espécie de triângulo, colocados em um ângulo proposital. No lado oposto outros três troncos idênticos.
– Você faz um ponto se conseguir arremessar a bola fazendo com que ela atinja os três troncos, um após o outro.
Mesmo tendo sido colocados num ângulo tão estratégico aquilo não parecia tão fácil, os primeiros três troncos estavam a mais de cem metros dali e ainda beiravam um precipício, os outros três estavam do lado oposto, as ondas quebravam lá embaixo.
– Isso não parece “bem simples”. – Lyss soltou a mão dele disfarçadamente, o olhar de Carlie a fulminava agora.
– Ela está amarelando, Marcus. Vamos começar antes que o sol se ponha. – era Carlie falando apesar de ser bem cedo ainda. A voz doce, bonita.
Os outros três riram com o deboche.
– Mostre-me como se faz. – Lyss virou-se para Carlie, um desafio disfarçado pelo tom de voz despreocupado.
– Estamos em ímpar, doce caloura. Joga com a gente?
Ao que parecia, Marcus já estava flertando com ela – Lyss concluiu.
Eles estavam em cinco.
– Tudo bem, eu fico como juíza. – Carlie bufou ansiosa para se livrar de Lyss
Lyss juntou-se ao grupo de Cassie e Louis para ser espectadora. Ao que parecia o ar de Lisarb não só aumentava poderes como trazia estranhos comportamentos, era a primeira vez que Carlie a tratava com rivalidade tão explícita.
– E ao que parece... – falou alto – Eu estou amarelando. – ironizou
Os meninos riram e até a própria Carlie achou graça da leve provocação de Lyss, mas, não retribuiu. Os cinco meninos foram se afastando formando um retângulo, um em cada um dos quatro pontos da figura geométrica imaginária, Carlie, a juíza, ficou meio de fora daquela formação, como quem observa.
– Quero Richard. – Marcus anunciou
– Nem pensar, Marcus. – Nataly protestou – Você ficou com o Rick da última vez.
Marcus atirava a bola pra cima com expressão entediada.
– Vou vencer de qualquer maneira. – falou como se declarasse o óbvio – Quero Charles.
– Então só vai dar nós, Nataly. –disse Rick.
Cassie puxou a manga do vestido de Lyss e murmurou:
– Tudo isso porque Richard voa, mas, não importa! Quero mais detalhes do cara que você comentou que viu.
Durante a história que ela contara do último encontro dela com Chris Lyss deixara escapar aquela informação, não detalhes, só mencionou o fato. De certa maneira queria que Evan fosse um segredo seu. Como o mocinho da novela que você deseja só pra si e não quer que mais ninguém veja-o. Esse tipo de coisa!
– Ah. – deu de ombros fazendo sua cara mais desinteressada – É só um cara. Um gato, mas, só um cara.
Ela havia omitido o fato de ter se perdido.
– Marcus e Carlie são os mais competitivos. – Louis suspirou — Apesar de não voar tão perfeito assim, Rick representa uma ameaça constante ao outro grupo, por isso surgiu uma regra nova. – ela apontou para uma linha amarela desenhada na grama há muitos metros dos três troncos – qualquer um com habilidade de voo só pode ir voando até ali e concluir o resto do percurso a pé.
– Esse jogo parece interessante. – Lyss murmurou ansiosa para mudar de assunto – E eu sempre achei incrível isso de desafiar a Lei da Gravidade.
– A lei da gravidade é uma piada criada pra nos esconder. – Louis sorriu piscando
– Novata preste atenção na partida, não ensinamos por mais de uma vez. – gritou Marcus ansioso por atenção.
Era um quadro interessante – pensa Lyss – como eles se moviam com harmonia depois de tanto tempo de convivência. Até ela mesma já conseguia antecipar alguns movimentos dos meninos. Richard, ou Rick, tinha o dom de voo, ele ainda era um pouco desengonçado, mas, sua habilidade servia muito não só ali numa brincadeira como nas batalhas que eles simulavam na Suíça, ele tinha olhos claros que Lyss não se lembrava a cor, não era tão forte quanto Marcus nem tão magro quanto Charles, ficava no meio termo. Nataly, parceira de jogo de Rick, tinha um sorriso incrível e era linda apesar de sua aparência ser quase padrão, ea tinha os cabelos castanhos escuros, agora estavam presos num rabo de cavalo, mesmo assim sua aparência era eternamente impecável, como aquelas mulheres da TV que acordam maquiadas, suas roupas eram mesmo de grife, a calça que modelava o quadril estreito era, inclusive, italiana. Os irmãos gêmeos Carlie e Charlie não jogavam no mesmo time, mas, eles conservavam a harmonia de modo impressionante. Como se Carlie soubesse exatamente o que o irmão ia fazer.
Os líderes natos eram Marcus e Nataly, certamente seriam invencíveis juntos, a competição estava no sangue de ambos. Lyss não pôde não comparar a beleza de Marcus com Evan, Evan era muito, muito mais bonito, principalmente por conta de seus traços e expressões mais maduras, talvez fosse pelo físico superior do wateaire, ou o modo como o nariz e os olhos formavam uma perfeita combinação. O fato era que, apesar de muito lindo, Evan era mais atraente. Bem que podia ser ele a exigir sua atenção como Marcus fazia agora.
– A única possibilidade de Marcus perder é quando Nataly e Rick estão no mesmo time, — Cassie falava.
– São quase imbatíveis. – Louis complementou
– Eram.– Cassie cutucou Louis – Agora que Marcus usou a habilidade dele com Nataly ficou muito fácil pra ele vencê-los.
– Habilidade masculina? – Lyss quis saber observando Marcus trocar palavras com seu parceiro e dando a oportunidade do outro grupo iniciar a partida com a segurança de quem sabe o que faz. Ele tinha um olhar penetrante, deu pra perceber quando ele piscou pra Nataly, provocando.
– Não, se bem que essa funcionaria também, Marcus tem um toque mais eficiente do que o olhar ou o sorriso. – Cassie riu dando margens á duplas interpretações
– Espera! – Lyss se sobressaltou entendendo – Você quer me dizer que Nataly deixou que Marcus a tocasse? – seus olhos estavam arregalados. Uma brisa mais forte soprou e ela teve que piscar.
– As luvas tem alguma coisa especial, impede que o poder dele entre em ação, certo? Então sem elas...
– Mas, por que alguém ia querer ser tocada por ele? – Lyss sussurrou. Parecia que muito mais que ela estava longe deles há mais que semanas. Quantas coisas diferentes!
– A gente não sabe ao certo. – Louis interrompeu o que Cassie ia dizer.
Rick iniciou, o jogo era até simples, tinha regras parecidas com o Futebol Americano, um componente da dupla do lado direito, no caso: Rick e Nataly, que iniciariam, tinha que correr dentro do retângulo imaginário até os três troncos gigantescos do lado oposto, passando a bola para o parceiro a cada dois passos, a dupla oposta tinha que tomar a bola do adversário e seu ponto seria feito no lado direito, a parte mais complexa do jogo era que a bola tinha que acertar os três troncos, um de cada vez.
Carlie deu o sinal do início do jogo, Rick jogou a bola pra Nataly e iniciaram a corrida, Charles despontou na frente, primeiro que Marcus que corria com despreocupação, logo de primeira Rick conseguiu desviar de Charles e jogou a bola pra Nataly, meio que surgindo do nada Marcus pegou a bola no ar antes que ela chegasse á parceira de Charles e correu até o campo adversário, Charles estava á frente no outro momento antes que Marcus desse o terceiro passo com a bola em mãos, foi Marcus quem atirou a bola para os três troncos aquela distância impressionante, a bola atingiu ao primeiro tronco, ao segundo e terceiro. A dupla nem comemorou muito, como se estivessem acostumado àquilo. O jogo foi se equilibrando, Rick marcou mais dois pontos passando na frente, Charles perdeu uma excelente oportunidade e uma discussão durou horas, o céu tingia-se de vermelho quando o placar era de quatro pontos a dois pra Nataly e Rick, foi nesse momento que Marcus pareceu levar tudo aquilo á sério. A maior parte do tempo gasto era por conta das interrupções como: A bola cair no mar, ou Marcus discutir com Charles, ou com Nataly ou com a juíza.
– Geralmente o jogo termina quando o sol some no horizonte. – Cassie apontou para os últimos resquícios de sol no horizonte, mais alguns minutos e a bola de fogo desapareceria deixando apenas as tonalidades pra trás. As horas passaram rapidamente.
Estavam, as três esparramadas no chão, conversavam quando Marcus fez mais um ponto, o rosto do rapaz estava sério, percebia-se que não gostava de perder. No segundo seguinte ele fez outro ponto, Lyss percebeu que ele havia dado mais de dois passos com a bola em mãos, teve a impressão que Carlie também havia notado, mas, fingiu não perceber nada. O resultado foi um empate, já que na última oportunidade do jogo Rick voou além da linha amarela e seu ponto foi anulado.
– Marcus não fica satisfeito com empates. – comentava Louis
– Nataly não percebe quando ele rouba? Sei lá. Vê nos pensamentos dele?
– Marcus é o mais habilidoso de todos nós, Lyss. Ele já conviveu com outros leitores de mente, sabe como contorná-los.
– O jantar vai ser um saco. – Cassie levantou e sacudiu a areia das roupas – Marcus vai dar milhões de justificativas por causa do empate e blá-blá. – dirigindo-se á Lyss falou: — O jantar é servido às sete, todos os dias. Não se atrase ou Joanna, a wateaire, fica irritada e fala em espanhol durante horas a fio.
– Aposto que é xingamento. – Louise riu
Marcus, Charles, Nataly e Rick cumprimentaram-se, Marcus desfez a cara insatisfeita ao vir cumprimentar Lyss, disse que estava esperando-a para o jantar, os outros falaram com ela também. O suor fazia com que a camisa grudasse no corpo atlético do garoto, Marcus fazia questão de empinar o peito para destacá-lo ainda mais.
– Acredita que dá pra conhecer esta ilha inteira em menos de um dia?
Lyss acreditava, sabia também que pra se perder era muito fácil. A barriga dela roncou de fome.
– Estou faminta.
– Ah. Os Wateaires cozinham beeeem. – Louis e Cassie riram
Todos se dirigiam ao castelo, Lyss parou para observar o céu no horizonte.
– Parece que vai chover. – comentou baixinho
– Vamos comer, provavelmente Marcus vai nos arrastar para o quarto dele pra te batizar.
– Como assim?
Elas riram maliciosamente e saíram caminhando falando do jogo, sumiram na entrada do castelo. Lyss foi atrás antes de mais uma olhada para o horizonte. Estava cansada de chuvas.
A cozinha era bem equipada e gigantesca, havia bastante aço ali, uma parte da cozinha era parecida tomada por uma grande mesa retangular, havia espaço para vinte e duas pessoas, era de madeira escura. Na outra parte da cozinha havia duas Wateaires, uma delas certamente era Joanna, movimentavam-se com destreza entre as panelas e armários. O cheiro era forte e agradável. Cada um tomou seu lugar na mesa, na cabeceira sentou Marcus, no lado esquerdo: Carlie, Charles e Rick, do outro lado Marcus guardou o lugar de Lyss diante de Carlie e seus olhos fulminantes, depois Cassie, Louis e Victoria na sequência.
– Quando chegou Lyss? – Marcus quis saber assim que sentaram
– Ontem, mas, era tarde e não havia ninguém aqui. – pulou a parte sobre se perder ou sobre Evan, ele era um segredo só seu.
– Ah. Ontem ficamos na praia e depois comemos no vilarejo, no sábado vamos cortar lenha para Herbie, você precisa conhecê-lo.
– Herbie é um dos wateaire. – explicou Cassie
Lyss assentiu sem falar nada.
A conversa estava fluindo normalmente como sempre foi, Marcus implicando com Victoria – que era sempre a mais calada e antissocial de todos nós -, e se justificando pelo empate, Rick comentando algo sobre Jogos com Charles e – o que deixava de ser novidade -, Carlie tentando roubar a atenção de Marcus concordando com tudo o que ele dizia. Victoria em silêncio. Louis absorta em pensamentos, fazendo um comentário aqui e ali e Cassie enchendo o saco de Marcus como podia.
– Genteeee! – Cassie fez de repente só porque teve vontade.
– O que é Cass?
– É sério. Algum de vocês sabem essa coisa de ligação?
Nataly sorriu
– Felizmente nós, meros bruxos comuns não precisamos disso.
– O que quer dizer que vocês não estão condenadas á dividir seus pensamentos com um wateaire eternamente e amém. – Cassie também suspirou
– Não funciona assim. – Victoria disse num murmúrio milagroso
– Por que só nós? Por que isso não é necessário com todos os bruxos?
– Existem milhares de bruxos no mundo, imagina se eles tivessem que fabricar um wateaire por bruxo?
– A ligação é uma maneira de nos ajudar. –Louis explicava para Lyss – Como somos Bruxas Elementares e Costopoulos previu toda aquela complicação sobre ‘O Grande mal’, pra que a gente consiga alcançar o equilíbrio, controlar o nosso Elemento e aprender os feitiços precisamos de um auxílio extra.
– Vocês ainda não passaram pela... ligação? – Charles perguntou
– Não. – as três responderam em uníssono, menos Victoria.
– A gente nem conhece nossos Mentores.
– Existe uma cerimônia.
– Precisamos da presença dos quatro elementos.
– Então nós olhamos para nosso Mentor e... – Cassie fez uma pausa estratégica — Pum! Estamos conectadas com ele até que alcancemos nosso equilíbrio. A ligação também impede sentimentos impróprios também, tipo você se apaixonar por seu Mentor.
– Eles são tão gatos assim? – Nataly provocou colocando uma mecha de seu cabelo escandalosamente perfeito atrás da orelha
– Devem ser velhos e chatos, mas, a ligação impede que você tenha quedas por eles, afinal, quem sabe se esse não seja o tipo preferido de Louis?
Louis tentou dar um soco em Marcus de leve por causa da piada.
– Não seja ridículo, Marcus. Com tantas beldades como nós presentes na vida de Louis ela vai se interessar por quem? – Rick brincou
– De qualquer forma boa sorte pra vocês. – Marcus sorriu parecendo muito feliz por não ser um Elementar.
A comida foi servida e eles comeram em silêncio, as Wateaire cozinhavam muito bem e a maioria repetiu, Lyss só percebeu o quanto estava cansada quando levantou da mesa e não conteve um bocejo, mas, era cedo ainda, o cansaço devia ser por causa da noite estranha na cabana.
Onde ele estava agora? Os olhos do moço não saíram da cabeça de Lyss, estava evitando pensar nisso porque Evan lhe levava á Alice, sua mãe aconselhara-a ouvir Evan. Certo de que já se convenceu que o momento bizarro com a mãe no labirinto não passou de uma ilusão, principalmente devido ao fato de que ela pedia desculpas, sendo que não havia nada a ser desculpado. Então se era uma ilusão talvez a própria Lyss quisesse ouvir Evan, ou estar com ele. Talvez.
– Aonde pensa que vai? – Marcus perguntou – A noite só está começando.
– Estou um pouco cansada.
– Mas, você vai perder a rodada do jogo.
– Que jogo? – Nataly quis saber
– Tri-ball de novo? – Louis gemeu
– Ah não. – Carlie reclamou
– Chega gente! – Cassie pediu
– Podem parar de reclamar e escutar? – Marcus fingiu levantar uma bandeira da paz, consertando a luva da mão direita disse: — Vamos brincar de “Um segredo por um segredo”.
Os presentes ao redor da mesa se entreolharam, Carmen veio recolher os pratos e eles permaneceram em silêncio até a Wateaire sair. Eles levantaram para sair da cozinha.
– Explica o jogo. – Lyss pediu
– É só Lyss quem vai jogar? – a pergunta veio de Carlie
– Não. É todo mundo.
Estavam no corredor indo para o hall de entrada.
– Isso aqui fica sempre vazio assim? – perguntou Lyss
– Na verdade não, esses dias são de adaptação, por isso Clovis achou melhor ficarmos sozinhos, o que ás vezes significa tédio que significa Jogos. O jogo funciona assim: Vamos colocar um segredo no papel, todo mundo vai jogar o papel numa caixa, daí vamos misturar bem e cada um tem que pegar um segredo, ler em voz alta e tentar descobrir de quem é.
– Até agora gostei. – Cassie deu de ombros
– Bom... – Marcus fez suspense – Pra mim a melhor parte ainda está chegando: Se a pessoa não descobrir de quem é o segredo tem uma forte punição, se a pessoa pegar o próprio segredo ela deve colocá-lo de volta na caixa e sofre uma dupla punição.
– Que tipo de punição? – perguntou Lyss
Marcus preferia mostrar.
– Apesar do risco eu to dentro. – Lyss falou erguendo as mãos, se rendendo, foi para o lado de Marcus.
– Também. – Cassie disse sorrindo
– É né. – Louis também se junto ás meninas
– Tô fora. – disse Victoria indo em direção ao portão de saída
– Você parece uma garota que gosta de quebrar regras... E parece guardar segredos. – provocou Marcus
– Não se engane com a cor dos cabelos, Cara das Luvas. Não se engane.
– Não me refiro á cor dos seus cabelos, mas, ao brilho que vejo em seus olhos e ao que sua personalidade me mostra. – Victoria parou para olhá-lo – Eu não preciso tirar minhas luvas e tocá-la para saber que você não costuma dispensar um desafio.
– Acha que me conhece? – ela se aproximou com o queixo erguido
– Não. Mas, quero ter a chance de exterminar alguns estigmas. A não ser que eu esteja errado ao seu respeito e isso que você use seja uma máscara.
Num gesto lento e despreocupado Marcus tirou uma das luvas devagar, estendeu uma das mãos, a palma virada pra Victoria. Houve um burburinho quando ele fez isso, provavelmente era a primeira vez que os presentes viam Marcus sem luva, por instinto todos se afastaram um pouco dele, a parte onde a luva cobria era muito mais clara que todo o resto da mão.
– Você pode me dar o benefício da dúvida ou o peso da certeza.
– Está mesmo me desafiando?
– Pode apostar.
Cassie deu um pulinho e riu batendo palmas como uma criança diante do presente de Natal.
– Eu tô dentro. Não perco essa por nadica de nada.
– Então vamos? – Marcus perguntou sem se mover, Victória deu as costas.
– Tô dentro. – falou adiantando-se na frente
– Isso vai ser melhor do que eu imaginava. – Marcus colocou a luva de volta
O quarto de Marcus era grande e já revelava bastante a sua personalidade, havia uma prancha na parede oposta á cama, o conjunto da cama tinha desenhos de praia e sol, as janelas estavam o mais aberta possível, o vento balançava as cortinas verdes. Eles estavam sentados num círculo mal feito no chão, havia uma caixa de papelão e um copo na mão de Rick.
– Não vai ser chato brincar com Nataly já que ela lê pensamentos?
– Infelizmente não – quem respondeu foi Marcus olhando profundamente para Nataly – minha amiga não tem seu dom aperfeiçoado e ouve pensamentos raramente.
– E você sabe muito bem disso porque usou seu dom em mim. – Nataly fez uma careta
– Você gostou de ser usada por mim, todas elas gostam – piscou brincando – Vou mostrar nossa punição – levantou e foi para o banheiro, voltou de lá com duas garrafas de uísque – Essas são minhas crianças.
– Então quem perder ou errar vai beber? – os olhos de Victoria brilharam
– É isso aí. Vamos começar.
Retângulos amarelados foram distribuídos, a folha de papel havia sido dividida em inúmeros pedaços, com a caneta sobre o papel Lyss não sabia ao certo o que escrever. Não tinha muitos segredos.
– Pra aquecer vamos começar com um segredo bobo. – dizia Marcus escrevendo
No silêncio que se seguiu só as canetas falavam, contavam segredos para o papel.
Primeiro Rick jogou o papel dentro da caixa e colocou-a no meio, a sequência de papéis arremessados na caixa seguiu. Nataly, Charles, Marcus, Lyss, Carlie tentou acertar o cesto e errou, Rick pegou o papel dela e fingiu abrir.
– Não ouse! – ameaçou Carlie
O papel de Carlie foi devolvido á caixa por Rick, Victoria amassou seu segredo e jogou acertadamente na caixa, depois Louis e Cassie.
– Vamos lá. – Marcus pegou a caixa na mão e balançou-a, para se certificar remexeu os papéis com uma das mãos.
– Vamos com isso. – Nataly reclamou
– Temos que nos certificar de que está tudo bem remexido. – pegou o copo da mão de Rick e colocou no meio junto com as garrafas de uísque
– Quero começar. – falou Lyss
– Não poderia ser de outra maneira. – Marcus piscou
Lyss só bebia em uma ocasião, mas, agora depois de ter dado Adeus a tantas coisas de sua vida na Califórnia sentia que estava livre para abrir aquela exceção, tinha dezessete anos, nunca cometeu bobagens, era a sobrinha perfeita, namorada perfeita, ex-namorada perfeita, melhor amiga perfeita... Foi tantas coisas menos uma Bruxa. Menos aquilo que realmente era. Podia começar infringindo algumas regras que impôs a si mesma.
Enfiou a mão na caixa e puxou um papel.
– Não queria ser uma Bruxa. – leu em voz alta a frase que já conhecia tão bem.
Ficou olhando aquele papel amassado e olhou os presentes na roda, poderia ser ela mesma quem escreveu aquele papel, poderia ser qualquer um.
– Esse é o segredo de Nataly. – chutou
– Tem certeza? – Rick perguntou
– Nataly. – Lyss afirmou seguramente
Uma garota bonita, charmosa, com estilo e graça como ela poderia ser mais parecida com Lyss do que qualquer outra.
– Vai ter que beber. – disse a garota com sotaque britânico
– Ah. – Lyss ia devolver o papel quando ela interrompeu
– Brincadeira. Ela acertou de primeira.
Os bruxos aplaudiram.
– Minha garota. – falou Marcus com ar sonhador – Minha vez. – pegou um papel
Ele leu pra si mesmo e o sorriso desapareceu.
– Eu sou virgem. – leu em tom apreensivo
– Isso sim é uma novidade. – Charles caçoou
– Está no papel idiota. – Marcus virou o papel para eles
Eles riram.
– Vamos lá – ele fitava o papel com cenho franzido – Acho que esse é de Louis. – esperou a menina responder
– Errado!
Os meninos se acotovelaram.
– Esse não é meu segredo. – Louis explicou sem jeito
– Bebe Marcus!
Um coro entoou: — Bebe, bebe!
Marcus colocou uma dose no copo e virou-o tendo como fundo sonoro os gritos empolgados dos garotos. Foi a vez de Charles pegar um papel.
– Já sofri um aborto. – ele leu com apreensão – Esse é tenso.
– Sem julgamentos. – Lyss pediu tomando as dores
– O quê é seu segredo? – perguntou surpreso
– Não, mas...
– Devolve o papel Charles, já perdeu. – Nataly interrompeu
– Mas, eu não disse... – Nataly tomou o papel e atirou na cesta
– Sem “mas,”.
Vick pegou o próximo segredo: “Já transei com minha prima”.
– Charles. – ela disse sem titubear
– Como sabe? – ele surpreendeu-se com a segurança dela
– Que prima Charles? – Carlie queria saber
– Não importa! – ele disse com ar entediado
– Minha vez. – pediu Louis, ela pegou um papel e leu – Ah, é aquele que Marcus tirou, sobre a virgindade.
– Quer saber? – Marcus interrompeu – Está chato.
– Que tal “Verdade ou Consequência?”
– Mas, nem todos os segredos foram abertos.
Por votação Cassie perdeu, todos queriam brincar de Verdade ou Consequência.
– Quem não escolher verdade bebe, é isso? – Louis quis saber
– Isso vai ser ótimo. – esfregando as mãos Nataly completou – Quero ser a primeira a girar.
No centro da roda foi colocado um espécime esculpido em madeira, tinha uma base e uma seta que podia ser girada, era um troço interessante. Nataly girou e a pergunta seria feita para Charles. A maneira como estavam sentados no chão permitia que a maioria das perguntas fosse de meninos para meninas e vice-versa.
– Verdade? – fez uma pausa, piscando – Ou consequência?
– Verdade. – disse sem hesitar
– Qual seu maior medo?
Houve vaias e expressões de aborrecimento por alguns.
– Vale pergunta besta? – Carlie quis saber, provocando.
– Claro que vale. Vamos ser civilizados e fazer perguntas sentimentais e profundas também. – Marcus respondeu.
– Tenho muitos medos, mas, um dos maiores é: Que os humanos me descubram um dia e queiram fazer experiências comigo. Pronto, falei.
– Já tive pesadelos com isso. – murmurou Nataly
Houve alguns comentários ininteligíveis.
– Minha vez de girar. – disse Charles
– De Charles para Louis. – murmurou Cassie quando a seta parou
– Como foi sua primeira vez? – Charles se inclinou no círculo, com os olhos semicerrados.
– Eu não ainda não escolhi verdade ou consequência. – respondeu Louis revirando os olhos
Marcus tombou Charles e mais reclamações aconteceram.
– Tá na cara que ela não vai querer consequência, né galera?
– Eu escolho consequência. – Louis disse calando a todos, despreocupadamente pôs uma dose de bebida no copo e virou de uma só vez provocando gritos e ovações.
A seta apontou de Louis para Marcus que escolheu ‘verdade’.
– Fantasia sexual.
– Eu nem sabia que Louis falava essa palavra. – Carlie provocou
– Por incrível que pareça eu quero uma transa com luz de velas e pétalas de rosas.
– Fala sério, Marcus. – Lyss disse enquanto os outros reclamavam
– É sério. Todas as que rolaram foram por impulso, na praia, em boates. Eu queria fazer uma coisa acertada pelo menos uma vez. Alguém se dispõe? A gente pode providenciar as velas e as rosas ainda hoje. – brincou piscando para as meninas.
Algumas riram, Carlie gostou.
A seta foi girada de novo, de Marcus para Lyss.
– Verdade ou Consequência?
– Consequência. – Lyss sorriu e riu quando ele lamentou a escolha
– Por causa disso vai ter que tomar uma dose dupla, eu estava com as perguntas pra você já formada em minha cabeça.
– Não vou aceitar a dose dupla, porque sou fraca pra álcool. – virou o copo sentindo o líquido quente queimar a garganta
As perguntas iam variando, de sexo á vida cotidiana, mas, provavelmente nenhum momento foi mais esperado do que quando Rick apontou a seta pra Victoria.
– Verdade?
– Verdade. – ela assentiu pegando o copo do centro do círculo
– Qual foi a pior coisa que você já fez?
Enchendo o copo até a borda ela respondeu:
– Incendiei um orfanato. – dito isso bebeu o conteúdo do copo num só gole.
A essa altura Lyss já estava tonta de tantos copos entornados. Principalmente quando era Marcus quem estava prestes a fazer a pergunta, tinha certeza de que foi quem mais havia bebido até agora.
– Gente eu acho que vou parar por aqui. – a voz estava meio arrastada
– Quer que eu te acompanhe ao seu quarto? – perguntou Marcus – Posso arrumar as velas e as rosas num segundo.
Lyss não se deu o trabalho de responder, mostrou a língua pra ele e saiu do quarto. O resto do caminho passou num borrão, mas, enfim deitou-se na cama pra descansar a noite mal dormida.
No segundo seguinte estava na floresta, o chão estava úmido, chovera recentemente, a copa das árvores também estava molhada. Lyss olhou ao redor, a luz era pobre, estava frio, olhou para o chão, os pés descalços estavam sujos de areia escura. Aquilo devia ser um sonho, ou mais uma visão, mas, seus pensamentos eram tão claros.
– Por que tanta demora? Eu preciso te ver Lyss.
Era uma voz masculina, estava impaciente, aquela mesma voz – Lyss lembrou – aquela que escutou depois de ver Alice no labirinto.
– Você precisa encontrar a verdade, preciso te contar a verdade, preciso te proteger.
Olhando para aquelas sombras ela procurou o medo que devia estar sentindo, em nenhum canto de sua mente, em nenhuma das gavetas ou pedaços de si, não havia sequer temor onde devia haver. Estava em paz. Havia ansiedade também, uma vontade de caminhar pelas árvores e encontrá-lo. Mas, quem era ele? Sua consciência? Havia um sentimento entre todos os outros que desorganizavam-se em seu íntimo, dentre a ansiedade, a confusão, o cansaço, havia uma Confiança que não deveria fazer parte daquele conjunto. Lyss tinha certeza de que aquela voz tão familiar para uma parte de si não era de alguém que conhecia, mas, a maneira de falar, o tom... era tão familiar, como se fosse parte dela mesma.
Os pés estavam fincados no chão frio. A voz vinha até ela através do vento que soprava, não havia remetente físico em nenhum lugar.
– O que eu devo fazer? O que eu devo fazer? Me diga. Eu preciso da verdade – O que eu devo fazer. – o desespero chegava a doer fisicamente
– Venha á floresta. Agora.
Sentada ereta na cama Lyss tinha a impressão de que aquela voz ainda ecoava no quarto, batendo nas paredes. O suor cobria sua pele, estava estranhamente quente ali, ela puxou o vestido grudado do corpo, e tentou normalizar a respiração ofegante. A cabeça doía e sua visão estava turva, a boca seca. Levantando-se devagar ela desceu da cama e parou diante da janela, o vento vindo do mar amenizava a temperatura desagradável. De onde estava ela via as árvores imensas da floresta, estava escuro, o sol já havia se posto a muito. Que horas eram? Ela não sabia. Levantou-se com dificuldade, estava com tanta sede.
Era pra floresta que devia ir, mesmo que alguns de seus leves instintos humanos lhe pedissem pra ficar. Os pés trôpegos a levaram para a janela. Ela estava chamando, a floresta precisava dela, havia algo naquela floresta, algo de mágico, algo que ela precisava, mas, não sabia ainda o que era. Lyss não se lembrava de muita coisa, o fato é que no minuto seguinte estava diante das árvores cogitando se entrava na floresta ou não.
– O que é que eu estou fazendo aqui? – sussurrou baixinho na escuridão – Acho que estou ficando louca.
– Você precisa encontrar a verdade.
Era aquela voz de novo, sussurrada entre as árvores.
– Estou sonhando? – arriscou a perguntar de volta
– Não posso te esperar pra sempre, Lyss. Eles podem me descobrir aqui.
Com aquele aviso, e com uma certeza que não lhe pertencia ela adentrou na floresta, alguns minutos de caminhada, queda e alguns machucados que se cicatrizaram depressa e ela tinha quase certeza de que aquele lugar não estava fazendo bem á ela. O que deveria fazer? Gritar? A quem chamaria? “Olá voz sem rosto, estou aqui. Apareça pra mim.” Ela cogitou naquela possibilidade, mas, se algum Wateaire ouvisse ia achar que ela era louca.
Parando de andar por um momento ela olhou para o caminho de volta, estava tão escuro; ela não fazia ideia de onde viera ou para onde deveria ir, talvez estivesse andando em círculos, os olhos estavam com pouco foco, resultado da bebida ingerida. De repente um barulho nos galhos acima dela chamou sua atenção, Lyss podia apostar que vira alguém ali, o vulto pulou de uma árvore para outra e desapareceu, seu coração batia forte contra o peito, se movendo devagar ela começou a dar passos para trás sem tirar seus olhos dos galhos das árvores. Outro som. Um galho quebrando. Um som ininteligível. Passos. Lyss agora olhava em todas as direções, sabia que foi uma idiotice sair durante a noite num lugar que ela não conhecia, pra completar a situação estava difícil se manter de pé, sua cabeça pesava por causa do álcool. Os passos se aproximavam, então ela viu uma silhueta na penumbra, caminhando em sua direção. Com a respiração ofegante virou-se para correr na direção oposta, foi quando esbarrou com força em algo grande e caiu no chão. Ainda tonta — devido á bebida — abriu os olhos para identificar a árvore em que havia esbarrado.
Não havia árvore nenhuma. Havia um homem, seu cheiro era estranhamente familiar. Ele era alto, parecia ameaçador naquela escuridão, vestia preto. Nunca confie em alguém de preto no escuro. Ela abriu a boca para gritar.
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