Série Elementares - Escolhas (LivroUm)

2 Califórnia, 01 de janeiro, 2011, Sábado.


Califórnia, 01 de janeiro, 2011, Sábado.

Casa de Lucy Stevens.

Lyss

A música estava tão alta que eu mal ouvia meus pensamentos, a festa de Lucy, minha tia, durava dois a três dias e nada menos do que isso, na passagem de ano no dia anterior ela e os amigos beberam a beça na praia, agora era a segunda parte da festa onde havia mais bebida e drogas. Lucy nunca foi uma tia modelo, mas, era a melhor amiga que alguém podia ter, isso quando estava sóbria, é claro. Quando bebia, ela ficava com pena demais de si mesma para notar qualquer outra pessoa. Eu mal conseguia me mover com tanta gente, por isso empurrei os mais bêbados e fui pra cozinha me servir de mais refrigerante, eu só bebia álcool dois dias depois de meu aniversário e nunca, além disso.

– Lyss?

Ouvi alguém me chamar, mas, podia ser só impressão, diante de tanto barulho eu não me surpreenderia se estivesse tendo alucinação, mas, a mão familiar em meu braço me fez crer que minha sanidade estava no lugar. Era Chris quem me chamava. Eu estava tão ansiosa para sair daquele lugar que o segui, a mão em meu pulso me guiou entre as pessoas e logo estávamos subindo as escadas para o terraço. Costumávamos fazer aquilo sempre, e mesmo depois do clima que ficara após o nosso término no mês anterior eu estava feliz por ter a felicidade de nossa amizade intacta.

Foi só com a parca luz de um poste próximo que eu vi que ele usava uma mochila, Chris tirou duas lanternas e me entregou uma, era uma espécie de tradição que fazíamos desde que éramos crianças. A gente deitou no chão frio do terraço e ficou olhando o céu, ainda dava pra ouvir os barulhos dos apartamentos e da rua ao longe, mas, diante da imensidão do céu aqueles sons se tornaram pequenos.

Eu gosto de olhar para o céu, quando eu era criança era bom imaginar que meus pais estavam ali em algum lugar, agora que eu tinha 16 anos e estava prestes a fazer 17, dali a alguns dias, eu gostava de pensar que meus problemas e preocupações ficavam pequenos e irrelevantes diante daquela grandeza azul marinho repleto de pontos brilhantes.

– Como foi a festa com seus pais? – perguntei á ele com minha lanterna na mão

– Chata. Todo fim de ano é a mesma coisa, eles fingem que tudo está bem, mas, tá na cara que meu pai quer o divórcio.

– Eles formam um casal tão bonito.

– Seria bom se tudo fosse isso, assim nós dois ainda estaríamos juntos.

Era o assunto proibido e evitado durante semanas, mas, inícios de ano era a época de dizer tudo, a vida nos dava 365 dias, 363 para fazer besteiras e rir de coisas que seriam bobas mais tarde e 2 dias para chorar e lamentar sobre elas. O primeiro dia do ano era um momento de reflexão, eu não queria falar sobre meu fim de namoro, eu estava feliz tendo-o como amigo, como éramos antes da besteira de tentarmos namorar, mas, Chris queria falar sobre aquilo, por isso suspirei e só murmurei:

– É. Nem tudo é isso.

– Por que terminamos?

Ele já havia me feito essa pergunta antes, eu não respondi sinceramente em nenhuma das vezes que falei alguma coisa, dessa vez escolhi dar de ombros e apontar o facho de luz para o céu. Ele fez o mesmo com sua lanterna.

– Já sabe quais matérias vai pegar na escola? – perguntei desviando de assunto

Estávamos no penúltimo ano do colegial, era o ano de passagem.

– Não.

Fomos eleitos o casal mais bonito e perfeito da escola no ano anterior, ninguém no colégio sabia que havíamos terminado. Chris era meu melhor amigo, eu tinha amigos e colegas, mas, nenhum como ele. Éramos um casal bonito, mesmo. Ele tinha os cabelos num tom lindo de castanho, os olhos eram verde escuro, era alto, doce, popular, fiel, participava da equipe de futebol americano e era uma das apostas para ser capitão esse ano.

– Por que terminamos? Você não pode dizer que não combinamos, ou que brigávamos muito, ou que eu te pressionei de alguma maneira...

– A razão não foi sexo.

Ele falava muito disso porque terminamos uma semana depois de ele quase ter ultrapassado os limites.

– Então o quê? – a voz era calma, mas, a ansiedade estava ali

– Muitas coisas nos separam.

Ele fez um muxoxo

– Você faz parte das animadoras de torcida, eu faço parte do futebol, moramos no mesmo prédio, somos amigos de infância, contamos tudo um pro outro... O quê nos separa? – a voz era baixa e suave, mas, eu era capaz de sentir sua ansiedade e nervosismo.

Eu não podia contar.

– Lyss, eu sei que não sou o melhor namorado do mundo, talvez eu não tenha conseguido te mostrar o quanto eu sinto por você, mas, eu queria mesmo outra chance... – ele se interrompeu balançando a lanterna para o céu – Talvez se eu tivesse segurado sua mão com mais força, se eu tivesse lhe dado flores, talvez se eu tivesse te olhado nos olhos quando falo o quanto gosto de você, era pra eu ter te carregado na chuva, te girado e gritado pro mundo que você era minha, era pra eu ter roubado o carro de meus pais e te levado para um bar louco na cidade mais próxima, era pra eu ter te levado pra acampar, talvez se eu tivesse feito coisas como dedicar uma música pra você na rádio da escola, e te homenageado em cada boa jogada que fiz, talvez se eu tivesse feito tudo isso você ainda seria minha.

Revirei os olhos e aceitei sua mão, desliguei e acendi minha lanterna para o céu e dei um sorriso nervoso.

– Você fez tudo isso, Chris.

Eu me lembro de como as garotas me invejavam por namorar um dos caras mais bonitos da escola, e como ele jogava beijos pra mim quando fazia bons passes, e sempre dedicava músicas fofas pra mim na rádio da escola, lembro do dia que nós fomos para um bar super esquisito com o carro dos pais dele e dançamos ao som da jukebox, naquele mesmo terraço havíamos acampado tantas vezes que cheguei a ficar resfriada. Eu mal podia contar a quantidade de flores que Chris havia me dado.

– Então o problema é um pouco mais sério. – disse ele num suspiro doloroso

– Quer mesmo falar sobre isso?

– Quero. Eu preciso de uma explicação plausível.

Afastei as mechas de meu cabelo. Eu queria não sentir nada por Chris, queria não precisar dele, nem tê-lo como melhor amigo, queria que ele não fosse a única pessoa que me entendia de verdade apesar de não saber de tudo o que eu escondia, queria que ele não fosse um namorado perfeito e eu pudesse dizer que era tudo culpa dele, mas, eu estava de mãos atadas.

– Eu queria que minha mãe estivesse aqui para me dar conselhos. – confessei

– Aposto que ela diria que é uma bobagem terminar com um partidão como eu.

Eu ri.

– Claro que diria.

Ficamos em silêncio olhando as estrelas, foi quando uma estrela cadente passou.

– Rápido, faz um pedido. – ele falou. Adorava aquilo.

Fechamos os olhos, ele apertou minha mão antes de soltá-la. Pensei sobre meus pais e sobre como o vazio que eles deixaram era difícil de preencher, pensei no novo ano que estava começando e em como seria difícil aturar as perguntas. Dentre todas as opções que eu tinha escolhi fazer um pedido nada específico.

Eu só queria que tudo se encaixasse.

Quando abri os olhos vi o rosto de Chris muito perto, meu coração deu o tão familiar pulo ao sentir o hálito quente em meu rosto. Eu podia empurrá-lo, ou me esquivar depressa, ele demorou tempo suficiente para eu me decidir, sempre deixava as decisões na minha mão daquele jeito. Talvez aquela fosse a resposta para meu desejo, então fechei os olhos de novo sentindo os lábios macios sobre os meus.

– Desejo realizado. – ele murmurou antes de me beijar