Olhava as mãos sem entender. Por que diabos ela ajudou Edward Cullen na noite anterior? Isabella tentava se convencer de que fora por pena, mas inconscientemente sabia que mentia.

A imagem de um rapaz bêbado, deitado de qualquer jeito na cama king size e cheio de hematomas no rosto tocou o coração da Swan. Lembrou-se do pai, Charlie, constantemente machucado por causa das quedas que sofria quando estava bêbado. Se não fosse por ela, pela única filha, o patriarca não teria durado muito. Tais sentimentos moveram a Swan, a pena e a comparação ao pai. Pelo menos era o que ela tentava se convencer.

Levantou-se tarde; também pudera, ela dormira poucas horas. Tomou um demorado banho, vestindo um suéter cor de rosa e uma calça caqui, aquisições dadas por Edward no dia anterior. Seguiu para a cozinha, sabendo que naquele horário, dez e vinte quatro da manhã, perdera o café.

Esbarrou com Lauren no corredor, assustando-se. Evitava a empregada há dias, intimidada pela animosidade que ela emanava.

-Ora, a princesinha acordou! –Desdenhou a loira, olhando para Bella dos pés a cabeça. –A mesa do café já foi recolhida, mas Angela está trazendo café para você. Então volte ao estado de bicho do mato e dê meia volta para o seu quarto! –Os olhos de um verde musgo emitiam uma aura maligna fortíssima, fazendo Isabella recuar dois passos. O susto durou alguns instantes. A Swan já sabia aquela altura que demonstrar fraqueza não era uma boa coisa. Estufou o peito e se aproximou o máximo que pôde.

-Eu mal acato as ordens do todo poderoso Cullen, que dirá acatar ordens de uma Zé ninguém como você! –Esbravejou, empurrando uma Lauren atônica para o lado e seguindo rumo à cozinha.

Bella não pôde ver, e foi bem melhor não ter visto, o olhar enraivecido lançado pela empregada. A guerra, por fim, estava declarada.

...

Não soube dizer exatamente o que o despertou. Esperava que os remédios, tomados após retornar do aposento da Swan, fossem mante-lo dormindo até o anoitecer. Com o torpor dos analgésicos fora do seu corpo, sentiu dores no abdômen e rosto. Poderia ser pior, refletiu. Se não fosse pelos cuidados de Isabella, mal poderia se levantar.

Levantou-se a fim de se higienizar. Retirou as vestes que o cobriam desde ontem e evitou propositalmente ver o seu rosto no espelho do banheiro. Não pôde evitar, todavia, ver os hematomas na barriga e peito, feitos pelos sapatos italianos de bico fino do mais forte dos capangas de Aro. Estavam arroxeados e doloridos, precisando de uma olhada clínica. Edward decidiu ligar para Jasper quando o momento fosse mais oportuno para um check-up completo.

O Cullen surpreendeu-se ao encontrar uma bandeja caprichada em cima de uma pequena mesa em seu quarto. Felizmente a pessoa, muito provavelmente Angela, que deixou a comida não estava mais no aposento. Edward aproximou-se da comida, beliscando uma ou duas coisas. Foi ao closet pegar algo para vestir e viu, com desgosto, o rosto inchado do lado onde recebera socos de Felix e um corte quase imperceptível em uma das bochechas.

“Aquele filho da puta ainda me paga!” –Pensou enquanto afastava-se do closet. Quase não tocou na comida, como se os órgãos do sistema digestivo estivessem tão doidos ao ponto de recusar alimentos.

Edward, a fim de evitar que alguém o visse naquele estado, pegou a bandeja, deixando-a em frente ao quarto. Após enxugar o corpo, tomou dois comprimidos para a dor e foi se deitar novamente.

Enquanto os comprimidos faziam o efeito desejado, dando ao Cullen mais horas de sono, Edward refletiu sobre a descoberta envolvendo a Swan. Não havia duvidas de que ela cuidara dele durante a madrugada, mas a questão era: por quê? Se Bella o odiava, ao ponto de ridicularizá-lo na noite anterior, por que cuidara dele? Seria ela humana demais ao ponto de tratar de um odioso inimigo ou o ódio que sentia estava se esvaindo?

O Cullen adormeceu antes de chegar a uma conclusão.

...

-Eu iria levar o seu café da manhã, assim como levei o café da manhã do senhor Cullen até o aposento dele. –Angela dizia enquanto colocava sobre a mesa da cozinha uma xícara para Isabella.

-Está tudo bem. Não quero dar esse trabalho extra. –Bebericou do copo de suco de laranja a sua frente. –Disse que foi levar o café da manhã do Edward até o quarto dele... Ele ainda está aí?

-Sim. Acredito que não trabalhará hoje. É sempre assim quando... –Angela se interrompeu, evitando o olhar perscrutador de Bella. –O senhor Cullen provavelmente ficará em casa o dia todo.

O espanto da Swan com o enunciado da empregada foi esperado por ambas. Edward trabalhava de domingo a domingo em seu escritório, com ou sem a ajuda de sua secretária, quando esta tinha seus dias de folga. Isabella já estava vivendo na casa há quase quinze dias e nunca o viu faltar um único dia ao trabalho. Refletiu, curiosa, se o rapaz tinha familiares ou amigos que o convidariam a aproveitar um dia que fosse da semana com algum tipo de divertimento.

Provavelmente não era esse o caso.

Nenhum porta-retrado pela casa com fotos de algum familiar ou amigo, nenhuma saída inesperada para algum tipo saudável de diversão. Edward Anthony Masen Cullen parecia ser alguém vivendo em uma bolha, sem um contato intimo com ninguém.

-Você o viu? Como ele está? –A pergunta escapou e Bella se arrependeu assim que disse essas palavras. Angela pareceu surpresa com a aparente preocupação da menina.

-Quando eu entrei no aposento, o senhor Cullen já estava de pé. Não o encontrei no quarto, provavelmente estava no escritório anexo ao quarto ou no toalete. A senhorita deve saber que ontem... Ontem o senhor Cullen chegou muito machucado.

-Sim. Eu o vi, inclusive. Ainda estava sujo de sangue. Por que ele não vai a um hospital? –Olhou para Angela, sentada a sua frente na mesa, e Betha, que preparava uma sobremesa para mais tarde. Foi a empregada mais velha que respondeu.

-Jasper Withlock é o seu médico de confiança. Deve estar fora da cidade. Quando ele está aqui, aquela criança o procura e é atendida. Quando ele não está, ele volta para cá e fica enclausurado no quarto. –Betha suspirou.

-Isso acontece com freqüência? –Foi uma pergunta retórica, afinal a Swan soube pelo modo como Angela e Betha falavam sobre o assunto que Edward era constantemente agredido. Só não imaginava quem poderia ir de encontro aquele poderoso homem ao ponto de prejudicá-lo.

As empregadas se entreolharam, temerosas por revelar coisas a respeito da vida do patrão. As regras da casa não eram impostas apenas para os “agregados”, mas também aos empregados. Silêncio e discrição eram as regras para aqueles que trabalhavam ao lado de Edward Cullen.

Lauren entrou como um foguete, pegando o material de limpeza na área de serviço e saindo da cozinha a passos firmes. Lançou um olhar enviesado para a Swan, que mais uma vez ficou bestificada com a fúria contida nos olhos azuis. As demais empregadas nada falaram sobre o comportamento agressivo da menina, uma vez que já estavam acostumadas com as atitudes quase hostis da loira.

Ao final do café, Bella se permitiu ficar naquele local, ouvindo o dialogo das empregadas. Falavam sobre coisas banais e, ouvindo a conversa delas, descobriu que Betha era viúva e seus dois filhos viviam fora do país. Angela sustentava duas irmãs pequenas, gêmeas, pois o pai as abandonara e a mãe fora aposentada por invalidez. Logo Erick e Benjamin, que haviam saído, retornaram e participaram da conversa. Erick era filho único e às vezes trabalhava em danceterias da região como DJ. Ben emancipou-se cedo e desde que saira de casa nunca mais havia pisado os pés lá. Bella especulou que talvez ele não tivesse um bom relacionamento com os pais dele.

Muitas histórias, cada uma esperando por um “felizes para sempre”, que não viria.

Por lá permaneceu até o horário do almoço, comendo com os demais empregados. Mesmo com a presença de Lauren no recinto, a menina sentia-se confortável. Estar ao lado de pessoas simples remetia a um passado não muito distante, onde coisas do cotidiano eram a sua única preocupação.

Por fim decidiu voltar ao próprio quarto, não muito animada com a ideia. As paredes, a cada dia, pareciam fechar ao seu entorno, sufocando-a.

Não foi ao quarto como planejou. Embora Angela tivesse mostrado cada cômodo do gigantesco apartamento, Bella estava desorientada demais no dia, não dando atenção a menina. Queria explorar a sua nova morada, evitando propositalmente o cômodo onde Edward dormia.

A verdade é que não conseguiu de fato explorar o ambiente, pois ao abrir as portas duplas de um dos espaços deparou-se com uma biblioteca imensa.

-Minha nossa! –Exclamou, olhando para as prateleiras e mais prateleiras, abarrotadas de livros. Uma biblioteca maior do que aquela da sua antiga escola, onde passou incontáveis horas apenas lendo livros. Bella era, afinal, um rato de biblioteca.

...

Às nove e vinte e um da noite, Edward Cullen despertou. Permaneceu por mais vinte minutos deitado na cama, recuperando-se de tantas horas dormidas. Levantou-se, olhando ao redor. Tudo estava no seu lugar. Tocou o rosto, imaginando que encontraria algum indicio de cuidados, mas nada encontrou.

Bella não voltara ao quarto para cuidar dele.

Sentiu uma profunda inquietação com essa constatação. Saiu do quarto, sabedor de que os empregados a muito já haviam se recolhido e muito provavelmente não o veriam. Migrou para o quarto de Isabella, ao lado do seu, mas não a encontrou.

“PORCARIA!” –Andou apressadamente pelo corredor, acreditando que Isabella poderia ter fugido. Que outra explicação encontraria para o fato de, àquela hora, a menina não estar no aposento? Estranhou a luz em sua biblioteca particular, que costumava ficar fechada boa parte do dia com as luzes apagadas.

Caminhou cautelosamente, observando pela pequena fresta o que se passava no local. Avistou Bella deitada em uma espreguiçadeira, lendo um livro. Não pôde ver o rosto da menina, mas pela postura relaxada e risos contidos que ouviu ela parecia estar se divertindo a valer.

Ele poderia ter entrado no aposento, mas não o fez. Sabia que quebraria aquela paz de Isabella se entrasse na biblioteca, com o rosto marcado por hematomas como o fantasma da ópera. Tampouco voltou ao seu quarto. Ficou ali, de pé, olhando a menina ler, compenetrada, ao livro por incontáveis minutos. Não sentiu cansaço por estar de pé e até ignorou as dores ainda presentes no corpo.

Pouco a pouco o livro que as pequeninas mãos seguravam foi tombando para o lado até pousar delicadamente no chão. Foi só nesse momento que Edward entrou, aproveitando-se do fato de Bella estar cansada demais para notá-lo.

A face bonita mostrava uma serenidade que nunca havia visto e o rapaz contemplou aquela imagem por um milésimo de segundo antes de Bella quebrar o momento, despertando. Longe de assustar-se com a presença do Cullen, a Swan o olhou plácida. Devia estar sonambula, pensou Edward.

-Deveria ter ido ao meu quarto. –Disse o rapaz, sentando-se na espreguiçadeira.

-O que eu faria lá? –Isabella replicou numa voz grogue de sono.

-Cuidar dos meus ferimentos, verificar se eu estou bem ou simplesmente me satisfazer. –Sorriu sarcástico. Bella não esboçou nenhuma reação ao comentário.

-Ou mandá-lo para o inferno. –Bocejou, fechando os olhos. As palavras ríspidas da Swan não aborreceram Edward, muito pelo contrário. Aquele era, afinal, o jeito da menina.

Pegou o livro do chão, lendo o seu título – Os homens que não amavam as mulheres de Stieg Larsson.

-Estou em débito com você. O que vai querer em troca? –Pensou que Bella já estivesse dormindo e muito provavelmente não responderia, por isso ficou surpreso quando ouviu a voz da menina.

-O livro. –Aconchegou-se melhor na espreguiçadeira, deixando o cansaço engoli-la. Edward acabou por deixar o livro nas mãos da menina.

Cansada como estava, Bella não tinha condições de chegar ao quarto sem ajuda. Percebendo isso, Edward tomou a Swan nos braços, carregando-a cuidadosamente. Bella não protestou, parecendo quase satisfeita por estar nos braços do rapaz.

As dores no corpo pareceram gritar ao deixar Isabella na cama, fazer esforço não era uma boa ideia. Pegou o livro das mãos de Bella, deixando-o no criado mudo. Em seguida cobriu o corpo feminino com o edredom da cama. Sentou-se ao lado da Swan, observando cada movimento mínimo que o corpo fazia.

-Por que você me ajudou? Não era você que me odiava tanto? Por que se importar com alguém como eu? –Levantou-se, seguindo para a porta.

-Eu faria isso por qualquer um. Por um familiar, um amigo, um conhecido, alguém que eu nunca vi, por um animal abandonado... E por alguém que eu detesto. –Fria e implacável nas palavras. Foi dessa forma que Isabella replicou Edward, atingindo-o como uma ogiva atingiria uma construção qualquer.

Pensou em voltar e descarregar nela a súbita raiva que o tomou, mas logo sufocou tal pensamento. Por que deveria ficar tão chateado com uma coisa que nem novidade era? Admitir o incômodo sentido seria o equivalente a demonstrar fraqueza perante a menina.

Abriu a maçaneta da porta, pretendendo sair daquele lugar sem sequer olhar para trás, mas a mesma voz que praticamente o escorraçou com um comentário foi à voz que conseguiu mante-lo ali ao perguntar:

-Você está melhor?

Edward virou-se, verificando que os olhos castanhos estavam bem abertos. Bella estava consciente ao perguntar como ele estava.

-É preciso muito mais do que isso para me matar. –Sorriu amargamente.

-Foi o Aro, não foi? E não é a primeira vez que isso ocorre pelo que eu soube. Por que continua a trabalhar para ele? –Mesmo sonolenta, a curiosidade ardia na Swan. E diante daquele olhar intimidador que a pequena emanava, Edward não pôde mentir ou se esquivar da pergunta.

-É complicado... Mas só para que saiba, eu também tive que me sacrificar por uma pessoa que eu amava. E mesmo vivendo em um inferno, eu não me arrependo da decisão que tomei. Mesmo que ela já não esteja aqui neste mundo. –Esme. O nome veio sem querer na mente do rapaz, trazendo lembranças desagradáveis à tona. Tentou se concentrar no presente, em Isabella, até voltar a dar atenção à moça que já dormia.

Deveria deixar o quarto e ir até o seu aposento, mas ver aquela frágil garota adormecida causou algo no seu peito. E a preocupação que ela teimosamente tentava esconder mostrava uma doçura desconcertante. Por esse motivo ele se afastou novamente da porta, voltando a sentar na cama.

Bella abriu um pouco os olhos ao sentir dedos acariciando sua bochecha em movimento circulares. Viu Edward bem próximo e nada pôde fazer para detê-lo. O rapaz abaixou-se o suficiente, até os lábios se tocarem. Foi breve o beijo, mas, apesar da simplicidade, disparou cargas elétricas no corpo da Swan.

-Esqueci-me do beijo de boa noite. –Murmurou Edward para uma menina atônica, antes de desaparecer pela porta do quarto.

Aquele ato de extrema delicadeza do Cullen foi tão poderoso ao ponto de manter a Swan acordada durante boas horas. Em contrapartida, Edward adormeceu rapidamente, sentindo-se bem apesar de tudo o que sofrera nas mãos do Volturi.

Notas finais
Oi gente! Primeiramente gostaria de esclarecer uma coisa: eu sei que a boutique escolhida pelo Edward para comprar roupas na vida real é uma loja apenas de sapatos. Não me preocupei em procurar de fato uma loja de roupas, até por que a história é ficção. Usei o nome apenas.
E a promoção continua! Ontem esse capítulo foi enviado para as mensagens privadas aqui no nyah a algumas pessoas, pois seus comentários foram escolhidos como os melhores do capítulo anterior. Deixem seus comentários aqui e caprichem. Quando eu digo para capricharem não espero que poetizem sua opinião ou algo do tipo! XD Já comecei a escrever o capítulo sete, mesmo dizendo anteriormente que iria priorizar O contrato. Eu sei, eu sei, eu preciso me focar nas outras fics, mas é que estou tendo muita inspiração para essa e fica difícil largar! Farei o possível para cumprir o que prometi.
Ah e quem ficou curioso em saber como é o vestido que Edward comprou para Bella, segue a imagem que divulguei no meu twitter: https://twitter.com/#!/jacksampaio/status/161159413636407296/photo/1
Lindo, não é? A Nicole Kidman usou no Globo de Ouro e eu amei! Logo logo a Swan terá a oportunidade de usá-lo, arrasando corações e chamando a atenção de um certo alguém, além do próprio Edward.
Ah e eu já comentei o quanto estou adorando os comentários de vocês? Mesmo não respondendo a todos como eu gostaria, leio todos os comentários.
Então... raramente eu tenho a oportunidade de conversar com meus leitores. Não sou frequentadora de msn. Como vocês estão? Fiquei preocupada com todas essas catástrofes climáticas que estão acontecendo em decorrência de chuvas e fiquei me perguntando como estariam os meus leitores. Mandem notícias! Qualquer coisa falem comigo pelo twitter (@jacksampaio), pelo facebook (http://www.facebook.com/jacqueline.sampaio) ou por e-mail (jack-sampaio@hotmail.com). Também estou aceitando sugestões de músicas para me ajudarem a escrever.
Beijos a todos e a todas.