Capítulo 5

Olhando para os dedos da mão, Bella contou mentalmente há quanto tempo residia na casa do Cullen.

-Quatorze dias. –Pensou alto, chamando a atenção de Angela que cuidadosamente trançava seus cabelos.

-O que disse senhorita Swan? –Perguntou, acreditando que Isabella lhe dera uma ordem.

-Só estou calculando há quanto tempo moro aqui. –Olhou para a sua imagem refletida no grande espelho, que era fundo do seu closet. Terminada a trança nos cabelos cor de mogno de Isabella, Angela refletiu a respeito do comportamento da menina nos últimos dias, que mudara da água para o vinho. Não se ouvia mais discussões entre ela e Edward, muito embora ainda pairasse entre eles certa animosidade. Bella cumpria impecavelmente as regras impostas pelo dono da casa e, como sempre, não causava nenhum transtorno. Pelos acontecimentos de certa noite, ainda desconfiada do que ocorrera entre Bella e Edward, Angela chegou a vigiar o corredor algumas vezes, mas não presenciou nenhuma cena que denotasse violência, sequer ouviu algum grito.

-A senhorita parece ter se acostumado a casa e as regras impostas pelo senhor Cullen. –Disse a empregada casualmente, olhando Isabella através do espelho. Viu o rosto antes plácido transformar-se em uma carranca e constatou que havia falado uma besteira.

-Acha que alguém em sã consciência se acostumaria a isso?! O fato de eu ficar calada, agüentando todo o tipo de abusos, não significa que eu estou alegre e em paz! –Esbravejou, não tendo exatamente Angela como seu alvo, apenas um pensamento seu estava sendo verbalizado.

Angela murmurou desculpas e ambas seguiram para a sala de jantar, onde o café da manhã estava sendo servido pelos demais empregados.

Quatorze dias. Durante esse tempo, pouca coisa mudou. Bella servia a Edward todas as noites, amaldiçoando-se toda que vez se deixava ser beijada, abraçada, tocada e tantas outras coisas, afinal de contas mais do que odiar ceder a ele, Bella odiava gostar das sensações que assaltavam seu corpo. Desprezava Edward Cullen com todas as suas forças, assim como desprezava os empregados da casa que assistiam calados a tudo.

Portanto a existência de Bella consistia em sair do quarto apenas durante as refeições e quando tinha que servir a Edward, passando a maior parte do tempo confinada naquele aposento. A fim de passar o tempo, assistia a programas idiotas na televisão ou simplesmente ficava sentada em uma cadeira na sacada do seu quarto, olhando o nada e pensando na vida.

Essa, definitivamente, era uma existência patética.

Será que algum dia sairia daquela casa para poder viver novamente sua vida, ou o que sobraria dela? Não acreditava que Edward fosse querê-la para sempre como amante. Haveria um momento em que ele desejaria mulheres mais novas, descartando Bella. A Swan ansiava por esse momento, no qual finalmente se libertaria do martírio em que vivia.

Além de ficar boa parte do dia confinada em um quarto, falando pouco com todos os agregados da casa, ainda havia o relacionamento com Edward. O rapaz mantinha-se numa postura fria e rude, distribuindo ordens e nada mais. Mas quando estavam a sós, no quarto dele, a história era outra. Enquanto a tocava, beijava e fazia tantas outras coisas, Edward mostrava uma paixão que ninguém poderia imaginar fazer parte dele. Não que Bella estivesse totalmente a par disso, absolutamente. Ainda mantinha seus olhos fechados, pensando no antigo namorado, Jacob, enquanto Edward tomava o seu corpo.

E dessa forma tocava a sua vida.

...

Algo estava tremendamente errado. Aro devia estar a par do rombo em suas finanças, mas não se dignara a ligar e assim cobrar explicações de Edward. Não que o contador não estivesse feliz pela ausência do mafiosi, claro que estava! No entanto, ele não poderia baixar a sua guarda. Continuava a sua investigação acerca do desaparecimento de milhares de dólares, sendo ajudado por alguns homens de confiança que residiam no Brasil. Desconfiava que o possível ladrão fosse alguém de extrema confiança de Aro, que possuía acesso a alguns dados bancários. O Volturi não era de confiar nas pessoas, com exceção de seus dois irmãos: Marcus, o mais velho e o controlador do que restara da máfia na Itália, e Caius, o irmãozinho inconseqüente que só sabia gastar. Um deles era possivelmente o ladrão e Edward precisava unir provas para incriminar o larápio antes que Aro decidisse dar as caras.

Como se não bastasse o problema com o patrão, Edward ainda enfrentava uma situação desconfortável em casa. Bella estava obedecendo impecavelmente às determinações dele, mas ficava nítido nos olhos castanhos o ódio que a menina sentia por ele. E quando os dois estavam a sós no quarto do Cullen fazendo amor, Bella serrava os olhos, abrindo-os somente quando tivesse acabado. Ainda que a ideia tivesse sido sua, Edward não suportava tal comportamento. Ao agir dessa forma, ficava claro para Edward o quanto Bella o desprezava.

“Eu sou benevolente com ela. Dou tudo àquela ingrata, até prazer!” –Os pensamentos nublavam a mente de Edward, deixando-o mais e mais irritado. Procurou acalmar-se, afinal de contas as atitudes de Bella na cama não deveriam ser motivo para tornar o seu dia miseravelmente ruim.

Deixou se aposento, caminhando apressadamente. Resolvera não atender os demais clientes, reservando o dia apenas para continuar com as investigações sobre o misterioso sumiço de uma quantidade considerável de dinheiro dos negócios de Aro no Brasil. E como em todos os outros dias, encontrou os empregados, de pé, envolta da grande mesa onde eram servidas as refeições. Um coro pôde ser ouvido, dando bom dia ao Cullen. Edward os cumprimentou com um leve aceno de cabeça enquanto os olhos esmeraldinos vasculhavam o local. Lá estava ela, sentada a mesa na cadeira mais distante do local onde Edward costumava sentar. E lá se ia um dia bom.

-Isabella, sente-se aqui. –Indicou a cadeira próxima a sua, sentando-se. Viu a Swan crispar os lábios em irritação. Após lançar um olhar enviesado para a menina, ele finalmente pôde ser atendido.

-Já lhe disse para sentar próximo a mim. Quantas vezes eu terei que repetir? –Disse com uma raiva mal contida na voz. Edward odiava ser contrariado nas pequenas coisas, pois acreditava que se não segurasse as rédeas bem, perderia o respeito e a obediência das pessoas que seguiam suas ordens. aborrecê-lo com pequenas coisas, afinal, era um prelúdio para grandes aborrecimentos.

Bella acatou sua ordem amuada, evitando olhá-lo enquanto servia-se de uma torrada com patê de atum. Edward aproveitou o momento para estudar aquela criatura sentada ao seu lado e sentiu o aborrecimento aumentar quando notou uma coisa.

-Essa é a quarta vez que a vejo nesse vestido. As roupas compradas pela minha secretária acabaram?

-Não posso usar boa parte delas durante esse horário, quando são roupas para sair à noite. E mesmo que eu pudesse, eu prefiro esse vestido. –Isabella olhou para o vestido tomara-que-caia marrom, que colava com perfeição até a cintura, abrindo-se e indo até os joelhos. O tecido de algodão era confortável e gostava da sensação de liberdade proporcionada pelo vestido rodado. Edward continuava a olhá-la de solastio, parecendo não concordar com a lógica da Swan.

-Vamos a uma boutique comprar mais roupas, você e eu. Termine o seu café da manhã e iremos. –Anunciou, finalmente olhando o jornal que Erick estendia para ele. Isabella tentou lutar contra o seu gênio difícil, mas no final não conseguiu aplacar a raiva pelo comportamento do Cullen.

-Não preciso de roupas. Estou vestindo essas novamente por ser uma das mais confortáveis. Já disse isso. –Tentou dissuadi-lo o quanto pôde, mas a careta no rosto bonito de Edward Anthony deixou claro que ele queria, novamente, aceitação incondicional a sua ordem.

-Apresse-se. Não tenho muito tempo livre para gastá-lo assim. –Encerrou a conversa, dando atenção a sessão política do jornal enquanto bebericava de sua xícara de café. Bella tentou pensar em algo para replicar aquela decisão absurda, mas sabia que nada poderia fazer o teimoso Edward Cullen mudar de ideia. Por fim saiu junto a ele, sem questionar, em direção ao centro de Nova Iorque onde existia um complexo de lojas de grife.

Como a Swan esperava, não houve nenhuma troca de palavras entre os dois durante a curta viagem. Edward era fechado e só abria a boca para distribuir ordens, nada mais. Não que Isabella quisesse conversa; para ela quanto menos interagisse com o Cullen, melhor. Não demorou aos dois cegarem a um destino, estacionando em frente à Christian Louboutin Boutique.

...

A gerente fechara a loja a fim de dar exclusividade a um cliente como Edward Cullen. Duas vendedoras, uma adolescente loira oxigenada e uma menina franzina com uma grande quantidade de maquiagem na cara, foram prontamente atender Isabella Swan. Não pareciam muito empolgadas em ajudar aquela pobre infeliz a vestir-se bem, uma vez que Bella, apesar da roupa de marca que vestia, parecia uma pobretona deslocada no ambiente. Mas Edward estava lá, imponente, exibindo beleza, graça e boas marcas cobrindo-o dos pés a cabeça. Conclui-se que elas não estavam atendendo impecavelmente Bella pela menina, mas para agradar ao belo rapaz que acompanhava.

Inúmeras peças de roupa foram levadas a Swan no provador. Edward, enquanto isso, olhava as peças que a própria gerente mostrava, indicando quais ele gostava e queria que fossem levados a Isabella. Escolheu em sua maioria vestidos que pudessem valorizar o belo corpo que ele sabia a Swan ser possuidora e procurou se policiar, escolhendo também roupas confortáveis que poderiam ser usadas em casa.

Sentou-se em uma poltrona, servindo-se de uma dose de uísque que fora colocado em uma mesinha, ao seu lado, pela gerente. Ao passar os olhos distraidamente pelo requintado espaço (observando as vendedoras para lá e para cá enquanto levava para Isabella as peças mais belas e caras da loja) notou um vestido em um manequim de beleza avassaladora. Em cortes geométricos e longo, próprio para algum evento de gala, o vestido cor prata com detalhes dourados era estonteante. Ignorou displicentemente o preço indicado em uma pequena etiqueta e pediu a gerente para que o levasse a Swan no provador. Felicíssima com a escolha da peça mais cara do seu vestuário, Magda, a gerente da boutique, levou pessoalmente o vestido a menina.

As demais funcionárias, claro, viram a peça exclusiva nas mãos de Magda e tremeram de inveja. O que aquela menina franzina tinha para prender um homem como Edward Cullen, ao ponto de fazê-lo vir em uma loja e gastar uma pequena fortuna em roupas?

E elas definitivamente não eram as únicas a fazer tais indagações.

Isabella olhava a pilha de roupas trazidas e que deveria experimentar, as roupas que seriam levadas e as rejeitadas, tiradas rapidamente por uma das vendedoras. O que Edward está fazendo, a menina pensava. Não havia necessidade de comprar tantas roupas, das quais nem metade ela usaria. Propositalmente aumentou a pilha de roupas que não seriam levadas, alegando que estavam ou apertadas demais ou frouxas demais. As funcionarias acreditaram em suas desculpas, afinal não imaginavam que uma mulher recusaria peças exclusivas de uma boutique, sendo que um cara iria pagar.

Após retirar uma calça caqui e um suéter rosa bebê, sentou-se em uma pequena poltrona cor marfim, em frente ao opulento espelho de corpo inteiro. Olhou ao redor do provador, contemplando o elegante espaço que dispunha inclusive de uma mesa recheada com frutas e alguns aperitivos. Levantou-se, indo até a mesinha e pegando um pedaço de queijo brim, mordiscando-o com descaso.

O barulho da porta do provador sendo aberta não chamou sua atenção. Acreditava ser uma das funcionarias carregando mais uma leva de roupas e sapatos. Bella estava cheia de tudo aquilo e desejou refugiar-se na sua imponente prisão na mansão Cullen.

-Está recusando propositalmente roupas, não é? –Ao ouvir o som daquela voz, Isabella virou-se ab-ruptamente. –Enviei roupas a você que caberiam com perfeição e, no entanto, você alegou que não cabiam. –Edward caminhou até ela e Bella, rubra, tentou cobrir-se com as mãos, constrangida por estar só de calcinha e sutiã.

-Tudo isso é desnecessário. Poderíamos ir a uma loja de departamentos comum e comprar roupas básicas. Até parece que eu sairei para algum lugar chique e usaria essas roupas! –Protestou visivelmente irritada.

-Se você se comportar poderá gozar de alguma atividade noturna em minha companhia. Mas só se você for uma boa menina. –Disse o Cullen com sarcasmo, divertindo-se com a irritação crescente de Isabella. Aproximou-se o suficiente para causar na menina um mal estar, algo que não passou despercebido por ele. –Tome.

Não pegou o vestido logo de cara. Isabella ficou a contemplar aquele monte de tecido segurado pelo Cullen. Definitivamente não era o tipo de roupa sequer para ser usada em uma noitada.

-Mas isso é...

-Vamos logo. Vista. –Ordenou, sentando na poltrona assim que Bella levantou.

Isabella, insegura, executou os movimentos lentamente, evitando olhar para Edward. Ainda sim sentia o peso daquele olhar esverdeado sobre si, como se a gravidade da Terra estivesse anormalmente alta ao seu entorno.

Edward observou cada movimento da menina com olhos clínicos. Refletiu acerca das atitudes da Swan nos últimos dias sem querer. Bella não parecia tão apática como antes, alimentando-se bem e até sendo um pouco birrenta com ele. Preferiria a Swan daquele jeito, concluiu, e não a assombração que tanto se assemelhava a mãe. Mas havia algo que o incomodava.

Bella sempre fechava os olhos quando eles faziam sexo.

Fora uma sugestão dele, era verdade, mas esperava que, após algumas noites, a menina agisse diferente. Não aconteceu. Bella mantinha fortemente os olhos fechados quando recebia qualquer toque do Cullen, até a mais inocente das caricias. Pensando em outro cara, concluiu. No inicio esse fato não o aborrecia, muito pelo contrário. Era bom poder aproveitar-se dela sem olhar para os seus profundos olhos cor de chocolate, acusatórios por natureza.

Levantou-se da poltrona e postou-se atrás de Isabella. A Swan se surpreendeu com a aproximação, sequer ouvir algum ruído do Cullen. Edward fechou o zíper do vestido de tal forma que a ponta de seus dedos roçou na pele branca durante o percurso. Isabella estremeceu, olhando Edward através do espelho de corpo inteiro e recebendo dele um olhar tão intenso que chegava a queimar.

Ao invés de tirar as mãos do corpo de Bella quando terminou de fechar o ziper do vestido, Edward envolveu a cintura delgada com um braço, aproximando os corpos o máximo que podia. Aspirou o perfume dos cabelos quando acomodou suas narinas nas madeixas castanhas, fechando os olhos para melhor apreciar aquele contato.

Acuada como um rato enlaçado por uma serpente, Bella reagiu da única forma que podia: fechou os olhos. Sentiu o seu corpo ser virado para ficar de frente a Edward e a mão livre traçar uma linha do queixo ao ombro esquerdo. Logo mais a respiração quente do Cullen estava no seu ouvido.

-Já deveria abolir essa prática de fechar os olhos quando a toco. Isso é aceitável nas três primeiras noites, mas já transamos dez vezes.

-Prefiro continuar desse jeito até você me deixar de lado. –Murmurou, tentando impor força na voz.

-Deixar você de lado? Por que diabos eu faria isso? Você custou caro demais, sabia? –Beijou a orelha da menor, mordiscando-a. A Swan conteve o impulso de empurrá-lo ou gritar.

-Eu vou envelhecer. Preferirá alguém mais jovem. –Disse, sem conseguir calar os seus pensamentos. Bella era assim, afinal.

-De fato. Chegará o dia em que você se revelará inútil para mim. Se for uma boa menina poderá trabalhar como minha empregada, recebendo bem pouco ou simplesmente não recebendo, como uma forma de me pagar. Se me causar problemas, eu a revenderei a qualquer um que ofereça uma boa quantia em dinheiro. –A ameaça fora dita de forma explicita e Bella abriu os olhos em espanto. Edward tinha uma expressão azeda no rosto.

Queria replicar aquelas palavras, mas emudeceu e preferiu ficar assim. Edward afastou-se, voltando a sentar na poltrona, e contemplou a mulher a sua frente.

-Levarei esse vestido, mesmo que não aja uma ocasião para você vesti-lo.

...

Chegara ao escritório à uma da tarde, preocupado. Havia deixado o celular no silencioso para não ser incomodado enquanto sai às compras com a Swan e, após deixar a menina com suas sacolas no apartamento, verificou as inúmeras chamadas de Alexandrina. A secretária não era de ligar por uma bobagem, sempre resolvia ela mesma os problemas. Para ter ligado tantas vezes significava que algo muito sério estava acontecendo.

Estacionou o carro na vaga de sempre e ficou no interior do carro por alguns minutos. Deveria ligar para Alexandrina e saber o que estava acontecendo? Seria o mais prudente. Discou o número e esperou. A secretária, com a sua intuição feminina aguçada e um identificador de chamadas no telefone do escritório, o identificou prontamente.

-Senhor Cullen, eu estive tentando falar com o senhor. –Sua voz não transparecia nada, mas Alexandrina era craque em ocultar quaisquer coisas que a estivessem perturbando.

-Só agora verifiquei o meu celular. O que houve? –Perguntou, mas soube a resposta antes mesmo de sua secretária responder. Estacionado a alguns metros de seu carro, numa vaga privativa, Edward reconheceu o carro.

-Senhor Cullen... –Uma pausa. –Aro está aqui.

...

Angela ajudava Bella a arrumar as novas aquisições da boutique no closet, calada. Isabella nem se dava ao trabalho de olhá-la e pouco falava, apenas insistindo para deixá-la sozinha com aquela incumbência. O relacionamento fora abalado desde a manhã após o estupro e a conseqüente omissão dos empregados e Angela anteviu tal situação.

-O senhor Cullen exagerou dessa vez. –Comentou, a fim e quebrar o silêncio. –Com todas estas roupas e sapatos, a senhorita poderia abrir uma boutique. –Angela recebeu unicamente silencio. E sentiu a necessidade de se aproximar daquela arisca menina, mas, para isso, precisava pedir desculpas.

-Eu sinto muito. –Suas palavras chamaram a atenção de Isabella. –Eu realmente não sei como reparar o mal que eu fiz. Independente do que tenha acontecido, eu me omiti. Nada do que eu fizer corrigirá essa falta, mas mesmo assim eu peço perdão. –Levantou-se, desamassando o seu uniforme. –Se precisar de algo, senhorita Swan, me chame. –Disse a uma Isabella atônica antes de sair do aposento.

Enquanto terminava de colocar as roupas em algum espaço vago do closet, Isabella ponderou. Realmente queria o isolamento completo? Por hora ela poderia agüentar, mas ela sabia que eventualmente chegaria o dia em que precisaria conversar com alguém.

...

Alexandrina o recebera com uma expressão plácida no rosto. Mau sinal, Edward concluiu.

-O senhor Volturi o espera em sua sala, acompanhado de alguns “seguranças particulares”. –Aspeou as duas últimas palavras.

Edward sabia o que viria a seguir, e ainda assim não conseguiu evitar a onda de medo que o atingiu. Tremendo visivelmente dos pés a cabeça, retirou o casaco e o entregou a Alexandrina.

-Você está dispensada o resto do dia. Eu ligarei para você avisando quando deverá vir. –Sua voz não tinha emoção alguma e sequer olhou para a secretária. Deu dos passos em direção a sua sala, mas Alexandrina o interceptou, pondo-se diante dele.

-Ligarei para a polícia. –Sua voz firme não deixava duvidas de que agiria. Edward sabia que precisava ser cauteloso com a sua funcionaria.

-Sabe o que acontecerá a nós dois se entrarmos em contato com a polícia! Além disso, todos foram corrompidos por Aro! –Falou rudemente, pegando Alexandrina pelo braço. –Faço o que eu estou mandando! –Ordenou.

A secretária não era boba, sabia que ir de encontro a Aro Volturi era pedir por uma morte certa e horrorosa. Mesmo assim doeu ter que deixar o escritório, abandonando o patrão a mercê de Aro e daqueles corpulentos capangas. Enquanto seguia para o elevador executivo, terminando de vestir o seu casaco cor marfim, a loira prometeu que, um dia, ajudaria o seu patrão a se livrar daquele suplicio, mesmo que para isso ela tivesse que abrir mão de tudo o que conquistou.

Enquanto isso, Edward caminhou sem nenhuma firmeza a sua sala. Ao abrir a porta, encontrou Aro sentado diante de sua mesa, ladeado por Dimitri, Alec e Felix. Sentou-se diante do chefe com a cabeça erguida, disposto a pelo menos tentar argumentar em seu favor.

-Aro, eu não o esperava tão cedo aqui.

-Claro que não me esperava meu caro. Eu resolvi fazer uma surpresa. –Embora sorrisse com cordialidade, havia algo nos olhos castanho-avermelhados do Volturi capaz de congelar Edward. Olhando ao redor, o Cullen notou um sorriso afetado no maior, conhecido pelo nome de Felix. Provavelmente ele fora o escolhido para puni-lo.

-Me dê mais alguns dias e eu trarei a cabeça de quem o está roubando. Eu imploro Aro. –Suplicou numa voz sem potencia nenhuma. Aro meneou com a cabeça, fechando os olhos.

-Meu jovem, essa situação se arrasta há tempos! Não acho que conseguirá reunir provas em tão pouco tempo. E, como havia dito anteriormente, você é será o culpado até que não encontre quem está me roubando. –Não havia discussões quando a decisão tomada pelo Volturi, o que deixou Edward ainda mais desesperado.

-Sabe que não fui eu! Se eu fizesse algo assim, eu já teria deixado de trabalhar para você há tempos! –Levantou-se, exasperado. Aro continuou impassível diante da explosão de Edward.

-Meu caro, eu sei que não foi você. É um homem honrado, que cumpre com as suas promessas. Dói em mim ter de fazer isso, mas eu preciso aplicar uma punição a alguém. E esta pessoa servirá de exemplo, demonstrando o que poderá acontecer a quem me desafiar, tentar me enganar ou me desobedecer. E na falta de alguém para punir, eu escolho aquele que mexe diretamente com as minhas finanças.

Felix antecipou-se, pegando Edward de surpresa. Contornou a mesa e fez menção de socá-lo. Edward esquivou-se do gancho de direita do homenzarrão, dando um forte soco no rosto de Felix. O maior cambaleou para trás, mas recuperou-se rapidamente. Um soco foi o suficiente para fazer Edward ver estrelas, caindo, em seguida, no chão.

Mas a punição não parou naquele momento.

Acuado, Edward tentou se arrastar para longe, mas nada pôde fazer para se defender dos sucessivos chutes desferidos pelo capanga mais forte de Aro Volturi. Quando achou que fora espancado o suficiente, finalmente podendo respirar, Feliz agachou-se, pegando-o pela gola da camisa e lhe desferindo dois socos no rosto. As agressões, e a dor conseqüente delas, foram o suficiente para quase fazê-lo desmaiar.

-Isso basta. E lembre-se: sem mais falhas. –Foi tudo o que ouviu de Aro Volturi. Atordoado, não soube dizer em que momento todos se retiraram do seu escritório. Edward ficou alheio a tudo, deitado no piso encarpetado, tentando a todo custo ignorar as dores em todo o seu corpo, principalmente no rosto e no estômago.

Ninguém ligaria se ele definhasse naquela ampla sala, pensou.

Em situações como esta, ligava para o seu médico, que prontamente o atendia, mas Jasper Withlock fora a outro estado participar de uma conferencia médica. Estava fora de cogitação envolver um médico que não estivesse a par dos problemas enfrentados por Edward. Não gostaria, afinal, de acabar numa delegacia justificando seus ferimentos.

Levantou-se, passados vários minutos, cambaleando em direção ao banheiro anexo a sua sala. Não gostou nada de ver sua imagem refletida no espelho, mostrando os hematomas deixados por Felix em seu rosto. A alvura de sua pele evidenciava ainda mais os machucados, filetes de sangue marcavam sua bochecha direita. Pela manhã, concluiu, sua aparência seria bem pior.

Lavou o rosto no lavabo, enxugando-o com papel toalha. Pegou o casaco em cima da mesa de Alexandrina, fechando o escritório após aprontar-se. Iria para casa repousar e rezar para que os ferimentos fossem apenas superficiais.

Praguejou contra tudo e contra todos, como de costume. Ele, afinal, era tão vitima das circunstancias quanto Isabella e merecia a misericórdia de Deus. Isabella... Não poderia se dar ao luxo de contar com algum conforto da menina, uma vez que ela o desprezava.

Queria o colo de Jess, instável, porém amorosa.

Queria o colo da tia Esme, que o criara como um filho.

Aceitaria de bom grado até o colo da mãe biológica, Elizabeth, que o abandonara.

...

Murmúrios no corredor indicavam a presença em peso dos empregados. Tentou ignorar o quanto pôde toda aquela agitação, dando atenção ao noticiário da tarde, mas foi impossível.

Levantou-se de uma poltrona em frente à televisão de plasma, indo em direção a porta. Só a abriu quando escutou a voz de Angela e Erick.

-O que está acontecendo? –Perguntou aos dois. Erick a cumprimentou, aparentando nervosismo. Ignorando o oriental, Bella voltou-se para Angela. A menina olhou para Bella e para a porta que dava acesso ao aposento de Edward Cullen.

-O senhor Cullen chegou agora a pouco e recolheu-se imediatamente. Creio que não está bem. –Comentou a empregada, vaga.

-Não está muito bem? Ele foi espancado! Deve ter sido o tal Volturi, de novo. –Erick despejou, recebendo em troca um olhar enviesado de Angela. –Cale a boca! – era o que ela desejava dizer ao empregado mais novo.

Bella não comentou nada. Olhou de esguelha para a porta de seu algoz antes de voltar para o interior do seu quarto.

...

Bebericando de sua sexta dose de uísque doze anos, Edward olhava distraidamente para a porta. Ele esperava pela aparição de Isabella e a garota não o desapontou. Apareceu no cômodo um pouco depois da meia noite, ainda vestida com as roupas da manhã. A Swan deparou-se com Edward na cama, sentado, as costas escoradas na parede ao fundo. Sequer tirava os sapatos, ou alguma peça de roupa que o cobria. Os cabelos acobreados estavam emaranhados e o rosto marcado por arranhões e manchas arroxeadas na bochecha direita e no queixo.

Bella não conseguiu tirar os olhos daquela figura que inspirava piedade.

-Então a boa noticia chegou aos seus ouvidos. Veio ver pessoalmente a minha desgraça e se divertir com ela, não é? –Falou Edward num tom debochado. –Eu estou em débito com você, por isso deixarei que fique aqui rindo da minha cara por cinco minutos. Após esse tempo, eu quero que caia fora daqui. –A expressão zombeteira foi desaparecendo, dando lugar a uma máscara de raiva.

O rosto de Bella continuou inexpressivo.

-Eu vim para, de fato, me divertir, mas não vejo graça na cena. Tudo o que eu sinto agora é... ...satisfação. Deus existe, afinal. Você teve o que mereceu.

-EU SOU TÃO VÍTIMA DELE QUANTO VOCÊ! –Gritou Edward, espremendo o copo vazio de vidro em uma das mãos. Bella não se alarmou com aquela súbita explosão.

-Você é vitima e faz vitimas, portanto merece ser punido. Eu não. É por isso que não sinto pena. –A frieza da Swan chocou Edward. Com quem ela aprendera a ser tão fria? Teria sido com ele? Lá estava ele jogado na cama ferido, e ela vinha unicamente para dizer que ele mereceu cada soco, pontapé, tapa?

-Caia fora daqui ou não respondo por mim. –Ameaçou.

Bella afastou-se, não temendo a ameaça, mas por que não havia mais nada a fazer no quarto.

Quando a porta foi fechada, ela ouviu algo chocar-se na madeira de lei. Edward acertara o copo de vidro na porta.

...

O cheiro de queimado chamou a sua atenção. Edward, com dezessete anos, largou o livro que lia em cima da sua cama, indo em direção a cozinha. Não era hábito de Esme deixar panelas no fogão acesso e sair, o que causou estranhamento no rapaz.

Ao notar a porta da frente entreaberta, Edward rumou para lá, espiando por uma pequena fresta na janela ao lado da porta.

Esme discutia com um homem muito bem vestido. Em frente à casa dos Cullen estava estacionado uma van preta e mais algumas pessoas estavam em seu interior.

Edward olhou a cena sem entender e se irritou quando o tal homem segurou Esme pelo braço e a sacudiu. Em um breve instante Esme virara o rosto e Edward contemplou, chocado, as lágrimas que cortavam a face bonita da mãe.

-Esme...? –Murmurou. Os analgésicos faziam efeito no seu corpo, prendendo-o a um estado letárgico que o impedia de captar claramente o que se passava ao seu redor. Sentiu algo molhado ser passado no seu rosto, fazendo o pequeno corte na bochecha direita arder. Abriu o olho esquerdo, o único que conseguia, e avistou alguém próximo a ele, não podendo identificar quem seria.

Um cheiro de remédio atingiu suas narinas e concluiu que alguém utilizava o produto nos seus ferimentos. Foi à única conclusão que fez naquela noite.

Após alguns instantes, Edward caiu em um sono profundo.

...

A desorientação não passou de imediato. Ficou meia hora deitado, olhando o teto de gesso do próprio quarto. Sentia-se confortável, bem. Claro que as dores eram suportáveis, Edward tomara vários comprimidos de analgésico com uísque. Só assim pôde dormir.

Olhou para si e estranhou. Não havia deitado na cama sem tirar uma única peça de roupa, sequer os sapatos? Alguém tirara seus sapatos e as meias, colocando-os ao lado da cama. Retiraram também o seu casaco, seu paletó, sua gravata e o cinto da calça, desabotoando a camisa e deixando-o o mais a vontade possível.

Ergueu-se vagarosamente, sentindo a dor no estomago voltar. Olhou para as manchas arroxeadas no abdômen, aborrecido. Ao olhar para o rosto, notou que algum produto fora colocado lá. Alias sentia ainda a ardência da pasta de arnica, colocada em cada um dos seus ferimentos. Alguém cuidara dele durante a madrugada, deixando-o confortável na cama.

A dúvida era... ...quem?

Olhou as horas no relógio em cima do criado mudo e constatou que acordara cedo demais para alguém que levou uma surra daquelas no dia seguinte: 8h33min. Pensou em tomar um banho e voltar para a cama, ainda sentia o corpo pesado como uma pedra, mas antes tinha que verificar uma coisa. Ignorando o fato de estar descanso e com cabelos e roupas em desalinho, saiu do seu aposento, aliviado por não encontrar nenhum de seus empregados lá.

Quem poderia ter cuidado de sua convalescença? Betha? Era a mais antiga empregada e depositava sobre Edward uma atitude quase maternal, mas a senhora nunca foi de ajudá-lo, sabendo que isso o desagradava? Lauren? Impossível, afinal era a pessoa mais egoísta que conhecera e claramente o odiava desde a morte de Jessica. Bem e Erick não faziam o tipo “passarei medicamente nos ferimentos do seu corpo”. Angela certa vez se oferecera para tratá-lo quando Edward chegara ferido ao apartamento, mas bastou uma reprimenda para dissuadi-la a se oferecer. Só faltava...

-Não. –Riu só de pensar na possibilidade. Ela o odiava tanto ao ponto de vir olhar a sua desgraça e sentir satisfação pela cena. Se fosse para voltar ao quarto, seria provavelmente para registrar aquele cômico momento através de um vídeo ou fotografia.

O quarto estava escuro e silencioso. As cortinas não haviam sido afastadas então Angela não fora ainda ali. Logo os olhos esmeraldinos se acostumaram ao ambiente, podendo enxergar Isabella ainda deitada, em sono profundo.

Caminhou com cuidado, não querendo produzir o menos ruído. Ao chegar próximo a cama, ajoelhou-se, tentando não emitir nenhum som ao sentir as dores pelo corpo. Bella estava com o rosto levemente inclinado na direção de Edward, ressonando tranqüila.

Olhou a pequenina mão branca que descansava próxima ao rosto bonito. Havia manchas alaranjadas aqui e ali. Ao inspirar, Edward constatou tratar-se de algum medicamento. Quando se aproximou mais, seus dedos, que até então tateavam um tapete felpudo, encostaram-se a algo, olhando para baixo Edward viu uma caixa de primeiros socorros parcialmente fechada, com o seu conteúdo remexido.

-Então você me odeia, não é? –Murmurou enquanto nos seus lábios brotavam um meio sorriso. Sem pensar, ergueu uma mão e acariciou o rosto bonito, da têmpora direita ao queixo. Ali, nos lábios rosados entreabertos, um cálido beijo fora depositado antes de sair do quarto, voltando ao seu próprio.

Notas finais
Como prometido, postei o capítulo 5 devido aos comentários na previa que deixei no blog. Claro que alguns leitores já o tinham na sua caixa de mensagem aqui no nyah por seus reviews terem sido escolhidos os melhores. A "promoção" continua! Os melhores reviews do capítulo 5 receberão uma prévia do capítulo 6 ou, como foi neste caso, o capítulo completo, lendo-o antes de todo mundo. Fiquem de olho no meu twitter, facebook e no meu blog, pois quando menos esperarem colocarei uma prévia. Agora finalizarei a fic O contrato com 2 novos extras.