Sweet Slave
28 Capítulo 27
Seis meses depois...
Aquela era a parte do seu novo trabalho que Isabella adorava. Organizar metodicamente os livros da livraria a ajudavam a não pensar em nada. Tinha apenas que seguir a cartilha que os funcionários mais antigos ensinaram e teria prateleiras impecavelmente organizadas antes da loja abrir novamente.
–Isabella, ainda está aqui? –Ouviu alguém dizer. Olhou para baixo e viu a subgerente, uma senhora chamada Margareth. –Seu expediente encerrou uma hora atrás querida.
–Tinha algumas coisas para serem arrumadas por isso passei do horário. Sinceramente não me importo. –Anunciou, descendo as escadas.
–Ah, quem me dera ter mais funcionários tão dedicados quanto você! Eu certamente não teria tanto trabalho para gerenciar esse lugar. De todo modo é melhor ir querida. –E sorriu.
Bem, ela não poderia passar o dia inteiro na loja, poderia? Em algum momento do dia, Bella se via obrigada a voltar para o seu apartamento, a nova morada após vender a casa em que vivera com Charlie e Renée por muito tempo. Não suportaria morar novamente no lugar onde o pai se suicidara, por isso vendeu e comprou um apartamento afastado do antigo bairro. Após trabalhar em uma rede de fast food por dois meses, finalmente conseguiu um emprego melhor em uma grande livraria próxima a sua casa.
Adorava aquele trabalho. Adorava por poder estar entre os livros, pelos descontos dados aos funcionários na compra de livros e por que quando estava no trabalho sua mente estava tão focada no que fazia que se esquecia de tudo o que vivera nos últimos tempos. Doía pensar na mãe morta, no pai problemático e falecido e nele, Edward. Sim, Bella ainda pensava no rapaz que a fizera sofrer, depois lhe deu a maior felicidade que uma mulher apaixonada poderia ganhar.
Pegou a bolsa e o casaco em uma sala reservada para os funcionários deixarem os seus pertences. Despediu-se daqueles que ainda ficariam ali, incluindo Margareth, e foi diretamente para a cantina italiana em frente à livraria. Comeu um delicioso Ravióli de cogumelos enquanto lia Orgulho e Preconceito da escritora Jane Austen. Ignorou um rapaz que tentara puxar conversa, claramente interessado nela, e foi embora minutos depois para a nova casa.
O novo apartamento, que ficava no quarto andar de um prédio estilo colonial de quatro andares, sem elevador, fora uma escolha perfeita. Era pequeno se comparada a antiga casa (quarto, sacada, cozinha americana, área de serviço, um quarto e um banheiro), mas servia bem para a Swan. Algumas coisas da antiga casa ela levou consigo e agora decoravam o espaço, outras ela deu de bom grado para o novo morador, pouco importando se ele ficaria com o objeto, daria a alguém ou queimaria. Ao entrar no apartamento e colocar as chaves no porta-chaves, olhou o porta retrato com a foto dela e da mãe que ficava em uma pequena mesa logo na entrada.
Ela sempre se esforçava ao máximo para ficar, ao final do dia, tão cansada que só tinha energia para um banho e mais nada. Não queria se deitar, olhar o teto do próprio quarto e pensar na própria vida. Evitava isso ao máximo, pois, como bem recordava, já passara os dois primeiros meses chorando. Não queria mais isso para a sua vida.
Bem como imaginou, o sono veio logo após um banho quente. Isabella dormiu o sono dos justos em meio a colcha tricotada que a avó lhe dera e o vento frio da noite que entrava pela janela do quarto.
Ela não sabia, mas havia um luxuoso carro estacionado em frente ao seu prédio. Era Edward, que estivera vigiando-a como um anjo da guarda há cinco meses, desde que o detetive contratado por ele descobriu a nova morada da Swan. Fizera isso, como alegou na época, apenas para garantir que Isabella estivesse segura, mas no seu íntimo ele sabia que fora para a própria satisfação. Vê-la, ainda que distante, era melhor do que nada.
Após alguns minutos, Edward deu partida no carro, desaparecendo na escuridão da noite.
...
–Reparou que o Adrian olha muito para você? –Comentou a colega de trabalho de Isabella. Era uma menina de aparência jovial, loira, chamada Samantha.
–Acho que está imaginando coisas, Sam. –Isabella não se atreveu a olhar para o outro colega de trabalho, um jovem rapaz chamado Adrian. Era o funcionário mais belo do lugar e chamava atenção das outras funcionárias e clientes da livraria. Isabella, avoada como estava, demorou a notar que o rapaz a acompanhava com os olhos desde que ela foi empregada lá. Só começou a notar algo pelos comentários insistentes dos outros funcionários sobre isso. Ela se perguntava se não fora o próprio Adrian que incitou os amigos a fazer isso, a fim de Isabella notá-lo.
–Claro que não estou! Todo mundo já notou e conheço alguém que ouviu o próprio Adrian dizer que estava encantado por você. Inclusive ele iria chamá-la para sair nesse fim de semana.
–Hmmm... Eu não me sentiria muito bem em sair sozinha com ele. Eu nem o conheço direito. –Bella sentia-se desconfortável com a possibilidade de aproximação, ainda mais sendo um homem claramente interessado nela. Ela não se sentia preparada para um novo relacionamento.
–Eu poderia ir com você e levar a Christine. Seria um encontro de casais. –Christine, pelo que Isabella soubera, era a namorada de Sam. Às vezes a mulher vinha buscar a mais nova depois do trabalho. Ela soubera disso e de outras coisas por que Sam já era uma amiga, a única com quem passava mais tempo e conversava. Os demais funcionários ela não tinha tanto contato.
–Sabe, eu saí de um relacionamento há pouco tempo e não me sinto preparada para isso agora.
–Sério? Eu não sabia disso! Há quanto tempo terminaram?
Seis meses, mas me marcou muito.
–Entendo. Passei por isso também. O nome dela era Jessica. Foi a minha primeira namorada. Achei que nunca me recuperaria, mas aqui estou eu, feliz, com a Chris. Você deveria aproveitar a oportunidade. Adrian é mais do que um cara bonito, ele é muito esforçado aqui e com o dinheiro paga a faculdade.
Isabella olhou para o outro lado da loja, avistando Adrian. Ele, de fato, era bonito, com seus um metro e noventa e cinco, corpo atlético e cabelos loiros. Também tinham os olhos de um verde intenso e Bella, ao notar a cor dos olhos e se lembrar de certo alguém, recuou.
–Talvez um dia, mas hoje não. –E voltou a se concentrar no trabalho.
...
Após o expediente no escritório, Edward foi para o seu compromisso das sexta feiras: o encontro com Angela Weber.
A menina não mais trabalhava para ele e, até onde Edward sabia, estava morando com Ben e trabalhando como secretária de uma agência de publicidade. Ele não saberia de todos os detalhes, por que não era para falar dela que Edward promovia esses encontros. Angela era a única que mantinha contato com Isabella e Edward queria saber de antemão o que estava acontecendo com a menina. Por isso, por insistência de Edward, eles se encontravam uma sexta feira por mês para que Angela contasse como Isabella estava.
–... Ela vai ficar nesse emprego, pois está gostando de lá. Sabe como Bella gosta de livros.
–Eu sei. Fico feliz que ela esteja feliz com o trabalho a ponto de querer ficar. Mas eu queria tanto que ela estudasse!
–Senhor Cullen, ela não tem condições para isso. E pelo que sei recusou qualquer ajuda. O importante é que ela está bem. –Um barulho soou ao redor deles, era o celular de Angela. A garota atendeu e, após um minuto, falou: -Benjamin me ligou. Preciso voltar. Combinamos de jantarmos juntos.
–Tudo bem. Me desculpe por ocupar o seu tempo desse jeito. E... Não me chame mais de senhor Cullen. Não é mais a minha empregada. –E sorriu um sorriso que não alcançou os seus olhos. Edward estava visivelmente abalado com a separação e Angela se apiedava dele. No final, ela refletiu enquanto deixava o restaurante, Edward se mostrou digno de um final feliz também.
...
Alexandrina se sentia nos últimos meses como a expectadora de uma novela mexicana. Lá estava o seu chefe, Edward Anthony Masen Cullen, trabalhando incansavelmente como se não houvesse amanhã. E ele fazia isso, ela percebera, para distrair a mente da vida pessoal. Ela se sentia levemente incomodada pelas olheiras que ele apresentava, pela perda de peso, embora continuasse a estar impecável na aparência.
Como a boa secretária que era, queria ajudar o patrão da melhor forma possível, a fim de garantir que os problemas pessoais não afetassem o seu desempenho no trabalho. Por isso procurou saber o que exatamente havia acontecido, descobrindo pouco depois que Isabella, a menina que conheceu e que ocupou o seu lugar por um breve período, não estava mais com ele. Estava explicado! É claro que o rapaz sofria pela ausência da menina!
Soube também com base em suas próprias observações que o rapaz contratou um detetive para encontrar Isabella e passou o próprio Edward a ver a morena de longe ao final do expediente do trabalho dela. Como soube? Foi ela que intermediou o contato de Edward com o detetive.
Ela chegou a pensar que após encontrar Isabella, Edward tentaria uma reaproximação, mas não foi o que ele fez. Ele alimentava o próprio sofrimento, olhando para a menina, mas não se dignando a entrar em contato. Era deprimente.
Não era do feitio da loira intervir em algo, ainda mais se tratando de um assunto tão pessoal, mas ela temia que o desempenho do Cullen fosse afetado se mais problemas surgissem, pelo menos foi nisso que ela utilizou como justificativa quando apareceu no meio do expediente de Isabella, aproveitando o seu horário de almoço, com um lindo buquê vermelho nas mãos que comprara a caminho de lá. Bella, que negligenciava o seu horário para almoçar com freqüência, estava arrumando novos produtos que havia acabado de chegar. Estava tão absorva na tarefa, que só notou a mais velha quando esta a cutucou no ombro. Espantou-se com o que viu como se estivesse diante de um fantasma. Com exceção de Angela e Bem, com quem se encontrava frequentemente, não via mais ninguém ligada ao seu passado tenebroso.
–Olá Isabella, lembra-se de mim?
–Você é a secretária do Edward, Alexandrina. Claro que me lembro de você. –Levantou-se, oferecendo a mão para um cumprimento formal após limpá-la no avental preto que usava.
–Fico feliz que se lembre.
–Está à procura de alguma coisa? Posso ajudar a encontrar.
–Sim, eu estou, mas já encontrei. –E os olhos da loira estavam fixos em Isabella.
O coração da Swan palpitou audivelmente. Embora não soubesse ainda o que Alexandrina queria com ela, algo lhe dizia que tinha haver com Edward, o único assunto em comum que poderia ligá-las. Teria acontecido algo?
–Aconteceu... Alguma coisa com... –Murmurou nervosa.
–Está no seu horário de almoço, eu presumo. Vamos. Será por minha conta. –E a loira virou as costas, caminhando casualmente. Isabella apenas tirou o avental, jogando-o de qualquer jeito na sessão de livros que arrumava, e a seguiu.
Minutos depois as duas estavam sentadas em uma mesa reservada da cantina italiana onde Bella costumava comer às vezes. A menina pediu uma lasanha, mas pouco tocou no prato. A presença silenciosa e observadora de Alexandrina a deixava nervosa.
–Não vai comer nada? –Perguntou Isabella quando já havia comido metade da comida que havia pedido. Alexandrina continuou a observa-la, como se a morena fosse o item mais fascinante da Terra.
–Vejo que a separação não fez bem a nenhum de vocês. Bem, com exceção das olheiras, ao menos você aparenta estar mais saudável do que o senhor Cullen. Acredito que, qualquer dia desses, ele desaparecerá dentro daquele terno bem cortado e caberá a mim, braço direito dele, resolver todas as pendências. Tenho UM salário realmente bom, mas me aborrece ter muito trabalho. Posso acabar fazendo as coisas pela metade na ânsia de querer fazer tudo.
–Edward está... Disse que ele não está bem. Ele está doente?
–Doente de amor, se os médicos de fato consideram isso uma doença. Ele sente muito a sua falta, senhorita Swan. –E viu a menina se encolher, como se atacada por uma dor. –E pela sua reação, imagino que ainda se importa minimamente com ele.
–Não importa se eu me importo ou não. Acabou. –E Isabella fitou o próprio prato.
–Sim, estou vendo. Acabou. Agora o que é incompreensível para mim é o porque. Por que acabou se posso ver que ainda se amam? –Os olhos dela, penetrantes, pareciam querer arrancar a resposta de Isabella antes que a menina proferisse alguma coisa.
–Por que apenas amor não basta para duas pessoas ficarem juntas. Aprendi isso, e Edward também aprendeu, da pior forma. Nós tentamos, mas tanta coisa conspirava para nos afastar!
–E essas “coisas” ainda conspiram contra vocês?
–Não.
–Acha, senhorita Swan, que elas voltariam a conspirar caso ficassem juntos novamente?
Bella se permitiu pensar sobre o questionamento de Alexandrina. O relacionamento com Edward começara errado. Ela jamais imaginou que algum dia se interessaria por ele, uma vez eu já o odiou tanto. Tanta coisa os impedia de ter um relacionamento, a começar pela condição de escrava que ela era submetida. O maior impasse do relacionamento deles, em verdade, foi isso. Perto desse detalhe, as outras coisas pareciam muito insignificantes.
O relacionamento deles foi paulatinamente mudando. O ódio foi se dissipando à medida que ela via, da parte de Edward, o modo bruto como ele a tratava foi substituído por um tratamento mais doce. Ele acabou se tornando a única coisa do mundo que se importava com ela o suficiente para arriscar a própria segurança a fim de protegê-la. Associou os primeiros sentimentos certa vez à síndrome de Estocolmo, a dependência emocional de uma vitima para com o seu algoz. Talvez ainda fosse isso, ela concluiu, se não fosse por aquele insistente batimento do seu coração que dizia o contrário.
Alexandrina parecia ver o embate na cabeça da Swan diante dos seus olhos. Deu o tempo necessário para a menina refletir. Não se surpreendeu quando ela disse, quase num sussurro, que não se sentia preparada para se juntar a ele, mas sabia que as suas palavras haviam operado algo dentro da morena. Esse era, afinal, seu objetivo.
–Bem... Meu horário de almoço está prestes a acabar. Não quero chegar atrasada. –Levantou-se após olhar o horário no relógio de pulso dourado que usava. –E as flores são para a senhorita, da parte de Edward.
–Edward enviou para mim? –Isabella perguntou a Alexandrina, parecendo maravilhada.
–Embora eu goste de garotas, não é do meu feitio enviar presentes a garotas comprometidas. –Vendo o olhar surpreso da menina, Alexandrina completou. –Você está comprometida com ele Isabella até a alma. Vocês pertencem ao outro de uma forma que jamais vi antes. Logo perceberão isso e deixarão a teimosia de lado. Pessoas teimosas, pelas minhas observações ao longo dos anos, não costumam ser felizes. E ele vem vê-la todas as noites.
As palavras de Alexandrina penetraram na mente da Swan e Isabella se pegou pensando ainda mais em Edward ao longo do dia. Nem mesmo se dedicar ao trabalho foi suficiente para manter o rapaz longe, como normalmente fazia. A preocupação com ele era tamanha que ela cogitou a possibilidade de ir vê-lo, apenas para saber como ele estaria. E o que ela falou por último? Disse que ele vinha vê-la. Seria possível? Isabella nunca percebeu a presença do rapaz desde que eles se separaram.
Ao contrário dos outros dias, quando o seu expediente terminou na loja, ela não ficou até tarde como fazia. A curiosidade de confirmar se o Cullen a observava todas as noites a impulsionava a sair o quanto antes do seu local de trabalho. O que faria caso o visse, isso Isabella não saberia responder. Mas seus planos se frustraram parcialmente quando foi detida pelo jovem Adrian.
Hei, Bella! Estava procurando por você. –O rapaz sorria de orelha a orelha. –Ganhei um jantar em um restaurante tailandês aqui perto e... Bem... Não tenho quem convidar. Estava pensando se você não gostaria de ir comigo. Ele fica aqui perto, podemos ir andando.
–Eu agradeço o convite, mas eu... Eu... –Isabella não esperava por isso. Se ela não soubesse quem poderia estar observando, talvez seguiria com Adrian para, quem sabe, torna-lo seu amigo. Agora, porém, não sabia se queria que Edward visse ela com outro homem e tirasse conclusões precipitadas.
–Vamos lá! É só um jantar! Será rápido, eu prometo. –Ele sorria, parecendo tranquilo, mas alguma cosia no olhar denunciava o nervosismo e o quanto ele ficaria alquebrado caso o convite fosse negado. Isabella se apiedou dele.
“Será rápido. Não há por que negar o convite. Além disso, estou com fome.”.
–Tudo bem Adrian. Podemos jantar juntos. –E sorriu um sorriso que não alcançou os olhos.
–Ótimo! Podemos ir agora. A caminhada não é longa, mas talvez devêssemos ir na minha moto.
–Na sua moto? Por que?
Bem, acho que será incomodo qualquer caminhada nesse tempo. –E os dois olharam para fora, observando os primeiros flocos de neve caírem na calçada.
...
O monstro estava perto demais. O monstro estava planejando qual era a melhor forma de chegar até o casal que ele observava e tomar aquela mulher. Ela era sua, afinal. Ele a havia comprado e poderia reivindicá-la, não é? Mas bastou ele ouvir a risada dela de algo que o rapaz falou e todo o seu plano minar. Ele devia felicidade a ela. Ele devia tudo depois do que fez a ela, mesmo que isso significasse a sua infelicidade. Por isso ele saiu da frente daquele restaurante tailandês que sequer sabia o nome e dirigiu para qualquer outro lugar.
Por que ele devia tudo para Isabella Swan.
...
Bella tinha que admitir que a noite com Adrian fora divertida. Ele era naturalmente engraçado e soube como mantê-la falando. A comida do restaurante era deliciosa e a música tailandesa estranhamente linda. Por alguns instantes, conversando, rindo das piadas dele e mantendo algo gostoso na boca, ela se esqueceu dos problemas e preocupações de outrora.
Adrian admitiu no final da noite, após leva-la para casa em sua moto debaixo de flocos de neve, que mentiu sobre ter ganho aquele jantar. Comprou tudo. Ele era um rapaz bom. Bom demais.
O problema, Bella refletia enquanto subia as escadas em direção ao apartamento, é que ele era excessivamente bom e serviria para a Bella excessivamente boa que ela foi. Se ela tivesse conhecido aquele rapaz antes, talvez tivesse se apaixonado. Talvez tivesse deixado Jacob e se entregado de cabeça a esse novo relacionamento. Talvez.
Após retirar o uniforme da livraria e tomar um banho quente, Isabella continuou a divagar sobre como o seu dia foi cheio de surpresas. O encontro com Alexandrina foi, provavelmente, a maior delas. Depois de meses sem notícias da sua antiga vida, saber que o passado colidia insistentemente com o presente sem que ela percebesse foi chocante. E saber que Edward...
Edward.
A lembrança das palavras da loira a assaltaram. Rapidamente Isabella vestiu uma roupa casual, suéter salmão e calça jeans preta, ao invés do velho moletom cinza que usava para as noites frias. Observou enquanto se arrumava a leve cair com um pouco mais de intensidade. Ficou tentada a verificar se o carro de Edward estava lá fora como Alexandrina dissera, mas acabou por não olhar. E fechou as cortinas, achando loucura se agarrar a isso. Deveria deixar para lá e se permitir mergulhar nas lembranças que foi o fabuloso jantar com Adrian. Deveria.
...
Sentado na pequena escadaria em frente ao apartamento de Isabella, Edward estava desolado. Não ligou para os flocos de neve que ensopavam o seu casaco, ou o frio que provavelmente traria sérios problemas de saúde para um corpo debilitado pelo mal cuidado nos últimos dias. A imagem de Isabella com aquele desconhecido, rindo e conversando em um restaurante chique, minou toda e qualquer esperança de reavê-la. De fato Bella parecia bem como Angela falou e disposta a seguir com a vida, talvez com um novo amor.
Desistiria. Não viria mais procura-la. Talvez até mudasse de cidade, não para o bem dele e sim o dela. Quanto mais afastada da antiga vida, mais facilmente Bella poderia dar a guinada que precisava para alçar voo e desaparecer da vista, talvez como Ícaro fez com as suas asas de cera em direção ao Sol. E ele sequer poderia ver esse momento glorioso, pois estaria longe demais.
Estranhamente ele se lembrou dos planos que fizeram durante a viagem as ilhas gregas. Os dois estava felizes e riam de qualquer coisa. Foi ideia de Isabella então planejar o natal, que aconteceria dali a algumas semanas. Ela queria uma ceia de natal com os empregados, em que eles não precisariam trabalhar. Queria dar presentes para todos e depois ficar sozinha com Edward, aproveitando o dia festivo ao seu lado sem precisar dividi-lo com ninguém. Um tempo tão feliz e tão distante...
O que Isabella havia falado naquela noite após compartilhar os planos do natal com ele? Ah, ela falou:
–Você é o meu milagre de natal. –E sorriu com a lembrança que parcamente murmurou. Sentia então algo impedir os flocos de neve de caírem na sua cabeça, algo que fazia sombra. Ergueu a cabeça para ver o que ou quem era e se surpreendeu. A expressão surpresa no rosto foi dando lugar a um bonito sorriso que a muito tempo ele não se permitia dar.
–É... Você é. –Ele disse enquanto os olhos esmeraldinos estavam fixos na face preocupada de Isabella e o seu guarda-chuva.
–Edward. –Ela ergueu a mão em direção a ele, num gesto que lhe pareceu impensado. Edward sentiu a mão dela na sua face e se deliciou com o contato.
–Você está gelado! Há quanto tempo está aqui desse jeito? –Fez menção de afastar a mão, mas Edward foi mais rápido, cobrindo a mão dela com a sua para mantê-la ali.
–Fique assim comigo só um pouco mais. –Fechou os olhos e mergulhou na sensação extasiante de estar com ela, sendo tocado por ela novamente. Cedo demais ela retirou a mão.
–Não pode ficar aqui por muito tempo! Fará mal a sua saúde. Onde está o seu carro? Deveria voltar para casa. –Ela recomendou enquanto os olhos procuravam o veículo sem nada encontrar.
–Deixei na frente de um restaurante tailandês. É distante daqui. Deveria ter vindo com ele, mas... eu estava tão atordoado. Não consegui ligar. Vim andando. –Ele dizia enquanto mantinha os olhos nela, que parecia se agigantar mais e mais. Só fez menção de levantar quando ela o indicou a fazê-lo, segurando o seu braço e tentando puxa-lo para cima.
–Não pode ficar nesse tempo! Vamos entrar! –Ela segurou a mão dele num gesto automático que pouco pensou e Edward desviou o olhar para aquele contato, mesmo que os seus olhos pedissem atenção para os degraus da escada enquanto se dirigiam ao apartamento dela. Edward só acreditou que estava lá quando se viu sentado no sofá, vendo a menina fechar a porta hesitante, como se não soubesse se era correto fechar. Após respirar fundo, ela o encarou. Parecia nervosa. Ele também estava.
–Aqui é mais quente. Pode chamar um taxi. Deve estar com o seu celular, não é?
E Edward estava, no bolso do casaco.
–Deixei no carro. Deixei tudo lá, inclusive minha carteira.
–Bem eu posso emprestar o meu celular e dar dinheiro. –Ela começou a remexer na bolsa e suas palavras, assim como a sua atitude, foi como um poderoso soco no estomago para Edward. Ela queria mesmo se livrar dele, não queria?
–Entendi. Obrigado por tudo. É mais do que mereço. –Levantou-se, caminhando a passos firmes em direção a porta.
–O que está fazendo? –Ela perguntou enquanto o via abrir a tranca da porta lentamente. Edward se virou e a olhou. A troca de olhares ocorrida entre eles gelou a espinha da garota.
–Indo embora, Isabella. –E havia naquela frase algo mais, uma mensagem que ele queria transmitir. Ele estava indo embora, para sempre. O pensamento quase arrancou lágrimas da menina ali mesmo. Edward projetou o seu corpo para ir embora, mas uma mão branca e delicada o segurou pela manga do casaco.
–Aceita uma xicara de chá? Vai ajudá-lo a se esquentar. –Os olhos castanhos transmitiram, embora não verbalizada, a mensagem claramente: não vá! Fique aqui!
–Aceito sim. –Edward disse com um sorriso terno do rosto, respondendo ao pedido mudo com o olhar.
Sim, eu ficarei.
Talvez para sempre.
A porta foi fechada por Isabella quando Edward voltou ao apartamento.
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