Sweet Slave
27 Capítulo 26
Notas iniciais
Minutos se passaram, mas para Edward, sentado em uma das poltronas de plástico desconfortáveis da sala de espera, pareciam horas. O esgotamento físico ameaçava nocautea-lo. Resistiu bravamente, não querendo adormecer sem saber de noticias de Isabella.
Ainda se lembrava com horror o que passara na ultima hora: a descoberta do que Lauren havia feito contra ele e a menina, a corrida até a antiga casa de Isabella, encontrar a prova derradeira de que Charlie o culpava pelo suicídio e depois...
Isabella jogada num canto do banheiro. Tão pálida e fria que poderia se passar por morta. Uma parte dele morreu ao ver a horripilante cena. Ele a pegou nos braços, sacudindo-a, gritando o nome dela num gesto vão para despertá-la, ou talvez ele quisesse ser despertado do pesadelo.
Por alguns segundos ponderou entre chamar uma ambulância ou ir diretamente ao hospital. Toda a ponderação foi para o espaço ao perceber os frascos de remédio vazios ao lado da morena e a certeza de que ela os tomara a fim de cercear a própria vida.
Ele não tinha tempo.
Por isso correu como um louco, primeiro com Bella desacordada nos braços, para depois dirigir a toda velocidade ao hospital, chegando em menos tempo do que a ambulância teria chegado. Agora lá estava ele, na sala de espera de cadeiras desconfortáveis após os enfermeiros terem levado a menina dos seus braços, esperando por alguma noticia, qualquer noticia, de Isabella. Rezando pelo Deus que pouco acreditava por um milagre. Isabella não podia morrer. Que fosse Edward, e não a Swan, a pagar com a vida. Ele não poderia perder a coisa mais preciosa para ele após todo o percalço que seguiram, não depois de perceber que ele estava perdidamente...
–Senhor Cullen? –Alguém o tocou gentilmente no ombro. –O doutor Kinishida, que atendeu a senhorita Swan, deseja lhe dar o prognostico.
Edward levantou de subido, praticamente correndo até a sala do doutor Kinishida, como indicado pela enfermeira. Entrou ofegante, assustando o oriental de meia idade que até então tinha a sua atenção para alguns papéis na mão dele.
–Bella, como ela está? A enfermeira disse que tinha noticias... –Edward estava em frangalhos e o bom doutor se apiedou dele. Indicou uma cadeira a frente da mesa de mogno para que Edward se sentasse, o que ele fez ressabiado. Ao que tudo indicava o médico só falaria depois do Cullen se acalmar um pouco. Após mais uma olhada nos papeis em mãos, resolveu se pronunciar.
–Conseguimos retirar o medicamento do seu corpo. Não foi fácil. Uma parte havia sido absorvida e tivemos que usar algumas doses de adrenalina para evitar uma parada cardíaca. Ela ficará em observação constante pelas próximas horas até ser transferida para um apartamento. –A calma do profissional da saúde contrastava radicalmente com a reação do Cullen. Apesar de alegar que Isabella não corria mais risco, Edward só fixou o seu pensamento na pequena, porém real, possibilidade de quase tê-la perdido.
–Posso vê-la? Um minuto basta. –O médico pretendia recusar, afinal aquela ala onde Isabella estava era restrita aos funcionários. Todavia, sentiu genuína pena do rapaz que lhe suplicava com os olhos. Encaminhou Edward para a ala onde uma Isabella adormecida estava com fios acoplados ao corpo para monitorar os seus batimentos cardíacos. Só foi permitido para Edward ver a morena através de um vidro.
Vê-la ali, imóvel e pálida, com uma máscara cobrindo o rosto para fornecer oxigênio, foi de partir o coração. Por mais que ele soubesse que agora Bella estava bem, sentiu-se tão mal com a imagem! Como se a morte ainda a espreitasse, esperando por mais uma oportunidade que não tardaria a chegar. Pois se Bella tentara uma vez o suicídio, nada a impediria de tentar novamente. Por que ela tentaria? Era a pergunta que Edward precisava desesperadamente de uma resposta. Seria pela morte de Charlie? Seria por ele? Caso fosse por ele... Bem... Edward saberia o que fazer.
Encostou a cabeça no vidro, mantendo os orbes esmeraldinos na paciente do outro lado do vidro. Uma enfermeira entrou no quarto, verificando Isabella e escrevendo algo no que parecia ser o prontuário da moça. Saiu tão logo entrou e Edward a invejou por poder ter acesso a Swan quando ele não podia. Pensou até em burlar as regras do hospital e invadir a sala, mas o bom doutor não o abandonou, sempre a espreita, como se soubesse que qualquer vacilo dele resultaria em uma falta de Edward.
–Senhor Cullen, o seu tempo acabou. –Anunciou o doutor e Edward, perdido em pensamentos, precisou se tocado mais de uma vez para obedecer ao comando, o que fez a contragosto.
–Queria ficar... –Ele murmurou para ninguém em particular.
–Poderia senhor, mas não ao lado da paciente. Parece cansado. Um conselho: vá para casa e descanse. Se alimente bem e venha amanhã. Provavelmente a paciente estará em um apartamento. Poderá ficar ao lado dela pelo tempo que desejar.
A promessa do médico não acalmou o coração do jovem Cullen. Ele não queria ir. Sentia que precisava permanecer lá e ser o primeiro a quem Isabella enxergaria quando acordasse, demonstrando assim o quanto ele se importava com ela, o quanto ele era capaz de se sacrificar por ela. E pelo bom Deus, que ela pudesse ver isso!
Foi ao banheiro, lavando o rosto e as mãos. Penteou os cabeços com os dedos úmidos, dando alguma organização naquele caos de fios acobreados, mais por hábito do que por querer. Nem cogitou o conselho de voltar para casa se afastar de Bella. Voltou à sala de espera de cadeiras desconfortáveis e lá ficou, fitando o chão por horas, incapaz de se entregar a exaustão, apenas contando as horas para ficar ao lado de Isabella novamente. Talvez tenha dormido durante esse tempo, tão rápido que foi como piscar. Não sabia. O corpo doía tanto e sentia a privação de água e comida. Bebeu vários copos no bebedouro ao lado da mesa da recepcionista para aplacar a sede. Queria comer algo, mas precisaria sair da sala de espera, algo que não desejava. Ao olhar as horas no relógio em seu pulso, constatou que eram sete e meia da manhã, o que indicava que de fato dormiu em algum momento.
–O doutor Kinishida está? Quero saber a respeito de uma paciente dele, internada ontem aqui. Isabella Swan.
–O doutor Kinishida chegará às nove horas, mas irá diretamente para o centro cirúrgico. Temo que não possa falar com ele até as 11 horas.
–Tem mais alguém que responda pelos pacientes dele? Outro médico ou uma enfermeira? Preciso saber algo sobre essa paciente. Ela estava isolada sob observação, mas o médico me garantiu que talvez ela pudesse ir para um apartamento.
–Posso verificar a informação senhor, se me der um minuto. –A atendente pediu, fazendo uma ligação para algum setor especifico do grande hospital. Perguntou sobre a paciente Isabella Swan e ouviu atentamente o que a pessoa do outro lado dizia. Edward quase arrancou o telefone das mãos dela, querendo ouvir de antemão o que se passava com a namorada.
–A senhorita Swan ainda se encontra na Unidade de terapia Intensiva. Ela só será transferida com o aval do médico responsável. Temo que isso só vá acontecer depois de onze horas. Senhor, eu sei que ficou aqui desde ontem. Parece abatido e necessitado de um bom descanso e comida. Por que não vai para casa? A paciente sequer está acordada.
Edward queria protestar e numerar todos os motivos que o faziam ficar ali, ma desistiu. Ela tinha razão. Ficar ali não adiantaria nada. Além disso, precisava trazer coisas para Isabella, se ela iria ficar um pouco mais no hospital.
–Sim. Tem razão. Volto mais tarde então. Bom dia. –Se retirou, indo em direção ao estacionamento do hospital onde deixara o carro dele.
Fazia a tudo mecanicamente, como um boneco puxado por cordas invisíveis. Ele se sentia tão fora da realidade quanto Bella provavelmente estava na cama de hospital. Esse era o efeito de Isabella fora da vida dele, agora que ele se encontrava tão dependente dela?
...
–Senhor Cullen? Ah, graças a Deus! O que aconteceu? Estávamos preocupados! –Betha, com o seu jeito maternal, parecia verdadeiramente preocupada. Edward quis abraçá-la e, quem sabe, naquele abraço, diminuir a aflição que o tomava. Não o fez.
–Lauren... Onde está?
–Foi embora ontem senhor. Levou todos os pertences dela. Não nos disse por que ia embora e para onde. Se iria voltar. Simplesmente ela... Senhor aconteceu algo? Lauren fez algo?
–Sim, ela fez. Fez um mal terrível para Isabella e eu. Talvez algum dia eu conte, mas não hoje. Vou tomar um banho e comer algo. Sairei novamente. –Ele se dirigiu aos aposentos, ignorando propositalmente a pergunta de Betha a respeito do paradeiro de Isabella.
Entrou no quarto da menina, pegando uma bolsa de médio porte. Embora ela dormisse no quarto dele agora, deixou boa parte dos pertences no quarto dela. Separou o que julgou mais necessário, além de algumas roupas que sabia que ela aprovaria. Fez a tudo meticulosamente, desde a organização dos pertences até o banho e o pouco de comida que ingeriu, tentando, assim, ocupar a mente. Impossível. Volta e meia a imagem de uma Isabella frágil, deitada em uma cama de hospital e cercada de cuidados, vinha até ele, deixando-o mais aflito do que já estava.
Embora o corpo protestasse por uns minutos na cama confortável, saiu assim que terminou os seus afazeres, ligando para Alexandrina no processo. Ele não sabia, afinal, quando voltaria a trabalhar agora que estava diante de um grande problema. Bella seria a sua prioridade e qualquer outra coisa, inclusive Aro Volturi, teria que esperar. Aro...
Havia, ainda, o problema da família Volturi. Enquanto esteve no Brasil, finalmente descobrira o responsável pelos sucessivos roubos ao mafioso Aro Volturi. Ainda não sabia o que faria com essa informação e nem queria pensar a respeito. Outras coisas mais importantes exigiam a sua atenção.
...
–A senhorita Swan foi transferida para um apartamento apenas para aguardar a sua chegada. Como está bem, é o que diz os exames feitos, poderá ir para casa.
–Pode ir mesmo? Achei que ela ficaria mais tempo.
–O pior já passou senhor Cullen. Com os medicamentos fora do organismo dela, não corre nenhum perigo. Ficará apenas um pouco lenta hoje, quiçá amanhã, pois absorveu alguma quantidade.
–Então eu farei os devidos acertos na recepção. Eu a levarei para casa. Agradeço o empenho em ajudá-la. –E Edward era de fato grato, pois, embora o fator determinante para Isabella tenha sido a rapidez dele, o bom doutor fez a sua parte.
–Entenda, senhor Cullen, como o responsável por ela, que Isabella ainda não está bem. Ao que tudo indica a ingestão de medicamentos foi um tentativa de suicídio. Desde que acordou não disse uma palavra. Serão necessárias visitas frequentes ao hospital para mais exames, assim como uma ida ao departamento psicológico. Peço que agende o quanto antes a próxima consulta. A doutora Catarine Kanagan é a melhor desse departamento.
–Ela está acordada? Posso vê-la? –Edward precisava ver Isabella acordada, longe da unidade de observação, para ter certeza de que ela estava realmente bem.
–Bem... Sim. Ela já foi avisada que recebeu alta e poderá voltar para casa. Talvez já esteja preparada para ir embora. Vá ao encontro dela e não se esqueça de ir à recepção antes de partir para agendar a próxima consulta. Agora venha, vou levá-lo ao quarto de Isabella.
Desde que chegara ao hospital, Edward esperou pela chance de ver Isabella. Com o médico ocupado em uma cirurgia, até tentou se esgueirar pelo local onde ela estava ontem, mas foi descoberto por alguns enfermeiros atentos, que o expulsaram para a sala de espera.
Foi só quando estava em frente ao quarto da menina que Edward sentiu um nervosismo quase incapacitá-lo. Com a carta, a Swan sabia que ele estava envolvido na morte de Charlie. E isso poderia mudar a forma como até então ele era tratado por ela. Ou talvez ela percebesse que Edward apenas fez isso para o bem da menina, pois ele não tinha como saber que o pai dela teria uma atitude extrema dessas, tirar a própria vida, ao saber do que Isabella havia feito por ele.
O apartamento era relativamente grande, com uma antessala para as visitas antes do quarto do paciente. Quando entrou efetivamente no quarto, vendo a menina vestida com as roupas de ontem, sentada na cama e olhando para a paisagem oferecida pela única janela... ah, como ele quis correr até ela e abraçá-la!
Ele não fez isso.
Havia algo intangível no ar, algo que Edward teve medo de romper de imediato. Por isso ele ficou alguns bons minutos olhando para ela, que deve ter percebido a presença de outra pessoa, mas não se virou. Claro que em algum momento ele precisava romper o silencio, por mais que temesse o desconhecido.
–Bella? O médico disse que recebeu alta. Eu vim levá-la para casa. Trouxe algumas coisas suas por que pensei que, talvez, fosse passar mais tempo. Você tem roupas limpas aqui comigo. Talvez queira trocar pela roupa que está usando. Eu vou deixar a bolsa aqui e esperar na antessala.
Deixou em uma poltrona a pequena bolsa e foi sentar em um dos sofás da antessala. Esperou por trinte minutos, estranhando a falta de som no quarto. Ao voltar para onde estava Isabella, ela ainda estava sentada na cama na mesma posição. Alguma coisa não estava bem. Foi para o lado dela, preocupado. Estava tão próximo que poderia tocá-la com um simples movimento de mão.
–Precisa de ajuda? O médico disse que estaria um pouco lenta hoje. Eu posso... –Ao tocá-la, notou que Bella recuou.
–Você foi à casa do meu pai e contou a verdade. Contou a ele. Charlie não aguentou. Ele simplesmente...
–Eu precisava e você deve saber disso. Eu... –Suas palavras pareceram despertá-la da letargia. Isabella encarou o rapaz, colérica.
–Precisava? Que utilidade tinha essa informação para Charlie? Que utilidade tinha ele em saber que eu havia me rebaixado a ser uma vadia de um desconhecido para salvá-lo? Que ele vivesse na ignorância! Que ele me odiasse e achasse que eu o abandonei! Que ele me amaldiçoasse! Qualquer coisa era melhor do que isso! –Os orbes castanhos estavam lacrimejantes e a voz falava em seu discurso colérico. Ela estava tão machucada! E, embora uma parte de Edward soubesse que Charlie era o único culpado disso tudo, havia uma parte, uma pequena parte de Edward, que se culpava imensamente. Ainda sim não queria ele pagar totalmente pelos erros que não eram dele. Não queria ver nos olhos de Isabella o mesmo ódio que ela nutria quando, de fato, Edward era o algoz da história.
–Aquele filho da puta do seu pai havia voltado a jogar. Ele já tinha uma divida com Aro. EU PAGUEI A MALDITA DIVIDA! Falei para ele na tentativa de impedi-lo de fazer merda por que ele não tem outro filho para se sacrificar. Por que, do jeito que ele era, se tivesse outra filha, não se importaria que ela tivesse o mesmo destino! –Edward arfava e assustou-se pela súbita explosão que tivera. Não era o momento para agir dessa forma com uma Isabella tão fragilizada. Todavia, a expressão facial da Swan não era de alguém assustada. Havia raiva ali, raiva e distanciamento.
–Não importa. Não importa como Charlie me via. Não importa. Acabou. Acabou tudo. Meu sacrifício não valeu de nada. Eu não sou nada. –E voltou a olhar para a janela. E o desespero de Edward aumentava exponencialmente. Ele ficou com a sensação de que perdera a sua Isabella, talvez para sempre.
–Sim, acabou. Os mortos devem permanecer mortos. Você já viveu muito por Charlie, fez o que podia. Seu sacrifício estendeu a vida dele. Teria estendido mais se ele não fosse tão idiota. Você foi necessária pra ele e sei pela carta que ele reconheceu isso. E você é necessária para mim agora. –As palavras que antes afetavam Isabella, as confissões inesperadas, não a fizeram esboçar nenhuma reação.
–Não quero voltar com você. Não preciso. Fiz isso para manter Charlie vivo. Ele não está mais vivo. Não vejo por que continuar me sacrificando. Sugeriu para eu ser egoísta. Pois bem, eu escolho ser exatamente isso. Quero viver a vida que deixei de lado.
Uma vida longe de Edward era o que Isabella dizia. E esse tempo todo, ao que parecia, tudo não passou de obrigação para com o pai. Edward sabia que era mentira, mas doía ouvir a menina falar daquela maneira, como se ela não sentisse nada por ele e não se importasse com nada relacionado a ele. Embora Edward soubesse que deveria adotar uma conduta paciente para com ela, em momentos assim o Edward sombrio vinha a tona e ele não conseguia frear essa aparição. Por que ele não queria perdê-la. Por que ele temia deixá-la longe de sua vista, desprotegida. Por que Isabella era dele e somente dele.
–Você vai voltar para o meu apartamento querendo ou não. –Sua voz, apesar de não sair gritada, continha todo o autoritarismo de outrora. A racionalidade ia sendo deixada de lado a cada palavra. Seu discurso foi como gasolina no fogo que era o ódio de Isabella.
–Não pode me forçar. –Murmurou Isabella, mostrando surpresa com a atitude de Edward. Também pudera depois de tudo o que aconteceu entre eles, ela não esperava que esse Edward, o algoz do passado, aparecesse. –Eu achei que, depois de tudo, que você...
–Eu não ligo de ser o cara mau. Eu vou tomar todas as decisões e até mesmo vou deixar que você me odeie. E tudo por que eu quero protegê-la. Se for preciso lembrá-la a quem você pertence, quem comprou você dos mafiosos, eu vou lembrar. Pode achar que se libertou de mim, mas enquanto não me pagar uma única moeda do que eu gastei, você será minha Isabella e de mais ninguém!
...
O caminho do hospital até o apartamento de Edward foi desconfortável. Isabella protestou o máximo que pôde, chamando a atenção de quem estava no hospital, como se estivesse indo para um cativeiro. Talvez fosse exatamente isso. Edward a ignorou, puxando-a pelo braço sem muito cuidado em direção a casa. Teve de travar a porta do carona, pois tinha a impressão de que um descuido e a Swan pularia fora do carro mesmo em movimento.
E agora lá estava ele, tendo que arrastá-la pelo braço até o apartamento em um silêncio constrangedor. Sabia que deveria acalmar a menina, mas se viu impossibilitado quando ele mesmo não conseguia acalmar-se. Estava desesperado por reaver algo que parecia ter se perdido para sempre: o amor que apenas Isabella era capaz de dar a ele.
Quando Bella correu para o quarto dela e lá se refugiou, Edward permitiu. Ele precisava pensar no que fazer. Foi para o quarto, ligou para Alexandrina avisando que não voltaria ao escritório e se pôs a pensar. Ela o culpava pelo suicídio de Charlie, mas essa raiva especificamente logo passaria. A razão alcançaria a morena, ela concluiu, e ela perceberia que Edward não só era inocente, como também Charlie era um degenerado que procurou por um fim tão trágico. E talvez ela voltasse a ser a Isabella de antes... Talvez ela voltasse a amá-lo e as coisas voltariam a ser como eram. Os recentes planos que eles tinham funcionariam. Ele não precisava se preocupar, precisava?
Mas se preocupava.
“O que eu posso fazer para isso mudar? O que eu posso fazer para ela voltar? Não vou aguentar ficar nessa situação, depois de tudo o que vivemos.” –Sentou-se na cama, segurando a cabeça entre as mãos, cotovelos apoiados nas coxas. Ainda estava tão preocupado com ela! Queria, mais do que nunca, encurtar a distância entre eles e envolvê-la nos braços para nunca mais soltá-la. Falar para ela que não precisava se preocupar com nada, pois ele sempre estaria lá para ela. Sempre. E agora, fazer isso seria altamente danoso para ela.
...
Estacionou o carro em frente à antiga casa. Tudo estava silencioso.
Tinha pouco tempo até Edward saber por intermédio dos funcionários o que havia acontecido. Ela bem sabia que aquele carro que dirigia poderia ter algum tipo de rastreamento por satélite, sendo fácil encontrá-la. Ou Lauren poderia contar o que fez e Edward saberia que Bella foi para a antiga casa. Não, ela não poderia encontrar com Edward antes de ter as respostas.
Não saiu de imediato do carro, temendo o que iria encontrar. A casa estava escura e tão silenciosa que só de olhá-la Bella sentia um calafrio. Talvez Charlie estivesse lá, jogado no sofá da sala. Se ele a visse, o que diria? Qual explicação Bella daria para o seu desaparecimento? Ela não havia pensado nisso, apenas inventou uma desculpa para ter acesso a um carro e saiu o mais rápido do apartamento.
E se Lauren estivesse mentindo? Havia essa possibilidade. Isabella era agora a namorada de Edward, devia confiar mais nele no que na loira. Seria muito melhor deixar essa história para lá e tocar a vida da melhor forma possível. Ela tinha planos com ele, planos em que poderia tocar a sua vida, os planos feitos, antes da morte da mãe. Edward lhe daria todo o suporte como prometera e agora ela poderia crer que teria um futuro. Para que procurar a infelicidade? Ainda sim...
Saiu do carro, caminhando em direção à porta. Ficou em frente a ela, tentando encontrar coragem para bater. Ou talvez pudesse apenas entrar. A cópia das chaves que ela deixava em casos de emergência devia estar escondida no mesmo lugar, dentro de um vaso de plantas azul meio que escondido entre as ervas daninhas. Quando ela se virou para contornar a casa e pegar a chave...
–Bella?-Uma grande amiga do passado a observava com olhos assombrados.
–Leah. –Isabella sentiu uma profunda alegria ao vê-la depois de tanto tempo. Leah e Isabella eram grandes amigas desde que a menina e a mãe foram morar com Charlie. Há quem não acreditava na improvável amizade (as meninas tinham personalidades completamente diferentes), mas a coisa deu tão certo que se tornaram inseparáveis e nunca brigaram.
O corpo diminuto de Isabella foi capturado pelos braços longos de Leah num poderoso abraço. Não demorou muito para que ouvisse o que parecia ser um choro baixo vindo da própria Leah que Isabella nunca ouvira antes. Leah sempre fora aos olhos de Isabella alguém de personalidade forte e que se recusava a mostrar fraqueza na frente dos outros, mas agora estava tão vulnerável como uma criança.
Correspondeu ao abraço com fervor, murmurando um pedido de desculpas. Com tudo o que aconteceu a ela, pouco se preocupou com aqueles que ela havia deixado para trás, a exemplo de Leah e Jacob. E saber que havia causado tanta dor a uma querida amiga a deixou mal.
–Desculpe. –Murmurou novamente a Swan, ao que a maior se afastou, enxugando as lágrimas com a manga do casaco. –Sabe que não é do meu feitio ser um bebê chorão, mas eu pensei que nunca mais a veria.
–Desculpe querida amiga. Não queria fazer ninguém sofrer, mas tanta coisa aconteceu que...
–Eu sei Bella. Eu sei. Agora vamos entrar por que temos muita coisa para conversar. –E a morena foi puxando Isabella para a casa ao lado da dela e desatou a falar tão logo atravessaram a porta. Fez mil e uma perguntas que Isabella não respondeu, para logo mais ser bombardeada por perguntas da própria Swan. Leah contou com riqueza de detalhes tudo o que aconteceu na vida dela e Isabella ficou feliz pelos planos da maior terem dado certo; Leah era determinada o suficiente para conquistar o que quisesse. Isabella ouviu a tudo com paciência, aliviada por, em determinado momento, Leah perceber que a menina não queria falar sobre ela mesma e evitar perguntas. É claro que houve um momento em que o assunto acabaria e outros assuntos viriam à tona.
–Bella, onde esteve? Eu a procurei como uma louca! Quando Charlie voltou, fui até ele saber o que havia acontecido, mas ele não disse nada de útil. Ficou chamando você de ingrata, que o havia abandonado e não sabia o local onde estava. Então nos falamos naquele dia...
–Muita coisa aconteceu Leah. Infelizmente não são coisas que posso partilhar livremente...
–Não pode? SOU SUA MELHOR AMIGA! Tem ideia do que o seu desaparecimento fez comigo? Achei que tivesse morrido! Deveria, ao menos, me contar algo. –Leah estava irada. Andava pela diminuta sala enquanto Bella permanecia sentada em um sofá, olhando as próprias mãos. Era compreensível essa reação. Deveria dizer algo, mas não queria expor o que lhe acontecera. Leah provavelmente tomaria medidas drásticas que envolveriam a lei pelo que Edward fizera independente de hoje os dois estarem bem. Além disso, talvez Leah ainda mantivesse contato com Jacob. Isabella não queria que o rapaz soubesse de nada, não ainda.
–Eu precisei me afastar, ainda preciso. Você sabe que estar com Charlie não estava me fazendo bem.
–Eu sei Bella. Eu sei. Não esperava que você deixaria tudo de lado. Deveria ter pelo menos dito para onde ia, mantido contato. –Leah ajoelhou-se para poder olhar para a amiga cabisbaixa, pegando a mão branca e delicada dela. –Mas o fato de que está aqui significa que acabou, não é? Pode voltar a morar na sua antiga casa, retomar a sua vida como antes. Charlie nos deixou e está em paz.
As palavras de Leah atingiram a Swan como uma faca. Ela ergueu a cabeça, lançando um olhar confuso de quem não entendia.
–O que?-Murmurou, quando a campainha tocou. Leah se afastou para ver quem era e voltou rapidamente.
–Olha, fique aqui. Preciso resolver algo. –Fechou a porta, deixando Bella sozinha. A menina levantou-se, caminhando a passos lentos e notou ao olhar por uma janela que Leah não estava mais na frente de casa. Para onde teria ido? Fazer o que? O que poderia ser tão importante quando a conversa que estavam tendo?Não importava. Por que enquanto Leah desaparecera sabe se lá Deus para onde, o que disse à Isabella penetrava mais e mais na mente da Swan.
“... acabou, não é? Pode voltar a morar na sua antiga casa, retomar a sua vida como antes. Charlie nos deixou e está em paz.”
Ela saiu pela porta dos fundos às pressas, não sem antes ver Leah beijando alguém e falando baixinho, com urgência. A pessoa se afastou apressada e Isabella reconheceu aquele caminhar: Jacob. Só teve um minuto para assimilar a cena, para depois se esgueirar e entrar pela porta dos fundos da própria casa.
–Pai? –Começou a chama-lo, desejosa por receber uma resposta. A casa estava silenciosa, escura. Acendeu as luzes à medida que avançava nos cômodos, chamando pelo pai. Enquanto os olhos passeavam por cada cômodo, lembrou-se de épocas felizes ao lado da mãe viva e do pai amoroso. Renée dera um colorido para aquela casa através de tinta, flores e sorrisos. Colorido este que Bella tentou manter, antes de ter de lidar com os vícios do pai. E então outras imagens vieram, lembranças retalhadas, de um Charlie bêbado se esgueirando pela casa, às vezes sendo ajudado por Isabella. Tudo isso durou uma fração de segundos até a menina decidir ir para o quarto do pai.
–Pai, sou eu, Isabella Marie, sua filha. –Ela murmurou enquanto a realidade parecia se abater sobre ela. O quarto, pouco iluminado graças a luz da tarde que invadia pela janela de vidro, estava vazio. Charlie aparentemente na estava lá. Isabella se sentou na cama, olhando ao redor. Tudo parecia tranquilo, como se ele tivesse ido trabalhar, ou estivesse em algum lugar bebendo até cair. Quase poderia imaginar que as coisas haviam voltado ao normal. Quase.
A mão esbarrou em algo em cima da cama. Bella pegou o papel com descaso, até ver o nome dela escrito numa caligrafia conhecida no envelope branco. Abriu com voracidade a carta, lendo mais rapidamente que o normal. Entendeu do que se tratava antes mesmo de ler o final da carta, Charlie deixara uma carta de despedida para a filha, tentando se redimir do que fizera. Outro nome, em meio as palavras escritas apressadamente, surgiu: Edward. Sim, tudo foi se conectando de uma forma lenta e dolorosa na mente da Swan, que segurava a carta com as mãos tremulas.
Edward, a pessoa que havia aprendido a amar e confiar, havia traído Isabella. Contara a verdade a Charlie, provocando a morte do pai. Isabella tentou salvar Charlie, sacrificando-se imensamente, para o pai, covarde, deixá-la sozinha.
Ela estava sozinha. Completamente sozinha. Por mais que Edward tivesse demonstrado amor, assim como Charlie fizera, ninguém a amava. Renée se fora, a melhor amiga tinha um caso com Jacob, e... Exato, não havia mais ninguém. Ninguém.
Bella estava sozinha.
Ela se perguntou, enquanto levantava-se tropegamente e ia até o closet do pai, se pessoas sozinhas tinham alguém para sentir falta delas quando partiam. O pai se sentia sozinho? Teria ele decidido tirar a própria vida por pensar que estava sozinho e que ninguém se importaria com a sua morte? Bom... Ela se importava. Isabella sempre se importou com o pai negligente. Mas quem se importava com ela? Edward, o homem que a traíra?
Ela sabia exatamente onde encontrá-la, dentro de uma caixa de madeira em um fundo falso do armário. Pegou a caixa com cuidado, passando os dedos por ela. Sim, dentro daquela caixa havia alivio para a dor. As lágrimas caiam intermitentes pelos seus olhos encontro pegou cuidadosamente a arma do pai, engatilhando-a. Seria rápido.
O cano encostou-se à testa e os dedos delicados envolveram o mecanismo de ignição da bala. O tiro esperado não veio e só depois Isabella lembrou-se que jogou fora todas as balas da arma que o pai usava no trabalho quando temeu que ele fizesse alguma besteira. Respirou sofregamente, confusa. A morte passou perto, tão perto que ouviu o sussurro convidativo dela para ir até o esquecimento.
Não poderia ficar assim. Ela tinha pouco tempo e sabia disso. Pouco tempo até alguém perceber sua falta e vir atrás dela, impedindo-a de encontrar o alivio a dor que sentia.
Os olhos vagaram pelo quarto até ela focar no banheiro. Ah, Charlie e até Renée eram adeptos do uso de comprimidos para dor, insônia e qualquer outro mal. Acumularam assim remédios dos mais variados tipos, que ficavam dentro do armário do banheiro.
Com passos trôpegos, uma força parecia empurrar Isabella em direção ao banheiro. Essa mesma força a fez pegar todos os frascos de remédios, não importando para que eles serviam, e tomá-los compulsivamente.
Enquanto sentava no chão e se deixava embalar pelo torpor, achou que enfim encontraria paz. Quem sabe encontraria o pai e a mãe, juntos e felizes, em algum lugar.
Fechou os olhos, relaxando toda. Os membros foram ficando dormentes e a dor que antes a tomava pareceu ficar distante. Isabella sorriu. Mas algo aconteceu enquanto ela era embalada pela morte. Gritos de um anjo, a voz mais bonita que ela ouvira, a chamavam para longe da escuridão. Mãos que a seguravam com firmeza, mãos familiares e uma voz familiar que queriam privá-la da morte. Bella lutou contra aquele agressor que ousava se intrometer na sua vida, mas perdeu a batalha. Ela acordou depois, num quarto de hospital, e soube que fracassara.
Edward a havia encontrado e levado ao hospital. Edward esteve lá durante todo esse tempo, zelando por ela, foi o que disseram. E nada disso importava. Embora Isabella estivesse viva, ela havia penetrado fundo demais na escuridão para retornar. Por isso mostrou-se indiferente a ele desde que o vira. Não se falaram decentemente e não se viram pelo resto do dia.
Angela trazia refeições que Isabella ignorava, assim como ignorava os apelos da empregada para que ela comesse. Edward não apareceu no seu quarto, talvez desistindo de estar ao lado dela após ser rechaçado. Melhor assim, Bella concluiu. Ela não queria estar em contato com ninguém. Se não podia ir até onde seus pais estavam, não iria na direção de mais ninguém.
–Angela me disse que não comeu nada. –Outra voz soou, longe, dentro do quarto em que estava. Não era a voz de Angela. Isabella, contudo, permaneceu na imobilidade, pálida e fraca, a contemplar a paisagem noturna oferecida por uma persiana aberta.
–Então vai ser assim? Não conseguiu se matar tomando medicamentos, vai se matar de inanição? É isso?! –A voz de Edward foi se alterando, mas Isabella continuou ignorando-o da melhor forma possível. –OLHE PARA MIM! –Ordenou, num tom de voz que lembrava outro Edward, tempos atrás. Como ele continuou ignorado, foi até Isabella, forçando-a a olhá-lo.
–Estou vendo o antigo Edward em você. Certas coisas não mudam. –Murmurou, os olhos sem o brilho de outrora, enxergando Edward sem vê-lo realmente. Edward afastou a mão. Estava entrando em pânico. Isabella estava ali só em corpo e ele se perguntou se talvez a alma dela, a alma que ele amava tanto quanto amava o corpo, não teria morrido pela overdose dos medicamentos.
Ele estava desesperado. Maldita Lauren! Maldito Charlie! Queria sua Bella de volta, mas como a teria? Como voltar aos bons tempos? COMO? Como trazer a sua Bella de volta ou, pelo menos, impedir que ela tentasse alguma besteira? Edward não sabia. E se sentir tão impotente com tudo o que estava acontecendo deixava-o irado a ponto de fazer idiotices que se arrependeria depois, como a que ele estava pensando agora.
–Vista algo bonito. Se não está comendo nada é por que a comida aqui não a agrada. Sairemos para encontrar um restaurante que goste. –Foi até o closet da menina, pegando o primeiro vestido e par de sapatos que conseguiu alcançar. Jogou a escolha feita em cima da cama, próxima a ela.
–Prefiro passar fome a sair com você. –Murmurou debilmente a Swan.
–Ah, agora eu sou novamente o vilão? Aquele que você detesta com todas as forças? Aquele que tem a companhia mais desagradável e que tudo é melhor do que estar ao meu lado? –Ele indagou. Bella o encarou como se respondendo positivamente ao questionamento. Edward sentiu o próprio coração perder uma batida. Isso devia ser um pesadelo, esse retorno ao zero. Não podia estar acontecendo! Ele precisava de uma medida emergencial e rápido!
–Vista algo. Se arrume do meu agrado. Vou mostrar a você que sou o melhor para você e que ficar ao meu lado é cem vezes melhor do que qualquer uma. –E saiu, deixando Isabella sozinha. Ela poderia ter ficado parada, ignorando o comando por ele dado, mas viu no desafio uma chance de fugir. Sim, ela poderia fugir de algum modo. Levantou-s, pegando o vestido escolhido. Maquiou-se com esmero, ficando o mais bonita possível.
Edward se arrumou, pensando em como executaria o plano de trazer de volta a sua Isabella. Ele ainda não sabia. O tempo, talvez, fosse o meu maior aliado. Mas ele não poderia cruzar os braços e esperar que o tempo agisse. Edward tinha que tomar alguma medida para, pelo menos, Bella esquecer esse comportamento autodestrutivo. Ele não suportaria mais passar pelo que passou quando Bella tentou tirar a própria vida.
Imaginou, após, arrumado, ir ao quarto da Swan, que a encontraria do mesmo jeito que a deixou no quarto. Se surpreendeu ao ver Isabella vestida e maquiada, linda como sempre. Ah, ela era de tirar o fôlego! E seria ainda mais linda se não fosse por aquela máscara de indiferença que foi colocada no rosto por ela.
–Não imaginei que viria. Pensei que teria de arrastá-la. –Aproximou-se, desejando colar os lábios nos dela e esquecer toda a loucura vivida nas ultimas horas. Bella se afastou com um olhar frio na direção dele, detendo qualquer indicação de aproximação por parte dele.
Isabella permaneceu calada. Caminhou com Edward até o estacionamento, para logo mais seguirem em direção ao restaurante escolhido pelo rapaz. Edward refletiu que o fato de Isabella estar mais calma poderia ser um indicativo de que logo voltaria a normalidade. Ledo engano. Ao acessar uma rua pouco movimentada, tentando enxergar o caminho, dificultado pelo temporal que caia, viu a menina subitamente abrir a porta do carro e correr para longe, em meio a chuva e a escuridão.
Assustado, Edward jogou o carro de qualquer jeito na calçada e partiu em meio a chuva a procura de Isabella. Não precisou correr muito, a menina estava há poucos metros, caída no chão graças ao salto do sapato que quebrara no inicio da corrida. Ela jogou com descaso os sapatos para o lado, prestes a correr novamente. Edward a segurou pelo braço.
–ESTÁ LOUCA? AONDE PRETENDE IR?
–Para qualquer lugar! Para o inferno se for preciso! Quero ficar longe de você! –Isabella se debatia, tentando inutilmente se livrar dos braços de Edward.
–Acha que estará melhor sem mim? O que você, uma pobre criatura desprotegida, pode fazer sem mim? ME RESPONDA! –Ele a pegou pelos braços, sacudindo-a. Queria que a razão penetrasse a cabeça oca daquela menina e a fizesse enxergar que agora ela o tinha e deveria se aproveitar disso. A Swan, todavia, parecia ensandecida.
–Posso qualquer coisa! Sempre pude! –Ela o olhou de forma desafiadora, o rosto uma mascara de loucura, ainda mais com a forte maquiagem borrada pela chuva.
–Então pode? Que ótimo, por que eu quero saber como pretende se libertar de mim. Você me deve Swan, me deve mais do que pode pagar em vida. Como vai pagar o alto investimento que fiz a você? Com um emprego de merda que mal te pagará o suficiente para comer? –Ele não queria agir daquela forma, não queria ser ríspido e se impor perante ela. No entanto ele se lembrava que sempre conseguia domá-la quando falava na divida que ela tinha para com ele e rezava para novamente essa tática funcionar. Ao que tudo indicava, ele estava falhando miseravelmente.
–Tem um jeito de conseguir. Posso dormir com outros caras. Tenho certeza que conseguiria um bom dinheiro. –Ela riu.
–Se quer pagar com o corpo, pague diretamente para mim! –Ele estava irado e o Edward violento de outrora estava à margem, esperando. Ele temia aquele Edward inconsequente, que surgira logo após os acontecimentos brutais envolvendo a mãe Esme, pois ele sempre acabava machucando Isabella de alguma forma.
–Pois eu prefiro me deitar com qualquer um! –E as palavras dela, gritadas, foram como uma faca transpassando o peito de Edward. Ele a soltou, em choque, incapaz de replicar as palavras ásperas por alguns segundos. Tentou se recompor, olhando amargamente para Isabella.
–Me mostre então. Estamos em um belo ponto para você conseguir um cliente. Mostre-me como vai conseguir dinheiro se deitando com outros homens, menos repugnantes do que eu.
–Eu vou mostrar! –Ela foi para um beco da rua, ignorando a chuva que a deixava molhada, e esperou. Dois carros passaram, ignorando-a. Edward olhou a cena com raiva e riu quando um carro passou rápido o suficiente para sujá-la de lama.
Irritada, a morena rasgou parte do vestido preto sujo, deixando-o provocativamente curto. Edward olhou a cena abismado, o divertimento sumindo como éter no Sol. Um carro parou e ele olhou para a cena, abismado, quando Isabella simplesmente entrou no veiculo, que deu partida. E então ele estava correndo em direção ao carro dele, mortalmente irado. Ele iria pagar! Pagaria caro!
–Que chuva! O que uma coisinha linda como você está fazendo em um temporal desses?
–Tentando provar que eu posso ganhar dinheiro. –Bella continuou olhando para frente, sem ver nada. Quando sentiu uma mão na coxa, resolveu, enfim, ver quem dirigia o carro. Um jovem de seus vinte e poucos anos, relativamente bonito, que a encarava com lassidão.
–Deve estar muito desesperada para ganhar dinheiro. Bom... Já que entrou no meu carro, posso imaginar como queria ganhar esse dinheiro. Mas devo avisá-la que não tenho muito. O que você oferece por cinquenta dólares? –E a mão que não estava no volante insistiu, desejando tocar mais da pele da menina. Isabella finalmente percebeu que estava em maus lençóis.
–Me deixe em algum lugar, acho que hoje não será possível.
–Ora, vamos! Não é muito, mas uma chupadinha paga, não é? –E o rapaz acariciou o membro por cima da calça, já ereto.Vou encostar bem ali. –E estacionou em um lugar escuro, atrás de um prédio industrial. Não havia ninguém por perto. Isabella começou a ficar nervosa.
–Vou indo. –Disse, tentando sair, mas a porta estava trancada. –Abra a porta. –Pediu. A expressão do rapaz, que continuava encarando-a dos pés a cabeça, não indicava que ele iria acatar o pedido.
–Você precisa trabalhar primeiro, princesa. –E fez menção de tirar o pênis de dentro da calça. Isabella se encolheu no carro, pronta para agredi-lo, se necessário. Ela não precisou. Alguém socou o vidro do lado do motorista, quebrando-o. Abriu a porta e pegou o motorista com violência, jogando-o no chão.
Edward, ela reconheceu. Bella saiu do carro, olhando a cena. O rapaz que tentara agarrá-la no carro levantou do chão, furioso. Agora ela pôde ver que ele era mais alto e forte que Edward, o que poderia significar o Cullen cheio de ferimentos se ele fosse brigar com o desconhecido.
–O QUE MERDA ESTÁ FAZENDO? VAI PAGAR CARO, SEU FILHO DA PUTA! –Ameaçou o desconhecido, preparando-se para agredir Edward, mas o outro estava armado e exibiu sem pudor a pistola.
–Quem é o filho da puta agora? Tente encostar um dedo em mim ou nela e vou mandá-lo para o inferno! Ou talvez eu mande agora por simples capricho. –Edward tinha um olhar insano, engatilhando a arma e apontando para a cabeça do rapaz, que se ajoelhou, implorando pela vida. Isabella correu, tentando impedir Edward.
–NÃO! CHEGA! –Ela segurou a mão que empunhava a arma. –Não faça isso Edward!
–Ele encostou em você? –Ela viu nos olhos esmeraldinos que a encaravam com preocupação toda a paixão que Edward mostrava a algum tempo e esfriou. O ódio desaparecendo aos poucos.
–Não. –Mentiu por não querer ser a responsável pela morte daquele rapaz. Edward abaixou a mão, colocando a arma na cintura, pegou Bella mais gentilmente pelo braço, conduzindo-a até o carro dele, estacionado metros atrás. Ela foi sem questionar, sentando no banco do carona enquanto ele dava a partida no carro. Seguiram pela chuva por aquela rua vazia por alguns minutos, aparentemente sem rumo. Havia algo naquele silencio constrangedor que Isabella não se sentiu a vontade para quebrar, dizendo alguma coisa.
Foram para o apartamento novamente, deixando de lado a ideia de ir a algum restaurante. Assim que Edward estacionou o seu carro na vaga de sempre, ele encostou a cabeça no volante, fechando os olhos. Havia algo na expressão do rosto dele, um sofrimento tão intenso, que deixou Bella com o coração pesado.
–Eu sou tão repugnante ao ponto de você querer dormir com um desconhecido? Você quer tanto assim se livrar de mim? –Ele perguntou. Bella não sabia o que dizer. –Me responde Bella! Aonde foi parar o imenso amor que você sentia por mim? Ele morreu junto com o Charlie? Além de lamentar a perda dele, sabendo o que a morte do seu pai faria com você, terei que lamentar a morte da Bella que me amava? Não me obrigue a isso! Ela era a única coisa boa que eu tinha! –os olhos esmeraldinos encaravam a Swan, lacrimejantes.
Antes que a menina pudesse dizer algo, Edward se aproximou, beijando-a com volúpia. As mãos passearam pelo corpo dela, urgentes, arrancando os restos do vestido preto molhados. Ela correspondeu com igual paixão, retirando as pressas o terno bem cortado, e igualmente molhado, do Cullen.
Lábios que desejavam se devorar, passeando pelo corpo do outro.
Línguas que brigavam, procurando extrair do corpo do outro o máximo de prazer.
Mãos que tocavam o outro corpo com urgência, beirando a violência.
O casal igualmente sedento, tentando, no espaço diminuto do carro, se amar de um jeito implacável como poucas vezes eles se permitiram. Por um par de horas, Edward e Isabella se esqueceram de quem eles eram e por que minutos atrás estavam tão irados com o outro. Apenas se amaram por segundos, minutos, horas, esmo quando os corpos demonstraram os primeiros sinais de cansaço ou quando o barulho que faziam se tornou suspeito em um local inadequado como aquele. Em algum momento Edward esbarrou nos botões que controlavam o som e a música francesa Ne me quitte pas soou no interior do veiculo, embalando os jovens amantes.
...
Sentia-se bem; leve, ela diria. Dormiu tranquila como há algum tempo não acontecia. Espreguiçou-se como uma gata, notando estar vestida com uma camisa masculina cinza de algodão, provavelmente de Edward. Sim, na noite anterior fizeram sexo até a exaustão dentro do carro. Ela adormeceu nos braços dele, mas Edward aparentemente se manteve acordado, carregando-a até o quarto que ela ocupava no apartamento, cuidando dela.
Sentou-se na cama e olhou para o lado, notando que Edward estava no quarto, sentado em uma poltrona perto da janela. Ele trajava paletó e gravata, o que indicava que sairia em algum momento do dia. E antes que a menina dissesse algo, ele se manifestou.
–Betha e Angela a ajudarão a arrumar as suas coisas e Erick ficará a disposição para levá-la.
–Do que você está falando? –Perguntou a menina debilmente.
–Vá embora Isabella. Volte para a sua antiga casa ou qualquer lugar que queira. Estou libertando você da obrigação de ficar ao meu lado. Estou dando a sua tão sonhada liberdade. –Não havia expressão na voz de Edward ou no rosto angelical.
–Por quê? –Foi tudo o que conseguiu perguntar. Depois de lutar tanto para obriga-la a ficar ao lado dele, era compreensível que Isabella estivesse confusa com a decisão. Sua pergunta fez o rapaz rir.
–Por que, você me pergunta? Achei que estivesse óbvio. –Ele olhou para ela com amargura. –Eu não sou mais egoísta, não com você. Faço pro que é o que você quer e devo acatar. Faço por que, agora, você é mais importante para mim do que eu mesmo. Faço por que o que sinto por você é forte demais, forte o suficiente. –Diante das palavras e a carga de emoção contida nelas, Isabella arfou. Finalmente ele diria o que ela sempre quis ouvir.
–… e essa provavelmente será a maior prova de amor que farei Isabella. E faço isso por que eu te amo. Sempre te amei. Até nos nossos dias mais negros eu amei você. –Ele continuou, demorando o olhar nela. Levantou-se em seguida.
–Adeus Isabella. Seja feliz. –E partiu para fora do quarto, deixando-a sozinha.
Ele foi ao trabalho após dar a ordem para os funcionários. Trabalhou incansavelmente ao lado de Alexandrina, conseguindo cumprir vários afazeres em apenas um dia. Tentou manter a mente longe dos últimos acontecimentos, ou poderia desmoronar. Edward não queria isso, não ainda.
Ao final do expediente, Edward foi sem pressa para casa, chegando no horário de sempre. Correu para o quarto dela, aliviado por não avistar os funcionários. As mãos abriram de imediato o closet, constatando que tudo o que era dela ainda estava lá. Ele sorriu como um menino que ganhara o tão esperado presente de natal; Isabella não havia partido afinal de contas. Virou-se, pretendendo procurá-la pela casa; provavelmente ela estava na biblioteca escolhendo um novo livro para ler. Avistou Angela na porta que o olhava pesarosa e entendeu antes dela falar algo.
–Ela não quis levar nada que tenha ganhado. Foi com os pertences que trouxe para cá. Sinto muito senhor Cullen.
O sorriso que antes Edward sustentava desapareceu por completo. Uma parte otimista dele quis acreditar que ele a encontraria ali, principalmente depois de ter revelado o que sentia. Ele já deveria esperar que a má sorte continuasse a acompanhá-lo, afinal de contas, Edward Cullen era um amaldiçoado.
Caiu no chão de joelhos e chorou por incontáveis horas como uma criança.
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