Esme contemplava a paisagem rupestre diante de si que tantas vezes a encantou quando criança. Pela primeira vez não enxergou a beleza daquilo. Há duas semanas conseguira uma licença para se ausentar, alegando doença no trabalho. Nem sabia como conseguiria mascarar a mentira, uma vez que não tinha um atestado.

Estava na casa de campo de uma amiga, a poucos quilômetros da casa dos pais. Não falou para eles o que estava acontecendo, o súbito aparecimento de Elizabeth após mais de um ano desaparecida. Verdade seja dita, não falava com os pais desde que a irmã saiu de sua casa para viver com Aro. Eles a culparam pela desgraça da filha menor e a relação antes estável foi severamente abalada. Desde então eles entravam em contato apenas para saber se Esme tinha noticias de Elizabeth, desligando após saberem que ela nada havia encontrado que pudesse indicar a localização da outra.

–Já estamos aqui há seis dias. Não continuarei nesta casa, dando guarida a você, enquanto não tiver algumas perguntas respondidas. Suportei o seu silencio desde que sai da minha casa praticamente fugida. –Olhou para a irmã que estava sentada em uma poltrona a poucos metros, embrulhada em um cobertos xadrez. Elizabeth se precipitou, pegando de dentro de uma pequena bolsa um maço de cigarros amassado. Esme se enfureceu com o ato, correndo até a irmã e arrancando com violência os cigarros, jogando-os na lixeira em seguida.

–Eles eram os meus últimos Esme. Terá que sair até alguma loja de conveniência para comprar mais.

–Sua burra! Você está grávida! Que merda Elizabeth! Pare de agir como uma garotinha inconsequente, por que você não tem mais idade pra isso! –Esbravejou a maior, se sentido subitamente exausta. Sentou em uma cadeira em frente à Elizabeth.

–Olha, se não quer falar sobre tudo o que passou nesses meses, tudo bem. Ao menos me fale por que nós temos que fugir. Você chegou até o meu apartamento, desesperada, dizendo que precisava se esconder.

–Aro. Preciso me esconder dele. –Ouviu a menor responder.

–Por quê? O que você fez para precisar se esconder dele?

–Não é o que eu fiz. Não fiz nada, porra! Não fiz o que ele gostaria, por isso preciso fugir. Precisa me esconder! –Agora ela parecia alerta, fugindo da letargia que a envolvia. –Se ele me encontrar, vai me matar!

–Mentira! Deve ter feito alguma coisa! Que foi? –Olhou para a barriga da outra, escondida por debaixo do lençol. –Trepou com outro cara? Foi isso? E engravidou do infeliz? Por isso Aro...

–Eu me deitei com mais homens que Aro pode imaginar, tá legal? Ele merecia! Merecia ser traído e fiz isso com maior prazer! Afinal de contas eu era mais uma que esquentava a cama dele! É isso o que queria ouvir? Está aí a verdade! E só para que você saiba, essa porra dessa criança é dele! Sempre tomei cuidado com as pessoas com quem me envolvi, mas nunca tive cuidado com Aro. Se eu fugi foi por que ele iria me matar! –Gritava Elizabeth, histérica. Esme procurou controlar o seu discurso, satisfeita pela irmã ter decidido falar.

–E a criança? Ele sabe da existência dela? Talvez, se soubesse, ele poderia poupar a sua vida.

–Eu não fiquei lá para descobrir se ele pouparia a minha vida ou me mataria junto com o bebê. Não quero ter nenhuma ligação com ele e, se ele soubesse que estou esperando um filho dele, essa ligação existiria contra a minha vontade. Além do que, não penso em ficar com ele. Vou abortar! Por isso quero algo de você e depois eu desapareço. Eu quero que me ajude a...

–CALA A BOCA! –Gritou Esme, enfurecida, levantando da cadeira. –EU NUNCA A AJUDARIA COM ALGO ASSIM!

–Precisa me ajudar! Seria fácil me livrar do problema se estivesse nos primeiros meses de gestação, mas não estou! Precisa me ajudar! –A menina parecia agoniada, desesperada, e Esme se apiedou dela. Pobre Elizabeth, que se deixou seduzir por uma vida de luxo e glamour... Até que ponto Esme era a culpada, como afirmava categoricamente os pais delas?

Esme não tinha dinheiro para ajudar Elizabeth como deveria. Mais do que garantir um destino para a criança que crescia no ventre da irmã, ela precisaria encontrar um meio da irmã desaparecer sem ser encontrada. Não seria fácil. Pensou então no patrão, o senhor Denali, que parecia nutrir algo por ela. Será que ele seria capaz de emprestar grandes somas de dinheiro para Esme salvar a irmã? E como ela pagaria a divida? Não sabia, não queria saber, mas precisava tentar. Eleazar era a sua única esperança.

–O que você me disse é... –Murmurou Isabella, ainda em choque com a revelação de Edward.

–Impossível de acreditar, eu sei. Até hoje tenho dificuldades de aceitar, mas é a verdade. –Edward queria acariciar com as mãos aquele rosto adorável a poucos centímetros do dele, mas se conteve.

–E se a sua mãe biológica mentiu? Pode ser possível.

–Pode ter sido uma mentira ou não, mas não vou pagar pra ver. Assim como ela desejou, eu não quero ter nenhuma ligação com Aro Volturi. Prefiro ficar na eterna duvida, embora algo dentro de mim diga que... Eu não sei. –Sentiu no rosto o toque de Bella e suspirou. Era tão bom receber alguma coisa dela de bom grado!

–Você não se parece com ele fisicamente. –Isabella o estudava, parecendo se esforçar para encontrar alguma semelhança física, mas não encontrando nada.

–Encontrei uma foto de Elizabeth anos atrás. Sou um perfeito anagrama dela. Os olhos, o cabelo, a brancura da pele... Tudo é dela. Talvez... A única coisa que herdei de Aro é o fato de ser um monstro como ele. –Edward disse com um tom amargo de voz. Isabella se apiedou dele, acariciando o rosto querido com uma mão.

–Você não é um monstro. –A sua voz melodiosa tinha uma ternura enorme, comovendo o rapaz. Ainda assim, ele retirou delicadamente a mão da menina do seu rosto.

–Afirme isso depois que ouvir a historia toda. –Suspirou e recomeçou. –Elas voltaram para a cidade e Esme acabou revelando tudo para o patrão. Eleazar, para a surpresa delas, não titubeou. Concordou em ajudar Elizabeth, afirmando que o preço pela ajuda seria cobrado em um dado momento. Desesperada como estava para ajudar a irmã, Esme nem questionou. Convenceu Elizabeth a me ter, o que aconteceu depois de poucos meses. Eleazar contratou um homem que falsificou documentos para Elizabeth e esta desapareceu para algum país estrangeiro. Este mesmo homem falsificou os meus documentos e, assim, eu passei a ser oficialmente o filho de Esme.

–E a sua mãe? Nunca chegou a vê-la? Ela ainda está viva?

–Eu não sei Bella. Às vezes as duas mantinham contato, mas um dia Elizabeth não ligou mais. Eleazar disse que ela havia se casado com um dinamarquês e deixado o lugar onde estivera até então. Não sei se ela está viva. Não sei o que aconteceu a ela. Não houve um único dia que Esme não tenha pensado em Elizabeth e rezado por ela.

–Foi a sua tia que contou tudo a você Edward?

–Não. Eu encontrei o seu diário pessoal e soube da historia toda através dele. Ela nunca me contou nada, sequer me contou que eu era o eu sobrinho e não o seu filho. Nunca me rebelei contra isso. Tudo o que ela fez foi para me proteger.

–Ainda não entendo o que toda essa historia tem haver com o fato de você está trabalhando para Aro. –A mente da Swan trabalhava, tentando encontrar alguma ligação com a história contata e as coisas que sabia desde que passara a viver com Edward.

–Estou chegando nessa parte. Eleazar cobrou o seu pagamento. Ele gostava da minha mãe, Esme, e a queria para si. Ela cedeu, mesmo não sentindo nada por ele. Eu fui crescendo sob os seus cuidados, jamais houve mãe mais dedicada, e Eleazar estava sempre por perto, como uma sombra. Ele não gostava de mim e eu não gostava dele, mas fingíamos suportar o outro pela minha mãe. Ele queria se casar e, até onde soube me enviar para algum internato onde eu não incomodaria. Esme era contra, queria me ter sempre por perto. Eles discutiram muito por causa disso, desse impasse.

La só aceitou o noivado tempos depois. Mais uma divida firmada com ele. Fiquei doente, muito doente, e ela não tinha dinheiro para o tratamento. Eleazar bancou tudo, com a promessa dela de que se casariam. Esme aceitou.

Apenas soube disso e de outros detalhes por ler o diário dela. Esme acabou descobrindo coisas desagradáveis de Eleazar. Ele, assim como Aro, tinha negócios ilícitos. A concorrência entre eles era mais ligada aos negócios com drogas, trafico humano e de armas do que envolvendo as empresas de fachada. Ela não queria acabar como Elizabeth. Não queria se envolver nesse mundo, ainda mais tendo a mim, mas não sabia como se desvencilhar do Denali. Ela devia a ele, afinal. E não apenas isso... Ela tinha medo dele.

Eu assisti a sua angustia de perto, sem saber o que a entristecia. Procurei me esforçar para ser o melhor filho que alguém poderia querer e, assim, devolver-lhe o sorriso. Acho que, até então, eu era a única ponta de felicidade que ela tinha, uma vez que era obrigada a ter um caso com alguém sem amor. E também me sentia culpado. Embora na época quase toda a historia não fosse do meu conhecimento, eu sabia ao menos da grande divida adquirida por ela na ocasião para garantir a minha vida.

–Que horror! E Esme se casou com Eleazar? –Isabella perguntou, sabendo que tocar em um assunto tão espinhoso desagradava Edward, mas não conseguindo conter a curiosidade.

–Não e esse é o problema. Embora tenham ficado noivos, minha mãe adiou o quanto pôde o casamento.

Ela acabou conhecendo ao acaso, enquanto ia trabalhar na empresa de Eleazar, um homem. O nome dele era Carlisle. Se conheceram no metro, ela relatou no diário. Ele era bonito, médico recentemente formado, e cedeu o lugar dele para que ela se sentasse. Algo muito simples. Os primeiros encontros foram na linha do metro, ao acaso. Começaram a conversar. Em pouco tempo Esme estava apaixonada e procurava formas furtivas de encontra-lo quando não estava no trabalho, com Eleazar ou comigo. Carlisle inclusive foi nos visitar algumas vezes. Eu gostava dele e, embora a minha mãe afirmasse que ele era apenas um bom amigo, eu sentia algo mais os observando. E eu queria que fosse ele, e não Eleazar o meu novo pai.

Esme era outra pessoa quando estava com ele. Ela sorria com prazer, até gargalhava. Ela o amava muito. E ele correspondia totalmente aos sentimentos dela. Mas havia um empecilho: Eleazar. Esme, certa noite, durante uma das visitas de Carlisle, abriu o jogo para ele. Pensou que ele a abandonaria, sentiria nojo por ela estar ficando com um homem apenas para o cumprimento de uma divida, mas Carlisle não fez nada disso. Ele a entendeu, a apoiou e prometeu que ficaria ao seu lado para resolver a situação. Ele propôs uma fuga... –A voz de Edward foi sumindo, até se tornar um sussurro.

–E o que aconteceu depois? –Perguntou a morena, sentindo que algo terrível estava para vir.

–Eu tinha dezessete. Logo terminaria o colegial quando aconteceu. Esme entrou em casa aflita. Pediu que eu a seguisse até o meu quarto. Arrumou algumas cosias minhas dentro de uma mala e me entregou um envelope grosso com dinheiro das economias dela.

–O que está acontecendo mãe? –Perguntou Edward a mulher. Esme não se virou para olha-lo, ocupada demais em retirar roupas do armário dele e arrumalas em uma mala.

–Lembra-se da Judith? Aquela minha colega de trabalho?

–Sim, eu lembro.

–Você ficará com ela por um tempo. Tenho um assunto particular para resolver. Não sei quando estarei de volta. Já falei com Judith e ela o acolherá com prazer. Procure ser um bom garoto e ajude-a com o que puder. Ela precisa de ajuda, pois tem certa idade e não em parentes nem filhos.

–O que vai fazer? O que está acontecendo? Para onde vai? –Edward questionou.

–Contarei quando voltar. Por hora, me obedeça sem questionar!

–Mas ela não voltou como prometeu. –A tristeza na voz e no olhar de Edward era visível. E Isabella temeu descobrir mais alguma coisa, por isso não perguntou mais nada. Todavia, ele continuou. –Vivi de favor com a gentil senhora até terminar o colegial. Ganhei uma bolsa integral para uma das melhores universidades do país e parti para lá. Esme não entrou em contato e eu, imaginando que ela tivesse me abandonado, a odiei por isso. Escolhi o curso de ciências contábeis, diferente do curso de medicina que eu tinha em vista, só por que o amante de Esme era médico. Eu acreditava que ela poderia ter fugido com ele e me abandonado.

–Mas ela não fez isso, não foi? Sua tia... Sua mãe... Ela foi...

–Durante as férias de verão eu voltei, apenas para dar um destino ao apartamento. Pretendia aluga-lo e deixar algumas cosias pessoais na garagem sem uso de Judith. Foi remexendo pertences de Esme que eu soube de toda a verdade. Encontrei uma caixa com o diário e algumas fotos. Li todo o conteúdo.

“Ele descobriu... De algum jeito descobriu o que eu pretendia fazer. Ele capturou Carlisle e me quer para uma troca. Não posso permitir que o meu amor pague pelos meus erros, meus crimes! Vou até Eleazar, salvarei Carlisle! Não sei se eu sobreviverei, mas me esforçarei pelo bem do meu filho, pelo bem de Edward! Judith não sabe de muita coisa, mas será melhor assim. Edward ficará bem com ela enquanto resolvo a situação. Quero acreditar que eu me sairei bem dessa, que Carlisle sobreviverá, mas... Que Deus tenha piedade de nós!

Esme Cullen”

Entendi então o que havia acontecido no dia em que ela me deixou sob os cuidados de Judith. Também entendi quem Eleazar era, quem o meu pai e a minha mãe eram. Fiquei desesperado! Eu a odiei e pensei tantas coisas ruins a respeito dela. Precisava fazer algo, procura-la, mas não tinha recursos para contratar um detetive particular e, até onde eu sabia, Eleazar era um criminoso influente. Eu precisava da ajuda de alguém tão poderoso quanto ele, que vivesse a margem da sociedade. Apenas um nome me vinha a cabeça...

–Procurou Aro Volturi. –Isabella constatou. Edward concordou com a cabeça.

–Eu me apresentei como filho de Esme Cullen, antiga secretária executiva dele. Ao contrário do que eu esperava, em pleno expediente de trabalho e sob os protestos da secretaria, ele me recebeu. Foi caloroso demais, algo que encarei com demasiada resignação. Falava de minha tia com carinho, como se eles fossem grandes amigos. Perguntou como estavam às coisas e eu disse a ele. Ocultei varias partes, pois não queria que ele soubesse de quem eu era realmente filho, nem que ele poderia ser o meu pai. Eu só revelaria isso se ele não aceitasse me ajudar, mas ele aceitou.

–Aceitou? Simples assim? Aro não me parece ser o tipo que faz favores sem querer nada em troca.

–E ele disse o seu preço. Soube o curso que eu estava fazendo e disse que precisava de alguém de confiança para ajuda-lo a administrar os seus bens. Eu aceitei sem titubear, desde que ele me ajudasse a encontrar a minha tia. Não sei o grau de rivalidade que existia entre Aro e o Denali, mas quando mencionei o nome de Eleazar, os seus olhos brilharam. Ele, de fato, se empenhou mais do que alguém comum se empenharia.

–Ele encontrou a sua mãe de criação? –A pergunta de Isabella pairou sem resposta por alguns instantes. Edward parecia alheio a tudo, como se recordando de algo extremamente desagradável a julgar pelo rosto pálido e olhos vítreos.

–Sim... Ele a encontrou.

–Sua mãe está no quarto anexo a este. Uma empregada esteve cuidando dela. Está limpa e com roupas novas, mas devo dizer que...

Edward não esperou Aro dizer mais nenhuma palavra. Queria vê-la. Precisava vê-la. Depois de todo esse tempo... Ficara tão exultante quando soube que a mãe ainda estava viva! As coisas poderia ser como antes, pensou. Voltariam a morar no antigo apartamento. Esme logo estaria ocupada com algum emprego, se quisesse. Edward voltaria aos estudos, trabalhando para Aro nos dias de folga, como prometeu. Ele poderia sustenta-los, dar uma vida boa a mãe, que descobriu ser a sua tia. Tudo ficaria bem...

Mas quando entrou no quarto em anexo, vendo a figura deitada na grande cama, ele soube, com pavor, que nada seria como antes.

–Esme estava... Nem consigo dizer. Não posso nem supor o que ela passou nas mãos daquele desgraçado! Talvez... Só talvez tivesse sido melhor se ele a tivesse matado no ato pela traição. O que Esme passou foi infinitamente pior do que Elizabeth passou nas mãos de Aro. Se você tivesse sido comprada por Caius, como suspeitei que aconteceria no dia do leilão, talvez vocês tivessem algo mais em comum do que o rosto em formato de coração. –Edward acariciou o queixo de Isabella com a ponta dos dedos. Ela estremeceu. Não pelo toque, que era prazeroso, mas em imaginar o que acontecera a Esme Cullen. Se Caius conseguiu traumatiza-la e feri-la em poucas horas, marcando a sua vida para sempre, imagine o que não teria sido da pobre Esme, que passara mais de um ano desaparecida?

–O que houve depois? –Perguntou, sentindo o coração pesar ao ver, pela primeira vez, Edward parecer comovido a ponto dos olhos ficarem vermelhos e lacrimejantes. Pareceu não conseguir pronunciar mais nenhuma palavra. –Talvez devêssemos deixar para depois. –Sugeriu a menina.

–Não. Preciso dizer agora. Se deixar para depois, talvez não consiga reunir coragem o suficiente. Sempre terminei o que comecei.

–Então... Algo no que você disse... Caius queria me comprar? –Ela perguntou.

–Sim. Por que outro motivo eu a compraria, depois do fiasco que foi a minha primeira compra? Eu vi o interesse dele naquela noite. Precisei implorar para Aro me deixar compra-la por um preço mais baixo que o anunciado. Você me lembrou de Esme e eu me senti responsável por você. –Riu amargamente. –Mas não fui muito diferente dele no final das contas.

Isabella agarrou o rosto do Cullen entre as mãos, fazendo o rapaz olha-la.

–Foi diferente. Você não é como ele e sabe disso.

–Talvez você mude de opinião. –Deu um meio sorriso cheio de um significado que ela desconhecia, retirando novamente as mãos dela do rosto dele.

–Pobre Esme... Sempre foi uma mulher excepcional. –Aro comentava enquanto olhava Edward, debruçado sobre a tia, acariciando-lhe o rosto magro, manchado e com cicatrizes. –Edward, meu caro, diante de uma situação tão aterrorizante, eu entendo a sua dor. E por entendê-la tão bem, fiz algo para você.

Edward levantou o rosto, parecendo entorpecido.

–O que o senhor fez?

–Eleazar Denali, o homem que arruinou com as suas vidas... Ele está aqui em minha mansão, amarrado em uma cadeira em uma sala subterrânea. Um crime como este não poderá ficar impune. Conhece a justiça comum. Um homem como Denali não ficaria nem alguns dias preso. Você, meu jovem, deve ser a mão da justiça sobre ele!

Ele estava lá, amarrado a uma cadeira, amordaçado, como Aro dissera. Enquanto seguíamos para a sala subterrânea, ele me contou, com demasiada frieza, o que descobriu pouco antes de ele encontrar minha tia e o maldito. Eleazar sequestrara Carlisle, incitando Esme a encontra-lo, caso o contrário o médico seria morto. Ela assim o fez, confiando cegamente na palavra dele. O maldito não só matou Carlisle com requintes de crueldade na frente dela, como a manteve em cárcere privado, torturando-a física e psicologicamente. Ele a obrigou a coisas inomináveis, transformando a minha tia em uma mulher debilitada, perturbada e viciada em remédios, drogas e álcool.

Denali foi solto e posto diante de mim. Apenas Aro permaneceu na sala, com capangas do lado de fora. Entregou a mim uma faca.

–QUE MALDIÇÃO! O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO VOLTURI? –Gritou Eleazar quando finalmente foi solto.

–Nada meu amigo. Quem fará será o meu protegido aqui. Acredito que se lembre dele. Ele é filho de Esme Cullen.

–FILHO DA VAGABUNDA? ESME NÃO...

Edward não esperou mais nenhuma palavra ser pronunciada. Até por que ele sabia que Eleazar estava a par de tudo. Não queria que Aro descobrisse a verdade. Golpeou com um soco a garganta do outro, impedindo que o Denali falasse algo. O Cullen o derrubou com facilidade, golpeando-o com os punhos com selvageria. Logo as mãos estavam arruinadas demais para machucar o inimigo e acabou por utilizar a faca emprestada por Aro.

–Eu a matei naquela noite. Agi feito um animal, deixando-o apenas uma massa de carne. Procurei fazer a tudo com lentidão, para prolongar o sofrimento, mas não pude. No inicio da manha seguinte, Eleazar estava morto. –Edward olhou para Isabella, esperando um olhar de asco por parte dela. Não recebeu. Aquele olhar piedoso foi o suficiente para ele prosseguir.

Levei minha mãe para a nossa antiga casa, cuidei dela. Mas Esme sucumbiu. Quando recobrou a consciência pela primeira vez, não sabia quem era e quem eu era. No seu ultimo dia viva, ela tocou o meu rosto com as mãos excessivamente magras e sussurrou o meu nome. E então morreu. Acho que a única coisa que a manteve viva foi a vontade de me ver mais uma vez.

Não conclui a faculdade. Não tinha estrutura para nada. Aro me empregou, alegando que terminar o meu curso era irrelevante. Trabalhei com afinco para ele, tentando esquecer, tentando apagar a dor. Mas quase todas as noites eu sonhei com a minha mãe. A imagem dela não saia da minha cabeça. Me afastei de tudo e de todos. Comprei esta casa, contratei alguns empregados, tive casos com acompanhantes, por que não me sentia suficientemente bem para ter alguma ligação com ninguém. Minha vida era uma calmaria infernal e por duas vezes tentei o suicídio. Na primeira vez fui impedido por Aro, que me encontrou desacordado pela alta ingestão em remédios para dormir e me levou ao hospital. A segunda foi durante um evento na cobertura de um prédio. Tentei me atirar de lá, mas Emmett, que até então era um completo desconhecido pra mim, me impediu.

–Emmett?

–Trabalhava para Aro nos negócios sujos dele. Nos tornamos grandes amigos e, mais tarde, descobrimos que éramos primos de segundo grau. Nosso laço cresceu ainda mais depois da descoberta.

–E onde ele está?

–Deixou a vida de crimes depois que se apaixonou por uma acompanhante com quem me envolvi. O filho já deve ter nascido. Nos falamos pouco. É mais seguro assim. Acho que eu gostava mais dele por que Emmett fazia com que o meu lado humano aparecesse. Agora eu sei que ele não é o único. –Um olhar significativo foi dado pelo rapaz a Isabella.

–Então é por isso que continua trabalhando para o Aro? Por causa dessa promessa de trabalhar para ele?

–Não. Não é por isso. Quis quebrar a promessa quando descobri as coisas que ele fazia. Nem Esme tinha noção. Trafico de órgãos, mulheres, drogas, armas... Ele é um criminoso hediondo!

–E o que aconteceu? Ele o ameaçou de morte?

–Ele gravou o assassinato do Denali pelas minhas mãos. Eu nem desconfiei. Se ele revelar essas provas a policia, serei condenado à morte. Eu tenho temor pela morte, Bella, e só por isso continuo trabalhando para ele.

Então tudo fez sentido. O quebra-cabeças que era Edward Cullen ficou claro. Agora Isabella sabia exatamente quem ele era, por que havia se tornado uma pessoa tão amarga. Depois de tudo o que ele passou, não poderia ter se tornado outra coisa.

–Tudo o que você passou... Agora eu entendo.

–Entende por que sou um monstro? –Sorriu sarcasticamente, mas o seu sorriso morreu quando Isabella acariciou o rosto dele.

–Não Edward. Entendo por que até então eu via apenas tristeza no seu olhar. E até as suas ações são justificáveis. Você passou por muita coisa e...

–Isso não justifica, Isabella. Você também passou por coisas horríveis, mas nunca deixou de ser quem é. Nunca deixou que as coisas ruins a transformassem. Eu não fui suficientemente forte. Eu me deixei levar pela escuridão e me tornei tão mal quanto Aro, Caius, Denali...

–Não! –A voz, decibéis mais alta do que o normal, de Isabella o fez acordar do torpor. –Você não é igual! Nunca será! Pode ter fetito coisas ruins, mas nunca as fez de coração. Eu posso ver quem você realmente é, agora mais do que nunca. Edward, a bondade ainda existe dentro de você. Se não existisse... Eu jamais teria me apaixonado por você.

Aquela declaração, feita no momento certo, desarmou o rapaz. Ele pôs o rosto da morena entre as suas mãos, encarando-a com adoração. Quem era Isabella Marie Swan? Uma espécie de anjo, que enxergava bondade onde não mais existia? Não resistiu a vontade de beija-la, que tão severamente controlou enquanto contava o seu passado, colando os seus lábios aos dela num beijo casto, de adoração a um ser humano tão superior a ele em diversos aspectos.

Sentiu algo no seu peito crescer e expandir, com uma necessidade insana de dizer a ela algo indefinido, mas que poderia traduzir os sentimentos conflituosos nutridos por ele. Não. Ele não poderia, ainda carregado de pecados, lhe dizer o que fosse. Havia mais cosias a contar, mais segredos obscuros.

Não, não havia mais o que dizer. O restante poderia ser considerado uma banalidade. Deixaria de lado, decidiu, a outra parte da historia. Isabella não precisava saber de fatos que mostravam o quão grotesco Edward fora antes de conhecê-la e se transformar por ela.

–Edward... –Ele a escutou chamar, abrindo os orbes cor de esmeralda para fita-la. –Quem é Jessica?

E ele soube que, infelizmente, não poderia ignorar essa passagem trágica da sua vida.

Notas finais
Capítulo curto, eu sei. Achei pertinente parar aí. Deixem comentários aqui e no capítulo anterior. Isso é uma forma de compensar meus atrasos, que não serão mais recorrentes. Obrigada pelo apoio. :)

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