Notas iniciais
Sempre deixem um comentário. Divulguem se possível. Isso é um grande combustível pra mim.

Os dias se passaram arrastados e as mudanças não no clima, mas no coração do jovem Edward Cullen aconteceram lentamente também. Enquanto observava a flor que Isabella era desabrochar sob seus cuidados, algo no coração do rapaz mudava irreversivelmente. O pulso acelerava quando a via, as mãos queriam, impacientes, toca-la, os olhos acompanhavam cada gracioso movimento enquanto ela passava e o olfato captava o cheiro de morangos silvestres dos seus cabelos. Havia ainda a voz da morena, tão agradável de se ouvir que, durante o expediente no escritório, Edward a instigava a falar alguma coisa, por mais insignificante que fosse, só para ouvir a voz dela.

Tantas eram as coisas que vinham da morena, pequenas e grandes, que arrebatavam o rapaz... ficava difícil fazer uma lista mental. Principalmente por que o próprio Edward evitava pensar nesse sentimento que nutria pela menina, temendo encontrar algo mais profundo do que o desejo carnal.

Naquele momento lá estava ele, vendo Isabella, agora secretária efetiva uma vez que Alexandrina estava de férias servindo-lhe uma xícara de café, preparado por ela na copa. Como ela estava bonita naquele vestido justo, saia preta até os joelhos e uma blusa salmão, zanzando pela sala dele sem produzir som algum, embora o salto de um dourado opaco fosse propício a isso.

-Como está o café? –Ela perguntou depois de Edward dar dois goles.

-Está muito bom. Que Alexandrina não me ouça, mas está bem melhor do que o dela. –Mentiu, só para ver a garota corar e agradecer com um pequeno sorriso estampado na face, algo que aconteceu tão logo ele terminou de falar.

-É bom que ela não ouça. –Parada diante do patrão, Bella se sentiu estranha. O modo como Edward a encarava recentemente era inesperado e causava constrangimento. Mas não era o tipo de constrangimento que a fazia querer se esconder do rapaz, temendo algo. O constrangimento que Bella sentia estava mais relacionado a não saber como se portar diante desse Edward gentil, que parecia se importar apenas com ela, esforçando-se para fazê-la feliz. Essa nova faceta que o tornava tão humano, digno do amor dela, que era difícil ver nele o homem que a maltratou no passado.

Era tão mais fácil ama-lo!

Mas havia uma parte dela, indissociável da Bella feliz, que a alertava do perigo de se envolver emocionalmente com Edward. Ele ainda era instável, ele não a amava e a vida dele estava relacionada demais a coisas sujas para algum dia aquele jovem ser alguém comum. E o que mais a intrigava era que Edward parecia odiar ser o empregado de Aro Volturi. Se odiava, refletia Bella, por que simplesmente não deixa-lo? O que o atava a Aro Volturi?

Talvez essa pergunta nunca fosse respondida, por que, por mais que Isabella estivesse próxima do rapaz, havia barreiras que o envolviam instransponíveis. Enquanto o Cullen não tivesse confiança o suficiente nela e contasse o que se passava, Isabella sempre ficaria a par de tudo, como mera espectadora da trama diabólica que parecia envolvê-lo, arrastando-o para a escuridão.

...

Queria ter permanecido na cama, com Isabella nua aconchegada nos seus braços, mas o telefonema a meia noite da secretaria, Alexandrina, o alarmou. A loira queria que ele visse o e-mail do escritório e Edward assim o fez. Se soubesse o que iria encontrar, não teria se dado ao trabalho de levantar, não naquela noite.

Mais um roubo. Alguém estava roubando armas, drogas e tudo o mais de propriedade de Aro Volturi. Edward levou as mãos à cabeça, desorientado. Pagara quantias altas por informantes no Brasil a fim de saber quem em sã consciência desafiava tão abertamente o mafioso, mas nada descobriu. O ladrão era astuto, provavelmente um profissional. Um profissional que, mesmo sem conhecer Edward, estava fodendo com a vida dele.

Ele não conseguiria esconder um rombo tão grande, pensou enquanto andava de um lado para o outro no escritório anexo ao quarto. Talvez fosse melhor ir ao Brasil e tentar conseguir alguma nova informação diretamente com os subordinados de Aro, refletiu. E precisaria levar Isabella. Embora a ideia de leva-la para as favelas brasileiras aonde subordinados de Aro Volturi, homens perigosos traficavam não o agradasse, deixa-la sozinha estava fora de cogitação.

E ainda havia a punição. Ele se perguntava o que seria dessa vez. Um simples espancamento? Talvez ameaças com armas de fogo, resultando em duas coronhadas, como aconteceu dois meses antes de adquirir Isabella? Ele ainda podia sentir as cicatrizes ao tocar a nuca...

-Edward? –Uma voz baixa o chamou na porta do escritório. Ele se virou abruptamente, vendo Isabella, vestida com uma camisa de algodão sua, na porta. Os cabelos cor de mogno desalinhados e a visão turva, parecia estar sendo vitima de sonambulismo.

-O que está fazendo acordado? Está tarde... –A morena murmurou, esfregando os olhos com uma mão.

-Não deveria ter levantado. Eu já estava retornando para a cama. Eu apenas... Me lembrei de algo que precisava fazer para amanha. –Sorriu, embora o sorriso não alcançasse os olhos esmeraldinos. Edward não queria de forma alguma que a Swan soubesse do tormento que passaria assim que Aro descobrisse, do tormento que estava passando agora ante a possibilidade de punição injustificada. Felizmente ela parecia estar cansada demais para notar que algo na postura do rapaz indicava tensão.

Os dois caminharam para a cama, aconchegando um no outro. Bella voltou a adormecer de imediato, mas Edward não. Manteve a menina nos seus braços, acariciando as madeixas macias, às vezes enrolando-as nos dedos, enquanto pensava no que faria na manhã seguinte. Precisava ao menos manter a compostura e não deixar com que Isabella percebesse o quão desamparado ele estava. Ela não precisava passar por isso. O mundo que ele queria dar a ela agora era colorido e a escuridão da sua vida perturbada não deveria, de forma alguma, poluir aquela aparente tranquilidade.

Pensar em tudo isso ocupou a sua mente mais do que gostaria. Ele queria acompanhar a morena no sono e, quem sabe, sonhar. Não conseguiu. E talvez fosse melhor assim. Precisava pensar, tomar alguma medida ao invés de apenas especular. Ele precisava fazer algo pelo bem dele... E dela. Sim, por que não era apenas Edward Cullen agora.

Edward acariciou a bochecha de Bella com uma mão e suspirou. Novamente deixou Isabella sozinha na cama, certo de que dessa vez ela não acordaria e o procuraria. Voltou para o escritório, sentando na poltrona em frente ao laptop ainda ligado. Encarou aqueles números que não batiam, indicando mais um roubo.

O nervosismo o abateu novamente, fazendo suas mãos tremerem. Ele se apressou em fazer ligações, não se importando se acordaria alguém ou não, na tentativa de encontrar explicações de alguns dos subordinados de Aro que viviam no Brasil e assim passou o restante da noite, até o alvorecer.

...

Edward estava diferente. Bella não saberia dizer no que, mas havia algo nele que denunciava um estado de espírito diferente do normal, e isso vinha acontecendo há dois dias. Sabia que perguntar não adiantaria, ele continuava sendo a pessoa mais fechada que conhecera. Mas algo dentro dela dizia para procurar descobrir, embora fosse impossível, por que para deixar Edward com aquela aura tão escura certamente não era algo simples.

-Trouxe um café. –Sorriu, tentando ocultar a preocupação, entregando a xícara ao patrão. Edward não tirou os olhos da tela do computador, murmurando um obrigado vago. Isabella não sentiu tristeza pelo tratamento, pois em seu intimo sabia que aquilo nada tinha a ver com ela e sim com algo que acontecera.

Saiu da sala e foi para o espaço onde Alexandrina ficava, pensando... Queria ajudar Edward, mas como faria isso sem saber o que o atormentava? Talvez pudesse descobrir remexendo em algumas coisas do computador de Alexandrina, mas sabia que alguns arquivos ela só conseguiria mexer com uma senha que apenas Alexandrina e Edward tinham, justamente os arquivos ligados a gerencia dos bens de Aro Volturi. Será que Edward ou Alexandrina forneceriam a senha caso ela pedisse? E Isabella mexeria naqueles arquivos, onde encontraria coisas desagradáveis, das finanças do mafioso apenas para tentar entender o Cullen?

Sim, ela faria.

Por hora, a única cosia que poderia fazer era persuadir Edward a conversar. Era nisso que estava pensando, já pronta para interrompe-lo e tentar dialogar quando o telefone tocou. Isabella atendeu.

-Boa tarde. Escritório do senhor Cullen.

-Senhorita Swan, o senhor Alec, secretário de Aro Volturi, um dos clientes do senhor Cullen, deseja uma audiência. –Falou um dos recepcionistas do prédio. Isabella estremeceu. O nome era familiar, pois Alec fora a casa dela, meses atrás, a fim de resolver de uma forma nada simpática a divida que Charlie, o pai da morena, tinha.

Isabella respirou fundo, tentando se preparar para o encontro. Desde que assumira o lugar de Alexandrina, que estava de férias após anos sem se dar a esse luxo, ela não tinha se encontrado com nenhum membro da máfia Volturi. Mas sabia que esse dia chegaria e precisava de todo o seu autocontrole para agir como uma profissional.

Como de pras, ligou para o ramal da sala de Edward.

-Edward, Alec está aqui em nome de Aro Volturi. Ele já está subindo. –Esperou Edward dizer “obrigado” ou o que fosse, mas nada. O telefone foi desligado. Instantes depois um Edward absurdamente pálido saiu da sala principal.

-Aconteceu alguma coisa? –Isabella perguntou, tentando ler a expressão facial do rapaz. Ela o viu sorrir forçadamente, tentando aparentar tranquilidade.

-Nada. Estou apenas com fome. Passou da hora do almoço a algum tempo. Bella, poderia me fazer um favor?

-Sim... Claro. Eu ligarei para o restaurante de costume e...

-Eu... Eu prefiro que vá até a praça de alimentação desse prédio e peça algo para nós dois. Será mais rápido e há tempos não como nos restaurantes daqui. Devemos varias as vezes. –Um sorriso cálido brotou dos lábios de Edward e os seus olhos esmeraldinos emitiram um brilho hipotico, deixando Isabella deslumbrada demais para negar o pedido. Agora ele parecia normal, como se nada o tivesse atormentado nos últimos dois dias...

-Ok, mas eles estão vindo e eu deveria recebê-lo, suponho.

-Não se preocupe. –Edward caminhou até a cadeira da Swan, pegando o casaco que estava pendurado no encosto e vestindo na morena. –Eles são de casa. Não se importarão com a falta do protocolo. Pode demorar o tempo que quiser, pois essa reunião durará mais tempo do que com os outros clientes.

-Tudo bem. –Bella sorriu e ao se virar recebeu uma caricia na bochecha esquerda por Edward. –E o que vai querer?

-Você escolhe. Confio no seu gosto. –Para a surpresa de Bella, o rapaz de inclinou, dando-lhe um beijo na boca. Um ato tão doce, que parecia ser corriqueiro nessa versão melhorada do rapaz e, como ele mesmo informou, poucas vezes revelavam. E Isabella era a única afortunada que tinha acesso ao lado mais humano do Cullen.

Quando Edward abriu a porta para a morena, Alec, Felix e mais um capanga estavam na porta.

-Ora, espero que não tenhamos chegado em um momento inoportuno. –Comentou Alec, olhando para o jovem casal. Edward endureceu a expressão facial.

-Eu ainda irei recebê-lo, mas Isabella sairá por alguns instantes. Acredito que não precisaremos dos serviços da minha secretária para o assunto que trataremos hoje. Edward guiou a Swan até um dos elevadores sociais. Cada movimento do casal foi acompanhado pelos olhos astutos do maior dos Volturi, Felix.

-Não se preocupe, vou administrar essa reunião da melhor forma, por isso não precisa se apressar. –Murmurou Edward com urgência, apertando um andar antes do térreo, onde se localizava a praça de alimentação do prédio. Ela viu o sorriso meticulosamente ensaiado de Edward sumir, transformando-se em uma expressão sombria enquanto as portas do elevador se fechavam entre eles.

Edward puxou violentamente o ar para os seus pulmões, resistindo ao impulso de correr por uma das escadas de emergência. Se fosse logo para a sala, recebesse a punição, logo isso tudo acabaria. Poderia voltar ao final do dia para casa, ladeado por Isabella, que olharia para ele com pena, algo que sempre detestou vindo de outros olhos, mas... Também o olharia com amor.

-Desejam algo para beber senhores? Muito embora a sede que os motive a vir até aqui em nada tenha haver com algum liquido. –Comentou num tom debochado.

-Sempre espirituoso Edward. Assim como o senhor Volturi, aprecio o seu humor acido. –Alec disse enquanto seguiam para a sala.

Enquanto isso, Isabella encarava o seu próprio reflexo no opulento espelho no interior do elevador, pensativa. Alguma coisa estava errada, ela podia sentir. A tensão de Edward nos últimos dias, a estranha gentileza que o acometeu após um período recluso, no momento exato em que alguns homens de Aro vieram até ele. Sem dizer que ela poderia ter feito o pedido da comida ali, no conforto da sua sala, sem a necessidade de ir até o restaurante e...

Algo lhe ocorreu e a menina apertou o botão de emergência, parando o elevador.

-Poucas vezes vim aqui. A sala continua impecável. –Comentou Alec, sentando em uma poltrona em frente à mesa. Edward se sentou na cadeira oposta.

-Impecável como a minha conduta perante a administração dos bens de Aro. –Disparou o Cullen, arrancando um riso descontraído do secretário.

-Ah Edward, sempre encontrando uma forma de se defender no seu discurso! Se o seu trabalho fosse tão impecável como diz, não haveria necessidade de estarmos aqui hoje, a pedido do chefe, para dar um corretivo pela sua falha cabal dois dias atrás.

-Não fiz nada... Outra pessoa está roubando-o. –Falou num tom desesperançoso. Falar e lançar acusações a esmo sem provar não adiantaria nada.

-Tem como provar? Enquanto não houver de fato um culpado, você será aquele que assumirá as responsabilidades como se tivesse desviando dinheiro. Felix... –Alec chamou e o grandalhão se aprumou, com um sorriso sádico no rosto anguloso. Estalava os dedos das mãos grossas enquanto os flexionava, parecendo ansioso para socar o Cullen.

Olhou para os capangas, derrotado. Nada poderia fazer, ele sabia. Apenas aceitar a punição como sempre fizera, grato por Isabella não estar ali e, assim, testemunhar tamanha selvageria e covardia. Além disso, não queria que aquela mulher, que lhe era especial, visse o seu lado impotente e resignado, de alguém que perdera as esperanças e aceitava os desígnios do Volturi mais velho sem pestanejar.

Edward levantou-se da poltrona de couro onde estava sentado e respirou fundo, enquanto Felix avançava com o punho levantado na direção do rosto dele.

Não!

A palavra foi gritada pelo seu subconsciente e os braços levantaram para defender o rosto. Foi lá que Edward sofreu o primeiro impacto, não causando nenhum ferimento de grandes proporções. Ele, todavia, não conseguiu se recompor em tempo suficiente. Felix, frustrado pelo primeiro ataque ter sido bloqueado, aproveitou que o abdômen estava desprotegido e o golpeou, levando Edward ao chão. Enquanto o rapaz tossia, o grandalhão acertou o seu rosto com um chute, fazendo Edward quase perder os sentidos. Atordoado, sentiu a mão grande pegá-lo pela camisa social, erguendo-o do chão. Queria se defender, mas não saberia como. Só lhe restava esperar, até que a sede de sangue do homenzarrão se arrefecesse.

O golpe não veio e em seu lugar Edward ouviu um crack. Quando os seus olhos conseguiram focalizar alguma coisa, viu Isabella arfante e aos pés dela os restos de um jarro de vidro quebrados. Felix largou Edward, colocando a mão na nuca. Aparentemente, Edward constatou, Isabella havia arremessado aquele jarro na cabeça do capanga de Aro. A menina se apressou em pegar um pedaço de vidro para usar como arma, e avançou contra o homem emitindo um grito gutural. Felix, um soldado bem treinado da máfia, desarmou a menina sem esforço, torcendo o pulso de Isabella no processo. Ele a agarrou pelo casaco rosa, jogando a morena com violência contra a parede a metros dele e de Edward. Isabella ficou imóvel, jogada de qualquer jeito no chão, com um expressão no rosto que indicava dor intensa.

Aquilo havia sido demais!

Diante dessa visão caótica, sua garota sendo ferida na tentativa clara de protegê-lo, o Cullen não pôde ficar parado. Engatinhou até uma gaveta da mesa de mogno, pegando em um fundo falso algo que poucas vezes tocou: uma arma. Engatilhou a mesma com destreza, como Aro havia ensinado. Levantou-se cambaleante do chão, mas com a mão firme, e atirou. O tiro, como previu, raspou no ombro de Felix, a bala ficando cravada na parede oposta a ele. O capanga parou, alias... todos ali presentes pararam e olharam para o rapaz de orbes cor de esmeralda.

-Saiam da porra da minha sala agora, ou não responderei por mim. E caso duvidem que eu seria capaz, pensem bem no meu histórico. Eu já estou no inferno... Não me custa mais alguns carimbos para o meu passaporte. –Edward disse num tom ameaçador, mirando em Felix. O brutamontes parecia prestes a tentar desarmar Edward, mesmo correndo o risco de levar um tiro, mas Alec o deteve.

-Acho que o nosso serviço aqui está cumprido. É melhor darmos uma olhada no seu ombro, Felix. –Alec foi empurrando o maior para fora enquanto Felix tinha no olhar um claro intento assassino. Toda a comitiva se retirou do escritório, com os olhos de Edward fixos neles, assim como a pontaria da arma. O rapaz os guiou para fora, trancando a porta quanto todos já se encontravam em frente a um dos elevadores sociais.

Edward respirou fundo, travando a arma e jogando-a negligentemente no chão. Odiava segurar armas e praguejou por ter de fazer algo assim novamente. Tudo por Isabella, pensou. Voltou às pressas para a sala, encontrando a menina em um canto, parecendo se esforçar para se sentar. Prontamente tentou ajuda-la, preocupado com algum possível ferimento, mas, assim que Isabella sentiu em um dos braços o toque firma do rapaz, ela se manifestou.

-Por que... Por que aceita passivamente tudo isso? Trabalhar para aquele monstro, compartilhar das coisas que ele faz e... Como aceita ser maltratado desse jeito? Eu preciso saber! –Implorou a menina, aos prantos. Edward recolheu a mão, atordoado.

-Não posso contar. Jamais poderia. –Disse, derrotado. Com muito custo conseguiu fazer com que a Swan o visse como um ser humano. Revelar a verdade para ela, além de perigoso por conta dos segredos que Isabella passaria a saber, poderia comprometer o amor que ela sentia por ele. Aquele amor puro, destituído de interesse, que era a única coisa a fortalecê-lo. Não, ele não poderia correr o risco de perder tudo o que conquistou com muito custo!

Bella virou, encarando-o com os olhos marejados. Não conseguia pensar em nada para dizer a menina além de um “sinto muito” murmurado. Ela o encarou com decepção evidente nos olhos castanhos, resignando-se. Levantou e ajeitou as roupas amassadas sem olhar para Edward.

-Vamos para casa. O experiente se encerrará mais cedo. –Ele comunicou e os dois trataram de desligar os computadores e saírem, silenciosos, do escritório. Antes de sair, todavia, Edward limpou o rosto sujo com o seu sangue, tentando deixar a ferida aberta pelo chute de Felix. Não era um corte com direito a pontos, mas precisaria de algum cuidado. Felizmente não era tão visível.

Edward olhou de esguelha para Isabella o trajeto inteiro, tentando não só captar algum possível ferimento causado por Felix como também para sondá-la. Queria saber o porque do silencio exacerbado. Ela ainda estaria assustada? Talvez irritada com ele, mesmo sem motivos? Por que ela não o olhava? Ele não queria, após os momentos de tensão, ter de suportar a menina rechaçando-o.

Ela continuou alheia a tudo, sem dar espaço para o dialogo. Enquanto Edward especulava o motivo, Isabella mantinha a mente vazia. Ela ainda estava assustada com os acontecimentos que presenciou, sentia uma dor incomoda na costela e na cabeça por conta da agressão de Felix e, mais do que qualquer coisa, infeliz por não saber como proceder diante da distancia que existia entre Edward e ela.

Não disse nada em momento algum, embora quisesse saber se o rapaz estava bem. Quando os dois chegaram no apartamento, sendo observados pelos empregados, a menina se refugiou no próprio quarto, fechando as cortinas para deixar o aposento escuro e se deitando.

Edward suspirou quando viu a menian desaparecer pela porta do quarto que não dormia desde a reconciliação deles. Sentiu uma presença atrás de si, reconhecendo Angela.

-Senhor Cullen, precisa de ajuda? –Perguntou, olhando para o rosto ferido do patrão.

-Não Angela. Apenas... Providencie o almoço. Bella não comeu e eu quero que ela ponha algo no organismo. –Retirou o paletó e já estava apenas com o colete e sem gravata antes de se refugiar no próprio quarto.

“Tomarei um banho e descansarei. Depois eu penso no que farei para...” –Olhou ao redor. Aquele quarto parecia mais frio, inumano, sem a presença da menina. Edward a queria ali com ele e se Isabella não pudesse estar ali, ele iria até onde ela estava. Precisava resolver essa situação, mas como iria apaziguar o coração da morena?

A verdade.

Sim, ela queria saber a verdade. Tinha esse direito, mas... Edward estava preparado para revelar o lado sombrio da sua vida? Nunca contara nada a ninguém. As poucas pessoas que sabiam assim souberam por um ou outro descuido. Ele não sabia se queria mais pessoas envolvidas. No entanto, Isabella estava envolvida no caos que era a sua vida. Ela entrara como escrava, foi abusada por ele... Ela já conhecia o seu pior lado e ali estava ela, dizendo que o amava e o queria. Se depois de toda a violência que suportou Isabella ainda estava lá, talvez não fugisse quando soubesse o que prendia Edward a Aro.

Edward saiu do quarto, caminhando relutante para o aposento ao lado. Estranhou o quarto quase escuro quando entrou. Isabella estava deitada e de tão quieta como estava poderia estar dormindo. Mas o rapaz sabia que diante de tudo o que acontecera a menina devia estar tensa demais para dormir. Caminhou até a cama, retirando os sapatos e as meias, e deitou.

Isabella não se moveu, nem mesmo quando sentiu o peso na cama indicando que alguém, provavelmente Edward, se deitava ao seu lado. Esperou pelo toque do rapaz, que não veio. Talvez ele estivesse chateado por ela resolver ignora-lo. Ela queria desfazer o mal entendido caso houvesse. Não estava chateada com o rapaz, absolutamente, mas frustrada por vê-lo passar pelas mais terríveis provações e não saber o que motivava a ter uma vida dependente de Aro Volturi.

-O que eu vou contar, jamais contei a ninguém. Nem mesmo Jessica soube de algo, creio eu. Talvez, apenas talvez, sabendo a minha história, você possa me entender. Mas também eu corro um risco, pois certamente, com a verdade, você conhecerá um lado meu que eu não gostaria que soubesse. Pois bem... –Edward respirou fundo e ela soube embora ainda estivesse deitada de lado, de costas para o rapaz, que o Cullen estava tenso.

–Minha historia começa com a minha tia Esme Cullen, funcionária de Aro Volturi na época, e a chegada de minha mãe biológica, Elizabeth Cullen, irmã mais nova de Esme, do interior. Os pais a enviaram a pedido da própria Esme, e insistência de Elizabeth, para a cidade a fim de ter melhores oportunidades. Coisa que uma cidadezinha interiorana não poderia oferecer...

Esme olhou o relógio em seu pulso. Elizabeth, sua irmã menor, já deveria ter chegado. Não encontrou a irmã no portão de desembarque e pensou que o avião poderia estar atrasado. Perambulando mais no grande espaço, abarrotado de pessoas, finalmente a encontrou em uma pequena loja, olhando cartões postais.

-Lizzy! –Gritou, mas a irmã só percebeu Esme quando esta se encontrava ao seu lado. –Por Deus! Eu estava perambulando há vários minutos, procurando você!

As duas, embora com uma diferença significativa de idade, era quase idênticas. Os mesmos cabelos cor caramelo emoldurando um rosto em formato de coração, a mesma pele branca como porcelana, e tão delicada quanto... Mas havia apenas uma diferença: enquanto os olhos de Esme eram de um castanho claro, Elizabeth tinha os olhos verdes mais lindos que a irmã mais velha encontrou.

-Eu cheguei mais cedo e resolvi passear um pouco. –Murmurou a mais jovem, voltando a olhar os cartões postais. –Não seja chata! Hoje é sábado. Você não trabalha e certamente não está perdendo nada ficando um pouco mais pro aqui.

-Ai é que você se engana! Eu consegui uma licença com o meu patrão para estar aqui. Vou deixa-la no meu apartamento e depois retornarei para o escritório. –Esme novamente olha o relógio em seu pulso. Tem pouco mais de meia hora...

-Pensei que você aproveitaria para me mostrar uns lugares legais na cidade. –Elizabeth reclama com um muxoxo. Esme suspira.

-Amanha. Hoje não.

-Promete que sairemos amanha? Olha lá...

-Sim Lizzy! Você precisará de roupas adequadas, afinal de contas. Lembre-se que vai começar a trabalhar como minha assistente no escritório Volturi na segunda.

Minha tia conseguiu este emprego para a minha mãe, que acabou se tornando o maior erro da sua vida. Elizabeth era bonita, jovem e radiante. O tipo de pessoa que chama a atenção, não importa como está vestida, se estaria maquiada, se os cabelos estariam em ordem. Ela trabalhava para Esme, que era a secretaria executiva de Aro. Não demorou até ele notá-la.

-Esme, minha querida, diga-me: quem é a nova garota que acabou de me servir um café? –Aro perguntou a Esme, assim que Elizabeth deixou a sala.

-Minha irmã, senhor Volturi.

-Ah! Então esta é a jovem Elizabeth Cullen de que me falou a respeito. São realmente parecidas... –Os olhos de um estranho tom rubro do Volturi se fixaram no ponto onde Elizabeth havia passado. Esme não teve uma boa sensação sobre isso. Embora fosse a secretária de Aro Volturi e nada de suspeito tivesse encontrado no que ela lidava, havia alguma coisa no patrão que a incomodava. E os boatos sobre o patrão que circulavam pelos corredores não eram bons...

Esme ficou de olho, percebendo o interesse de Aro crescendo mais e mais. Ela até entendia como ele pôde enxergar uma simples menina interiorana. Minha mãe tinha um brilho inexplicável, que fazia com que fosse o centro das atenções aonde quer que fosse. E assim foi. Logo Elizabeth tinha um grupo expressivo de amigos que a convidavam para sair com frequência, cosia que Esme não tinha, apesar de morar a muito mais tempo lá. Temendo que Elizabeth se envolvesse com Aro, que constantemente pedia para ela levar café para ele dentre outros favores, Esme tentou afasta-la. Pediu para que a irmã fosse realocada em outro setor. Elizabeth, quando soube, não gosto nenhum pouco...

-É para o seu bem!

-Meu bem o escambal! Você mesma disse que eu estava fazendo direito o meu trabalho! Por que agora não sou mais qualificada para ser a assistente da secretária executiva? –Elizabeth estava irada! Andava de um lado para o outro no pequeno apartamento da irmã. Esme sentou em uma poltrona, visivelmente cansada. Sabia, desde que pedira a transferência de Lizzy para o RH, que a irmã não gostaria nada. Só não imaginava que ela teria uma reação tão explosiva.

-Lizzy, não discutirei com você. Olha... O meu patrão tem se aproximado demais de você. Enquanto for a minha assistente, ele continuará tendo esse espaço. Se você for realocada será melhor.

-Por que diabos quer me afastar dele? –Lizzy parou de caminhar, encarando a irmã mais velha.

-Por que não sei realmente quem Aro Volturi é. A imagem que eu tenho me parece algo para os olhos verem. Ouço boatos dele, boatos nada agradáveis. Boatos inclusive falando sobre a sua vida pessoal. Apesar da idade, Aro é como um garoto. Tem casos esporádicos.

-Eu não vou ter nada com ele, tá legal? Eu tenho dezenove anos Esme, não me meto com caras que poderiam ser o meu pai! –Elizabeth bufou, indo até a geladeira e dando um longo gole na garrafa do suco de laranja. Esme suspirou, aliviada.

As primeiras semanas foram tranquilas. Com Elizabeth longe de Aro, Esme achou que poderia suspirar de alivio. Além disso, para a sua surpresa, Aro sequer pareceu notar a falta de Elizabeth. E Elizabeth parecia estar feliz em seu novo posto. Mas... Elizabeth começou a sair com frequência, algo que não estava agradando Esme. Sempre um barzinho com amigos, algo bem inocente, mas havia algo estranho. E logo ela descobriu, quando resolveu mexer nos pertences de Elizabeth...

-Onde conseguiu esse colar? ME RESPONDA! –Esme sacudia o colar diante dos olhos incrédulos de Elizabeth. A menor pareceu respirar, na tentativa de se acalmar, assumindo então um semblante indiferente.

-O Robert do RH me deu semana passada. –Ela caminhou até a sua cama, jogando-se nela. –O que foi? Estou proibida de receber presentes agora?

-Lizzy, Robert não tem onde cair morto! Esse colar...

-É uma bijuteria apenas! Qualquer um pode comprar. Até EU posso comprar! Agora me dê o colar e vá descansar. Está tarde. –Ainda com ar de indiferença, Lizzy levantou da cama, esticando a mão para que Esme devolvesse o colar. A mais velha, não acreditando totalmente na irmã mais nova, resolveu sonda-la.

-Se é apenas bijuteria, não se importaria se eu fizesse isso, não é? –Segurou cada ponta do colar com uma mão e começou a fazer força, com o claro intendo de arrebenta-lo. Ouviu o grito da irmã, que avançou nela, agredindo-a para reaver o colar. Esme cambaleou para trás, chocada. Viu Elizabeth esconder o objetivo protetoramente entre as mãos, olhando para ela com ódio.

-Não é bijuteria, não é? Quem deu o colar... DIGA ELIZABETH!

Elizabeth deu uma curta risada.

-Por que faz uma pergunta da qual já sabe a resposta? Só há alguém que nós duas conhecemos que poderia me dar um presente tão caro.

-Aro Volturi. –Murmurou a mais velha, sentando em uma poltrona para não desmoronar no chão.

Aro estava se encontrando com Elizabeth fora da empresa. Quase todas as vezes em que ela disse a Esme que sairia com colegas de trabalho, na verdade sairia com ele. Esme tentou impedir o quanto pôde, inclusive criando situações para que Elizabeth fosse demitida, mas nada conseguiu. Alias, ela conseguiu sim uma coisa com as suas atitudes desesperadas de separar a irmã do patrão? O ódio de Elizabeth. Eventualmente Aro soube de tudo e demitiu Esme. A atitude do homem, mais do que bem vinda para ela, não afastou, todavia, o magnata da irmã. E então o dia que Esme mais temia finalmente chega: Elizabeth decide sair de casa.

-Não faça isso Lizzy! Aro Volturi não é homem para você! –Implorava a mais velha, segurando a mala de Elizabeth como se isso fosse detê-la de alguma forma. Mas ela podia ver pelo semblante da outra que ela não desistiria. Elizabeth sempre fora teimosa e ninguém conseguia dissuadi-la de algo quando a mesma decidia.

-Por que ele não é um homem pra mim? Só por que venho do interior? Você pode achar isso, maninha, mas Aro pensa diferente. Ele É diferente do que você diz! Jamais conheci um homem tão amoroso como ele, que está sempre disposto para me agradar das mais variadas formas! Ele bem que me alertou, mas não quis dar ouvidos. Agora vejo que era verdade. Você está com inveja de mim! Inveja por que não precisei usar roupas provocantes, maquiagem em excesso e nem andar rebolando como você faz para chamar a atenção dele. Eu sou muito melhor... –Quaisquer palavras que Elizabeth poderia pronunciar foi calada pelo tapa dado por Esme. Encarou a irmã mais velha com espanto por uma fração de segundos antes de recolher a bagagem que havia arrumado. Esme encarou a própria mão, sentindo-se derrotada e magoada.

-Vai se arrepender muito da sua escolha Elizabeth. –Murmurou sem olhar novamente para a irmã.

-Não vou. –Ouviu a outra dizer para logo mais ouvir o som da prota da frente ser violentamente fechada.

Esme tentou ignorar o quanto pôde a situação, magoada com as palavras ríspidas da irmã. Encontrou um emprego em uma empresa concorrente a de Aro, propriedade de Eleazar Denali e, tirando os olhares que o patrão dava a ela, o novo trabalho não era ruim. Via ocasionalmente a irmã, sempre bem vestida e coberta por joias, sendo exibida por Aro como um troféu em eventos.

Procurou acalmar o coração com aquelas imagens, da irmã tão linda e distribuindo sorrisos. Mas logo a cosia mudou. Com o passar dos meses, já não via a irmã acompanhar o Volturi. Por duas vezes a viu e notou uma aparência não tão bonita, sorrisos não tão espontâneos, uma magreza excessiva e olheiras que a maquiagem não podia esconder. Tentou entrar em contato, deixando de lado o orgulho, quando passou a ver outras mulheres, acompanhantes na verdade, indo aos eventos com Aro, mas não conseguiu contactar Elizabeth. Ficou mais e mais preocupada, sondando antigos colegas de trabalho e até fazendo plantão em frente à mansão do Volturi nos dias de folga. Nada. Após meses sem noticias da irmã, temendo o motivo do sumiço e decidida a envolver a policia, eis que em uma noite chuvosa de outono, alguém bate a sua porta.

-Já vai! –Gritou da cozinha, caminhando sem presa para a porta da frente. Enxugava as mãos úmidas em um guardanapo quando, com uma mão, abriu a porta. A cena que viu a chocou completamente. Por que parada ali, sem firmeza nenhuma, estava Elizabeth. Ou uma figura decadente que lembrava a irmã. Levou uma mão a boca, tentando conter um grito. Elizabeth estava cadavérica, com manchas, marcas avermelhadas e cicatrizes cobrindo o corpo. Olheiras arroxeadas, indicando horas e mais horas de privação de sono. Os cabelos perderam o brilho vivas, escorridos e ensebados. Elizabeth estava asquerosa, suja, com roupas que mais a assemelhavam a prostitutas baratas. Mas, apesar de todas essas cosias, o que realmente prendeu a atenção de Esme foi à protuberância na barriga da garota que o casaco de imitação de couro não conseguiu esconder.

Isabella enrijeceu nos braços de Edward. Lentamente se virou, ficando cara a cara com o rapaz. Ela viu nos olhos esmeraldinos, estranhamente opacos, a resposta para uma pergunta perturbadora que havia se formado na sua cabeça. Engoliu audivelmente a saliva antes de dizer:

-Grávida de você? Então é possível que... –Murmurou Isabella, vendo o rosto do rapaz uma mascara de desesperança.

-É isso mesmo o que você está pensando. Isabella... Eu sou o filho de Aro Volturi.

Notas finais
Capítulo um pouco curto, mas resolvi dividi-lo por que a parte em que falo da vida do Edward, de como ele se tornou empregado de Aro, é mais longo. Agradeço a paciência dos meus leitores pela espera. Tenho andado ocupada e os problemas pessoais também estão interferindo, mas continuo escrevendo.
Ah, boa notícia! Acho que o meu TCC da facudade envolverá fanfics então acho que precisarei da ajuda de leitoras minhas que escrevem. Falarei mais tarde com vocês sobre isso. Beijos!

PS: Minha mãe está um pouco melhor. Eu não ando muito bem de saúde, mas to me cuidando. :)