Sweet Slave
3 Capítulo 2
Cuidadosamente abotoou a camisa que vestia, enquanto olhava-se no grande espelho aos fundos de seu closet. Escolhera uma cor mais alegre, embora seu semblante fosse fechado como o inverno mais rigoroso. O verde claro de sua camisa combinava com os seus olhos, constatou. Subitamente incomodado com aquela cor primavera demais aos seus padrões, Edward mudou de idéia, trocando a camisa verde por uma branca.
Enquanto ajeitava a gravata preta no pescoço, olhou através do espelho para a moça que ainda dormia em sua cama. Fora informado do seu nome quando finalizou a compra, pagando apenas quatrocentos mil. Que Caius não descobrisse isso!, pensou. O rapaz havia feito a oferta de um milhão e supostamente o comprador que adquirira Isabella a arrematou por um milhão e dez mil.
Edward pegou o paletó preto que repousava em uma poltrona de couro, próximo a ele, fechando o closet em seguida. Admirou um pouco mais a menina, que de tão imóvel que estava poderia passar-se por morta, se não fosse a respiração pausada. Decidiu deixar o quarto, pois tinha muitos compromissos no decorrer do dia e cada minuto era deveras precioso.
Como em todos os dias ele encontrou seus empregados reunidos na sala de jantar, onde eram feitas todas as refeições. Após ser recebido por um coro de vozes num “bom dia senhor Cullen”, sentou-se a mesa, sendo prontamente servido por Betha, a empregada mais velha e cozinheira da casa. Erick, o mais recente contratado, apressadamente pegou o The New York Times, abrindo-o em frente a Edward. Pegando a xícara de café servida para ele e bebericando-a, Edward pôs-se a folhear o jornal, dando atenção às notícias sobre as bolsas de valores naquela manhã.
Os empregados, pouco a pouco, foram para a cozinha, com exceção de uma.
-Angela, venha aqui. –Edward ordenou com os olhos ainda fixos no jornal. A menina, que aparentava ter os seus vinte anos, interrompeu sua caminhada, postando-se ao lado de seu patrão.
-Deseja alguma coisa senhor? –Perguntou. Edward sequer olhou para a figura prostrada ao seu lado. Ainda com os olhos perscrutando informações valiosas no jornal, falou:
-Há uma moça dormindo em meu quarto. Daqui à uma hora você deve acordá-la. Prepare um café da manhã e leve ao quarto. Não há nenhum pertence dela aqui, então, quando ela for tomar um banho, empreste alguma roupa sua até que seus novos pertences cheguem. Providenciarei tudo com a ajuda de Alexandrina.
-E qual o nome dessa moça, senhor Cullen?
-Isabella Swan, pelo o que eu soube. Mostre o apartamento, apresente-a aos demais empregados e não a deixe sair ou fazer alguma ligação sem a minha autorização. As regras que outrora foram destinadas a Jessica se aplicam a ela. Acho que você compreendeu melhor a situação. –Edward pôde captar o olhar surpreso da empregada. Também pudera. Angela já trabalhava para ele quando comprou Jessica de Aro e sabia como ninguém de todos os problemas acarretados por essa compra.
-Então ela é como Jess? Eu pensei que o senhor nunca mais...
-Não me questione! –Inquiriu o Cullen, raivoso. Ele não precisava de repreensões a respeito de sua conduta na noite anterior, sua consciência já fazia isso por ele. Angela emudeceu diante daquela explosão, balbuciando uma concordância as ordens dadas por Edward. O rapaz logo se retirou, ao final de seu café da manhã, ressaltando as regras outrora aplicadas a algum hóspede “especial” em sua casa. Angela ouviu com atenção, sabendo o que ela e os demais empregados deveriam fazer antes mesmo de Edward o falar para ela.
Após a saída de seu patrão, a moça dirigiu-se a cozinha, sendo abordada de imediato por Erick e Ben, este último o responsável pela manutenção de quaisquer coisas do apartamento como a parte elétrica, o encanamento, objetos com algum tipo de defeito, etc.
-E então, o que o senhor Cullen queria? –Perguntou Ben, aparentando preocupação com Angela, algo que a menina achou gracioso.
-Ele parecia aborrecido com alguma coisa... –Refletiu o oriental, nervoso.
-E que dia o Cullen não está aborrecido? –Disse Lauren, com sarcasmo, sentada em uma das cadeiras que naquele local se encontravam, folheando uma revista de fofoca.
-Cuidado com a língua, menina. –Repreendeu Betha, mexendo com uma colher o conteúdo de uma das muitas panelas que estavam no fogão. Lauren revirou os olhos, ignorando a voz da experiência, e voltou a olhar uma noticia qualquer na revista. –E vocês dois... –Continuou Betha, sem se virar para olhar Erick e Ben. –Deixem Angela respirar.
Os rapazes afastaram-se, murmurando desculpas pela abordagem. Angela, sentindo um súbito cansaço, sentou-se próxima a Lauren. Erick fez menção de sair da cozinha para fazer alguma coisa em outro cômodo, mas Angela pediu para que ele permanecesse lá, pois tinha um comunicado a fazer. Ganhou a atenção de todos, até mesmo de Betha que estava compenetrada na preparação do almoço. Sabia que os demais, com exceção do novo contratado, não ficariam nada felizes com a notícia... Talvez Lauren apenas, que fora próxima de Jessica e muito se beneficiou da amizade.
-Tenho um comunicado a fazer, prestem atenção. Temos uma nova agregada na casa. –Disse Angela, ainda pensando em como eufemizar suas palavras.
-Mais uma empregada? Tudo bem que o apartamento é grande e tem vários cômodos, mas acho que damos conta. –Comentou Erick, distraído. Como novo funcionário daquele lugar ele não notou o que as palavras de Angela poderiam significar, mas Ben, Betha e Lauren perceberam de imediato.
-O QUE? –Lauren levantou-se rapidamente da cadeira em que estivera sentada, deixando a revista que até então lia caída no chão. Angela ouviu um profundo suspiro de Betha. Ben, fazendo o oposto do que fizera Lauren, sentou-se em uma cadeira, do lado esquerdo da de Angela.
-Agora eu sei o porquê dessa sua expressão preocupada. –O rapaz comentou, fechando os olhos e bagunçando seus cabelos com uma mão.
-O QUE ELE PRETENDE COM ISSO? PRETENDE COLOCAR UM NOVO BRINQUEDO NA CASA SÓ POR QUE A ANTIGA BONECA ESTRAGOU?
-Acalme-se Lauren. –Angela pediu pacientemente. Lauren a ignorou, envolta em sua explosão emocional.
-CALMA UMA OVA! EU...
-Pare com esse ataque infantil, Lauren. –Ordenou Betha e a moça prontamente a atendeu. –Somos meros empregados desta casa. Não temos o direito de interferir nas decisões do nosso patrão. Apenas aceite-as e continue a executar o seu trabalho.
-Peraí pessoal, eu não estou entendendo! Por que essa exaltação toda? É só mais uma empregada, pelo amor de Deus! –Angela olhou para Erick, que aparentava confusão. Por certo estava confuso, ele não trabalhava na casa na época em que Jessica morava ali. Deveria explicar a situação a ele, mas parecia que contar a história reavivava tudo o que ela passou com Jessica. Não se sentindo preparada psicologicamente, revolveu escolher aquela que sabia como ninguém lidar com a situação.
-Betha, pode explicar ao Erick tudo? –Pediu. A senhora virou-se e olhou para Angela, assentindo. Retirou o avental que a cobria e passou para Lauren.
-Vigie a comida enquanto cuido disso. –Ordenou. Lauren olhou para Betha e para o avental que a mais velha segurava com azedume.
-Por que não pede isso a Angela? –Retorquiu.
-Eu não posso. Preciso preparar o café da senhorita Swan e levá-lo a ela. Ficarei fazendo companhia a ela durante todo o dia. –Seguiu para um dos armários, pegando ali uma mesinha de café da manhã. Ben se prontificou a ajudá-la, o que Angela agradeceu. Ficou satisfeita por, ao menos, não precisar explicar as regras que deveriam ser seguidas a partir de agora com a recém chegada, pois, com exceção de Erick, todos já sabiam como proceder.
-Espero que essa nova garota não cause problemas. –Murmurou Ben enquanto ajudava Angela na preparação de uma pequena refeição matinal a Isabella.
-Isso nós só saberemos quando ela acordar. Ela pode não ser Jessica, mas não tenho esperanças de que ela não vá ter atitudes transloucadas. Espero qualquer coisa e é melhor assim, pois estarei preparada. –E aquela postura madura demais para uma garota de vinte anos, tão típica de Angela, fez os olhos do rapaz ao seu lado brilharem. Não havia um único aspecto que Ben não adorasse naquela menina.
...
Diria apressado, afinal de contas Aro seria o primeiro cliente a visitá-lo. Estava desnecessariamente tenso, algo comum para todos aqueles que eram próximos de alguém tão perigoso quanto o Volturi mais velho. Entrou no The Trump Building, onde se encontrava o seu escritório, estacionando em sua vaga de sempre. Enquanto estava no elevador, Edward olhou as horas no Rolex em seu pulso. Aro não permitia atrasos e ele, apesar de ter ganhado a simpatia do italiano, não ousava descumprir as regras.
-Bom dia, senhor Cullen. –Foi a primeira coisa que ouviu ao entrar no espaço onde trabalhava. Alexandrina, como em todos os dias, encontrava-se impecável em seu conjunto de blazer, desta vez cor salmão, e os cabelos loiros presos num coque elegante.
-Alexandrina, ele já chegou? –Perguntou enquanto a secretária ajudava-o a retirar o paletó.
-Chegará daqui à meia hora. O seu Notebook está ligado e deixei todos os papéis que precisará em cima de sua mesa. Preparei café, chá e comprei uma nova garrafa de Uísque, da preferência do senhor Volturi. Ele terá tudo o que gosta de beber hoje. –Acompanhou Edward até a sala no amplo espaço do escritório, pendurando o paletó do rapaz em um pequeno gancho de aço que se encontrava no interior de um armário.
-Alguma ligação antes de eu chegar? –Edward sentou-se em sua mesa, tentando relaxar na poltrona de couro. Pegou alguns papeis muito bem organizados em cima da sua mesa de madeira de lei.
-Todos os seus recados foram digitalizados e deixados em sua mesa. Eu os organizei pelo mais urgente até o mais insignificante. É melhor retornar após a reunião com Aro Volturi. Eu estarei na recepção. Me chame se precisar de algo. –Alexandrina projetou-se para sair da sala.
-Espere, tem algo que eu quero de você. –O chamado de Edward reteve a secretária. –Quero que você faça algo para mim. Eu preciso que compre roupas femininas, peças intimas e sapatos. Compre também alguns acessórios como bolsas, cintos, e coisas para o cabelo. Pode cuidar disso pra mim?
-Certamente senhor Cullen e sequer perguntarei para quê o senhor precisará dessas coisas. –Apesar de parecer uma piada, o semblante sempre sério de Alexandrina não mudou. –E devo me guiar pelo meu gosto pessoal?
-Sim, eu confio no seu gosto. Acredito que o número das roupas para Isabella seja 38. Não compre muitas peças, visto que eu não conheço o gosto dela e não sei ao certo se esse é o número das suas roupas. Compre o suficiente para que ela tenha o que vestir durante essa semana.
-Como quiser. –Deixou o Cullen sozinho na sala, já se prontificando a atender ao pedido do seu chefe, uma vez que todo o seu trabalho do dia estava adiantado. Edward olhou rapidamente as notas deixadas por Alexandrina em sua mesa. Muitos dos recados eram de seus outros clientes, apenas parabenizando seu excelente trabalho como contador de suas empresas e convidando-o para algum evento beneficente. Decidiu que pediria a sua secretária para enviar a nota padrão, agradecendo o convite, mas recusando-o gentilmente. Não se permitia um envolvimento mais próximo com os seus clientes, com exceção, é claro, de Aro.
...
A mente de Bella vagava para um lugar muito bonito e colorido. Seria uma confusão mental ou os resquícios de um sonho? Não sabia. Fosse o que fosse foi interrompido pela exposição súbita das pálpebras da jovem a luz intensa de uma manhã ensolarada. Por instinto o braço cobriu os olhos na tentativa de continuar as escuras, mas uma voz a chamou.
-Senhorita Swan, está na hora de acordar. –Pediu a voz desconhecida, que Bella só pôde identificar como sendo de uma mulher. Abriu lentamente os olhos cor de chocolate para fechá-los em seguida. O local onde estava era claro demais e machucou seus olhos.
-Claro demais... –Murmurou, sentindo a garganta doer. Estava com sede, com muita sede. –Preciso de água. –Pediu.
Passos puderam ser ouvidos e Bella se forçou a abrir os olhos. Havia uma jovem a sua frente, trajando um uniforme preto e branco, tal qual o de empregadas de casas abastadas, aparentando ser apenas um pouco mais velha do que Bella. Tinha os cabelos presos num coque frouxo, a menina, de um tom castanho claro e a pele de tão branca parecia de porcelana, mas não competia com o tom de pele de Bella. Isabella, afinal, não recebera a alcunha de “albina” dos amigos à toa.
-Eu pegarei um suco para que a senhorita sacie sua sede. –E dizendo isso Angela foi até uma pequena mesa afastada da cama, onde havia deixado a mesinha de café da manhã, pegando um copo de suco de laranja e levando-o até Isabella. A jovem ainda precisou de ajuda para beber o liquido, parecendo não ter forças nos braços e erguer o copo. Agradeceu a ajuda da moça diante de si, tentando, em seguida, sentar-se na cama.
Angela tratou de atender a moça, pegando a bandeja e lentamente colocando-a diante de Isabella.
-A senhorita certamente está faminta, não é? Preparei o seu café da manhã e o trouxe para que degustasse aqui. Espero que esteja do seu agrado. –Bella olhou para toda aquela variedade de comida diante de si (café, leite, torradas, frutas, geléias...), mas nem isso conseguiu abrir o seu apetite. Pouco a pouco as lembranças do dia anterior vinham a sua mente, deixando-a desesperada. Procurou sufocar todo aquele desespero, sabendo que isso em nada ajudaria.
-Diga-me, onde eu estou? E quem é você? –Perguntou com a voz calma, por mais inacreditável que parecesse. Suas perguntas deixaram Angela surpresa. Então essa pobre coitada não sabia o que era e como veio parar ali?
-Está é a residência do senhor Edward Masen Cullen. Meu nome é Angela e sou uma das serviçais desta casa. – Respondeu com brandura, sorrindo para a confusa Bella. – Agora deve comer, pois a senhorita parece estar precisando de uma boa refeição.
Apesar da gentileza de Angela, Bella não conseguiu relaxar. Olhou envolta, notando a opulência do quarto onde se encontrava. Era requintado, decorado com simplicidade e luxo num espaço grande. Através da pequena analise Bella pôde perceber que o quarto já tinha dono e que o dono era um homem, uma constatação que a atemorizou.
-De quem é este quarto? – Perguntou com a respiração irregular. Angela notou a apreensão crescente da pequena, algo que não a deixou feliz.
-Pertence ao senhor Cullen. Ele me pediu para vir aqui e cuidar da senhorita e é o que estou fazendo. Peço que tome o seu café da manhã. Se não estiver do seu agrado, diga-me do que gosta e a cozinheira providenciará. Prepararei o toalete para que possa se higienizar após o café. Não há roupas limpas suas por enquanto, por isso emprestarei algo meu para que vista. – Angela sentou-se em uma das pequenas poltronas de couro no local, aguardando que Bella começasse o desjejum, mas a menina parecia mais e mais aflita.
-Ele dormiu aqui comigo? O tal Edward? Nós dividimos a mesma cama? – As perguntas vinham rápidas demais e Bella não pôde fazer nada quanto a isso. Um homem havia estado com ela enquanto estava inconsciente? Um homem a tocou?
-Acredito que sim. Algo de errado senhorita? – Angela percebia, pouco a pouco, a real situação da menina. Não, ela não era como Jessica foi. Viu Bella levantar-se de súbito, quase derrubando a mesinha com a comida.
-Preciso ir ao banheiro! – Anunciou a morena, abrindo a primeira porta que sua mão alcançou, tendo a sorte de ser de fato o banheiro, fechando-a ruidosamente em seguida. Olhou sua face no espelho com desgosto, seu rosto estava pálido e tinha olheiras profundas. Horrorizada, percebeu que trajava uma calça diferente ao invés de sua calça jeans. Enquanto se despia das roupas que a cobriam com rapidez, procurou lembrar-se do que havia acontecido na noite anterior, mas sua mente não conseguiu registrar todos os acontecimentos. Suas lembranças iam até a chegada ao hotel onde Aro havia dito que seria leiloada. Depois disso tudo era um borrão. Edward era o seu comprador? O sobrenome Cullen parecia estranhamente familiar aos ouvidos dela. Ele teria se aproveitado da menina enquanto ela dormia?
Olhou seu corpo nu de todos os ângulos possíveis no espelho de corpo inteiro localizado no banheiro. Isabella não encontrou sinais de uma possível violação como marcas avermelhadas, resquícios de um sangramento vaginal ou notou dores pelo corpo. Tudo parecia estar em ordem. Sentiu um alivio muito grande tomá-la, mesmo sem uma confirmação de suas teorias acerca da noite anterior. Mas logo se lembrou que poderia ter evitado alguma coisa ontem, mas certamente não evitaria nos próximos dias. Ela era uma propriedade agora, adquirida apenas para um fim... E isso era o suficiente para levá-la a loucura.
“O que eu farei?” – Pensou, sentando no chão. A porta foi batida algumas vezes por Angela, temerosa que a menina fizesse uma besteira, alterada como estava. Bella não queria preocupar a gentil moça, mas simplesmente não conseguia dizer que estava tudo bem e sair. Por que antes de sair e tentar levar a situação da melhor forma possível, Bella precisava aceitar sua nova condição. Aceitou ser vendida para salvar sua pele e a pele do pai e agora teria de ceder aos caprichos de um homem desconhecido. O pior era que Bella não tinha nenhuma experiência além de saber beijar. Como seria sua vida daqui para frente?
Um inferno, concluiu.
-Senhorita Swan, por favor, abra a porta. Se não abrir a porta... –Angela ameaçou, tentando dissuadir Bella a fazer alguma besteira, se é que isso era possível. Bella continuou parada em estado catatônico. Lentamente Angela abriu a porta, feliz pela menina não haver trancado. Encontrou Bella sentada, nua, olhando para o nada.
“O que há com ela? Por que parece tão assustada? Talvez eu devesse perguntar o que está acontecendo...” –A moça tentava decidir o que fazer com a tal Isabella Swan e, após alguns instantes, interveio. Ajoelhou-se diante de Bella, ajudando-a a levantar-se. Seguiu de volta para o quarto, com a menina tropeçando o caminho todo. Sentou Isabella na cama e novamente ofereceu a bandeja com comida.
Não quero. –Murmurou a Swan com um olhar vazio. A preocupação sentida por Angela aumentou. Não imaginava que enfrentaria problemas com a recém chegada logo no primeiro dia.
-Senhorita Swan, se você não comer eu terei de ligar para o Senhor Cullen. Ele virá aqui resolver a situação, aposto, e não ficará nada feliz. –Tentou aterrorizar a menina, e conseguiu. Bella acordou da estranha letargia que a envolvia e se prontificou em comer, deixando Angela satisfeita. A empregada sentou-se novamente na poltrona de couro, olhando a menina que comia tal qual um etiopiano comeria caso se defrontasse com uma bandeja como aquela. Como imaginou, ela devia estar faminta.
Bella comeu não pela fome sentida, mas por que não queria em hipótese alguma encontrar-se com o seu “dono”. Evitaria o encontro o quanto pudesse na tentativa vã de resguardar-se. E enquanto provava cada item daquela bandeja trazida por Angela, tentou decidir seu próximo passo. Fugir? Era uma idéia tentadora e Bella colocaria algum plano em prática, se a vida do pai não estivesse em jogo. Sim, o pai. Não poderia fazer algo ainda, pois precisava antes de tudo assegurar-se que Charlie ficaria bem. Mas como conseguiria informações do pai e, após isso, levá-lo a um local seguro? Planejar, Bella precisava planejar. Fizera isso quando a mãe morreu e o pai não era mais o provedor da casa, poderia fazer novamente tal proeza.
-Após o café, a senhorita pode se higienizar no banheiro do senhor Cullen. –Angela comunicou, ganhando apenas um rápido olhar de Isabella. –Eu vou até o meu quarto pegar algo para você vestir. Provavelmente ficará um pouco apertado, afinal você tem mais corpo do que eu, mas não tem problema já que é provisório.
-Obrigada pela ajuda. –A menina falou entre uma mordida e outra em sua torrada.
...
Os pés batiam apressadamente no piso de mármore enquanto Edward olhava para a figura diante de si. Aro, imponente, olhava atentamente aos papéis apresentados com olhos de quem entendia do assunto. Talvez entendesse mais de assuntos contábeis e administrativos do que o próprio Edward, mas a falta de tempo o impedia de fazer a tudo sozinho.
-Parece que tudo está em ordem. Bom. –O Volturi disse, guardando os papéis ofertados por Edward em um envelope pardo e passando o documento para o seu secretário, Alec. –Estou abismado com a sua competência, Edward. Consegue ser mais e mais eficiente a cada tarefa designada por mim. –Os elogios e sorriso suave não tocaram Edward, mas a cortesia pediu para que se mostrasse agradecido. Os Volturi raramente teciam elogios a alguém e quando o faziam, sentir-se-iam ofendidos se não houvesse mostras de alguma gratidão.
-Agradeço aos elogios, muito embora não ache que os mereça. Estou apenas a fazer o meu trabalho. –Suas mãos suavam, mas certamente esse detalhe não seria captado por Aro e os seguranças que o acompanhavam; além, é claro, de Alec.
-Não seja modesto! Você é muito mais do que o meu contador, Edward. É o administrador de meus negócios, lícitos e ilícitos. Não é qualquer um que consegue um feito assim e o faz com máxima eficiência. Ainda mais tendo que manter outros clientes para não chamar a atenção das autoridades. –Aro levantou-se da cadeira onde estava sentado e Edward o acompanhou, enxugando as suadas mãos em sua calça antes de apertar a mão ofertada por Aro. –Adoraria convidá-lo para almoçar em algum lugar comigo e assim discutirmos assuntos relacionados ao meu mais novo negócio no Brasil, mas preciso ir.
-Não gostaria de incomodá-lo, Aro. Deixemos o convite para um dia em que não esteja ocupado. –Verdade seja dita Edward agradeceu aos céus por não precisar ficar mais tempo na presença de Aro. Tinha motivos de sobra para temê-lo e, por que não, odiá-lo. Aro era, afinal, aquele que constantemente o punia sempre que um problema aparecia nas finanças, acreditando que Edward o estava enganando. O Cullen ainda conservava no corpo pequenas cicatrizes da última vez em que recebera a ira de Aro sobre si, para depois descobrir que um funcionário o enganava e não ele. Aro, após a descoberta do erro, apenas de um tapinha nas costas de Edward, dizendo que “enganos acontecem”.
-Ah, sim. Deixemos para outra ocasião. –Levantou-se o Volturi e na porta já estava Alexandrina e seu timing perfeito, aguardando a saída do importante cliente. Antes de sair, no entanto, Aro falou:
-E como está sua nova aquisição? Espero que Bella não tenha dado muito trabalho na noite passada.
-Não havia como dar trabalho, já que a doparam com Valium o suficiente para quase levá-la ao coma. –Comentou Edward num tom sarcástico, bem atípico dele. Aro virou-se, dando-lhe um sorriso de gesso.
-Espero que lady Swan esteja bem agora. Ou a bela adormecida não despertou após o beijo do seu príncipe encantado? –A falsa preocupação de Aro para com a menina era algo cômico de se ver, mas Edward conteve a histeria pela cena engraçada.
-Isso eu só saberei quando for até a minha casa vê-la. E a propósito fiz o depósito da quantia cobrada ontem mesmo. Isabella está paga.
-Bom... E quando vê-la, diga a menina que o pai será internado em uma clinica de reabilitação, como eu havia prometido. Assim que sair no hospital onde fora internado, nós providenciaremos para que ele vá para um bom lugar. É o mínimo que posso fazer, já que graças a sua venda, recuperei o dinheiro que o patife do pai dela devia e lucrei com a sua venda, o suficiente para pagar por alguns dias em uma clinica para dependentes químicos sem que isso afete o montante.
-Aro, por que ela foi leiloada? Apenas soube o seu nome, mas nada foi falado a respeito do motivo. –Edward estava curioso, tão curioso ao ponto de prolongar a presença de Aro em sua sala. Numa postura tipicamente presunçosa, o italiano disse:
-Isso, meu rapaz, você terá de perguntar a ela. Acredito que tenha recebido o atestado de virgindade da pequena quando pagou pelo produto.
-Sim. Deixei o papel dentro da bolsa dela, que está no meu carro.
-Então aproveite a mercadoria. E lembre-se: Não a aceitaremos de volta. Que isso fique bem claro. Se a menina causar problemas, terá que resolver você mesmo. Assim como aconteceu com a pequena Jessica. –E dizendo estas palavras, Aro e sua comitiva partiram, sendo guiados por Alexandrina até os elevadores. A secretária, ao regressar, voltou à sala do seu chefe, pegando os copos vazios de uísque servidos a Aro a fim de lavá-los na pequena copa anexa a sua sala.
Edward sentou-se, afrouxando a gravata e girando a cadeira, encarando assim a paisagem ofertada pela parede de vidro que havia atrás de si. Até quando viveria sob o domínio do italiano, trabalhando em atividades ilegais e prejudicando gerações? Não suportava aquela sensação de insegurança e medo que o norteava desde que aceitara o acordo para trabalhar ao lado do italiano, mas nada poderia fazer para mudar sua condição.
Perdido em devaneios, Edward só notou a presença de sua secretaria quando Alexandrina colocou diante do seu chefe uma xícara de café.
-Reunião difícil? –A loira perguntou.
-Não. Foi mais tranqüila do que eu poderia imaginar. Por hora tudo está perfeito e espero que continue assim.
-Então não preciso batizar o seu café. –Essa era uma prática que Edward pedia a secretária em dias difíceis. Quando tinha reuniões tensas com Aro, Alexandrina colocava uma dose de uísque no café do patrão.
Após saborear o café, a secretária pegou a xícara usada por Edward e se dirigiu a porta.
-Como estão as compras on-line de roupas para Isabella? –Edward perguntou casualmente. Por alguns instantes, quando a secretária virou-se para olhá-lo, poderia jurar que Alexandrina sorriu.
-Eu me sinto uma garotinha brincando de vestir uma boneca. Com licença. –Pediu, retirando-se da sala de Edward. O rapaz sorriu, sabedor do quanto aquele comentário proferido pela sua contratada se aproximava da realidade. Bella, de fato, era uma boneca, ou pelo menos assumiria um papel parecido.
...
Olhou para a pequena formação de pessoas diante de si. Angela prontamente as apresentou, começando pela senhora baixinha, de meia idade, que tinha um sorriso tranqüilo no rosto enrugado. Terminou por Erick, o asiático com problemas de pele responsável pela compra de alguma coisa que as empregadas ou Edward necessitassem e que, também, bancava o motorista quando o Cullen não queria ou não estava em condições de dirigir. A menina murmurou o seu nome completo, Isabella Marie Swan, e nada mais. Os empregados, sem saber como proceder diante da situação, logo procuraram o que fazer. Até Lauren, a mais acomodada da turma, dirigiu-se a área de serviço a fim de retirar da maquina de lavar algumas peças de roupa.
-Todos estão um pouco ocupados agora. Betha está preparando o almoço, Ben está consertando a pia do banheiro do seu novo quarto e Erick vai comprar o que Betha precisar para o jantar. –Angela comentou, acreditando que falar de coisas banais tranqüilizaria um pouco mais a menina. O banho que Bella tomara minutos atrás melhorou sua aparência e o vestido com estampa florida não ficou tão ruim, mas ainda havia um quê de nervosismo na pequena.
-Será que eles precisam de ajuda? Posso fazer alguma coisa... –Bella queria manter a mente ocupada e realizar alguma tarefa doméstica poderia ser o caminho, mas Angela meneou a cabeça.
-Há mais empregados aqui do que serviço. Além disso, você é uma agregada e não pode fazer nenhum serviço doméstico. São as regras. –Angela pôs-se a caminhar e Bella a seguiu.
-Regras? Que regras? –Isabella estava aturdida demais e Angela sabia que cabia a ela explicar tudo para a recém chegada. Não era o tipo de tarefa que gostaria de executar, mas ninguém parecia disposto a substituí-la. Pediu a Swan que a acompanhasse, guiando-a até a enorme sacada da sala, um lugar agradável e com uma bela vista para a caótica cidade, decorado com flores dos mais variados tipos. O tipo de ambiente propício para tranqüilizar alguém, porém aquele lindo lugar não teve nenhum efeito sobre Bella.
Após sentar em um dos bancos de madeira rústicos que lá havia, e ver Bella sentar-se diante de si, respirou fundo e começou.
-Você sabe o porquê de estar aqui, não é? –Torceu para que Bella assentisse e ficou feliz ao ver a menina fazer o que desejava. –Bom... Isso me polpa certo trabalho.
-Você sabe o que eu sou? Sabe o motivo de eu estar aqui? –Desviou o olhar da empregada, envergonhada. Era deveras humilhante para a moça que mais pessoas soubessem de sua posição naquela casa. Provavelmente eram ignorantes do motivo e deviam estar pensando que Bella se vendera por algum motivo banal.
-Sim. Todos nesta casa sabem. É necessário sabermos. –E as palavras de Angela enegreceram o coração de Bella, que fitou o chão e cerrou fortemente os punhos. A mais velha inclinou-se na direção de Isabella, colocando uma mão sobre as mãos da pequena. –Ninguém julga você, pode ficar tranqüila.
-Julgam sim. Qualquer um julgaria... Fariam especulações acerca dos meus motivos. Mas garanto a você que o meu ato foi o mais nobre que já executei. –Os orbes cor de chocolate, agora firmes, olharam para Angela, deixando-a embasbacada com a força que subitamente Isabella mostrava possuir.
-Acredito em você. –Disse a maior, involuntariamente. Procurei retomar o raciocínio a fim de esclarecer de uma vez por todas as coisas. –Preciso deixá-la a par das regras, antes que o senhor Cullen volte. –A simples menção ao sobrenome do proprietário daquela mansão petrificava a menor.
-Ah sim. –Balbuciou, fitando o horizonte ensolarado.
-A senhorita deve fazer todas as refeições com o senhor Cullen quando este estiver aqui e deve estar na sala de jantar antes do mesmo entrar. Os horários são: café da manhã às sete e meia, almoço ao meio dia e meia e jantar as oito e meia. Quando ele não vier para casa, algo constante devido a sua agenda, você pode fazer as refeições onde quiser e a hora que desejar. Antes de se recolher para dormir, passe no aposento do senhor Cullen, que fica ao lado do seu quarto, e só saia de lá se ele assim ordenar.
Angela parou ao notar que Bella não respirava por estar aparentemente petrificada com as palavras da empregada. Deu um tempo a menina e quando a pele arroxeada do rosto de Bella voltou ao normal, assim como sua respiração, ela prosseguiu.
-Você não poderá sair daqui ou fazer algum contato com alguém, seja por telefone, internet, etc. Apenas se o senhor Cullen permitir tal coisa. Estamos instruídos a cumprir as determinações dele, sendo assim eu peço para que cumpra as regras.
-E o que ele fará caso eu não cumpra? –A pergunta saiu involuntariamente dos lábios de Isabella. –Ele vai me bater ou algo assim? –A voz saiu trêmula.
-Escute... O senhor Cullen é uma pessoa fácil de conviver quando fazemos o que ele quer. Eu acredito que você será muito bem tratada se não aborrecê-lo. Você terá uma vida de rainha! –Lembrou-se de um passado não tão distante, quando os olhos infantis de Jessica brilharam ante a promessa de uma vida fabulosa, digna de um conto de fadas. Angela esperava que com aquela pobre criatura as coisas não tivessem o mesmo fim. As palavras de Angela, que serviam para acalentar o desespero que grasnava na jovem Isabella, no entanto, tiveram o efeito contrário. A menina levantou-se, olhando com raiva para Angela.
-Não é uma questão de ter uma vida de raiva! Pouco me importa o luxo que poderia ser ofertado a mim! Nada vale me submeter aos caprichos de um desconhecido por esse luxo! –Arfava violentamente, furiosa. Angela ficou perplexa com a explosão. Há alguns minutos Isabella parecia a mais inofensiva das criaturas, mas agora poderia ser comparada ao mais feroz dos touros da tourada espanhola.
-Não sei o motivo de estar aqui, mas acredito que é importante o suficiente para se submeter. Estou certa? –E como Angela acreditava, suas palavras silenciaram a menor a sua frente, fazendo-a acabar com a explosão. A mente de Bella vagou para o pai, bêbado e ferido, que quase foi morto no dia anterior. Ela o amava, Charlie era sua única família, e, por ele, faria qualquer coisa.
Até se sujeitar a condição de objeto que lhe era imposta.
Calada e mais calma, sentou-se novamente no banco de madeira ricamente trabalhado, olhando para uma orquídea em cima de uma pequena mesa, a sua esquerda.
-Onde fica o meu quarto? –Foi a única coisa dita por Isabella.
...
Se não fosse por Alexandrina, constatou, provavelmente Edward não almoçaria. Imerso no trabalho como estava, só notou a chegada do horário para o almoço quando a secretária entrou em sua sala, munida de um verdadeiro banquete em cima de uma pequena mesa de madeira com rodas. Tentou dissuadi-la daquilo, preferindo continuar com o seu trabalho, mas a mulher lhe enviou um olhar enviesado e Edward admitiu a derrota antes de proferir uma única palavra.
Enquanto comia sem sentir o gosto da comida, deixando de lado o notebook onde até então estava trabalhando, pôs-se a mexer na bolsa de Isabella Swan. A bolsa, que até então estava no interior do seu carro, fora trazida, a seu pedido, por Alexandrina minutos atrás. Lá havia a comprovação da virgindade da moça, um celular simples, uma carteira com algum dinheiro e documentos, contas a serem pagas e uma agenda com compromissos anotados. O Cullen olhou os documentos, procurando por mais informações acerca da jovem. Em seguida pegou a agenda, folheando-a com descaso, até um objeto cair de dentro dela.
“São parecidas... Essa mulher deve ser a mãe dela.” –Constatou enquanto olhava uma pequena fotografia de Isabella, num parque, fazendo um piquenique com uma mulher parecida, porém um pouco mais velha. Atrás da fotografia estava escrito “passeio no parque da família Swan” numa caligrafia tosca. Antes que a nostalgia dos tempos de criança, quando era ele e a mãe num mundo caótico, o tomasse, ele guardou a fotografia dentro da agenda. Pegou o celular, notando o número grande de chamadas não atendidas. Alguém estava à procura dela e só esperava que a polícia não acabasse encontrando a garota em seu apartamento.
Após a sua refeição, pediu a sua secretária para ajudá-lo a adiantar o serviço para aquele dia. Após a conversa com Aro sobre Isabella, o Cullen estava curioso para saber o motivo de a menina ter sido leiloada. Sua curiosidade, no entanto, só seria saciada ao anoitecer, quando estivesse na sua casa. E como solicitou nas primeiras horas de trabalho, Alexandrina não só comprou tudo o que pedira para a Swan, como enviou através de um serviço de entrega.
...
Ao final da tarde, após um lanche caprichado preparado por Betha, Bella estava em seu quarto, absurdamente decorado com requinte, diante de um monte de sacolas. Erick recebera a encomenda, passando as sacolas para Angela que passou para Isabella. E agora lá estava a gata borralheira ao acaso, remexendo nas sacolas sem saber o que fazer com aquilo tudo. Victoria Secret, Dolce & Garbana, Victor Hugo, Calvin Klein, Guess... Essas eram apenas algumas marcas que Bella reconhecera pelas etiquetas das roupas, lingeries e demais acessórios. Com aquele montante, ela poderia estar muito bem vestida o mês todo sem nunca repetir alguma roupa. Não ousou, porém, experimentar os presentes. Pouco interessava a ela toda aquela pompa diante de si, ofertada pelo tal Edward Cullen. O que Bella mais queria era acordar daquele pesadelo, deparando-se não com o pai bêbado e ausente, mas com o pai sisudo, mas com um bom humor indiscutível, e a mãe carismática, sempre pronta não para dar conselhos, mas para ouvi-los de Bella.
Tudo estava acabado, porém. A vida simples de menina nas ruas decadentes do Bronx estava encerrada e agora só restava para Bella abraçar, forçadamente, a nova vida na cidade grande. E vinha daí o seu maior problema.
-Senhorita Swan, eu posso entrar? –Angela perguntou do outro lado da porta, batendo na mesma suavemente.
-Pode entrar. –Não se deu ao trabalho de virar e olhar Angela passar pela porta. A empregada bufou ao ver Isabella ainda vestida na roupa que lhe emprestara.
-Senhorita Swan, é preciso trocar de roupa para o jantar. O senhor Cullen não demorará a chegar e ele quer vê-la recepcionando-o juntamente com os outros empregados. –A voz de Angela mostrava sua preocupação no descumprimento das regras impostas a Bella.
Apiedando-se da jovem Angela, e temendo alguma investida furiosa do Cullen com sua indisciplina, Isabella acatou a súplica. Olhou novamente as sacolas, e a algumas peças de roupas espalhadas pela cama. Perguntou se poderia continuar trajando o vestido simples emprestado por Angela, mas a empregada negou tal pedido. Ajudou a menina a escolher algo para vestir, optando por um vestido de alças azul marinho que ia até os joelhos, com um pequeno cinto branco fechado na cintura. A cor azul anil era a preferida do Cullen e Angela esperava que este pequeno detalhe aplacasse um pouco o mau humor que parecia imperar na figura do patrão.
Deixando Bella vestir-se com as roupas que escolhera, Angela seguiu para a cozinha, ajudando os demais empregados com a arrumação da mesa para o jantar. Constantemente Betha olhava o relógio, preso a uma das paredes da sala de jantar, querendo terminar seus afazeres antes do patrão chegar. Conseguiu, como de costume, e ficou próxima a porta com os demais empregados, esperando pela chegada de Edward. Só então notou a ausência de uma pessoa.
-Angela, onde está a garota? –Betha perguntou a jovem ao seu lado.
-Eu disse a ela para se apressar. Irei até o quarto dela agora. –Angela projetou-se a fim de cumprir o que dizia, mas Ben segurou o seu braço.
-Tarde demais. Ele chegou. –E ao proferir estas palavras, viu o patrão passar pela porta, aberta pelo prestativo Erick. O coro de “boa noite senhor Cullen”, proferido pelos empregados, soou no amplo espaço. Edward olhou com descaso para todos ali presentes, mas ao constatar que Isabella não estava lá, irritou-se.
-Onde ela está? –Perguntou enquanto Lauren postava-se atrás dele, ajudando-o a retirar o casaco e o paletó.
-Acredito que ainda esteja se arrumando, senhor Cullen. Eu irei apressá-la. –Angela não deu sequer um passo, pois sua intenção foi brecada pelo Cullen.
-Explicou as regras para ela. Se Isabella não está aqui é por que não deseja me fazer companhia. Que seja. Não jantará se não for comigo. –Falou com uma rudeza não característica dele, rumando para o seu quarto. –Eu vou me trocar antes de jantar.
Os empregados só puderam respirar aliviados quando o Cullen sumiu de vista ao dobrar em um corredor. E nesse mesmo corredor, ele encontrou alguém de forma inusitada. Esbarrou violentamente numa figura delgada, que teria ido ao chão se o Cullen não tivesse sido rápido o suficiente. Firmou a menina nos seus braços enquanto a outra tentava se recuperar da parada brusca.
-Me desculpe! Eu... –E Isabella calou-se ao notar que, a sua frente, não era um dos empregados. Com os olhos arregalados, captou rapidamente detalhes daquele desconhecido. Homem jovem, mais alto que ela, muito bem vestido, cheiroso e... E com uma expressão azeda no rosto.
-Se estava indo até a sala para me recepcionar, perdeu a hora. –Edward falou num tom rude, encarando os orbes castanhos com um misto de desgosto e aborrecimento. E Bella, ao se deparar com daquela atitude grosseira desnecessária, mesmo estando diante do possível senhor Cullen, não conteve o gênio arredio.
-Eu só me atrasei alguns segundos. Não precisa me crucificar, Pôncio Pilatos. –Sua voz e suas palavras vinham tingidas de sarcasmo, surpreendendo o Cullen. Ele definitivamente não esperava por uma atitude que espelhasse sua rudeza. Isabella devia, afinal, gratidão e respeito a ele.
-Mal começamos o longo período de convivência e já está faltando o respeito? Que corajosa você é! –Segurou o queixo da Swan, forçando-a a encará-lo. Não que ela precisasse disso.
-É você que está sendo grosseiro desnecessariamente! Eu já estava indo até a porta para dizer “boa noite senhor Cullen” junto com o coro! –Cruzou os braços em frente ao corpo, numa postura confiante. Bella jamais conseguiria explicar o que estava acontecendo com ela para agir de forma tão sarcástica, e Edward não saberia explicar por que ele não conseguia rebater aquele comportamento tão insolente, atípico daqueles que estavam ao seu redor.
Dando-lhe um sorriso de gesso, algo frequentemente usado por Aro, Edward continuou sua caminhada até o seu quarto, dizendo:
-Espere-me na sala de jantar. –Ordenou num tom firme.
E quando o Cullen desapareceu por uma porta, Bella pôde respirar. Viu suas mãos trêmulas e sentiu o descompasso do coração. O que fizera foi uma burrice total, ela sabia, mas não conseguiu ficar calada e submissa diante de uma postura tão dominante. Quando se tratava de relacionamento com homens, Bella sempre manteve uma postura única, mostrando quem ela era. Hábitos não mudam tão facilmente, afinal.
...
Desconfortável. Essa era a palavra que melhor definia o estado de Isabella. Sozinha na sala de jantar com o Cullen, enquanto Angela estava nas proximidades e só aparecia quando era necessário. Quis se sentar na extremidade da mesa, mas Edward, na tentativa de causar justamente desconforto, ordenou para que se sentasse bem próxima a ele.
Já havia degustado de uma entrada, algo que saciou a fome, mas ela continuou a mesa, degustando de mais e mais pratos. Isso tudo por que, aparentemente, só poderia se retirar da mesa quando Edward fizesse o mesmo.
E Edward fingia dar atenção máxima ao que comia, mas a verdade era que, de esguelha, captava cada movimento feito pela Swan. Desde o embate no corredor, onde Bella mostrou uma personalidade ácida, ele se viu intrigado. Nem mesmo Jessica fizera algo parecido, parecendo aceitar, na época, sua condição com humor. E aquela atitude de Bella só provava que uma das teorias desenvolvidas por Edward, enquanto voltara para casa, estava certa: ela não estava nessa vida por querer. E essa especulação aumentava o interesse dele para com aquela criatura. Que motivação teria sido a dela para aceitar ser leiloada e servir de escrava a um estranho?
Nenhuma palavra foi trocada durante todo o jantar. Bella preferiria assim, afinal não havia nada que quisesse conversar com o tal Edward Cullen. Edward tinha perguntas, mas julgou não ser um momento oportuno. A Swan certamente usaria a comida como desculpa para não falar. E também achava deveras interessante simplesmente olhá-la, intimidando-a ao máximo. Tentar uma conversa poderia quebrar aquele clima que tanto o divertia.
Ao final da refeição, Edward levantou-se da mesa. Bella permaneceu sentada, olhando para as empregadas que, apressadas, retiravam a louça suja e limpavam com a máxima eficiência o local. Não reparou quando o Cullen postou-se ao seu lado, olhando-a com uma intensidade desconcertante.
-Isabella... –Espantou-se ao ouvir o seu nome ser pronunciado por ele e a sensação que a tomou ante aquele ato foi de surpresa, medo e uma pontada de excitação. –Venha comigo.
Se antes Bella estava tensa, agora sentia o seu corpo prestes a desfalecer tamanho era o seu nervosismo. O corpo parecia duro como uma rocha, devido a tensão, e isso afetou o modo como se movimentou. Angela olhou com piedade para a menina, que seguiu trôpega atrás de Edward. Lauren, ao contrario, sorria perversa, desejando que a primeira noite fosse terrível o suficiente para afugentar a Swan.
“O que eu farei? Não suporto sequer imaginar me deitando com ele!” –A mente de Bella trabalhava furiosamente, tentando pensar numa força de se livrar daquele suplicio. Talvez implorar pela misericórdia do tal Cullen fosse a única solução plausível, mas algo nos olhos cor de esmeralda daquele homem pareciam intimidar Bella, dissuadindo-a a pedir por algo que não era da natureza dele. Subitamente Edward parou no extenso corredor e só naquele momento Bella percebeu estar diante da porta do quarto dele.
-Vou tomar um banho e preparar algumas coisas do trabalho. Apronte-se e venha até mim. Não ouse me fazer ir até o seu quarto. –Falou num tom calmo, mas repleto de frieza. Deixou a estática Bella para trás enquanto entrava em seu aposento.
E Bella, ao passar pela porta do próprio quarto, sentiu um desespero sem precedentes. Quis gritar, amaldiçoar sua condição, puxar os cabelos. Nada, porém, iria tirá-la daquela situação. Ela sabia. Os empregados sabiam. Edward sabia. E com uma calma assombrosa, Bella preparou-se para a sua primeira noite.
...
Após o demorado banho e trajando agora roupas confortáveis, Edward tentou se concentrar em algumas coisas do trabalho. Estava sentado em frente ao laptop, no seu pequeno escritório, anexo ao quarto. Sua mente, no entanto, recordava a atitude ousada de Bella e o porquê de nada ter feito. Ele sabia que não poderia mostrar fraqueza, aprendera a duras penas essa lição. Não poderia permitir que Bella continuasse a desafiá-lo ou perderia o respeito que tinha com aqueles ao seu redor que testemunhassem tamanho desrespeito.
Enquanto isso, Bella segurava a maçaneta do quarto, sem saber o que fazer. Deveria entrar, mas temia o que viria a seguir. Ainda sim ela sabia, não tinha escolha. Se fosse para acabar, que acabasse logo! Quanto mais cedo enfrentasse seus medos, mas cedo poderia afastar-se do arrogante Cullen... Sim era um arrogante! Apesar da beleza que possuía, algo que muito chamou a atenção de Bella em primeira instancia, o Cullen era frio como o mais rigoroso inverno. Se já era insuportável estar na presença do taciturno rapaz, que dirá permitir ser tocada por ele? E com os pensamentos em polvorosa, Bella abriu vagarosamente a porta.
O local estava escuro, mas a menina pôde caminhar no interior do quarto sem problemas uma vez que as luzes do escritório, cuja porta estava aberta, iluminando o local. Aproximou-se vagarosamente, encontrando o Cullen sentado em frente a uma grande mesa de mogno, mexendo no computador.
-Volte. –Ele disse, sem se dignar a olhá-la.
-O que? –Bella perguntou aturdida.
-Volte e feche a porta. Você a deixou aberta. –Ele completou, ocupado demais para desviar os olhos da tela do computador. A menina voltou, fazendo o que o Cullen queria, mas ao avistar a chave presa a porta do quarto, Bella tratou de removê-la e esconder embaixo da tapeçaria. Não queria correr o risco de Edward trancar a porta, impossibilitando-a de sair caso quisesse. Voltou instante depois, postando-se fora do escritório, em frente a Edward.
-Aproxime-se. –O Cullen ordenou e Bella, contrariada, acatou a sua ordem. Ficou próxima a ele, em frente a uma cadeira. Continuou de pé, julgando ser melhor assim uma vez que poderia se antecipar e correr, se a situação pedisse.
Edward olhou para aquela figura prostrada diante de si, coberta por um hobby de seda preta que fitava o chão. Isabella estava tão aterrorizada! E aquela cena, assustadoramente, não conseguia amolecer o Cullen. Há muito tempo a humanidade havia abandonado aquele rapaz devido a tudo o que passou ou apenas testemunhou, enegrecendo sua alma e transformando seu coração em gelo. O que acontecera na noite anterior, quando arrematou Bella, foi um lapso passageiro, um resquício da humanidade a muito enterrada. Agora tudo voltara ao normal, inclusive o seu modo frio e calculista de lidar com o mundo e com todos que habitam nele, o que o Cullen agradeceu.
-Sente-se. –Apontou para a cadeira diante de si.
Enquanto Bella sentava mais lentamente do que o normal, Edward desligava o seu notebook, querendo dar atenção máxima a menina. Num canto da mesa estava a bolsa de Isabella, mas os pertences que antes recheavam a bolsa estavam em poder do Cullen, escondidos em algum lugar da casa. Isabella notou a peça e seu estado de nervos piorou. Procurou se concentrar, mas era difícil. Na bolsa estava o seu celular com todos os seus contatos. Ela poderia ligar para alguém e pedir ajuda; ligar até mesmo para a polícia. O seu olhar fixo na bolsa chamou a atenção do Cullen, que não perderia a oportunidade de alfinetar a menina.
-Ah, a sua bolsa. Ela me foi entregue ontem. Pode ficar com ela, se quiser. –Mal disse as palavras e viu Bella praticamente saltar em direção a bolsa, rapidamente abrindo-a. A decepção quando não encontrou absolutamente nada foi palpável. E Edward sentiu certa satisfação em causar dor a pequena, como uma forma de puni-la pelo desrespeito no primeiro contato que os dois tiveram.
-Onde estão as minhas coisas? –Perguntou à jovem Swan, enquanto esta segurava fortemente a bolsa surrada. Edward deu de ombros.
-Alguns pertences estão em meu poder, como seus documentos. Outros eu descartei por não julgá-los de alguma utilidade. E o seu celular... Bem... Também está comigo. –Viu a menina mudar de cor e um desespero tangível atingi-la. Não conseguiu imaginar o que poderia deixá-la naquele estado, uma vez que não julgou haver na bolsa nada de valor.
-Havia uma foto, dentro de uma agenda. Você a jogou fora? –Ela perguntou com a voz tremula. A foto, afinal, era a única lembrança que restara da mãe. Num acesso de fúria, após embebedar-se, o pai, Charlie, queimou boa parte dos pertences da mãe, restando apenas a foto tirada em uma tarde de verão, num parque qualquer.
-Não dei importância a uma agenda com compromissos anotados do qual você não mais participará, ou as contas que paguei e descartei. –E o semblante antes sério e triste da pequena Isabella assumiu uma expressão do mais puro ódio. A menina levantou-se bruscamente da cadeira, batendo as mãos na mesa e olhando de forma ameaçadora para o Cullen.
-COMO SE ATREVE? COMO SE ATREVE A SE DESFAZER DAS MINHAS COISAS! –Gritou para Edward, querendo esmurrá-lo com toda a sua força, algo que a surpreendeu, pois Bella não tinha um caráter violento.
Edward olhava aquela explosão como se nada fosse, embora em seu íntimo estivesse surpreso com a atitude da Swan.
-Não são os seus pertences. Eles são meus agora. Faço o que quiser. –Falou com aparente descaso, enfurecendo ainda mais a jovem.
-Tinha uma foto dentro da minha agenda. É a única lembrança que sobrou da minha mãe. –Embora o tom de voz fosse mais baixo, era notável que a raiva ainda se fazia presente. Edward levantou-se da poltrona onde até então estava sentado e Bella o acompanhou, levantando-se também.
-E daí? Para mim ainda é lixo. –Falou com uma indiferença surpreendente, fazendo Bella arfar. E se alguma vez Bella duvidou da sua condição amaldiçoada, agora não tinha duvidas. Ela era, agora, propriedade de um demônio.
-Você é humano? Como pode ser tão indiferente a isso? –Balbuciou. Edward deu um meio sorriso capaz de gelar até a alma.
-Indiferença? Frieza? Antes de me julgar, Isabella Marie Swan, por que não falamos de você? O que a levou a isso? Por um acaso o motivo não seria a futilidade? Aposto que não se contentava mais com a vida medíocre que levava e pediu a Aro por esse favor. Desejava uma vida de luxo e não se importou em vender o próprio corpo. –As palavras duras de Edward foram como um balde de água gelada em Bella, fazendo-a esquecer-se por alguns instantes da fúria que a dominara. Como ele se atrevia a pensar tal coisa dela?! Muito embora ela nada pudesse cobrar do Cullen, pois ele desconhecia os motivos que a levaram a tão desesperadora medida.
-Eu jamais faria algo assim por um motivo tão baixo! Fiz o que fiz para quitar a divida que meu pai havia adquirido com Aro! Se não o fizesse, eles matariam meu pai! –Confessou e suas palavras, por alguns instantes, tiveram algum efeito em Edward. Ele já desconfiava que o motivo era forte, mas não tão nobre assim. E mesmo que seus pensamentos sobre as atitudes de Bella fossem razoavelmente bons, não foi isso o que ele fez questão de expressar.
-Que estúpida você é! Vender-se para quitar a divida de um idiota. Teria sido muito mais nobre deixar Aro matá-lo. –Falou com desdém, ridicularizando os motivos de Bella para estar ali. E aquela postura tão arrogante novamente foi combustível para a ira da menina.
-Quem é você para falar de estupidez? Se eu sou estúpida, o que você é então? Gastando rios de dinheiro para ter alguém ao seu lado, na tentativa vã de conseguir amor e atenção, ainda que forçadamente. Mais patético é você que... –Calou-se quando o Cullen, sem o menor aviso, a segurou pelo colarinho do hobby de seda preto, quase erguendo-a do chão. A indiferença e frieza que antes pareciam dominá-lo se exauriram, dando a Edward uma expressão de ira surpreendente.
-É muita coragem falar coisas tão desrespeitosas para mim! Deve me temer, pois sou eu aquele que controlará sua vida a partir de agora! –Ameaçou, precisando ver a submissão da Swan. O que viu, no entanto, estava longe de uma garotinha amedrontada. Isabella o encarava com um brilho estranho nos olhos castanhos. Convicção, força e tantos outros sentimentos dominavam o espírito da moça.
-Eu não tenho medo de você. –Mentiu, esperando que Edward acreditasse. Ela mesma queria acreditar nas suas palavras e ficou feliz por, pelo menos, sua voz sair firme. E seu discurso provocou uma reação mais violenta do que ela ou Edward poderiam prever. Com o orgulho ferido, o Cullen sentiu a necessidade doentia de ensinar uma preciosa lição a Isabella: Nunca finja força quando não a possui de fato.
-Não me teme? –Edward envolveu o pescoço alvo com uma mão, fazendo força o suficiente no intento de dificultar a respiração da menina. Praticamente a empurrou para fora do escritório, em direção a cama do quarto, jogando-a lá com certa brutalidade. Quando a mão saiu do seu pescoço, Bella respirou aos arquejos, tossindo. Seus olhos emitiram o pavor que tanto tentou esconder, deixando o Cullen mais do que satisfeito. Mas não o suficiente.
Com Bella deitada na cama, Edward deitou-se sobre ela, procurando imobilizá-la com o peso do seu corpo. Bella, ao perceber o que aconteceria, sentiu o sangue do rosto sumir.
-Não... –Murmurou, enquanto suas mãos eram postas acima de sua cabeça, seguradas por uma única mão do Cullen. A outra mão, Bella sentiu, passeou vagarosamente pela lateral esquerda do seu corpo, por cima do hobby. Os lábios de Edward aproximaram-se da orelha.
-Eu vou ensinar algo que você nunca esquecerá. –Disse, lambendo o lóbulo da orelha esquerda da menina bem lentamente. –E depois dessa noite, eu sei, você há de me temer, assim como se colocará em seu lugar e me respeitará.
Enquanto seus lábios aproveitaram-se da proximidade com o pescoço, beijando-o em seguida, a mão livre que repousava na cintura conseguiu abrir bruscamente a frente do hobby. Ao explorar a região exposta, sem se dignar a olhar o que fazia, Edward notou que a menina, por baixo do hobby, estava vestida. Provavelmente não tirara o vestido que usou no jantar. Não que isso importasse, pois o rapaz arrancaria peça por peça do vestuário da Swan. Pelo menos, era o que ele pretendia fazer.
Um choro baixo chamou sua atenção, fazendo com que parasse o que estava fazendo. Abaixo de si, Bella o olhava fixamente com os olhos marejados e lábios trêmulos. Com os olhos, ela implorava por misericórdia a alguém, talvez para ele ou para Deus, ele não sabia. E aquela figura tão triste esmagou qualquer pretensão que o Cullen tinha de possuí-la. Afastou-se, sem olhar novamente para a pequena, sentando na cama de costas para ela. Bella continuou parada, olhando para o teto, parecendo estar em choque.
-Saia daqui. -Ele ordenou e, em segundos, ouviu o barulho da porta do seu aposento ser aberta e fechada. Ao olhar para a cama, constatou que Isabella havia acatado ao pedido sem titubear.
O Cullen suspirou cansado, esfregando os cabelos com uma mão. Deitou-se na cama de qualquer jeito e passou a encarar o teto. Não precisou refletir muito para saber o porquê de sua atitude. Era simples.
Bella poderia não ser fisicamente parecida com a mãe, mas estava passando pelo mesmo suplicio que Esme passara anos atrás, quando se viu obrigada a vender o corpo para salvar o filho. Por causa dele e da enfermidade que o acometera no passado, a gentil senhora condenou seu futuro, passando a ser não dona de si, mas propriedade de um homem asqueroso que muito a fez sofrer.
Edward jamais perdoou o tal homem e nem mesmo a morte do idiota aplacou o ódio sentido. Como ele poderia, após sofrer pela condição miserável ao qual a mãe se submeteu, fazer o mesmo que o algoz de Esme fizera com ela?
Cobriu os olhos com um braço, suspirando pesadamente.
-Estou me um tornando um idiota. –Concluiu.
Enquanto isso, Bella estava trancada no seu quarto, chorando copiosamente na cama. Por mais que o Cullen tivesse poupado a menina, ela sabia que o seu suplicio estava longe de acabar.
Por quanto tempo ela conseguiria se resguardar e evitar um estupro, o seu estupro?
Notas finais
Ah e embora a história se inspire na fanfic Entre a Nobreza e o Crime da Jane Herman, e no mangá Okane ga nai, o meu Edward eu estou me inspirando no personagem Belial do livro A lenda de Fausto da Samila Lages. Amo de paixão o livro e super recomendo! P/ quem se interessar em conhecer o livro e comprá-lo, ou com a autora ou na editora, acesse o blog dela: http://samilalages.blogspot.com/
Ah a música tema da fic é do U2, Eletrical Storm. Amo demais essa música e algo nela me lembra o casal Edward e Bella da fic. Mas p/ escrever esse capítulo eu não só me inspirei no Belial do livro da Samila como também usei a música "O trilo do diabo" p/ escreve-la. Valeu Samila por me inspirar!
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