Sweet Nothing
3 Rebecca
Era tudo estranhíssimo. Cada parte do meu corpo parecia confusa, quando entrei no carro.
Eu sorria, sem controlar e não sabia o que fazer com as minhas mãos ou pés. Não sabia aonde estava indo, o que estava fazendo... Não sabia dizer nada.
Mas eu tinha muita sorte, o taxista me conhecia. Eu li que se chamava Roger e ele aparentemente sabia aonde devia me deixar. Certo, era mais que sorte. Era tudo de que eu precisava.
Logo me ocorreu um pensamento que não veio antes porque eu estava zonza demais para receber. — Roger — perguntei — você acha que eu pareço lésbica?
Ele riu e olhou de forma estranha para mim, perguntando:
– Você não está pensando em trair o Dom...
– Nunca! — Eu gritei. Ok, tinha um Dom. Tudo ficara horrível em alguns segundos. Dom idiota, Dom...
Era incrível como eu mentia naturalmente. As coisas saiam da minha boca como se eu soubesse tudo sobre elas.
– Você parece só um pouquinho.
Eu ri um só um pouquinho e esperei que Rebecca gostasse só um pouquinho dele. Eu gostava.
Nós passamos por lugares dos quais eu me lembrava, mas não conhecia, naquela cidade que parecia mais uma pilha de coisas aleatórias sobre mim.
As latas de lixo pretas eram cheias de corações de vários materiais e formas: pelúcia, colares, corações de galinha, desenhados em papel, origamis... Montes deles, todos rasgados.
Cada um parecia ter uma história. Eu os via, apesar da escuridão. Vi um, em especial e pedi para ele parar. Relutante, encostou o carro no meio-fio, as pistas e ruas vazias.
Eu corri para a lata e puxei um dos cordões. Ele era feito de pedras pretas. Eram caras, eu conseguia sentir. Eu lembrei que eram. Eu soube, não sabia como, nem importava.
Abri o pingente, um coração negro cercado de ouro, trabalhado como se fosse renda. Havia a foto em sépia de um homem com o rosto redondo e rechonchudo, em roupas que pareciam do exército, embora sua pose fosse irreverente, como se posasse para uma revista. Alguns pontinhos em sua cabeça formavam seu cabelo.
– Ah...
Eu peguei o colar e voltei para o carro. Roger parecia enojado, mas não comentou. Mesmo que fosse falar, ele não o faria agora, porque naquele momento chegamos em casa.
E eu nunca teria percebido se depois de parar na frente dela e me encarar por vários segundos, ele não me tivesse mandado descer do carro e entrar pela porta vermelha.
Era um terreno enorme, com uma casa enorme. O telhado era preto e eu quase não o via, misturado com o céu. As paredes, brancas, eram iluminadas por algo que parecia uma lamparina, emitia uma luz amarela e estava pendurado no teto, embaixo da lâmpada.
Eu tinha muito medo, mas aquele fora o meu dia. Era uma questão de tempo e eu me adaptaria.
Mas não me adaptaria a casa. Não era a minha e eu pensei novamente que aquilo não estava certo.
A sala era enorme, com paredes em marrom e cinza e o mesmo tipo de iluminação. O teto estava tão longe que eu imaginei que nem um gigante de gelo poderia tocá-lo. A escada subia até o quarto andar.
Um garoto tocava no teclado uma música que não deveria ser tocada nele. Mas estava bom, e eu disse isto. O garoto me encarou por alguns segundos. Depois voltou para o instrumento.
Peguei a partitura. Era algo do Bach, e certamente não era o que ele estava tocando. Eu repeti, dizendo que era verdade, mas ele desviou o olhar, dizendo:
– Não enche! Pronto, eu parei de tocar... Agora, só...
Ele não terminou de falar, porque eu o interrompi, tentando imitar o melhor que podia a irmã que eu pensei que Rebecca devia ser:
– Ok, eu tentei ser legal com você uma vez e foi isso que aconteceu, seu merdinha inútil! Por que você acha que eu te trato assim?
Só que não era o caso. Aquilo era bem a cara da Rebecca, mas não era verdade. Ele pareceu incrédulo, no início, mas seu rosto foi tomando uma expressão de raiva, e então dor, e eu não aguentava mais aquilo.
Eu não era assim. Não era Rebecca. Queria voltar para casa. Isidora era tudo o que eu poderia pedir, mais Rebecca queria mais, tinha Dominique. E eu não teria os dois. Tinha a casa perfeita, o irmão perfeito, o corpo, roupas, cidade, perfeitos. As lembranças não eram dela, ela não sofria com elas.
Rebecca tinha tudo, mas eu não poderia viver com aquilo. Apesar de todas aquelas coisas, eu não queria ser ela.
– Desculpa. — eu disse — eu sou uma puta — queria estar xingando ela, mas eu acabei me incluindo. Eu também tentara ser ela e, afinal, não foi Rebecca quem lhe disse aquilo — mesmo. Eu sei que eu sou idiota, e que você sabe. Não fique todo emocional se não quiser, porque eu bem que poderia estar tentando te enganar, agora. Mas você tem que saber. Tem que saber.
Eu também tinha que saber, mas de outras coisas. Eu procurei pelo quarto dela e não foi fácil. Acabei encontrando o meu pai, e disse a ele que havia uma barata no quarto.
Deu certo. Eu o memorizei e fechei a porta atrás de mim, chorando, com saudade. Depois eu deitei e dormi, porque me importava mais com as lembranças reais que estavam na minha mente do que com a maquiagem no rosto de Rebecca.
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