Sweet Nothing
4 Mais longe
Notas iniciais
Acordei atordoada, na manhã seguinte. Algo veio à minha mente durante a noite, eu sonhara com algo importante. Pulei da cama e andei em círculos, segurando a cabeça com as mãos e dizendo palavras feias sobre mim mesma, porque não conseguia lembrar de uma maldita imagem.
Tirei a maquiagem, tomei um banho e escovei os dentes. Recoloquei toda a maquiagem e desci. Em vez de tomar café, fiquei esperando no sofá da sala. A comida parecia perfeita, mas eu não estava com fome.
"Eu não como desde que cheguei aqui." Observei. Mas estava bem.
Mesmo que não estivesse, não comeria, porque sentia que aquela comida me faria permanecer no lugar — se é que era um lugar. Eu não sabia se era verdade, mas para mim aquelas coisas eram como as do jardim de Perséfone, no mundo inferior, e eu queria voltar para casa.
É claro que aquele era o Elísio, mas naquele momento não havia diferença entre os dois para mim. Era fácil, ainda assim, porque eu estava com raiva e não gostaria de comer, como quer que fosse. Ou seja, eu não iria comer nem que a vaca tossisse a garganta para fora. Nem se ela continuasse tossindo depois disso.
O celular dela não tinha código, apesar das coisas constrangedoras nele. Era segunda-feira. Colégio.
Ninguém estava acordado, eram cinco da manhã.
Eu tirei uma foto no celular dela com o dedo na boca, brincando. Não tinha nada para fazer e acabei tirando bilhões de fotos. Qualquer pose ficava bem nela. Acabei postando uma delas, já que isso nunca me afetaria. E deveria ser rotina para ela, eu presumi, o que foi bem idiota. Eu sempre odiei presumir.
Quando o pai dela acordou, estava surpreso por me ver àquela hora pronta, na sala. A luz entrava pela grande janela de vidro, que se dividia em vários retângulos que formavam um arco, alguns com as pontas curvadas. Mas densas nuvens tapavam o sol. Havia tão pouca luz que parecia duas horas mais cedo.
Entretanto, eu sabia que não era por isso que ele estava surpreso. Becky também era irresponsável.
Ele se ofereceu para me levar à escola antes de ir para o trabalho e é claro que eu aceitei. Aproveitei para decorar o caminho, mas ele parecia sempre igual e era como se as coisas que deixava para trás mudassem um pouco quando eu o fazia.
Ele me deixou na porta e eu andei na direção da entrada, tentando lembrar da turma que eu vi que era a minha no site da escola. O caminho era amarelado, como se fosse o marrom mais claro do universo.
O prédio era grande e parecia um pouco antigo, com cor de tijolo e janelas brilhantes. Estava pensando em como alguém como Izzy gostava da Rebecca e se ela gostaria de mim.
Só estava se aproveitando de mim, e eu nem a conhecia. Era terrível fazer isso, para mim, mas eu decidi que não gostaria dela.
Estava pensando nisso quando fui encontrada por Eva, que estranhou que eu estivesse ali tão cedo. Ela também estranhou o meu olhar perdido, mas logo se calou, como se tivesse medo.
– Calma... Eu precisei vir com o meu pai hoje. Ele está com medo de alguém que fugiu da prisão, ou sei lá...
Era ruim intimidá-las, mas pelo menos eu poderia inventar qualquer desculpa e tudo estaria bem.
Eu queria quebrar aquilo. Foi por isso que eu perguntei:
– Eva... Você pode me ajudar com uma coisa?
Ela largou suas amigas e eu acenei para elas.
Eu saberia que perderia a superpopularidade e o temor das amigas de Rebecca, mas eu não os queria. Sentamos em um banco na parte de trás do colégio, que tinha paredes em u e pilastras
– Eu quero saber quando isso começou. Quando eu comecei a ser assim? Eu não consigo lembrar de nada.
– Assim...?
– Você sabe, idiota, má, babaca...
– Becky... A sua mãe. Você não lembra disso, também? — Ela interrompeu. Estava tentando ser gentil, mas não era aquela gentileza que eu queria. Não era sincera.
– Tá. — Eu respondi.
– Tudo bem?
– Desculpa, Eva. Você sempre estava aqui... Vocês me odeiam por isso agora...
– Na verdade... — Eva relutava, e ficou com uma careta no rosto por quase um minuto, mas se sentia obrigada a falar — Nós entendemos, mas... Você sabe que a Izzy está sempre contra. Ela é a única que te enfrenta e você sabe que ela faria de tudo... — ela disse de uma vez, ao mesmo tempo que eu dizia:
– Esquece isso!
Mas eu ouvi a tempo e pensei se deveria ficar feliz ou não. Ela a beijava porque se sentia no poder e para colocá-la para baixo.
– Ela... É a única que me enfrenta — eu absorvi a ideia enquanto falava. Eu tinha entendido tudo errado no outro dia.
Abracei Eva e corri pelo prédio, procurando Izzy. Ela estava saindo de uma sala.
Eu não evitei olhar para dentro e vi que havia um garoto lá. Pensei no que eu faria na situação e no que Rebecca faria e acabei acenando com a mão e dando um sorriso afetado. Algo entre os dois.
Ela me puxou, quase bufando e quase idiota.
– Eu preciso falar com você. Quer dizer... EU preciso.
– Como assim? E o que é?! — ela perguntou, irritada.
– É importante — mas ela não me levou muito a sério — é importante mesmo.
Acabamos indo para o jardim. Eu soltei:
– Eu não sou quem todo mundo pensa que eu sou.
– É, disso eu sei.
Eu tinha raiva do fato de que ela estava se aproveitando da Rebecca, não só porque achava que eu estava bêbada, mas para um boicote ou o que quer que fosse aquilo, mas ela era muito sexy, mesmo quando começava a agir como Becca.
– Não assim... Você não entenderia. Eu não estou falando sobre garotos. Eu não sou... Ah...
Não iria discutir aquilo. Não naquele momento. Eu me virei e comecei a pensar se gostava dela de verdade, parecendo mais mimada e mais com Rebecca do que pretendia.
– Quando nós éramos pequenas e contávamos histórias, antes da sua mãe, é isso o que você é? Se sim, esqueça isso, você nunca vai...
– É por aí — eu disse, cansada. Aquela também não era ela, eu senti quando a beijei. Ela era forte, mas estava usando isso para virar algum tipo de Rebacca. Ela não era assim — a gente poderia tentar, só uma vez.
– Tudo está acabando, mesmo.
– Quando a gente se vê? — tentei manter o tom calmo e leve.
Eu estava ansiosa. Não sabia o que estava acabando, nem me importava. Eu iria voltar à infância de alguém que não conhecia.
– Depois de amanhã, na casa da Eva? — ela não estava mais com raiva. Não queria lutar contra mim, mas com certeza estava se forçando a fazer aquela cara, porque se eu fosse Rebecca estaria mentindo. E eu era, segundo ela.
No fundo, a Becky tinha lembranças tristes também, que ela tentava esquecer.
O dia foi longo e chato. Eu sabia toda a matéria. Cada detalhe. No final da aula eu encontrei Dom, sem saber. Nós andamos pela escola, e eu demorei para perceber que éramos namorados. Conversamos um pouco e ele era o melhor garoto que eu conhecera até então. Tudo o que ele falava estava certo e era incrível, ou engraçado. Quando chegamos ao fim da rua, ele disse:
– Tchau... — Depois, ele me beijou e eu suspirei:
– Dom...! — Estava só surpresa. Me senti uma puta, a maior delas. Mas o beijei de volta e me perdi pela cidade, tentando voltar para casa e chorando.
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