Sweet Nothing
5 Fingindo ter uma conversa com o travesseiro
Quando eu cheguei em casa, chamei o meu pai.
Ele estava cozinhando e parecia desconcertado com a minha presença, mas eu ignorei aquilo e ignorei que se Becky algum dia voltasse para lá, eu teria estragado sua vida.
Nós nos sentamos no sofá para conversar, e eu comecei:
– Você acha que eu posso mudar isso?
– O que você quer dizer com isso?
– A vida da... A minha vida.
– Você já fez isso uma vez. Eu acho que pode voltar se quiser — Seu conselho foi muito sincero e direto. Não era o que mais ajudava, mas era totalmente verdadeiro, e eu não precisava da ajuda dele; só precisava de uma desculpa para agir do meu jeito. Ele resolveu continuar:
– Sabe, Becca — estava hesitante quanto a como me chamar — nós queríamos mudar o rumo que você escolheu pra sua vida depois daquilo, mas ela é sua e só sua, e tudo estava tão confuso... Eu nunca fui um bom pai e tudo piorou quando ela — não estava chorando, ainda, mas deixou escapar um soluço, que o constrangeu muito — morreu.
Não queria atuar como Becky também nas lágrimas em família, não parecia justo. E agora que falara com ele e poderia agir como de costume, estava livre para perguntar o que estava ali para perguntar. Disse:
– Eu sei. E tem outra coisa.
Eu o havia interrompido, mas ele também não queria falar sobre aquilo, então seu rosto se contorceu, me perguntando com o olhar do que estava falando.
– O que você faria se pensasse... Que as coisas estão erradas?
– Não pode estar tudo errado, entende? Alguma coisa tem que estar certa, e o resto desandou...
– É... — eu disse, pensando em Izzy e Dom, que seriam certos se só existisse um deles, e na minha outra vida, que com certeza estava certa, mas tão distante... — como eu sei o que está errado?
– Se você sabe que há um problema, só o precisa procurar e desfazer — seu tom era o mais formal e calmo, ainda que eu percebesse certa relutância e medo em sua voz.
– Você acreditaria em mim se eu dissesse que estou louca?
– Não.
– E se eu dissesse que não quero... Desfazer esse problema?
– Às vezes a gente não quer, porque isso mudaria tudo e a gente perderia coisas... coisas importantes, eu digo. Eu acredito em você.
Talvez ele pensasse que eu estava falando sobre a mãe de Rebecca, mas mesmo assim estava me ajudando no que eu queria.
– Obrigada. Mesmo. Eu sei que tudo está ruim, mas eu te amo.
– Rebecca...
Eu olhei para ele, quase me acostumando a ser chamada assim.
– Porque você não só... Reflete um pouco? Pensar um pouco sobre isso, seja o que for, poderia te ajudar mais do que falar comigo, que não sei nada sobre o seu problema.
– É.
– E... Talvez você pudesse só... Deixar que tudo acabasse.
Era a segunda pessoa a dizer algo sobre tudo acabar, mas desta vez eu me importei.
– O que você quer dizer?
– Eu não sei. Pensei que poderia ajudar, para quando você for parar e pensar.
A explicação foi absolutamente inútil, por isso eu fui para a cama mais cedo e conversei por horas com o travesseiro, em vez de dormir, mas não cheguei a conclusão nenhuma. Quando pensava em algo que poderia ajudar, me distraia e voltava para o começo. Me distraia mesmo, do nada, por mais que uma parte de mim quisesse se concentrar.
Acabei desistindo e dormindo. Entretanto, quando acordei, era como se meus olhos não se fechassem a anos. E eu não me lembrava de nenhum sonho.
Eu me arrumei. Quando troquei de roupa, percebi que estava ainda mais magra que Becky. Talvez pelo menos isso ela apreciasse na mudança que eu fiz em sua vida. Não lembrava do meu corpo verdadeiro, mas sabia que não se comparava ao dela.
Saí de casa uma hora mais cedo, porque estava decidida a encontrar sozinha o caminho para a escola.
O meu dia nela foi bem parecido com o último, com a minha atuação perto das centenas de amigos de Rebecca, cujos nomes eu tentava decorar.
Mas meu diálogo com Eva e Izzy parecia ter mudado várias coisas com as amigas mais próximas dela: a primeira estava me bajulando menos e a segunda parecia mais calma e até um pouco arrependida.
– Becca? — ela me chamou, os cachos loiros balançando enquanto andava pelo refeitório.
Eu me virei.
– Talvez você queria me dizer aquilo depois.
– Depois... — respondi sorrindo. Ela não entenderia agora, mas eu teria que explicar, em algum momento.
Sentei ao lado dela, que jogou algo em um copo e continuou falando com seus amigos.
Então ela empurrou o copo na minha direção. Eu nem tinha visto o que ela colocara ali.
Havia combinada de almoçar com o Dom, por isso me despedi, tampando e levando o copo, sem saber o que tinha dentro. Meu pai ficou feliz por eu ligar para avisar que iria comer fora. Não podia trair meu namorado com ninguém, mas precisava conhecê-lo melhor antes de resolver dispensá-lo.
Eu tive que dizer para ele que iria comer com o meu pai, para não ser obrigada a engolir nada, mas o tempo que passei ali fez com que valesse a pena.
Eu queria muito odiar o Dom, mas ele era o amigo perfeito. Nosso relacionamento era como uma amizade, só que melhor. Eu não queria sair dele. Estava convicta a dar o fora no garoto, mas primeiro tinha que pensar em uma forma de fazer isso sem estragar tudo.
Além desse problema, um garçom jogou um pouco de suco na minha roupa, e eu passei o resto do dia cambaleando e falando de forma estranha por aí, porque resolvi não pensar e beber tudo o que havia no copo de uma vez.
Mas nada, nenhuma dessas coisas estragou o meu dia. O resto dele foi maravilhoso e a cada segundo eu sentia menos e menos vontade de voltar para casa.
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