Sweet Nothing
6 Eva
Notas iniciais
– Foi há muito tempo tempo, 77, eu era bem pequena, bem loira, bem feliz. Eu era feliz. Eu nunca fui feliz depois disso, porque eu tinha medo de que acontecesse de novo, eu me esforcei para não ser feliz. Me esforcei para não confiar em ninguém, nem em nada. É algo tão simples, por isso me assusta. Tão, tão simples.
Eu olhava para Izzy, e imaginava que aquela história seria qualquer história, mas ela tinha uma expressão que eu nunca tinha visto em seu rosto. Era muito estranho achá-la bonita assim, porque estava assustada de verdade
Eu não via por quê. Era ridículo para mim como Eva falava de uma forma sombria. Era como num filme de terror, "eu não vou me assustar, é idiota", mas é claro que eu me assusto no fim.
– Eu vi a Izzy — disse, olhando para Isidora, óbvio. Não para mim, não para o quarto, a história era para ela — foi a primeira pessoa que eu vi no dia. Lembra do que você disse? — disse, virando a cabeça com falsa ternura.
– Você vai ao acampamento? — Balbuciou Izzy.
Simples.
– Claro. E aí eu disse "sim" e você respondeu...
– Bom. Bom isso. Nós vemos lá, então — isso elas disseram em coro.
– Eu lembro de tudo — pela expressão de Isidora, ela lembrava também — lembra que estávamos brigadas? Eu pensei que você me tinha perdoado. Pensei que estava tudo bem. Eu achava mesmo, estúpida — e aí eu não soube de quem estava falando — que iria pro acampamento e tudo ficaria muito bem.
– Para — disse por Izzy. Ela diria se pudesse. Nunca imaginei que a veria assim. Seu queixo estava baixo e as lágrimas escorriam de seus olhos sem que ela mexesse um músculo do rosto. Estava em choque, um choque melancólico, não parecia acreditar. Eu não entendia.
– Eu me arrumei e arrumei as minhas coisas — me ignorou — tudo estava bem, eu estava bem, você estava, nós estávamos bem, o acampamento, a droga do acampamento, as crianças, tudo estava bem — eu sabia muito bem o que alguém com raiva pode fazer, ela estava começando a me assustar também. Disse cada palavra com calma e um sorrisinho e ênfase em cada "tudo", como se quisesse gritar, mas se contivesse, porque Izzy sofreria mais assim. — Eu cheguei lá... Você ainda era simpática– um gritinho-guincho acompanhou a última palavra, como se quisesse demonstrar toda a simpatia dela. Eu queria acabar com a tortura, histórias infantis não deveriam ser assim. Mas precisava saber mais. Por que tudo estava acabando? O que acontecera?
– Mas é claro que você tinha essa obceção por Rebecca, ódio, amor, queria copiar, ou esnobar ou sei lá. Você também não iria ser minha amiga, iria? Não, não depois daquilo.
Seus olhos queimavam com um sentimento que elas duas entendiam, não Freya que também parecia sofrer com os seus motivos, não eu.
Não era da minha conta, mas era tudo meu. Ela escolhia as palavras para torturar ou humilhar e os dois e eu não suportava aquilo.
– Ela me tratou como um anjo, foi como eu a vi, por deixar tudo assim, mas um bom rosto de anjo é tudo o que ela tem e nós tivemos um dia ótimo. Nadamos e comemos. Captura da bandeira, não foi?
É mais do que claro que Isidora não respondeu, mas seu rosto reconhecia aquilo. Dizia que sim, o fizeram. Que não, não queria falar sobre aquilo. Dizia "vamos fazer outra coisa", "que tal um pouco de Bloody Mary ou Sister Jude ou de qualquer outra coisa menos assustadora?"
– 77? — percebi, de repente.
– É. 77. Muito tempo atrás.
– Quanto tempo atrás?
– Muito.
– Sério?
Certo, quando ela disse aquilo eu fiquei assustada de verdade. Que tipo de 1977 tem Harry Potter e biquínis cavados? Onde eu estava? Entretanto, eu tinha coisas importantes para cuidar. Naquele momento.
– Eu estava sozinha e foi ela que...
– Cala a boca! Morre! — eu disse. Ela riu. — Cala a boca, só sai merda daí, você não pode falar nada dela, hipócrita do caralho, você está torturando... Humilhando...
– Com quem será que eu aprendi? Ou... Que ela aprendeu? "Hipócrita do caralho."
– Nós não queremos saber o que ela fez — olhei para Freya — nós não queremos ouvir — olhei para Izzy. Nós não queremos — olhei pro meu colo, desejando não querer.
– Você quer saber. Quer saber. Quer saber. Quer saber que ela me deixou sozinha, me deixou mesmo, tipo, de propósito, estava chovendo muito, chovendo demais, estava muito tarde e eu estava com muito medo. Ela sabia que eu estava. Porque ela me acompanhou, sem que eu soubesse. Correu para todos os lados e tomou cuidado pra não me deixar respirar. Eu ouvi os sons. Eu morri de medo. Me encolhi, ela me viu encolhida, rezando, mas ela não fez nada. Me suportar agora não muda nada, Isidora. Você nunca vai ser tão torturada quanto eu fui naquele dia. Eu estava feliz e de repente o meu mundo caiu e eu tive que aceitar.
Aceitar.
– Aceitar — Izzy repetiu.
– Eu aceito o que quer que tenha preparado para mim — foi o que eu disse para Ele, mas foi você que ouviu. Parou muito tarde, Izzy. Muito tarde. O vento me jogou contra uma árvore e eu me machuquei. Eu caí na água, nas pedras. Eu caí. Doeu muito, mas eu não estava pensando como uma criança, e sim como um animal, eu queria sobreviver, você acha que dá certo, nesse mundo em decadência. Ninguém sobrevive em um mundo em decadência.
Você quis que eu crescesse e fosse feliz, você me arrastou por 6 quilômetros, grande coisa, eu me arrastei por 6 anos. Aí você cansou e parou. Um cara te ajudou, na hora, porque já estava longe da floresta e havia caras lá mas não tem um cara que suporte o peso do que você fez. Eu passei 2 anos enfiada em um hospital, e agora eu tenho que voltar. Câncer, Izzy! Você me pôs lá e agora eu vou me enfiar de Novo nisso.
– Câncer?
–
– Câncer. Terminal. Câncer. Mais que isso. Era pra você saber, mas você tem essa superamizade com todo mundo, seu namorado e namoricos
– E namoricos?! Câncer?!!
– Izzy, eu te perdoo agora, porque você pagou com a mesma moeda, direitinho, quietinha e encolhida, que nem eu fiquei. Tchau Izzy. Não tanto tchau assim, "Rebecca". Ela saiu pela porta. Eu sabia que Isidora queria ficar sozinha. Eu gostaria, depois de ouvir de um ser com câncer terminal que eu havia tirado dois anos da sua vida e que agora ele estava morrendo.
Mas eu não podia deixá-la fazer isso, ficar sozinha, fazer isso, ouvir, fazer isso. Ofereci uma mão a ela, que não a viu. Eu a levantei com cuidado e a puxei pela mão Que havia estendido antes.
Ela andava sem prestar atenção, um pé atrás do outro e mais nada. Casa da Eva. Mãe da Eva. Besteira. Não havia ninguém em casa.
Mas eu nem conhecia Eva antes de saber que não a conhecia.
Eu puxei Izzy até uma sala escura e a empurrei contra a parede da antiga casa da garota. Era um pouco horrível, mas em algum momento eu pensei que estava fazendo exatamente o que ela fizera comigo, a Isidora, que por um lado eu estava mesmo me aproveitando dela, triste pela amiga e torturada e humilhada por ela. Eu peguei sua mão e a segurei com força. Giramos pela parede.
Não imaginava essa história. Não imaginava que isso acontecesse logo depois do dia perfeito. Como Eva não imaginara que aconteceria com ela.
Afastei o pensamento e a beijei. Segurava suas duas mãos e tentava parecer o tipo de garota que poderia dizer que vai ficar tudo bem, embora naquele momento eu quisesse morrer, um pouco. Eu queria fugir com ela para o meu lugar perfeito onde coisas horríveis não acontecem depois de momentos impecáveis. Ou pecáveis, como eram com ela.
Ela estava fraca e nós nos sentamos.
– Eu não quero voltar pra casa, hoje.
– Tudo bem.
Ela entrou na banheira e eu fui à cozinha, que tinha um monte de comida perecível nojenta e comida não-perecível levemente passada, ou no limite. Decidi fazer algo com um macarrão que tinha lá. Acenei com o rosto para Freya, que passou pela porta de entrada. Ela não respondeu e eu entendi.
O macarrão sem graça ficou pronto e eu subi com o que pude roubar da cozinha levemente abandonada pela família problemática e amorosa e entrei no banheiro.
Deixei os pratos sobre o balcão de mármore da pia e olhei para ela, sem a menor ideia do que fazer. Izzy mergulhou e ficou lá por muito tempo. Depois voltou. Eu coloquei música. É o que eu costumo fazer, sempre, a não ser que isso estrague tudo mesmo. Coloquei Do You, da Carina Round.
Pela me viu ali, como que pela primeira vez desde o início do dia e me puxou para dentro. Eu mergulhei com ela e voltei. Minha roupa colava no corpo e a água no meu cabelo era estranha, mas era bom estar ali, se eu ignorasse todo, todo o resto. Se só pensasse nela e em afogar as mágoas dentro da água limpa.
Nós ficamos ali por um tempo, encolhidas na banheira, mas eu sabia que estava deixando ficar muito melancólico. Ela tinha que ficar bem. E ficar bem inclui não pensar, mergulhada em uma banheira com a sua amante, sendo que ninguém sabe que você saiu do armário, ou ela, que você foi a causadora da morte de alguém. Eu me sentia culpada. Ela me amava. Mesmo que não fosse eu, sabia que não era só ela a culpada pelo que aconteceu.
– Oi. Ei. — passei as mãos na frente de seu rosto — mais tarde eu preciso te contar uma coisa. Levei os pratos para a banheira e gesticulei, indicando que ela comesse o seu.
Nós comemos em silêncio, com metade do corpo ainda mergulhado. Quando ela terminou, eu ainda estava na metade, mas peguei os dois pratos e coloquei dentro da pia.
Entrei no box do banheiro estranho e liguei o chuveiro para aumentar a conta de água de uma família que já gastaria bastante dinheiro com os tratamentos da sua filha, minha "amiga". Eu a beijei e desta vez ela correspondeu. Tirei a minha blusa com a água caindo sempre em cima de nós e tirei a blusa dela, que parecia estar em outro universo, voltando a si às vezes, indo embora logo depois. Passei a mão pelos seus cabelos e por ela e a beijei e então a deixei em paz, saindo molhada e sem blusa pela casa gelada.
Havia um banheiro na parte de baixo da casa. Tomei um banho com os sabonetes em barra caros deles e escovei os dentes como pude.
Estava com a mente cansada. Queria saber a verdade, pelo menos o meu nome. Eu subi.
Abri a porta do banheiro, mas ela não estava lá. Abri duas outras portas. Vi a porta aberta do quarto maior. Dava para ouvir a Crying Lightning saindo do banheiro enquanto eu andava na direção dele.
Ela estava deitada na cama dos país de Eva, que era grande, embaixo de vários edredões. Sentei na ponta da cama, perto da porta que ficava em frente á ela, vestida com uma toalha que encontrara na casa. Izzy me chutou. Depois, me puxou para cima me arrastando por cima da colcha. Ela estava no meio da cama. Dobrei as pernas à sua direita e estiquei os dois braços contra a cama em cima dela. Eu beijei seu pescoço e disse o que eu era. Tudo o que eu sabia.
Eu disse:
– Eu não não sou a Rebecca.
Então ela me beijou de volta e nós rolamos até que fosse possível dormir.
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