Notas iniciais
E aqui estou, em plena terça-feira... a gente sabe muito bem que uma pessoa sensata e emocionalmente equilibrada guardaria capítulos prontos e usaria o tempo extra entre as postagens semanais pra ter uma pequena reserva de capítulos para imprevistos, mas a gente também sabe que eu tô bem longe de ser uma pessoa sensata e emocionalmente equilibrada, então... Aqui estou, vou postar capitulos assim que eles ficarem prontos e se rolar o tal imprevisto a gente que lute kkkkkkk Agora, importante, esse capitulo contem GATILHOS, pra suicídio, maternidade tóxica/abusiva e racismo, é um capitulo bem longo (o mais longo até agora) e de certa forma, cru, pode ser pesado, então leia com calma e no seu tempo, pare para beber água e ver fotos de gatos fofos se precisar. Boa leitura!

A mente de Makayla Devinne havia se tornado uma zona de guerra. Suas prioridades estavam mescladas pelas convicções intrusas de Bucky Barnes, seus pensamentos eram povoados por lembranças dele e seu sono invadido pelos pesadelos que compunham a vida do Soldado Invernal.

Não conhecia mais o significado de paz.

E, é claro, havia a própria vida e os próprios problemas, coisas que não tinham deixado de existir apenas porque ela possuía o peso de outra mente em sua cabeça...

Estava exausta, isso se refletia em sua aparência de forma evidente, não se alimentava direito e mal conseguia dormir. E ainda assim, nada disso importava realmente se comparado com o quão preocupada ela estava; faziam alguns dias desde que o escudo do Capitão América estava exposto em um museu, alguns dias que Bucky simplesmente tinha se retraído por completo. Makayla havia perdido a conta de quantas mensagens tinha mandado. Todas sem resposta.

Se não fosse Feltz colado nela o tempo todo depois da “folga” dele, com certeza a jovem teria ido até a casa de Barnes, mesmo sabendo em seu coração que tudo que ele queria naquele instante era ficar sozinho...

Não conhecia os pensamentos atuais de Bucky, mas com todas as memórias dele tão vivas dentro da própria mente Makayla tinha uma noção muito clara do que o Soldado centenário estava sentindo.

Doía. Doía em todos os seus poros.

Algo em sua mente consciente dizia que não fazia sentido aquela preocupação toda. Qual é, ela sequer conhecia o cara de verdade... Dois encontros e alguns flertes, nada mais, não era racional que se importasse tanto a ponto de não conseguir viver a própria vida. Porém, esses pensamentos conscientes pouco importavam, assim como não fazia a menor diferença que conhecesse Bucky Barnes apenas através de memorias roubadas.

Podia ser irreal e irracional, mas era verdadeiro para Makayla...

Havia um sentimento crescente e intenso, que vinha de lugares que nem a ciência poderia explicar naquele momento, mas estava lá, Bucky não tinha invadido apenas sua mente, de alguma forma ele havia entrado em seu coração, como ninguém tinha feito antes.

Makayla não sabia se havia um nome para o que sentia, naqueles últimos dias devido a tudo que tinha acontecido no parque, ela chegou a cogitar estar apaixonada por ele, e isso poderia fazer sentido em vários níveis; na atração, no desejo por toque, no anseio por um beijo... Porém ela já havia se apaixonado antes e não era daquela forma, não tão intenso e arrebatador, não forte o bastante para que ela abrisse mão de sua autopreservação.

Teria contado a verdade para Bucky aquele dia no parque, apenas porque não podia tocá-lo outra vez sem que ele soubesse. Não queria que se beijassem apoiados em uma mentira. Não era certo...

Não o impediu apenas porque ler mentes podia ser doloroso e confuso, não o impediu por ela, foi por ele. Por Bucky. Para que ele tivesse escolha, mesmo que essa oportunidade houvesse sido roubada inicialmente. Da primeira vez fora um acidente, mas não haveria uma desculpa para a segunda.

Então, sim, podia dizer que havia paixão no meio de seus sentimentos confusos, mas não era apenas isso, Makayla sabia do fundo de seu coração que não era. Era inexplicável, intenso e irracional e ela apenas aceitou isso.

Alguém dissera na tv uma vez que: “não é um crime amar o que não pode ser explicado”, e Makayla encontrou certo conforto nisso...

Deixou que os dias passassem, mesmo que isso lhe torturasse, imaginou que veria Bucky novamente na recepção da terapia, mas ele não estava lá. Makayla estava sentada na frente de Brooks, depois de explicar o básico sobre seus poderes, falar de seu pai e seu irmão, ainda assim, tudo que ela conseguia pensar era que Bucky não estava lá.

Será que ele estava bem?

Se tivesse contado a verdade antes daquela notícia, talvez pudesse simplesmente ser direta por telefone, e dizer com todas as palavras que sabia o que ele estava passando, no entanto ainda eram amigos baseado em mentiras, e despejar toda a verdade nos ombros de Bucky por telefone não parecia correto.

Quer dizer, contar a verdade era o correto?

E se Bucky jamais aceitasse aquilo?

Makayla teve que adicionar “medo” à sua lista de sentimentos conflitantes. Tudo estava de ponta cabeça, desabando lentamente, rumo a uma tragédia eminente e, ainda assim, Bucky Barnes era sua única preocupação.

— Makayla...? — A voz do doutor Brooks lhe tirou de sua introspecção.

Ainda estavam no meio da terapia, ela tinha acabado de falar sobre os fragmentos de memória que captava quando tocava em alguém, escondendo é claro tudo que tinha acontecido quando tocou em Bucky. Ninguém precisava saber de seu envolvimento com James Buchanan Barnes.

— Me desculpa, o que você perguntou mesmo? — Piscou algumas vezes, tentando prestar atenção no presente.

— No que está pensando? — O terapeuta perguntou interessado e Makayla decidiu que podia usufruir de um conselho imparcial sem citar nomes.

— Se você lesse a mente de alguém, você contaria pra essa pessoa que tem todas as lembranças e convicções dela dentro da sua cabeça?

— Achei que só captasse fragmentos de pensamentos... — Jackson Brooks se moveu um pouco em sua poltrona, estreitando os olhos em desconfiança.

— É uma situação hipotética. Você contaria? — Makayla respondeu apenas, sem se importar se ele acreditaria ou não.

A única prioridade era proteger a identidade de Bucky.

— A verdade é sempre a melhor escolha. Em todas as ocasiões. — O terapeuta declarou convicto.

Automaticamente Makayla conseguiu fazer uma lista com todas as vezes em que a mentira confortável fora uma escolha melhor que a verdade cruel...

Uma vez, alguém tinha dito a ela que a mentira era um vício, e que cedo ou tarde isso a consumiria por dentro. Porém Makayla não simpatizava tanto com essa pessoa, por isso resolveu desconsiderar o conselho não requisitado. Mas talvez ele estivesse certo.

Respirou fundo, seus pensamentos mergulhando outra vez no escuro e gélido poço que era a mente de Barnes, a preocupação batia em seu peito de forma dolorosa. Tudo que desejava era que a situação toda com o escudo não fizesse Bucky ter ainda mais certeza de seus objetivos.

Encarou seu terapeuta por alguns segundos. Talvez ele pudesse ajudar, era um profissional afinal.

— Acha que quando alguém decidiu morrer, tem algo que realmente possa fazer essa pessoa mudar de ideia? — Perguntou, sem pensar muito nas implicações.

Jackson se moveu na cadeira de modo desconfortável e preocupado. Merda. Makayla devia ter lembrado que falar de suicídio para um terapeuta causaria uma certa comoção.

No entanto, não havia nenhuma outra pessoa que pudesse lhe clarear a mente naquele sentido.

— Elabore. — Brooks pediu, com uma voz controladamente calma.

— Tem uma pessoa que eu conheço... — Makayla começou, tentando escolher suas palavras com cuidado.

— Sempre tem uma pessoa conhecida nesse tipo de situação. — O doutor rebateu.

Ah, claro, ele pensava que era um problema pessoal, porque em um consultório de psicologia devia mesmo ser bem mais fácil falar daquele tipo de coisa como se fosse a história de outra pessoa.

No entanto, daquela vez era mesmo a história de outra pessoa.

— Não. É sério. — Makayla disse simples, mas não se importou se Brooks acreditaria ou não, ele só tinha que responder. — Essa pessoa tem uma lista, e o objetivo é riscar todos os itens dessa lista pra encontrar paz. E nessa metáfora “paz” significa morte.

Ela soltou um suspiro pesado, recordar dessa convicção tão clara na mente de Bucky lhe causava arrepios ruins.

— Eu só quero saber como ajudar... — Não se lembrava de já ter dito outra coisa tão absolutamente honesta na vida.

— Por que não me fala mais dessa pessoa? É um homem, uma mulher? — Jackson questionou, estava claro que ele queria descobrir se Makayla era o centro daquele assunto.

— Uma pessoa é uma pessoa, independente do gênero. — A jovem se limitou a responder.

Os olhos escuros do psicólogo se estreitaram de forma analítica, ele apoiou o queixo nos dedos e piscou devagar.

— Não é você... — Adivinhou de forma certeira.

— Eu nunca disse que era. — Makayla encolheu os ombros.

Jackson se calou por alguns segundos, sua cabeça se movendo sutilmente para cima e para baixo como se fizesse uma conta mental.

— Essa pessoa que você conhece precisa de acompanhamento profissional. — Disse por fim, muito seguro de si.

— Essa pessoa tem esse acompanhamento, mas eu não sei se vai ser o bastante. — Makayla respondeu.

Sabia que a doutora Raynor estava ajudando em algumas coisas, mas conseguia ver na mente de Bucky que ele nunca falaria tudo para sua terapeuta.

Brooks a encarou por alguns segundos, provavelmente pensando se aquele era mesmo um assunto que eles deviam trazer para uma sessão. No fim ele respirou fundo, e começou com toda a calma que lhe era inerente:

— Veja bem, segundo o que você falou, essa pessoa está em busca de paz, o que significa que ela sente que está em uma situação de guerra, de caos, de desespero. — Ele fez uma pausa e Makayla percebeu que era exatamente isso que acontecia na cabeça de Barnes. Era uma zona de guerra. — Geralmente impulsos suicidas vem de distúrbios emocionais, psicológicos ou até neurológicos, eles não são o natural do nosso cérebro, o ser humano não nasceu com o desejo de morrer. Na maior parte das vezes a morte é apenas a única saída que a pessoa está vendo. Então o subconsciente começa a criar motivos para permanecer vivo, dos mais bobos aos mais convincentes; primeiro vem os óbvios, esperança e amor, familiares, amigos, coisas boas que ainda se pode fazer, mas algumas vezes mesmo esses motivos são falhos, então nosso subconsciente cria outras técnicas; tarefas, débitos, culpas, compensações.

Makayla tentou acompanhar a linha de raciocínio e de repente se viu representada ali. Todas as vezes que havia pensado em morte no decorrer da vida, era sempre por desejo de parar com a dor...

— O que eu estou dizendo é que, talvez, essa lista seja apenas uma forma de se apegar a vida. Bom ou mau, um motivo para continuar vivo ainda é um motivo para continuar vivo. Se existe uma lista de afazeres, se essa pessoa ainda está respirando, ainda existe esperança. — Jackson completou e Makayla quase respirou aliviada.

— Então a decisão não importa? — Ela questionou.

— Claro que importa, é indicio de um caso grave, todos os suicidas dão sinais, dos mais sutis aos mais claros, e é a partir desses sinais que se deve procurar ajuda. Mas o que eu estou dizendo é que: as pessoas querem viver, Makayla, mas elas não querem viver sofrendo. Entende? — Ele respondeu e a jovem assentiu em um movimento lento.

Makayla entendia exatamente.

— Então como acabar com o sofrimento? — Parecia a pergunta pertinente a ser feita naquele momento.

— Não tem uma receita de bolo, Makayla. Não é assim que funciona. Pensamentos suicidas frequentemente estão vinculados a traumas severos. Compare esses pacientes com alguém que perdeu as pernas, o ferimento é real, talvez existam coisas que essa pessoa nunca mais vai fazer por causa disso, mas existe um jeito de superar, existe um jeito de aprender a ter uma vida funcional de novo. A cura é um processo longo, não é fácil, não é simples, mas é possível. E todas as pessoas ao redor importam e podem ajudar. A rede de apoio é parte crucial no processo de cura.

O peito de Makayla subiu e desceu em uma respiração pesada, havia uma ponta de esperança ali, mas era difícil se agarrar a isso para levar a outra pessoa, quando ela própria estava na completa escuridão.

— O problema é que eu não sei como ajudar alguém a ver o sentido da vida, se eu mesma não vejo esse sentido. — Confidenciou, talvez não devesse, não ali na frente de um terapeuta, mas foi inevitável.

Talvez Jackson Brooks era quem devia ter lido a mente de Bucky, ele parecia saber exatamente como ajudar, Makayla no entanto estava perdida, se importava, é verdade, mas como ajudar alguém a vencer uma batalha que ela já sentia que havia perdido?

Não era para ter se envolvido tanto naquele assunto, mas foi impossível, porque embora não tivesse uma lista, embora não tivesse dito a si mesma que a morte era a única alternativa, Makayla também não acreditava mais na vida como uma jovem de vinte anos deveria.

Morrer não parecia tão ruim, e esse, ela sabia muito bem, não era um pensamento saudável.

Makayla e Bucky eram, no fim das contas, mais parecidos do que qualquer um poderia prever.

— Você acha que as abelhas pensam no sentido da vida quando estão levando o pólen de uma flor a outra? Elas não pensam. Mas se as abelhas deixarem de existir todo o ecossistema desmorona. — Jackson declarou em um com reconfortante. — Você acha que é menos importante que uma simples abelha?

A lógica básica impedia Makayla de negar, porque afinal era um ser humano, a própria escala evolucionária ditava sua importância no mundo, não podia refutar isso.

— O sentido da vida é viver, pelo simples fato que, ao estar viva, você muda o mundo. Uma pequena coisa como levar pólen de uma flor a outra muda o mundo, você acha realmente que um sorriso para o seu vizinho não muda? Uma palavra de conforto para o seu amigo? Um abraço para alguém que precisa? Uma boa ação para um estranho? — Brooks prosseguiu em seus argumentos tão claros e indiscutíveis. — O sentido da vida não é fazer algo grandioso com ela, grandiosidade é uma perspectiva. Levar pólen de uma flor a outra não parece grandioso, tire isso da equação e vemos o desastre e a importância que realmente tinha. Todo ser humano é importante, mesmo que ele não veja isso, mesmo que ninguém acredite ao olhar pra ele. Sabe quanto tempo demoraram pra ver a importância das abelhas?

Makayla permaneceu calada, refletindo sobre o significado daquelas palavras e sobre o impacto que tinham em si mesma. Talvez não fosse mais sobre Barnes, era sobre ela...

— Existe alguma pequena coisa nesse mundo que apenas você pode fazer, não importa que você não saiba disso agora, não importa que ninguém mais no mundo veja isso, existe. Pode parecer uma coisa insignificante pra você, mas alguém em algum lugar vai olhar pra essa coisa e dizer “uau, olha esse pequeno ser vivo fazendo essa pequena coisinha. Se isso não fosse feito tudo estaria desmoronando”. Apenas viva a sua vida, como as abelhas vivem as dela. Isso vai ser o bastante. — Jackson lhe ofereceu um sorriso reconfortante. — Continue voando de uma flor para a outra, Makayla, é simples assim.

— É, mas eu não sou uma abelha. — A jovem rebateu com um encolher de ombros.

— Não, você não é, você é um ser humano, isso quer dizer que, diferente das abelhas, você pode escolher o que você quer fazer. — O terapeuta apontou e de alguma forma isso grudou na mente de Makayla.

Aquela luz de esperança não parecia mais tão longínqua assim...

— Você é bom, Doc. — Ela sorriu de canto, como se fosse uma piada. — Acho que meu amigo devia se consultar com você.

— Então é um ele? — Jackson apontou perspicaz.

Ele era bom naquilo, em ler nas entrelinhas, por algum motivo as mentiras de Makayla sempre pareciam água cristalina em frente aos olhos do terapeuta.

— Você leu a mente dele? — Adivinhou certeiramente, fazendo com que a jovem cruzasse seus braços de imediato.

— Eu não disse isso... — Ela retrucou ao desviar os olhos.

— Você parece conhecer esse rapaz muito bem, mesmo dizendo que suas habilidades te deixam ver apenas fragmentos do pensamento de outras pessoas... — Jackson ponderou em um tom interessado.

Talvez dizer algumas verdades não fosse tão ruim assim...

— Foi diferente com ele. — Makayla revelou, ainda protegendo a identidade de Barnes.

— Diferente como? — Brooks questionou de forma simples.

— Muito mais intenso. — Ela tentou explicar, mesmo que não houvessem palavras corretas pra isso. — Acho que estava certo sobre a teoria dos remédios, devem ter ampliado a potência dessas habilidades. — Parou por um instante e respirou bem fundo. Estava exausta de verdade. — Só queria que também existisse algum remédio que fizesse isso tudo sumir.

O doutor Jackson Brooks estreitou seus olhos escuros em surpresa.

— Você abriria mão das suas habilidades se pudesse? — Perguntou, e apenas pelo tom de voz dava para entender que ele não apoiava essa hipótese.

— Com certeza, sem pensar. — Makayla declarou de imediato.

Lembrou de todas as vezes que quis tocar, abraçar ou beijar Bucky Barnes naquele simples passeio no parque, se não tivesse aquelas malditas habilidades poderia ter feito isso.

Mas é claro que também haviam outros motivos. Doía, era errado, perturbava sua mente, até mesmo andar de metrô era preocupante. Makayla ficava em estado constante de alerta e medo, não queria tocar em ninguém por acidente.

Se fosse colocar todas as razões em um papel, isso seria maior que a lista de nomes que Barnes tinha naquele caderninho.

— Por que abrir mão de algo que te faz especial? — Brooks questionou e era possível reconhecer a crítica implícita ali.

— Especial? — Makayla riu de forma sarcástica. — Minha mãe me odiaria, eu não posso me aproximar de ninguém, lugares lotados me trazem pânico, luvas o tempo todo, nada de contato humano, eu não posso sequer dar um beijo na boca, ou um abraço em um amigo. Não tem absolutamente nada de especial nisso, Doc. É só outra faceta estúpida dessa maldição que me cerca.

— Tudo na vida tem prós e contras, Makayla. — Ele rebateu em sua calma costumeira e a jovem revirou os olhos e negou algumas vezes.

— Não vejo nenhum pró em ser uma invasora de mentes, me livraria disso nesse segundo se eu pudesse.

— Mas nada garante que se “livrar disso” não traria ainda mais contras. — Jackson argumentou em um tom sensato. — Você não pode abrir mão de parte de si mesma sem consequências, tudo tem um preço.

— Eu pagaria de bom grado. — Makayla declarou firme.

O terapeuta respirou fundo, talvez buscando por calma, ou quem sabe inspiração divina.

— Olha, Makayla, se todos nós abríssemos mão daquilo que nos faz diferentes, o mundo seria um lugar sem graça.

— Se não houvessem diferenças o mundo seria um lugar mais justo. — Ela retrucou com a mesma convicção de antes.

Jackson Brooks discordava, isso ficou claro em sua expressão e no modo como seus lábios se moveram no esboço de uma palavra, porém, antes que o terapeuta formasse qualquer argumento, Makayla interroupeu, olhando o relógio preso na parece acima dele.

— Acho que deu nossa hora, Doc. — Ela se colocou de pé no mesmo instante. Era muita conversa sobre si mesma em um dia só. — Tenho que ir. Não esquece de atualizar minhas loucuras pra minha digníssima mãe.

Sabia que alguns e-mails já haviam sido trocados entre os dois, pois o próprio doutor dissera isso ainda no começo da sessão, ele já havia rebatido toda a teoria de habilidades e estabelecido o quatro da jovem como um caso de stress-pós-traumático e depressão causados pelo estalo e pelo luto. Era convincente, principalmente quando dito através de termos médicos dentro de um texto absolutamente profissional.

Além disso, depois das estratégias épicas de Makayla dias antes, as coisas tinham ficado consideravelmente fáceis, Feltz havia comprado a mentira da clínica de estética e até sua mãe mandara uma mensagem amigável depois disso.

A jovem tinha até mesmo recebido um convite para ir até Washington naquela tarde, Emma dissera que tinha uma surpresa muito interessante em planejamento e queria que a filha participasse disso...

Não fosse pelo silêncio completo de Bucky Barnes a jovem até se convenceria que as coisas estavam caminhando muito bem. No entanto, sua preocupação com aquele novo desconhecido, que ela já conhecia bem demais, faziam com que qualquer outra coisa boa parecesse um tanto desbotada.

Assim que voltasse de viagem daria um jeito de se livrar de Feltz para ir ao apartamento de Bucky. Estava decidido.

— Makayla? — Já estava com um pé pra fora do consultório quando o terapeuta chamou seu nome e ela o encarou por sobre o ombro. — Devia tentar dizer a verdade. A capacidade de aceitação das pessoas pode te surpreender e talvez te inspirar a se aceitar também.

Ela assentiu, guardou esse conselho, e no fundo desejou que Jackson estivesse certo. Talvez contar a verdade para Barnes fosse mesmo a melhor escolha... Guardou isso em mente e seguiu para seus afazeres do dia.

A viagem até Washington foi tranquila, mesmo considerando a companhia nada agradável de Feltz, que estava um pouco menos insuportável naquele dia. Antes de pegar o avião ela tinha passado em uma joalheria de Manhattan, há uns dois dias havia deixado a ear cuff de gato com a qual Bucky lhe presenteara ali, para que a peça fosse banhada em prata, assim duraria anos e anos.

Makayla realmente cuidava dos presentes que gostava. E, tanto Alpine quanto o brinco, eram sem dúvida alguma o seu presente preferido em muito, muito tempo.

Estava com a peça na orelha quando desembarcou na capital dos Estados Unidos, provavelmente sequer a tiraria mais.

Logo estava entrando no grande complexo do CRG — o Conselho de Repatriação Global — eles tinham vários e vários postos espalhados pelo globo, mas uma de suas bases, a mais importante, era ali no estado de Washington, perto o bastante do congresso e de todos os políticos americanos que habitavam aquela cidade.

Emma Kennedy podia não ser mais uma Senadora, mas com certeza ainda trabalhava diretamente com todos os figurões engravatados que se reuniam esporadicamente na Casa Branca.

Feltz ficou para trás em algum lugar, enquanto Makayla seguia diretamente para o escritório da mãe. Todo o prédio estava muito mais movimentado do que ela esperava, pessoas iam e vinham em passos rápidos em cada corredor, telefones tocavam por toda parte e o burburinho incessante se espalhava pelo ambiente.

Makayla parou na frente da grande porta metálica no fim do corredor e se preparou para bater, encarando o próprio reflexo na superfície levemente reflexiva, estava com olheiras que mesmo a maquiagem não era capaz de disfarçar, e suas roupas em nada tinham a ver com o padrão social que todos naquele lugar trajavam, mas o estilo casual disfarçava um pouco mais as luvas que ela usava. E, de toda forma, Emma nunca aprovava suas roupas mesmo, então não fazia a menor diferença.

Antes que seu punho atingisse o metal, a porta se abriu automaticamente, e um rapaz de terno saiu apressado como se estivesse atrasado para alguma coisa. Makayla o viu se afastar enquanto dava um passo para dentro do ambiente amplamente iluminado por luz natural, graças as grandes janelas de vidro que ocupavam uma parede inteira.

Tudo ali seguia um padrão de alto nível em estilo minimalista moderno, desde os sofás de couro claro ao tom patronizado dos móveis, que combinava com o piso polido, não havia nada fora do lugar, nada que quebrasse a harmonia límpida e organizada que cercava Emma Kennedy.

Ela estava atrás de sua enorme mesa sentada em uma cadeira visivelmente confortável, enquanto duas assistentes lhe cercavam, as mulheres trajavam preto, como quase todas as outras pessoas no prédio, mas Emma usava cinza, um vestido em corte clássico que ornava com o tom de seus cabelos grisalhos perfeitamente lisos.

Makayla sorriu, quis esquecer os últimos dias e correr até a mãe para abraçá-la, tal qual faria uma garotinha carente de afeto, porém, mesmo antes de ter habilidades que lhe impediriam, ela sabia que não era aconselhável. Emma não era dada a demonstrações públicas e físicas de carinho, e tudo bem, era apenas o jeito dela.

— Ah, querida! — A mulher sorriu ao ver Makayla ali parada, e mesmo que tenha observado a jovem com um olhar crítico, não disse qualquer palavra sobre seu estilo de vestimenta. — Que bom que está aqui.

— Pelo visto está todo mundo aqui... — Respondeu, porque já estivera naquele prédio ao menos duas vezes naqueles últimos seis meses e o local nunca parecera tão movimentado.

As assistentes fizeram uma mesura educada para a filha de sua chefe, mas não disseram nenhuma palavra, pareciam estar muito ocupadas em seus próprios assuntos naqueles tablets ultramodernos.

— Algo grande vai acontecer em três dias, estamos nos preparando. Achei que gostaria de estar aqui. — Emma declarou e parecia realmente empolgada pelo que viria. — Vai ser um momento histórico.

Não era exatamente uma novidade ver aquela mulher animada com assuntos próprios de seu trabalho, Makayla ainda se lembrava a grande comemoração quando o Acordo de Sokovia passou pelas votações no congresso. Emma Kennedy amava quando seus planos davam certo, talvez gostasse até demais.

No entanto, era a primeira vez que Makayla presenciaria aquela felicidade sem a contra parte crítica de Danniel Devinne do outro lado da balança, as vitorias do governo quase nunca eram comemoradas por ele, porque sempre havia o outro lado, ele sempre enxergava e advogava em prol das pessoas que sofreriam com aquelas leis, acordos e projetos.

Mas seu pai não estava ali daquela vez e Makayla sentiu um vazio estranho no peito, mesmo que tenha dito algo educado para reconhecer o esforço da mãe.

Seja o que fosse Emma parecia muito orgulhosa.

Makayla pouco se importava com os planos do governo, não era a favor nem contra, tinha sido assim durante toda a vida e naquele instante estava ainda mais claro em sua mente que haviam outras prioridades, ficar três dias ali era péssimo, queria falar com Bucky logo.

Podia ter perguntado sobre o novo projeto da mãe, talvez até devesse porque era de bom tom, mas sua mente se perdeu em planos de como voltar para casa logo e, de toda forma, Emma parecia muito ocupada com seus assuntos.

Ela acabaria falando cedo ou tarde, ela sempre falava, amava contar vantagens sobre seus projetos.

Makayla deixou que a mãe trabalhasse, respondendo uma ou outra pergunta sem importância sobre sua rotina, enquanto andava pelo amplo escritório focando na parede em que diplomas, prêmios e algumas fotos ficavam expostas. Havia uma imagem de John F. Kennedy ali, nada estranho, afinal, além de ex-presidente e ídolo da dona da sala, ele também era parte da família, tio-avô, mesmo que Emma nunca o tivesse conhecido, pois havia sido assassinado por volta de uma década antes que ela nascesse.

Emma era apena outra Kennedy muito bem sucedida na política.

Enquanto continuava a observar a mesma parede, Makayla notou que não haviam fotos suas ou de Danniel ali, embora houvesse uma de Cam, em um bonito porta-retrato dourado. Estava prestes a tocar a imagem quando a porta se abriu e o mesmo rapaz de antes entrou esbaforido.

— O Capitão Walker já desembarcou em Washington. Ele está muito honrado em voltar imediatamente para atender seu convite. — Disse de uma vez só, quase como se tivesse ensaiado as palavras por todo o caminho.

Não era novidade que Emma Kennedy intimidava as pessoas, ainda mais depois do que havia construído nos cinco anos de blip.

Makayla se virou para ouvir a conversa, parcialmente interessada pela menção de um sobrenome conhecido.

— Ótimo, e quando o Senador vai estar aqui? — A mulher sequer ergueu os olhos enquanto falava, absolutamente focada no que estava digitando freneticamente.

— Ele também já está na cidade, diretora Kennedy. Está tudo nos conformes para a coletiva de imprensa. — O rapaz informou, Makayla ficou com dó, ele parecia tremer.

— Perfeito. Estamos trabalhando nisso há meses, o mínimo que espero é excelência. — Emma ergueu a cabeça, o rapaz encarou os pés.

Makayla praticamente pode vê-lo respirar de alivio quando foi dispensado, ofereceu um sorriso compassivo a ele, mas o coitado estava assustado demais para retribuir.

A jovem não chegou a estranhar toda aquela conversa, o Conselho de Repatriação lidava com muitos assuntos afinal. Tinha sido fundado durante o blip por Emma Kennedy, quando os governos caíram precisava haver alguma ordem e a então Senadora viu uma oportunidade de ajudar as pessoas. Depois do blip a organização lidava com os centros de refugiados e reapropriação de bens para os blipados, além de muitas outras questões pertinentes a segurança e apoio global. Makayla nunca havia se preocupado realmente em saber tudo que o lugar fazia, um pouco porque política não era um de seus interesses e muito porque estava afundando em luto por causa do pai, e em problemas, por causa daquelas malditas habilidades.

A jovem apenas entendia que o CRG que era uma das organizações mais importantes do mundo naquele momento, e que a influência de Emma como fundadora e diretora do lugar era muito maior do que qualquer posto de Senadora.

Mas, mesmo em sua falta de interesse, Makayla sabia que vários pontos daquele lugar seriam altamente questionados por Danniel Devinne, o primeiro deles era: sendo uma organização global de repatriação, era um conflito de interesses que existisse tanta verba dos Estados Unidos ali dentro, além disso, havia um pequeno aparato militar nas mãos do CRG. Se a intenção era proteger, realocar e ajudar as pessoas, por que uma força armada? A ONU não possuía nada assim, por exemplo...

Todavia, isso era o que Danniel diria, e ele não estava ali, então Makayla não via necessidade alguma de criar um caso com o trabalho da mãe. E sequer adiantaria, Emma nunca lhe ouvia... Das raras vezes que ela ouvia Danniel era apenas porque ele tinha muito apoio popular.

Porém nada disso importava mais. Danniel Devinne estava morto e Makayla não tinha força nem cabeça para se importar com o mundo todo.

Naquele momento ela só se importava com Bucky Barnes.

E, se quisesse voltar para casa antes daqueles três dias, tinha que entender exatamente a situação pra bolar a desculpa perfeita.

— Mãe? O que está acontecendo? — Perguntou finalmente, vendo Emma ergueu o rosto com um sorriso animado.

— Você vai amar, acredite! — A mulher respondeu, sem dar nenhuma outra informação relevante.

Tentou não se irritar, Emma claramente queria fazer suspense, mas Makayla não estava no clima para surpresas.

Porém, talvez estivesse sendo injusta, sequer conhecia Bucky de verdade, não era como se pudesse mudar a vida dele ou nada assim, talvez só estivesse se deixando levar pela intensidade que sua habilidade havia criado entre eles, no fim do dia ele era só um cara, era irracional estar mais preocupada com ele do que com reconstruir os vínculos com sua própria mãe...

Emma merecia algum crédito, de uma forma ou de outra ela estava ajudando o mundo, isso era importante.

— O que o John tem a ver com isso? — Questionou, tentando se interessar de verdade pelo projeto do CRG, seja ele qual fosse.

— Oh, você lembra dele... — Emma comentou levemente surpresa.

Makayla lembrava muito bem de John Walker e de seus conselhos não requisitados, mas já que sua mãe desconhecia aquele fato, ela preferiu não entrar em detalhes.

— Ele é amigo do Lemar, então... — Encolheu os ombros casualmente.

— Ele era amigo do seu irmão também. — A resposta veio pronta, quase como se fosse um ultraje a jovem ter se lembrado primeiro de Lemar do que do próprio irmão.

— Não exatamente... — Makayla rebateu quase pra si mesma, deixando que a conversa morresse ali.

Cameron, Lemar e John haviam crescido juntos na Georgia, Makayla acompanhara isso de perto, haviam se conhecido na escola, porém Cam e John tinham suas diferenças claras, alguns olhos roxos trocados e uma porção de reclamações mutuas. Aos olhos de Cameron, John Walker era egocêntrico, arrogante e metido a herói, o irmão de Makayla nunca escondeu isso. No entanto havia algo que mantinha os dois unidos, uma cola divertida e diplomática chamada Lemar Hoskins, ele mantinha o trio em paz, era o equilibro perfeito entre John e Cameron.

Se alistaram juntos no exército, e dali as coisas mudaram muito, Cam fazia criticas ainda mais duras a John, porque o instinto violento crescente em Walker não condizia com a forma como o irmão de Makayla queria agir na guerra e na vida.

As diferenças dos dois não eram exatamente inconciliáveis, porque afinal Lemar estava sempre lá pra apaziguar e equilibrar tudo. John era o melhor amigo de Lemar, essa era uma verdade mais acertada. Cameron e John eram apenas amigos de ocasião.

Mas é claro que para Emma, tirar Lemar Hoskins da equação sempre seria melhor...

Makayla se perdeu em lembranças antigas, a última vez que vira John Walker fora no aniversário de 18 anos, estava metida em problemas e ligou para Lemar, ele trouxe o melhor amigo a tira colo. O problema foi resolvido com socos e Walker achou mesmo que podia terminar aquela noite com uma lição de moral, isso só fez com que ele ganhasse a antipatia gratuita da jovem.

Ele não era um homem terrível, era só, como o próprio Cameron diria, egocêntrico e exibido demais...

No entanto era um bom soldado, pelo menos eram o que suas medalhas diriam, talvez Emma o quisesse na pequena força armada do CRG, não era um evento tão grande assim, mas fazia sentido. E Makayla continuava a não dar a mínima.

Tinha se sentado em um dos sofás de couro claro, enquanto sua mãe havia atendido um telefonema e parecia exaltada:

— De jeito nenhum! Essas pessoas usufruíram de todos os recursos do planeta por cinco anos, as que voltaram agora com suas casas tomadas por estranhos tem prioridade.

Parecia um jeito um tanto radical de lidar com as coisas... porém Makayla deixou esse pensamento de lado, aproveitando aquela oportunidade para dar uma olhada discreta em seu celular secreto, aquele que tinha apenas o número de Bucky nos contatos.

Ele não havia respondido nenhuma de suas mensagens...

Precisava voltar para Nova York logo e falar com ele, saber se estava bem. Entendia que ver o escudo de Steve Rogers devia estar pesando demais, Makayla conseguia visualizar o quanto aquilo havia afetado Bucky, no entanto, pelo menos o escudo estava seguro e o legado preservado, cedo ou tarde Barnes teria que reconhecer isso.

Embora não conhecesse Sam Wilson para além das informações na mídia ou das lembranças intrusas em sua mente, Makayla podia imaginar porque o homem não havia assumido o manto de Capitão América, não era cega para as lutas raciais do país em que vivia, aquele tipo de decisão era muito importante. O Falcão devia ter feito apenas o que achou melhore certo.

Sabia, no entanto, com aquela sua certeza epifânica, que Barnes não veria isso de cara, não eram conceitos que o cérebro de um homem branco, moldado nos anos 40, seria capaz de entender. Talvez mesmo Steve Rogers não entendesse o real peso de colocar aquele escudo nas mãos de Sam.

No entanto, Bucky não era insensível, os preconceitos de sua época retrograda não haviam sobrevivido dentro dele, principalmente pela diversidade de aliados e amigos que a guerra trouxera antes da Hydra lhe levar tudo, então, mesmo que Makayla não tivesse acesso aos pensamentos dele naquele instante, ela já o conhecia bem o suficiente para saber que cedo ou tarde ele entenderia o dilema de Sam e aceitaria que ter o escudo seguro em um museu não era tão ruim assim... não era o ideal, não era o desejo de Steve, mas era um meio termo aceitável.

Além disso, Sam podia digerir a ideia melhor com o tempo e voltar atrás. Não era como se fosse aparecer outro Capitão América do nada, certo? Makayla riu desse pensamento bobo, enquanto via dois homens de roupas táticas entrarem na sala carregando uma maleta de ferro.

— O pacote chegou, Diretora Kennedy. — Um deles falou formal, colocando a maleta sobre a mesa.

Seja lá o que tinha ali dentro, era importante.

Emma agradeceu aos homens e os dispensou, fazendo o mesmo com as duas assistentes.

— Já era hora. — Ela passou a mão sobre a maleta, assim que todos deixaram a sala. — Você vai adorar ver isso, Kayla.

Acenou com a mão para que a menina se aproximasse. Makayla se levantou e caminhou até a mesa da mãe, enquanto a pasta era aberta. A jovem viu a listra vermelha primeiro, para então dar mais três passos e ter visão total do objeto metálico e circular dentro da maleta. Vermelho branco e azul, com uma grande estrela no centro.

O estômago de Makayla congelou dentro de seu corpo de modo enjoativo.

— O que o Escudo do Capitão América está fazendo aqui? — Ela perguntou, temendo a resposta que obteria.

Nunca tinha visto o objeto tão de perto, mas notou logo que sua mente o conhecia das memórias de outra pessoa, ela podia até mesmo imaginar a textura do metal e o peso que tinha. Era como se tivesse uma conexão com o escudo, como se houvesse um valor sentimental naquela peça. Mas aquilo tudo era Bucky, não ela.

— Eu tenho falado com o Presidente e os Senadores diretamente nesses últimos meses, o Estados Unidos precisa de um herói de verdade para representar o país, alguém que realmente tenha comprometimento com nossos princípios. E é claro que o CRG vai apoiar isso direta e financeiramente. Vai ser uma aliança muito benéfica. — Emma explicou, e Makayla teve que se esforçar para entender as palavras, porque seus ouvidos zuniam e sua cabeça começou a doer quando todas as lembranças de Bucky invadiram seus pensamentos. — Símbolos são importantes para as pessoas.

“Você escolheu um escudo redondo pra te lembrar das tampas de latas de lixo que te protegiam nos becos Stevie?” A voz jovial e divertida do Sargento Barnes lhe veio perfeitamente a mente. Ele estava sentado em uma cama de campana, em um acampamento de guerra, enquanto Steve Rogers tirava o traje de Capitão América. Foi a primeira vez que Bucky viu os músculos recém desenvolvidos do melhor amigo, houve um breve momento de pânico em que os dedos de Barnes apertaram o escudo, ele amava Steve há tempos, mas o desejo foi algo inédito naquele dia. E o escudo estava lá...

Na mente de Bucky aquele escudo era uma parte de Steve, a única que havia restado.

Makayla tentou focar no presente e afastar a avalanche de pensamentos intrusos.

— Do que você está falando, mãe? — Perguntou, sabendo que não havia um motivo plausível para que a peça fosse tirada da segurança do museu.

Apesar de ser um escudo, aquilo era uma arma valiosa.

— Em três dias o Capitão América vai ser apresentado para o público, bem aqui em Washington. — Emma declarou orgulhosa. — E você vai testemunhar a história sendo feita junto comigo.

Makayla sorriu, aliviada e feliz, quase emocionada talvez.

— Sam voltou atrás? — Presumiu, imaginando o quão orgulhoso Bucky ficaria em ver isso.

Traria um pouco da paz que ele precisava.

— Que Sam? — Emma franziu as sobrancelhas, como se tivesse acabado de ouvir uma bobagem.

— Wilson... — Makayla completou de forma óbvia e ao ver que as feições da mãe não haviam mudado, usou o título pelo qual ele era conhecido. — O Falcão.

— Pelo amor de deus, claro que não! — A diretora do CRG riu, movendo a mão no ar de forma displicente. — É ridículo o escudo ficar com aquele homem.

— Por que? Era o que Steve queria, ele melhor que ninguém saberia exatamente a pessoa certa para assumir seu manto. — Algo dentro de Makayla se rebelou em violência e fúria.

Ela nunca tinha falado com a própria mãe naquele tom.

— Quem disse isso pra você? — Emma desconsiderou afronta da filha e se preocupou muito mais com a informação.

Makayla soube que estava passando dos limites, haviam coisas que ela não podia saber, fazer ou dizer, tratar os Vingadores por seus nomes pessoais era uma dessas coisas.

— Internet. — Encolheu os ombros como se fosse a coisa mais óbvia de novo. Mentira é claro.

— A internet não é uma fonte confiável de informação. — Emma desconsiderou, em seu tom certeiro. — Esse escudo pertence ao governo. O senhor Wilson levou seis meses pra finalmente fazer a coisa certa.

— Esse escudo foi feito por Howard Stark, com um metal raro vindo de Wakanda, e dado para Steve Rogers, que resolveu deixa-lo para Sam Wilson. — Makayla rebateu, incapaz de se calar. — Ele nunca pertenceu ao governo!

Emma riu, assim como fazia quando a filha era pequena e dizia uma bobagem típica da infância.

— O próprio Capitão América pertence ao governo. — Ela declarou presunçosa.

Makayla deu um passo para trás tamanha foi a forma dolorida como aquilo lhe atingiu.

— Isso não é verdade, se fosse pelo governo o Capitão América teria morrido fazendo filmes ruins e atuando em comícios. Steve se tornou o Capitão América por próprio mérito, desafiando o governo. — Argumentou indignada. — O próprio conceito de uma pessoa pertencer ao governo como se fosse uma coisa, já vai contra tudo que o Estados Unidos prega.

Mãe e filha se enfrentaram com um olhar, até que Emma deu um sorriso de canto que para Makayla pareceu um tanto perverso daquela vez, mesmo que já tivesse visto o mesmo sorriso antes e nunca tivesse se dado conta desse fato.

— Claro, e você sabe disso porque fez menos de um semestre de direito.

O ataque verbal teria feito a jovem se retrair imediatamente em qualquer outro momento, não era a primeira vez que sua mãe apontava suas falhas daquele modo e isso sempre atingia Makayla, mas daquela vez ela não recuou.

— Eu sei disso porque era exatamente o que a Hydra fazia com Bucky Barnes. — Rebateu de cabeça erguida. — E a Hydra era a vilã, lembra?

Emma a encarou por alguns instantes, algo em seu olhar não podia ser decifrado.

— Você está falando exatamente como o seu pai. — Ela declarou em tom crítico, porém Makayla aceitou aquilo com orgulho ao responder:

— Ele nunca te deixaria fazer isso.

Emma não podia simplesmente dar o escudo para um qualquer, ninguém tinha esse direito, era errado. Era como desconsiderar o testamento de alguém e dar sua herança para qualquer um na rua. Não fazia sentido, mesmo que Steve Rogers não tivesse deixado sua vontade por escrito em lugar algum...

— Pois é, mas seu pai não está aqui, está? — Emma acusou e havia algo em sua voz tão afiado quanto facas. — E de quem é a culpa? Quem resolveu sair do estado ao invés de convencê-lo a ir para o abrigo especial do governo?

Makayla sentiu aquilo como quem leva um soco na boca do estômago, sabia que era sua culpa, se lembrava muito bem de todas as decisões que havia tomado naquele dia, mas não esperava ouvir aquele tipo de acusação da própria mãe. Doeu. Machucou mais do que ela estava preparada para suportar...

— Você não tem um bom histórico quando se trata de tomar decisões importantes, Kayla. — Emma prosseguiu, continuando a dar facadas como um assassino descontrolado sobre o corpo da vítima. — As pessoas que escutam suas ideias tendem a morrer, já percebeu isso?

Um passo trôpego foi dado para trás, enquanto uma lágrima pesada escorria pelo rosto de Makayla, um déjà vu de todas as mortes que já presenciara passou por seus olhos, todas elas eram sua culpa de uma forma ou de outra, Emma estava certa...

Makayla pensava que estava maldiçoada, mas talvez estivesse errada sobre isso, não era maldição, era culpa dela, todos que ela tocava morriam. Era destrutiva, corrosiva. Talvez esse fosse o ponto de sua maldita habilidade, aquilo havia se manifestado nela para que nunca mais tocasse em ninguém.

Talvez fosse o universo querendo proteger as pessoas ao seu redor...

— O que você acha não é relevante, essa discussão cabia aos governantes e já decidimos isso. — A diretora do CRG decretou irredutível. — Dentro de três dias John Walker vai ser o Capitão América, ponto final. Ele tem três medalhas por excelência e já provou seu valor para esse país, ele é um ótimo soldado, exatamente como Steve Rogers.

— Exceto que Steve Rogers não era um soldado, ele era um herói. — Makayla rebateu, usando uma força que não vinha dela realmente, aquilo eram apenas as convicções de Barnes em sua mente.

Ela sequer tinha vontade de continuar de pé se fosse honesta.

— E onde estava esse amado herói quando seu irmão morreu atravessado pela lança de um alienígena? — Emma tinha ódio no olhar, suas palavras eram ácidas. — Onde estava esse herói quando todos os seus amigos morreram por causa de um abalo sísmico que o Hulk e o Homem de Ferro causaram com uma briga idiota de rua? Onde estava esse herói quando metade do mundo virou pó?

— Ele estava lá, lutando pelas pessoas. Ele nunca parou de lutar. Nenhum deles parou. — Ainda eram as certezas de Bucky deslizando pela língua de Makayla.

Porque afinal, em algum ponto daqueles últimos anos a própria jovem havia feito a si mesma algumas daquelas perguntas, isso a corroeu por um tempo, mas, naquele momento, ela sabia a verdade, ela via todos os Vingadores muito mais humanos pelos olhos de Bucky Barnes, não podia culpá-los, eles tinham feito bem mais do que podiam, Makayla entendia isso agora.

— E ainda assim, era eu quem estava salvando o mundo toda vez que os Vingadores faziam bagunça. — Emma rebateu orgulhosa, com o queixo erguido. — Eu estou tentando proteger esse país deles e de toda a corja podre que eles atraem. Você sabia que Wanda Maximoff manteve uma cidade inteira como refém, com aquele poder dela? E onde estavam os Vingadores pra deter a “amiga” deles? Ninguém apareceu.

Eles estavam despedaçados, todos eles, Makayla sabia disso, sem Tony, Steve e Natasha, cada um havia ido para um canto, perdidos em seu próprio luto, tentando proteger aquilo que lhes restava, eram apenas pessoas afinal... Mas não havia uma forma de explicar isso a Emma, e talvez, mesmo que explicasse, a Diretora do CRG não se importaria em entender.

— Mas agora teremos o Capitão América e ele vai se posicionar a nosso favor, mesmo que seja contra os Vingadores, qualquer um deles. — A mulher afirmou decidida, a frieza em sua voz era dolorosa de ouvir.

— Quando você se tornou essa pessoa? — Makayla questionou decepcionada.

Emma sempre tinha sido daquele jeito e ela simplesmente não tinha visto?

— No dia que eu perdi meu filho. — A resposta veio seca, direta, dolorosamente verdadeira. — E você costumava odiá-los também. Você viu em primeira mão toda a destruição que eles causaram, o que mudou? Quando você voltou a ser aquela garotinha deslumbrada com heróis mantendo as pelúcias deles em cima da cama?

Sim, em algum ponto da adolescência Makayla odiou os Vingadores, era fácil culpar alguém público por suas perdas, era menos doloroso deixar aquela responsabilidade nos ombros de outras pessoas, mas isso havia mudado, com o passar dos anos o rancor juvenil e rebelde se foi e, depois que Bucky invadiu sua mente, o ponto de vista dele mudou tudo, a forma como Barnes admirava aquelas pessoas fazia com que a jovem voltasse a admirá-los também.

Havia uma memória em particular, uma que se destacava, Steve e Bucky sentados sobre os escombros da batalha contra Thanos, falando do sacrifício de Stark e da determinação de Natasha, foi quando Rogers contou sobre Nova York e várias outras lutas dos Vingadores para o melhor amigo, quando deixou claro seu desejo de dar o escudo a Sam, e quando Barnes soube que ele partiria... Era uma lembrança triste, mas extremamente bonita, porque o respeito de Bucky por aquelas pessoas que ele não conhecia realmente era honesto e comovente...

Makayla não podia ignorar o que sabia, não podia culpar outros por decisões que vieram dela, foi ela quem colocou cada pessoa que amava no lugar errado e na hora errada. Os Vingadores estavam apenas tentando fazer a coisa certa.

Eles tentavam salvar todas as pessoas possíveis, mas nem sempre isso significava salvar todo mundo.

A jovem encarou a Diretora do CRG por alguns instantes e respirou fundo.

— Controlar tudo ao seu redor não vai trazer o Cam de volta, mãe. Colocar John Walker atrás daquele escudo também não... — Declarou compassiva, porque não era totalmente alheia a dor de Emma.

Ela estava fazendo a coisa errada, mas havia tempo de voltar atrás, talvez Makayla pudesse ajudar com isso.

— Não, não vai. Se eu pudesse trazer o Cameron de volta, seria ele segurando aquele escudo. — A resposta veio amarga e rancorosa.

Makayla franziu as sobrancelhas em surpresa.

— Cam nunca aceitaria isso. — Ela poderia ter rido da ideia insana da mãe, não fosse a situação tão tensa daquele momento.

Era como se Emma não conhecesse o próprio filho.

— Acho que nunca saberemos, não é? — A mulher rebateu em desafio. — Até lá eu vou garantir que nenhuma mãe tenha que perder seu filho por conta de um herói idiota outra vez.

Makayla respirou fundo, o ódio de Emma estava atingindo níveis problemáticos, era compreensível, mas não era certo.

— É assim que as coisas vão ser. Não me importa se você concorda ou não. — A diretora prosseguiu categórica. — O governo vai fazer o que achar melhor com esse escudo.

Algo naquelas palavras fez com que a mente de Makayla clareasse em uma epifania estranha, aquela não vinha das convicções de Barnes, mas de uma vida inteira ao lado de Danniel Devinne, e de parcos conhecimentos das leis daquele país.

Nunca confie no governo, se eles quiserem algo eles vão ter, seja por força ou por manipulação. Aquela frase já tinha sido dita vária vezes por seu pai...

— Era tudo um plano, não era? — Makayla acusou, franzindo as sobrancelhas de forma perspicaz, conforme as peças se encaixavam em sua mente. — Vocês sempre souberam que não poderiam ter o escudo. Ele pertence ao Sam, vocês sabem disso, por isso não foram atrás com força bruta, ele teve que entregar por vontade própria, e eu aposto que foram seis longos meses trabalhando incessantemente na cabeça dele com mentiras sobre patriotismo, honra e dever cívico, enganando aquele homem para que ele pensasse que o escudo ficaria seguro no museu, quando na verdade vocês já sabiam muito bem o que fariam com o legado do Capitão América.

Sam havia entregado o escudo há poucos dias, era pouco tempo para convencer o governo, preparar uma coletiva de imprensa e convocar um Capitão do exército que estava em missão, providenciar transporte e trazê-lo de volta para o país. Aquilo já estava sendo planejado e discutido há meses.

Talvez aquilo tenha sido colocado em pauta assim que Steve Rogers teve sua ausência notada...

— Vocês usaram o Sam, o fizeram pensar que estava tudo bem; perdão, emprego na força aérea. — Makayla continuou completamente indignada. — Vocês abusaram da honra de um homem que só queria fazer a coisa certa. Atacaram as inseguranças dele com jogos mentais, eu aposto, exatamente como meu pai sempre disse que o governo fazia. Vocês estão brincando com as pessoas.

Emma encarou a filha por alguns segundos e deu um sorrisinho um tanto debochado.

— Estamos protegendo pessoas. — Rebateu com calma e segurança, era como agia nos debates com seus adversários na época em que concorria em eleições públicas. — Seu pai era apenas um sensacionalista dizendo teorias da conspiração para atrair público, você já é bem grandinha pra separar essa ficção da realidade.

Makayla podia ter se ofendido com aquelas palavras, porém a própria Emma já havia dito coisas muito mais cruéis na cara de Danniel, as brigas ainda estavam bem vivas na mente da jovem Devinne, sua casa, em algum ponto de sua adolescência, se tornou uma zona de guerra e todas as palavras eram balas perdidas que uma hora ou outra acabavam a atingindo, porque ela era sempre a vítima, mesmo que não fosse o alvo.

Crianças não deviam estar no meio das discussões dos pais, principalmente em caso de separação, mas Emma tinha a estranha mania de envolver Makayla em tudo que conseguisse, como se ter o apoio da menina fosse sempre lhe garantir a vitória, talvez porque Danniel se calasse toda a vez que via a filha no meio fogo cruzado.

Porém, naquele instante, os traumas passados de Makayla ficaram de lado, porque algo mais urgente pinicava suas ideias, tinha participado de projetos e movimentos sociais demais para apenas ignorar aquela possibilidade....

— Você influenciou o governo a tirar o escudo do Sam Wilson porque ele é um homem negro? — Perguntou diretamente, encarando Emma nos olhos, em um ato claro de afronta.

— Não seja uma dessas idiotas da internet que acha que tudo é sobre raça, pelo amor de Deus, Kayla. — A mulher desconversou, se esquivando do olhar da filha e se movendo ao redor da mesa. — O Falcão é um Vingador que já quebrou a lei, ele não servia para o trabalho. Ele nem sequer queria esse trabalho.

Makayla não comprou aquilo, a revolta começou a borbulhar no sangue dela, sabia que o governo era racista, todo mundo com um pingo de senso sabia disso naquele país, porém saber e ver em primeira mão eram duas coisas bem diferentes... Causava ódio, nojo, era como mastigar cacos de vidro e ser obrigada a engolir.

— Vocês por acaso o encorajaram a assumir o manto? Vocês se mostraram abertos e receptivos? Ou vocês só usaram as inseguranças dele para fazer com que Sam se sentisse indigno do escudo? — Acusou, com os olhos cheios de lágrimas.

Nunca imaginou que ficaria tão decepcionada com a própria mãe. Nunca, em toda sua vida, acreditaria que ela compactuaria com aquilo. Era inaceitável, inacreditável. Toda a admiração que tinha por aquela mulher escorreu pelo ralo.

— Você é igualzinha ao seu pai. — De novo Emma disse aquilo como se fosse uma ofensa. — Eu não estou nem aí para a cor das pessoas, ninguém do governo está, a prova disso é que convocamos Lemar Hoskins pra ser o parceiro do Capitão América, um homem negro e homossexual.

— Você sabe melhor que ninguém que o Lemar nunca se assumiu publicamente e... — Makayla começou rebatendo enérgica, mas as palavras foram perdendo força até que minguassem em seus lábios.

Viu algo que tinha ignorado por toda a vida, enxergou uma característica de Emma Kennedy que nunca atribuiria a ela, talvez nunca tivesse visto isso com apenas seu próprio ponto de vista, mas algumas das convicções de Bucky, presas na mente de Makayla, puxaram o pedestal em que a jovem havia colocado a mãe... Isso fez com que ela enxergasse aquela mulher de forma crua pela primeira vez.

Barnes havia passado décadas nas mãos de manipuladores, Makayla não podia apenas ignorar os sinais.

Emma Kennedy era uma manipuladora também.

— É isso, não é? Você pensou em tudo. — A verdade se encaixou perfeitamente naquele quebra-cabeças macabro. — Você precisava de alguém pra controlar, e Lemar nunca negaria nada pra você, não depois de tudo. Você sabia que ele faria o que você quisesse porque ele se sente em divida com a nossa família. — Riu de forma amarga. — Mas é claro que você e o governo não colocariam o escudo da mão do Lemar. É claro que não. Os Estados Unidos usam o povo negro, mas jamais reconheceriam seu valor assim, então você sugeriu a única pessoa nesse mundo que o Lemar seguiria até o inferno sem piscar. Você sugeriu o melhor amigo dele.

— John Walker é um soldado condecorado, ele era a escolha óbvia, ele é um herói. — Emma rebateu ainda mais calma, enquanto Makayla era a imagem do descontrole.

— Ele com certeza quer ser um, desde o ensino médio, desde que eu me lembro, mas ele é impulsivo e violento, com um ego facilmente inflável e você sabe disso. John precisa do Lemar pra ser seu centro, pra colocá-lo na linha. — As palavras vinham carregadas de revolta e raiva. — Mas é, ele era a escolha óbvia, por isso seu plano é tão bom, o Estados Unidos tem seu herói e você tem sua marionete. — Makayla apontou para a mãe em uma acusação clara. — Por que o John vai ouvir o Lemar e o Lemar vai ouvir você.

Ela passou as mãos enluvadas sobre o rosto, a verdade era feia e causava asco, Makayla queria gritar, sair berrando tudo em gramofone no meio da avenida.

— E com certeza tudo isso foi apresentado como uma jogada de mestre para o governo. Eles têm até mesmo a desculpa perfeita para qualquer coisa que a mídia for dizer, representatividade e igualdade. “Não somos racistas, temos um homem negro como herói”. — Ela jogou enojada com o país em que vivia e com o papel da própria mãe em tudo aquilo. — Exceto que Lemar é só o parceiro, não o protagonista desse circo de horrores que você montou.

Por um instante a revolta de Makayla foi tanta que ela cogitou pegar aquele escudo bem ali e sair correndo porta a fora, mas sabia que não chegaria nem no fim do corredor, podia ter a mente do Soldado Invernal, mas com certeza não tinha a força, o preparo físico ou a velocidade dele.

Absorvia pensamentos, não habilidades físicas.

— Querida... — Emma usou um tom carinhoso e tentou dar um passo na direção da filha, mas Makayla se afastou três. — Você está vendo muitos filmes de conspiração. — Ela sorriu compassiva. — Eu só estou tentando fazer o melhor que eu posso para ajudar o país que eu amo, eu prometo. Tudo que eu quero é que ninguém jamais tenha que sentir a dor que eu senti quando perdi seu irmão.

Ela parecia honesta, parecia de verdade, Makayla teria acreditado, como muitas vezes antes, se as convicções de Barnes não tivessem tirado um véu dos seus olhos. Ele continuava a lhe salvar repetidas vezes; de carros ou motos, de idiotas contratados e de mentiras bem contadas disfarçadas de verdades maternais.

— Você tem que se acalmar, amor. Isso é tudo um efeito colateral dos seus problemas atuais, se você respirar bem fundo vai passar. É como as alucinações que você teve quando voltou, lembra? — As palavras de Emma pareciam pensadas para invalidar totalmente qualquer argumento da filha. — Mas sim, você não está completamente louca, eu vendi a ideia de herói perfeito para o governo e fiz de tudo para que eles chamassem o John e o Lemar, mas só porque eu os conheço desde pequenos, sei que são boas pessoas. Eles eram amigos do seu irmão, tudo isso é uma forma de honrar o Cameron. Só isso. Todo o resto é obra da sua mente confusa e traumatizada, eu nunca mentiria pra você. Eu só quero seu bem, minha filha, só quero te manter segura. Não quero te perder como perdi seu irmão. Tudo isso é apenas um mal entendido. Isso é só seu imenso amor pelo seu pai falando mais alto, inconscientemente você está tentando perpetuar as ideias de justiça dele, e sim esse é um país racista e temos que defender essa causa, mas eu te juro, meu amor, que isso não é o que está acontecendo aqui. Eu te amo, eu não mentiria pra você assim. Você está muito nervosa, só isso, é seu herói de infância, entendo que seja demais, mas vai ficar tudo bem, vamos passar por tudo isso juntas. Confia em mim, filha, vai ficar tudo bem.

Makayla titubeou, e se fosse verdade? Talvez as convicções de Barnes em sua mente estivessem nublando seu senso crítico, talvez o trauma fosse severo demais, talvez estivesse mesmo descontrolada... Não era tão difícil aceitar que estava errada, porque afinal, no decorrer da vida, quantas vezes esteve realmente certa?

Quando Emma abriu os braços maternalmente, pedindo um abraço, Makayla pensou em ceder, queria acreditar naquilo, queria aquela realidade doce onde o amor da mãe lhe confortaria e tudo ficaria bem, porque no fim do dia ela não era uma heroína, ela era apenas uma garota de vinte anos exausta e machucada, que queria o colo de alguém que lhe amava de verdade, queria conforto e segurança, queria paz e calmaria. E talvez quisesse isso com tanto desespero que aceitaria, até mesmo se não fosse inteiramente verdade...

Emma deu mais um passo na direção da filha, aproveitando que a jovem não mais estava recuando e continuou a falar:

— Samuel Wilson abriu mão do escudo sozinho, ninguém se machucou com isso. É a coisa certa. É a melhor coisa para o povo. John Walker como Capitão América vai ser bom, vai dar esperança às pessoas, vai fazer com que elas se sintam seguras, só vai trazer bem, acredite em mim. Isso não vai machucar ninguém.

Aquela última frase se infiltrou na mente de Makayla causando uma avalanche gelada de certezas dolorosas.

— Você está errada... — Ela abriu mão do conforto maternal que tanto ansiava, dando três passos para trás quando soube exatamente quem se machucaria ao ver John Walker com aquele escudo.

Claro que podia imaginar que Sam ficaria magoado, mas suas certezas não diziam respeito ao Falcão, eram sobre James Buchanan Barnes.

Não era mais sobre um escudo exposto em um museu, não era mais um legado sendo guardado com honraria e respeito, era a última parte de Steve Rogers sendo entregue a um homem qualquer.

Aquilo seria uma facada no coração de Bucky...

Makayla podia sentir a dor em seu próprio peito, e de repente qualquer outra coisa deixou de importar, tudo que ela queria pra si mesma ficou em segundo plano. Precisava voltar pra casa.

— E o que você vai fazer? — Emma mudou totalmente a postura quando viu a esquiva no olhar da filha. — Espalhar suas teorias da conspiração em rede nacional como seu pai fazia? Acha que alguém vai acreditar em uma menina mentalmente instável como você?

— Não. — A jovem declarou simples, não era uma heroína, sabia disso. Garotas que começavam revoluções contra o governo existiam em livros distópicos, Makayla nunca almejou esse papel. — Eu não sou o meu pai, mãe. Eu nunca quis um lado nessa luta. Ainda não quero. Eu espero que um dia alguém apareça e aponte o dedo pra esse governo de merda e diga todos os erros que vocês cometem enquanto alegam que estão fazendo a coisa certa. Espero que um dia alguém realmente fique do lado do povo. Mas esse alguém não sou eu. Não sou uma heroína, nunca quis ser, eu só quero voltar para a minha casa...

Eu só quero estar lá quando o mundo desabar nos ombros de Bucky Barnes... ela completou pra si mesma, quando deu meia volta e seguiu para a porta.

Parou um segundo antes de sair, olhando a mãe por cima do ombro, antes de declarar:

— E não mande o Feltz atrás de mim, eu não sou mais uma criança, não preciso de babá ou qualquer coisa do tipo, a partir de hoje ele está proibido de entrar no meu prédio. Eu vou viver minha vida do jeito que eu acho que tenho que viver.

Não esperou uma despedida ou uma resposta, apenas cortou o corredor em passos rápidos, estava em direção a saída quando passou por Scott Feltz.

— Onde você vai? — O homem perguntou, estreitando os olhos.

— Não te interessa, idiota. — Makayla mostrou o dedo do meio, sem parar de andar. — Ah, e a propósito... Você está demitido!

Depois disso seguiu direto para o aeroporto, tinha três dias antes do desastre abater a vida de Bucky, talvez pudesse contar toda a verdade e ele sim, junto de Sam, lidariam com aquela jogada nojenta do governo...

Era uma ideia, embora Makayla não soubesse se faria sentido ou não, e de todo modo não importava realmente, deixaria os planos heroicos para os heróis, ela só queria estar ao lado de Bucky quando ele precisasse, simples assim.

Porque, no fim, a verdade era uma só: ela não se importava com nada, não se importava sequer consigo mesma, muito menos com o mundo todo, ela só se importava com James Buchanan Barnes. Makayla se deu conta disso, e ao invés de temer ou se surpreender com essa verdade, ela apenas sorriu.

De fato, não era um crime amar o que não podia ser explicado...

★☆ • ★☆ • ★☆

Scott Feltz entrou no escritório da Diretora do CRG sem bater ou ser anunciado. A mulher teclava freneticamente em seu notebook e sequer ergueu o olhar na direção de seu subordinado.

— Sua filha acabou de sair daqui bem nervosa, devo segui-la? — Ele perguntou, entrando no ambiente como se fosse dono do lugar.

— Kayla teve um ataque de consciência quando descobriu dos meus planos. — Emma respondeu de forma simples. — Ela tende a ser extremamente dramática na maior parte das vezes. Não sei porque cheguei a pensar que isso mudaria.

Não parecia preocupada com o rompante da filha, mas Feltz sabia bem que aquela era o tipo de mulher que nunca parecia preocupada com nada.

— É um problema? Devo continuar meu trabalho com ela? — Questionou, se aproximando alguns passos da mesa e dando a volta.

— Por enquanto não, é um desperdício de recursos, ela não desconfia de nada, os últimos dias e o relatório com o psicólogo provaram isso. — Emma continuou a redigir o que Feltz agora podia ver ser um e-mail para um dos Senadores. O assunto: “antecipação do anúncio C.A.”. — Makayla ter decidido ficar justo em Nova York nada tem a ver com nossas suspeitas.

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— Mas e a coisa de ler mentes? — O homem questionou, parando atrás da mulher e apoiando as duas mãos nos ombros dela.

— Era apenas o surto de uma garota traumatizada. Palavras do doutor Brooks. — Emma enviou o e-mail e abriu um memorando interno com alguns assistentes.

— Você acredita nele? — Feltz questionou, enquanto via a Diretora digitar ordens sobre a coletiva de imprensa.

— Por enquanto... — Ela ponderou. — Além disso todos os exames disponíveis foram feitos no sangue dela e nada foi encontrado.

— Talvez eles não soubessem o que procurar... — Ele opinou, massageando os ombros femininos enquanto falava.

— Talvez você devesse parar de passar tanto tempo na internet. Não tenho tempo para teorias. — Emma se esquivou do toque dele e voltou a trabalhar.

Feltz sabia bem que quando aquela mulher estava focada, não gostava de ser importunada, por isso se afastou para o outro lado da mesa.

— Então ela não é um problema? — Quis garantir.

— Parece que não, se eu bem conheço a Kayla ela vai voltar pra casa, remoer toda sua raiva por alguns dias e depois dar um jeito de fugir pelo mundo fingindo que está fazendo algo útil pela humanidade, ou então vai se meter em algum novo comportamento autodestruitivo, tanto faz. Esse o “lance” dela. — Emma claramente não se importava com as questões pessoais da filha. — Monitore pelo celular e fique atento, por enquanto você é mais útil aqui.

— E se você estiver errada? E se ela for um problema? — Feltz perguntou, parado na frente de sua chefe e amante.

Emma Kennedy ergueu a cabeça finalmente, declarando com a voz séria e apática:

— Então ela terá o mesmo fim que o pai dela...

★☆ • ★☆ • ★☆

Odiava se sentir impotente, tinha uma versão de um super soro nas veias, um braço de vibranium e décadas dos mais diversos, violentos e cruéis treinamentos, porém, mesmo assim, haviam coisas que nem Bucky Barnes era capaz de resolver... Era frustrante, caía como ácido em seu estômago e logo se tornava raiva latejando em sua cabeça.

Doutora Raynor tinha dito uma vez, logo nas primeiras sessões, que a incapacidade de Barnes em processar situações de impotência vinham dos anos e anos em que ele foi subjugado e forçado a ser absolutamente impotente perante a própria vida.

Bucky tinha necessidade de controle, porque isso lhe fora negado por décadas, então encarar algo que ele simplesmente não podia resolver o frustrava de muitas formas...

Era exatamente assim que se sentia naquele instante, jogado no chão de seu apartamento, cercado de garrafas vazias que em nada haviam amenizado a dor, já que o álcool não tinha efeito em seu sistema.

Nas mãos, um celular cheio de mensagens sem resposta, era como se tentasse contatar um fantasma em um mundo que fantasmas não existem. Sam Wilson simplesmente não dava sinal de vida.

Bucky imaginava que estava recebendo o troco, afinal ele também não havia respondido diversas mensagens e ligações de Sam naqueles últimos meses. Mas aquilo era diferente...

Nos últimos dias, depois que o escudo do Capitão América foi parar em um museu, Barnes tentara contactar Wilson de todas as formas, tudo em vão, enquanto isso ele próprio tinha se exilado do mundo, não respondia ninguém, não saía de casa, não havia comparecido a terapia. Sentia que precisava resolver aquilo para seguir em frente com a vida.

Mas que vida?

Encarou a última garrafa vazia e respirou profundamente, passando ambas as mãos nos fios castanhos, antes de apoiar os cotovelos nos joelhos. O que estava fazendo?

Era um escudo em um museu, não era o fim do mundo, era a escolha de Sam afinal, mesmo que não fosse o que Steve queria... Mas Steve não estava ali.

Por mais que Bucky tentasse repetir isso para si mesmo de novo e de novo, não era algo que ele conseguia digerir, ainda não entendia o motivo, apenas queria que Sam ficasse com aquele escudo, só isso, era o que Steve tinha planejado.

Talvez sua necessidade empírica de seguir os exatos planos do melhor amigo fosse apenas uma tentativa falha de manter o controle, saber que tudo aconteceria como estava previsto para acontecer lhe dava algum conforto. Ou talvez aquele escudo fosse tudo que restava de um passado do qual Bucky fora brutalmente arrancado, talvez fosse o mais perto de uma família que ainda restava...

Barnes, honestamente, não sabia como descrever tudo que se amontoava em sua mente, apenas estava lá, uma dor latente lhe torturando, tornando os pesadelos noturnos ainda piores, lhe perturbando tanto que toda a ordem de sua vida havia desmoronado em apenas alguns dias.

Devia voltar para a terapia.

Mas não voltou, não queria falar sobre aquilo com a Doutora Raynor.

Era ridículo que em um instante parecesse tudo bem e no outro tudo estivesse desmoronando...

Pegou o celular e observou as mensagens que havia enviado a Sam, nada de respostas. Bucky queria ficar com raiva, mas era inútil, antes ele tinha ignorado Wilson também e, naquele instante, estava ignorando as dezenas de mensagens de outra pessoa.

Makayla... Ou segundo o contato em seu telefone “Princesa”.

Os pesadelos costumeiros haviam expulsado a garota de seus sonhos, era uma pena... Ela mandava mensagens preocupadas e Bucky ignorava, não queria lidar com ninguém, e com Makayla muito menos. Aquela aproximação inicial fora um erro.

Não, Bucky sequer queria pensar nela, estava evitando isso nos últimos dias e continuaria evitando. Era o melhor que podia fazer.

Se colocou de pé, recolhendo as garrafas direto em uma sacola de lixo e procurando por algo comestível, encontrando apenas pacotes vazios. Tinha que sair e fazer compras, não era o que queria fazer, mas talvez ajudasse a pensar em outra coisa. Tomou um banho e se vestiu como sempre, luvas e jaqueta, logo estava na rua, era finzinho de tarde em Nova York e a temperatura estava agradável.

Caminhou sem pressa até a loja de conveniência mais próxima e ao cruzar as ruas conhecidas foi impossível não lembrar de ter passado ali com Makayla. Era estranho admitir para si mesmo que sentia falta de alguém que sequer conhecia direito?

Talvez fosse bobagem, a garota tinha até mesmo lhe rejeitado, o melhor era que esquecesse dela... Bucky reparou que vinha repetindo aquela mesma ordem para si mesmo várias e várias vezes, não estava funcionando.

Entrou na loja de conveniência e foi colocando algumas coisas em uma cesta, seu celular vibrou no bolso e ele o pegou no mesmo instante pensando ser Sam, não era, tratava-se apenas de mensagens automáticas sobre promoções da operadora, Bucky revirou os olhos em frustração, aquela era uma coisa bem inoportuna. Ele excluiu a mensagem, mas ao invés de colocar o aparelho de volta no bolso parou em um dos contados, lendo as últimas coisas que Makayla havia lhe enviado.

Estou com saudades do meu parceiro de bingo, me liga se quiser fazer alguma coisa.

Ela não pressionava, havia perguntado se Bucky estava bem dias antes, mas não insistiu no assunto, continuando a mandar mensagens casuais. Por que ela não desistia?

Barnes queria dizer que preferia que fosse assim, desejava que Makayla apenas parasse de mandar mensagens e simplesmente lhe esquecesse de vez, mas seria mentira, talvez, lá no fundo, ele não quisesse que ela desistisse.

A garota estava em sua cabeça, essa era a verdade.

Era inoportuno e inexplicável, mas, dentre todas as coisas que Bucky tinha na mente, Makayla estava muito longe de ser a pior.

Talvez devesse responder...

— Senhor Barnes? — A voz feminina chamou, enquanto ele pensava no que devia escrever.

Bucky ergueu a cabeça e visualizou a loira que se aproximava dele com um sorriso aberto e amigável.

— Oi...? — Ele disse incerto, levando três ou quatro segundos para reconhecer a recepcionista do consultório. Ela ficava diferente sem o terninho azul horrível.

— Oi! — A mulher parecia ter ganhado um prêmio porque não parava de sorrir. — Não te vi no consultório essa semana, fiquei preocupada.

— Pois é, eu tive uns contratempos. — Bucky respondeu apenas, esperando que isso desse a conversa por encerrada, mas a loira começou a lhe seguir pelos corredores.

— Acontece... — Ela ainda sorria sem parar. Será que tinha algum problema no rosto? — Só não deixe de ir na próxima consulta, porque, você sabe... pode te causar problemas.

Barnes achou aquilo muito invasivo, nunca teve antipatia pela mulher, mas não estava em um dia muito bom para lidar com aquelas alfinetadas educadas sem se estressar. Podia ser apenas preocupação genuína da moça, mas era inoportuno.

Primeiro ela tinha entregado o endereço dele para uma completa estranha, agora isso?

Não que conhecer Makayla tivesse sido uma coisa horrível, mas, mesmo assim, a recepcionista estava com liberdades demais.

— É, eu sei. — Ele jogou em um tom quase cínico e um tanto seco. — Tem muitas coisas na vida que podem causar problemas... faltar na terapia, passar o endereço da casa dos pacientes pra outros pacientes e coisas assim...

Ele ofereceu para a mulher um sorriso acusatório, mas a reação dela foi completamente diferente do esperado.

— Nossa com certeza! — Ela exclamou horrorizada. — Esse tipo de coisa acontece muito nesses consultórios por aí, com funcionários totalmente sem ética. De jeito nenhum eu deixaria uma informação vazar, atendemos pessoas importantes...

Desatou a falar sobre colegas de profissão que não tinham moral, contando casos com a mesma velocidade que uma metralhadora dispara balas.

Aquela mulher com certeza não havia dado o endereço dele pra ninguém.

Bucky parou de ouvir, seu cérebro começou a trabalhar em um enigma que se formou rápido em sua mente. Todos os pequenos sinais que ele havia ignorado durante aqueles dias vieram em uma avalanche de informações.

Apenas uma certeza ficou clara para Barnes: Makayla estava mentindo.

Isso gerava muitas e muitas perguntas... Por sorte, ele sabia exatamente onde conseguir respostas.

Notas finais
Finalmente conhecemos a Emma e exatamente o que ela faz... Acho que ninguém imaginou que seria nesse nível de problema kkkkkkk E pelo visto o Capitão Fajuto tá vindo aí mesmo. Tem muito detalhe nesse capitulo que é importante pra trama a longo prazo, incluindo o fato de tem uma diferenças evidente entre o Bucky e Makayla.... E agora ela tá voltando pra casa disposta a contar a verdade e ele tá sabendo que tem uma mentira rolando... Vamos ver no que isso vai dar... Eu vou tentar voltar ainda nesse Sábado, mas isso vai depender de como o capitulo vai fluir, então a certeza é que até terça que vem eu tô por aqui de novo, e juro que vai ser o mais rápido que der. Beijos e até!