Notas iniciais
Hello lindezas! Voltei rapidinho, nem precisei fazer vocês esperarem até sábado. Duas coisas sobre esse capítulo: ele não tem um gatilho específico, mas leiam com calma, okay? E segundo: se vcs quiserem podem colocar "Falling" do Harry Styles pra tocar, o momento exato é depois das estrelinhas. Boa leitura!

O Soldado Invernal havia sido treinado para entrar em qualquer lugar sem nunca ser visto, mesmo que não fosse de fato um espião e sim um assassino, nunca o mandavam em busca de apenas informações, suas ordens sempre envolviam a morte de alguém, de toda forma, ser sorrateiro era um requisito para o “trabalho”, e essa era apenas mais uma das muitas habilidades que tinham permanecido com Bucky Barnes depois que ele se libertou do controle da Hydra.

Não podia desaprender aquelas coisas, assim como não podia esquecer suas vítimas, aquilo tudo permanecia com ele, o que significava que uma parte do Soldado Invernal também sempre estaria ali, uma carga extra que parecia pesar toneladas...

No entanto, foi graças a essas habilidades que ele não teve qualquer dificuldade em entrar no prédio luxuoso ou descobrir o exato apartamento de Makayla. Ela não estava, o que de certa forma era melhor, tinha que descobrir a verdade e talvez não pudesse confiar nela pra contar. Sendo assim, foi simples invadir o lugar depois de desativar o sistema de alarmes. Irrisoriamente fácil até, mesmo que houvesse um nível avançado de segurança ali.

Foi assim que guardou a primeira informação sobre Makayla na mente: ela era muito mais importante e rica do que parecia.

O gosto de fel estava impregnado na boca de Bucky, ácido e corrosivo, enquanto seu coração se contorcia em total agonia. Makayla era uma mentirosa... Uma parte de si não queria acreditar nisso, havia algo nele lutando por ela, tentando encontrar uma explicação plausível, no entanto a outra parte de Barnes, aquela que havia sofrido por décadas e tinha desenvolvido barreiras e proteções de todos os tipos, apenas apontava o quão estúpido ele fora em acreditar na primeira garota bonita que apareceu em seu caminho.

Tinha sido enganado.

Teorias horríveis se formavam em sua mente, e quanto pior elas eram mais o coração de Bucky doía, porque parte de si sentia aquilo como uma traição imperdoável, quase como se realmente conhecesse Makayla por toda a vida e ela houvesse lhe apunhalado pelas costas. Sua parte consciente e racional argumentava que eram apenas alguns dias, mas a intensidade daquilo que havia criado raízes dentro de Barnes não acompanhava um fluxo temporal coerente. E por isso doía.

Estava parado do lado de dentro, todas as câmeras do lugar haviam sido desligadas junto com o sistema de segurança. Ele tinha se afastado apenas dois passos da porta, com medo do que encontraria naquele lugar. A primeira vista era um apartamento normal, obviamente de alto padrão, mas sem nada suspeito logo de cara.

A sala era um cômodo amplo e de conceito completamente aberto, de modo que a cozinha também podia ser vista dali, tudo tinha uma decoração neutra e os móveis alternavam entre preto e branco, algo nos detalhes tornava aquele ambiente bastante masculino.

Makayla dissera que o apartamento era do irmão, talvez estivesse fechado desde sua morte. Ela podia não ter mentido sobre isso...

Por um segundo uma esperança boba bateu no coração de Bucky, vai ver havia uma explicação plausível para tudo aquilo, talvez Makayla tivesse conseguido o endereço com outra pessoa e essa era a única mentira. Ela podia estar protegendo alguém ou algo assim.

Ou ela era da Hydra. A mente de Bucky fez questão de lembrar, essa era sua primeira teoria, a que ele tivera ainda na loja de conveniência, aquela que o fizera decidir invadir o apartamento da jovem... Ele conseguia até mesmo visualizar a Organização Nazista montando um plano para capturá-lo outra vez. Algo dentro de si se remexeu em profundo desgosto e um arrepio de raiva visceral cortou seu corpo.

Podia ser muito ruim ou apenas aceitável, de uma forma ou de outra ele tinha que saber.

Assim, finalmente começou a andar pelo lugar, tateando locais estratégicos dos móveis com a mão de vibranium — sem luvas dessa vez, — em busca de armas ou qualquer outra coisa escondida. Nada encontrou, nem ali, nem na cozinha. Deixou aquele ambiente e entrou em um corredor com três portas, uma delas era um banheiro, que parecia bem pouco utilizado, o primeiro quarto no corredor também parecia dessa forma, em nenhum dos dois cômodos havia nada de suspeito, Bucky encontrou apenas algumas coisas antigas em uma caixa do armário, troféus que pareciam de ensino médio e um boletim esquecido no nome de “Cameron Devinne-Kennedy”.

Makayla havia chamado o irmão de “Cam”, então ainda estava tudo dentro da verdade...

Bucky queria suspirar de alívio, mas sua desconfiança instintiva não lhe permitia, ele foi para o segundo quarto do corredor então, assim que abriu a porta soube que era o quarto de Makayla, e não porque tudo ali era evidentemente feminino, mas sim porque a gata branca que a jovem batizara de Alpine estava em cima da cama, ao lado de um notebook fechado

Ele se aproximou alguns passos, a sensação de estar invadindo a privacidade de uma garota daquele jeito era muito estranha, no entanto, ele procurou manter em mente que ela podia ser uma agente da Hydra. Mesmo que essa convicção ficasse cada vez mais fraca a cada segundo que passava naquele apartamento.

Ele deu alguns passos para dentro do cômodo, a sua frente havia a cama, era de casal, cercada por dois pequenos móveis de cabeceira, uma estante com diversos livros a direita, e a esquerda mais duas portas. Bucky focou nos livros primeiro, diversos títulos, nada dentro das capas, ele viu Senhor dos Anéis e um box com As Crônicas de Gelo e Fogo bem ali, além de diversos livros de medicina, engenharia e direito, tudo que corroborava com coisas que a própria Makayla havia dito. Mas ainda podia ser apenas um ambiente montado.

Quer dizer, talvez Makayla pretendesse lhe levar ali em algum momento, por isso era tão crível... Essa linha de raciocínio obrigou Barnes a pensar no motivo pelo qual seria convidado para o apartamento dela, e para o quarto dela em particular...

Ele engoliu em seco, mas foi impossível de impedir os próprios pensamentos de seguirem rumos impróprios. Bucky piscou diversas vezes tentando clarear a mente, a garota havia mentido pra ele, não era possível que continuasse tão absurdamente atraído por ela, que merda.

Mudou seu foco, deixando a estante de lado e examinando as outras duas portas no quarto, uma delas dava para um banheiro, onde encontrou remédios prescritos que batiam com a informação que Makayla estava tomando algo forte quando se conheceram. Na segunda porta havia um closet.

Bucky caminhou por entre as roupas femininas, se sentindo absolutamente estranho em fazer aquilo, era invasivo demais. Não revirou as gavetas, sabia que devia, mas também sabia que era o lugar onde haveriam roupas intimas e esse era um limite que ele não estava disposto a cruzar.

Mas encontrou um cofre e esse arrombou sem qualquer dificuldade ou problema. Não havia nada relevante ali. Algumas joias e documentos, nada mais. Barnes começou a pensar que realmente havia cometido um erro grave. Como explicaria aquela invasão?

Deixou o cofre de lado e novamente encarou as gavetas do closet, era o último lugar que podia olhar ali, não seria a pior coisa que já fez na vida...

Sabia o que encontraria, ou pelo menos pensou que sabia, porque com certeza não estava preparado para o mar de renda, formando peças dos mais diferentes modelos. Engoliu em seco, deixando tudo aquilo de lado e focando na caixa preta que havia no fundo da gaveta.

Era uma arma, tinha que ser uma arma...

Quando ele abriu a caixa no entanto, o objeto não se parecia nada com uma arma. Por um instante pensou ser um dispositivo explosivo, era roliço, de um tom fechado de roxo, com o comprimento da palma da mão de Bucky, tinha uma ponta em formato de bico de golfinho e alguns poucos detalhes, a textura era levemente macia e aveludada.

Ele com certeza não sabia o que era¹.

A caixa não tinha qualquer instrução, era apenas preta, mas por sorte, abaixo do suporte, havia um folheto impresso, um tipo de manual ou algo assim. “Golfinho Vibrador — Ponto G”, dizia ali, depois explicava como ligar e tinha advertências sobre lavagem antes e depois do uso.

Depois do uso pra quê? Bucky perguntou a si mesmo, não vendo qualquer sentido no nome, o que diabos era um ponto G? E por que precisariam de um aparelho para vibrar lá? Ele se perguntava, enquanto girava a base como mandava o manual. A coisinha vibrava em diferentes velocidades, só isso.

Ainda não fazia sentido...

Ele puxou o celular do bolso traseiro e vez uma busca no google. Merda! A boca de Bucky se abriu e fechou duas vezes e ele sentiu o rosto todo ficar quente, o objeto foi imediatamente colocado de volta no lugar. Ele sequer respirava, impedindo seu cérebro de imaginar qualquer cena ou de formular perguntas e teorias. Em seguida fechou a gaveta tão rápido quanto fugiria de um golpe inimigo e voltou para o quarto no mesmo instante, fechando a porta atrás de si.

Devia ter adivinhado pelo formato, quando havia ficado tão inocente daquele jeito? Odiava o século vinte e um... mas as coisas que a modernidade criava podiam ser muito interessantes.

Barnes se forçou a deixar tudo aquilo de lado, antes que pensamentos nada puritanos nublassem seu principal objetivo. Já tinha sido seduzido o bastante por Makayla, não podia permitir que acontecesse de novo...

Voltando ao que importava, Bucky teve que admitir que não havia nada de suspeito naquele apartamento, se Makayla fosse Hydra haveria armas escondidas por toda a parte, mesmo que fosse apenas uma locação falsa.

Suspirou, um pouco aliviado e muito arrependido. Talvez Makayla tivesse conseguido o endereço com outra pessoa, de outro jeito, ou ainda pior, talvez a dissimulada fosse a recepcionista, que agiu como se não soubesse de nada e ainda se fez de indignada...

Bucky parou ao lado da cama e pegou Alpine, por algum motivo bobo cheirou a pelúcia, tinha perfume de jardim noturno, o mesmo que Makayla, mas se fosse honesto tudo ali possuía o cheiro dela.

E se estivesse errado? E se ela não fosse inocente, só boa demais em esconder a verdade?

Em uma última tentativa, sentou na cama e puxou o notebook, podia ter mexido nas gavetas dos móveis ao lado da cama, mas imaginou que também não haveria nada ali, preferiu apelar para a tecnologia então, talvez houvesse qualquer suspeita.

Não era um expert, bem longe disso na verdade, mas ao abrir o aparelho e ver a tela se acender sem pedir qualquer senha Bucky já soube que não teria absolutamente nada de relevante ali. Ninguém deixaria algo importante sem proteção.

Encarou a tela do google aberta, enquanto sua mente voava longe, não podia mais ignorar todos os sinais, tinha alguma coisa errada. Em uma última tentativa um tanto desesperada ele digitou o nome de Makayla na barra de pesquisas, mas antes de apertar a tecla de buscar, outra ideia lhe ocorreu, usar o nome dela era óbvio demais...

Trocou por “Cameron Devinne-Kennedy”, o nome no boletim perdido no quarto ao lado. A primeira informação, logo no topo da busca, era sobre a mãe dele, Emma Kennedy, diretora do Conselho de Repatriação Global, ex-senadora, uma das criadoras do acordo de Sokovia.

— Puta merda! — Bucky fez a equação rápido demais.

Makayla não era da Hydra. Ela era espiã do governo.

O coração de Barnes dava saltos preocupantes dentro do peito e suas mãos tremiam. Enquanto isso, sua audição captou movimentação na porta da frente.

Talvez fosse a hora de um confronto...

★☆ • ★☆ • ★☆

Estava exausta, a cabeça latejava e seus músculos doíam como se um caminhão tivesse passado por cima de seu corpo, mas sabia que aquele mal estar nada tinha a ver com esforço físico, era emocional, aquele dia estressante estava cobrando um preço muito caro.

Tudo que queria era um banho quente e uma noite tranquila de sono, sem pesadelos, sem drama, só queria esquecer...

Ainda assim, quando desembarcou no aeroporto de Nova York, Makayla ignorou suas próprias necessidades e foi direto para a casa de Bucky Barnes. Precisava falar que escudo estava prestes a ser entregue para outra pessoa, talvez ainda houvesse um jeito de impedir aquilo dentro dos três dias que faltavam para a posse de John Walker.

O manto de Capitão América não era um Jeans Viajante², para ficar rodando por aí nas mãos de todo mundo, não era o que Steve queria. E Makayla sabia disso porque essa era a certeza presa na mente de Bucky.

Além disso, Sam Wilson entregara o escudo para ficar exposto em um museu, era uma forma de homenagem, não era uma permissão para que fosse entregue a quem o governo julgasse merecedor.

Sendo assim, se Makayla avisasse a tempo, eles com certeza fariam algo a respeito...

No entanto, Bucky não estava em casa, a jovem bateu e esperou, mas nada aconteceu. Dessa forma, ela resolveu voltar para o próprio apartamento, tomar um banho e tentar mais tarde, precisava respirar por pelo menos um segundo.

Ainda não fazia ideia de como contaria a verdade, sabia que precisava, aquele quase beijo constrangedor já tinha provado isso, viu nos olhos de Bucky o quão rejeitado ele se sentiu e não queria de maneira alguma causar nele nenhum sentimento ruim. E é claro que queria beijá-lo, queria de formas insanas até, mas era desleal fazer isso sem que ele soubesse exatamente o que contatos físicos com ela causariam.

Então, é, devia contar a verdade, pelo escudo e principalmente por causa do vínculo intenso e inexplicável que havia entre eles, mas ainda não sabia como fazer isso, nunca tinha desmentido uma de suas mentiras.

Estava nervosa, com medo até, porém tentou ser positiva, mesmo que isso lhe fosse tão pouco usual, talvez Jackson estivesse certo. Bucky podia lidar melhor com aquilo do que ela própria estava lidando.

Era o que Makayla esperava e desejava...

Quando chegou em seu apartamento e virou a chave na fechadura, algo lhe pareceu estranho, o bip ritmado do alarme, que indicava quanto tempo ela tinha para colocar a senha antes que a coisa toda disparasse, estava totalmente silencioso. Porém ela desconsiderou, afinal, não era a primeira vez que esquecia de programar aquela porcaria antes de sair.

Entrou no apartamento e encarou o local vazio, tudo ali gritava o nome de Cameron... Mas depois que Emma se desfez da casa da família como se fosse nada, aquele era o lugar mais próximo de um lar que Makayla tinha nos Estados Unidos.

Porém não queria pensar em Emma, não queria pensar em nada.

Saiu chutando os tênis para qualquer lugar enquanto se livrava das jaquetas e das luvas, odiava aquelas coisas o dia todo em suas mãos, mas por vezes Makayla não tinha certeza se esse sentimento era realmente seu, ou apenas um reflexo do desgosto que Barnes tinha pelas próprias peças.

Deixou que seu corpo caísse no sofá então, sentindo o cansaço pesar em todos os seus músculos, tinha prometido a si mesma um banho quente, mas apenas naquele instante se deu conta do quão exaurida estava realmente. Será que se fechasse os olhos por uns dez minutinhos ali, encostada no sofá mesmo, teria pesadelos?

Respirou fundo, os pulmões fadigados levando areia e não ar por suas vias respiratórias, as pálpebras pesaram e foram lentamente fechadas, mas não levou um minuto inteiro para que o silêncio parecesse sufocante a ponto de deixar Makayla inquieta.

Quando estava com Bucky era confortável e aconchegante se manter em silêncio, mas ali, sozinha naquele apartamento, era quase como se pudesse ouvir uma fúnebre melodia de agonia, composta pelos gritos do Soldado Invernal.

Será que um dia aquilo passaria?

Sem pensar muito ela tateou o sofá em busca do controle remoto, decidida a dar fim no silêncio ligando a televisão em um canal qualquer, e foi apenas quando apertou o botão, naquele pequeno segundo em que a tela preta começa a se acender, que ela notou no reflexo que havia alguém parado atrás do sofá.

Seu primeiro instinto foi dar um pulo, o susto eletrocutando suas terminações nervosas, ela tateou o controle cegamente para desligar a tv e o som se extinguiu, virou então, mas assim que bateu os olhos na figura masculina o reconhecimento apagou todos os sinais de alerta em sua mente e colocou um sorriso em seu rosto, enquanto o controle caia de suas mãos de volta para o sofá.

— Bucky... — Ela murmurou o nome dele em um misto de surpresa e contentamento, quase como se o homem fosse uma visita aguardada. Levou alguns segundos para que sua mente pegasse no tranco outra vez, acusando a estranheza e todos os problemas com aquela situação. — Como você entrou aqui?

Barnes lhe encarou com olhos frios, algo ali fez com que um pressentimento ruim cortasse o coração de Makayla, ele sempre tinha um azul gélido nas íris, verdade, mas nunca eram realmente frios, havia conforto e calor neles o tempo todo, mas não naquele momento... não mais.

— Consigo entrar em qualquer lugar. Eu sou o Soldado Invernal. — A voz veio dura, o som de placas de gelo maciço rachando sobre um lago congelado. — Mas você já sabia disso, não é, Makayla? Se é que esse é mesmo o seu nome.

Ela não conseguia se mover, paralisada exatamente no mesmo lugar, sua mente presa entre seus temores mais profundos e o caos das memórias de Bucky. Mil paralelos sendo traçados em busca de um significado para aquele olhar duro e ao mesmo tempo tão magoado.

— Todo esse tempo você estava mentindo pra mim. — Não era uma acusação, era uma sentença. Makayla era culpada.

Ela soube, de um jeito melancolicamente epifânico, que aquilo era a pior coisa que podia ter feito para aquele homem.

— Bucky, eu posso explicar... — Tentou dizer, mesmo que suas palavras tenham vindo estranguladas de dor.

Doía duas vezes, uma por ela mesma e uma por ele.

— Eu vi os sinais, eu vi todos eles. Mas você, com seu rostinho bonito e flertes casuais, bagunçou minha cabeça. — Bucky tocou as têmporas com o dedo de vibranium. Era a primeira vez que Makayla o via sem as luvas. — Você foi treinada pra isso?

— O que? — Ela perguntou confusa e só então deu-se conta que não havia como Barnes ter conhecimento da verdade, ele não estava ali por descobrir que uma garota qualquer havia entrado em sua mente, ele havia percebido que Makayla tinha mentido, mas com certeza tinha a teoria errada sobre o assunto.

— Primeiro eu pensei que você era Hydra, sabe? — A voz dele era baixa e controlada, mesmo assim parecia agressiva de alguma forma. — Não que você esteja assim tão longe. Governo, Hydra, não tem tanta diferença assim, tem?

Makayla presumiu que ele tinha feito uma simples busca na internet e sabia de quem ela era filha. Não explicava exatamente o motivo de Bucky estar ali, mas era o bastante. Tinha invadido a mente dele, não podia reclamar por ter a casa invadida por ele....

— Eu não trabalho pra minha mãe. — Ela esclareceu com um tom de voz apaziguador. Talvez pudesse contar a verdade e ainda acertar as coisas. — Isso é só uma grande coincidência... Por favor, me escuta.

— Não. — Bucky rebateu tão frio e impassível que Makayla engoliu as próprias palavras. — Eu não quero ouvir nenhuma das suas mentiras. Tudo que você me disse até agora é provavelmente uma farsa bem montada. Tudo isso aqui... — Ele fez um gesto curto para o apartamento, movendo a mão de vibranium. — Aposto que você está sendo treinada há muito tempo pra fazer coisas assim. Você sequer foi blipada, não é?

Ela quis dizer alguma coisa, mas não conseguia, Barnes era a imagem perfeita de uma montanha de gelo, parado ali no meio da sala, inalcançável, intocável.

— Eu entendo. Eu era sua missão. — Havia um certo sarcasmo na voz dele. — Mas diga para os seus superiores que a missão acabou.

Se moveu então, seguindo em direção a porta de saída como se estivesse dando a conversa por encerrada. Makayla se deslocou para a esquerda e se enfiou na frente dele, fazendo com que Bucky se afastasse alguns passos na intenção de desviar.

— Você não é a minha missão. Eu não sou uma agente, nem da Hydra, nem do governo nem de lugar nenhum. Isso... — Ela falou rápido demais, apontando de um para o outro. — Foi só uma coincidência.

Barnes a encarou de cima, havia certo rancor nos olhos dele.

— Você é boa nisso, sabia? Devia pedir um aumento. — Disse apenas, tentando desviar dela outra vez.

— Bucky espera, me deixa falar. — Makayla se colocou entre ele e a porta uma vez mais.

— Não me obrigue a machucar você, garota. — Barnes ameaçou, dando dois passos na direção dela. — Não sei qual o seu treinamento, mas você não vai querer se meter em uma luta com o Soldado Invernal.

Ela podia ver por trás das palavras dele, sabia o quanto doía em Bucky chamar a si mesmo daquela forma, era como uma punição, um lembrete constante de que ele sempre seria um assassino, sempre perseguido por alguém.

Makayla ficou exatamente onde estava, no caminho, tinha ciência que qualquer outra pessoa no mundo teria dado um passo para o lado sob o olhar ameaçador daquele homem, mas não ela, e talvez fosse apenas a atitude de uma garota estúpida com quase nada de amor a vida, porém Makayla preferiu pensar que simplesmente conhecia Bucky bem o bastante para confirmar nele.

E talvez fosse loucura, mas e daí?

— Você não é mais o Soldado Invernal, você é James Buchanan Barnes e eu sei que você não vai me machucar. — Ela disse pausadamente e com calma, os olhos fixos nos dele.

As sobrancelhas masculinas se franziram por meio segundo, Makayla acreditou que suas palavras tinham surtido efeito, mas tudo isso durou apenas um piscar de olhos, no momento seguinte ela estava presa contra a porta, mal teve tempo de prever o movimento de Bucky e o braço de vibranium gelado estava em seu pescoço.

— Você não sabe nada sobre mim! — Ele soprou ameaçador.

Mas Makayla pouco se importou com as palavras, porque sua mente se dividiu em dois para processar aquele simples momento; primeiro, embora Bucky parecesse irritado de verdade, seu movimento brusco nada teve de violento, ela sabia que ele era muito mais forte do que aquilo, não havia pressão em sua garganta, de modo que ela respirava normalmente, Barnes queria assustá-la, mas não machucá-la.

O que provava que Makayla estava certa sobre ele.

E apesar de ter processado isso, havia uma segunda parte da mente da jovem muito mais focada em outra coisa; os dedos de Bucky diretamente em sua pele, o vibranium gelado disparando ondas elétricas por seu corpo... Ela fechou os olhos esperando pela avalanche de memórias que isso causaria... mas nada aconteceu.

É claro que não, o braço esquerdo inteiro era de metal afinal, seus poderes só funcionavam pele na pele. Ainda bem.

Ela respirou aliviada, e só então seus olhos encontraram as íris frias, eles estavam tão absolutamente perto que o perfume de Bucky lhe enebriou por um momento; fresco com um fundo estranhamente amadeirado, ele cheirava a lar, aos alpes, o lugar preferido de Makayla em todo o mundo.

— Eu li a sua mente. — Ela disse finalmente, ganhando um franzir de sobrancelhas muito confuso como resposta. — Esse é o motivo de tudo isso. Não é uma jogada do governo, é só coincidência, pura e simples, éramos as pessoas erradas no lugar errado, só isso.

— Você está mentindo. — Bucky retrucou, mas seu olhar mostrava sua dúvida.

Os dedos de vibranium continuavam ao redor do pescoço de Makayla, apenas parados ali, como um toque de aviso. A jovem se deu conta do quanto sentia falta do toque das pessoas e isso pareceu um pensamento absurdamente idiota no meio de um momento tão tenso...

— Não estou. — Ela assegurou, mantendo os olhos nos dele como se isso fosse passar mais veracidade para suas palavras. — Sim, a minha mãe é do governo, diretora do CRG, ex-senadora e um monte dessas coisas, mas isso não tem nada a ver comigo, eu não me envolvo no trabalho dela. Porém ela ainda é minha mãe, por isso o segurança e a terapia em um prédio do governo. — Era estranho falar tudo aquilo de uma vez só. — Eu não sou uma agente, eu sequer sei como dar um chute. Você é esperto, provavelmente já vasculhou minha casa inteira, encontrou algo que indique que sou um agente ou uma ameaça?

Makayla assistiu Bucky ponderar cada uma daquelas palavras lentamente, os dedos de vibranium foram abandonando sua pele aos poucos, até que o espaço de algumas passadas foi colocado entre os dois.

Ela se sentiu estranhamente gelada sem aquele toque, outro pensamento estúpido e absurdo para o momento, mesmo porque o vibranium era um metal frio, a quebra de contato devia trazer conforto, não o contrário...

Seu olhar buscou as íris gélidas na tentativa de desvendar os pensamentos de Bucky, porém ele tinha se tornado indecifrável, suas expressões transmitindo uma gama muito grande de sentimentos e, mesmo conhecendo aquele homem tão bem dentro da própria mente, Makayla não fez a menor ideia do que esperar naquele momento.

— Eu fui blipada, e meu pai morreu por isso, estávamos no mesmo carro e eu era a motorista. Meu pai não sobreviveu. Quando eu voltei, algo mudou em mim, eu tenho essa habilidade agora, eu posso ler a mente das pessoas. — Ela explicou, percebendo que a velocidade de suas palavras condizia com o nervosismo crescente em seu peito.

— É isso que você está fazendo agora? Você está invadindo a minha mente? — A desconfiança evidente de Bucky, fez com que Makayla se sentisse repentinamente enjoada, mas ela tentou manter o controle sobre seus sentimentos.

Evidente que ele não confiaria nela de cara depois de tudo, isso era totalmente previsível e esperado. Sequer podia ficar magoada afinal...

— Não. — Sua voz era ponderada e apaziguadora. — Não é assim que funciona, eu preciso tocar nas pessoas e então tenho fragmentos das memórias e pensamentos delas. — Esfregou as mãos na roupa em um gesto claro de nervosismo. — Eu venho escondendo isso de todo mundo desde então, incluindo da minha mãe, estava tratando isso como alucinações, algum surto causado pelo trauma de perder meu pai, e por isso eu estava naquele consultório.

Bucky ainda tinha aquela expressão indecifrável, o corpo totalmente imóvel, como se ele fosse uma estátua de mármore fria e intocável bem ali no meio da sala.

O coração de Makayla batia estrangulado no peito e ela lutava contra o desespero crescente que contaminava suas veias.

O silêncio entre eles não era mais confortável.

— E então você me salvou... — Ela continuou a explicar, mas sequer sabia se estava sendo coerente. — Foi só um acidente, não planejei isso. Não invadi a sua mente, meio que foi você que invadiu a minha quando segurou meu braço. Eu não controlo essas habilidades, mal sei como funcionam. — Suas palavras vinham salpicadas de angústia. — Me desculpa. Eu juro que não estou de espionando para o governo, ninguém sequer sabe que eu te conheço.

Barnes tinha um olhar estóico, Makayla sentia que algo invisível os separava, não apenas a distância de dez passos, algo denso, imaterial, como uma muralha de gelo inquebrável.

— Supondo que eu acredite em você... — As íris azuis eram estalactites e as palavras masculinas, embora controladas, tinham arestas afiadas. — E depois? Todo aquele teatrinho, pra quê foi aquilo?

— Não era um teatro, eu só... — Makayla respirou fundo, o ar do apartamento parecia corrosivo naquele instante. — Eu me preocupei com você, acho que é inevitável quando se tem a vida toda de outra pessoa dentro da sua cabeça.

— A vida toda? — O olhar de Bucky se estreitou em desconfiança. — Você disse “fragmentos”.

A novem encarou o chão, seu peito doía, seus olhos ardiam, a impressão que tinha era que suas pernas falhariam em segurar seu peso. Ainda assim, ela sabia que Bucky tinha todo o direito de reagir daquela forma, e talvez isso fosse exatamente o que mais machucava...

— Foi diferente com você. Não sei o motivo, talvez os remédios que eu estava tomando tenham causado isso, eu realmente não sei... — Nada no mundo seria capaz de explicar o quanto ela detestava aquelas habilidades. — Eu não posso controlar ou explicar, eu só sei que aconteceu.

Bucky saiu de sua postura impenetrável e inabalável para passar ambas as mãos pelo cabelo de forma frustrada, deu dois passos incertos para a esquerda e para a direita, então soltou o ar de forma irritada.

Ele odiava aquilo, era perceptível, ela podia sentir em suas veias.

Quanto da minha vida você viu, Makayla?

Algo na forma como seu nome foi dito, tão duro e frio, fez com que os olhos da jovem se enchessem de lágrimas. Por um instante quis mentir, parecia mais fácil e menos doloroso, porém, pela primeira vez na vida, apenas verdades saiam de seus lábios.

— Tudo. — Respondeu, tentando não engasgar com as próprias palavras. — Eu vi e sei de tudo.

Bucky parou onde estava, um mundo de sentimentos passou por seus olhos muito rápido, Makayla até tentou decifrar todos eles, mas foi inútil, porque naquele instante ela mal conseguia processar os pensamentos de sua própria mente, estava sendo estrangulada pelas mentiras que ela mesmo tinha contado... Havia cavado a própria cova e a pior parte é que ela sabia muito bem disso.

Era possível ver a linha da mandíbula de Barnes tremular, tamanha a força com a qual ele tensionava o maxilar, uma das veias de seu pescoço estava saltada e seus punhos de vibranium se encontravam bem fechados.

— Acho que isso torna tudo pior, não é? — A acusação na voz de Bucky foi evidente, pesada, dolorida.

A pior parte era que Makayla podia ver no fundo daqueles olhos azuis o quão difícil tudo aquilo era para o próprio Bucky, ele se sentia traído. E ela soube, através daquelas malditas convicções intrusas, que aquilo era mais doloroso para Barnes do que qualquer outra coisa. Nem mesmo a partida de Steve havia apunhalado seu coração daquela forma.

— Bucky... — Tentou dizer e o nome soou como uma súplica em seus lábios.

Não sabia como consertar aquilo, talvez porque não tivesse conserto.

— Eu podia entender se isso fosse o seu trabalho. Eu sou um assassino, faz sentido o governo ficar de olho em mim, a Doutora Raynor faz isso... — Era dolorido sentir a mágoa na voz de Barnes.

— Foi um acidente, você tem que entender que... — Makayla não teve oportunidade de terminar aquela frase, porque Bucky a cortou.

— Ah, mas eu entendo. Você não controla essas habilidades, eu entendo isso. Você não escolheu ler a minha mente, eu entendo isso também. Mas tudo que veio depois...

Ele a encarou de forma dura, tão frio que queimava, porém por trás de tudo aquilo havia tanta dor, Bucky era como um animal ferido.

— Você podia ter me contado, no beco, no bar, no metrô, ali na rua. — A mão de vibranium apontou para a janela de forma enérgica, era possível ver o descontrole que ele lutava para combater, mas que escapava por seus gestos. — No meu maldito apartamento onde você passou horas em silêncio ou no parque. Você podia ter me contado e é isso que torna tudo pior!

— Eu ia te contar, mas ... — Makayla não encontrou um argumento bom o bastante, e mesmo que tivesse encontrado, ela não teria força para colocar em palavras coerentes.

— Mas você não contou. — Bucky decretou áspero, terrivelmente direto, embora sua voz tenha voltado para um tom ponderado. — Você escolheu mentir pra mim. E se o que você está dizendo é verdade, então você sabia exatamente o que isso significava.

Makayla encarou o chão, tentando conter as lágrimas que se acumulavam em seus olhos. A pior parte era que, sim, ela sabia.

Ela podia ter dito que aquilo não era tão diferente de Bucky ser incapaz de contar a Yori Nakajima quem ele era e o que havia feito. Mas era sim diferente. E, mesmo que não fosse, Makayla jamais seria capaz de abrir a boca para falar algo que atingisse Barnes daquela forma.

Não era justo ou certo usar aquilo contra ele. Sabia que já o havia machucado o bastante. E, dentre todas as coisas ruins que já tinha feito na vida — isso incluía todas as decisões erradas que levou as pessoas que ela amava direto para a morte, — aquela parecia a pior delas.

Porque Makayla sabia o exato motivo de mentiras serem tão particularmente devastadoras para Bucky Barnes. A Hydra costumava mentir para ele.

No curso dos anos, quando o Soldado Invernal se tornava errático e James emergia, os choques e torturas não eram as únicas técnicas usadas, eles precisavam que a parte resistente da mente de Barnes cedesse e usavam de mentiras pra isso. Diziam que ele era importante, o convenciam que o mundo precisava dele, que tudo aquilo era a coisa certa.

Mentiras tão doces e bonitas, que o cérebro confuso e despedaçado de Bucky se afogava nelas, e novo de novo; violência, choques e mentiras, um ciclo infinito e corrosivo que quebrou a mente dele em um milhão de pequenos fragmentos, algumas partes sequer poderiam ser coladas outra vez.

Makayla achava admirável e poético que mesmo em seu momento mais terrível, doloroso e desesperador, Bucky lutava tanto e tão profundamente que a única forma de o tornarem estável era convencê-lo de que ele estava fazendo o certo. O forçaram a acreditar que aquilo que ele fazia, aquele trabalho, era um presente para a humanidade...

Barnes não se achava um herói, mas que outra palavra haveria para descrever um homem como ele?

No entanto, o que realmente importava naquele instante era que, para Bucky, mentiras eram tão ruins quanto todos os outros métodos de tortura que ele sofreu por anos, talvez até piores, porque eram justamente essas palavras falsas, o mal disfarçado, que tornavam tudo mais confuso.

Makayla sabia de tudo isso... ainda assim, ela mentiu pra ele.

E, sendo o Bucky o herói daquela história, isso fazia dela a vilã?

Pensou em Brooks, em suas palavras sobre a verdade ser a melhor escolha em qualquer ocasião, soube que ele estava certo; se tivesse começado aquilo sendo honesta, não teria estragado tudo...

— Me desculpa. — Pediu, sua voz apenas um fio falho e frágil que está a um triz de se partir. A primeira lágrima escorreu por seu rosto. — Eu sinto muito, de verdade.

Podia dizer que não sabia como contar, mas de quê adiantaria? A verdade era uma só, ela era uma mentirosa, e Bucky odiava mentiras...

O olhar deles se encontrou no silêncio completo, um milhão de coisas não ditas pairando no ar. Barnes não se movia, e Makayla se sentiu estranhamente vazia, a certeza de que era uma pessoa destrutiva corroeu seus ossos e deixou nada mais que uma casca oca. Ela não sabia como estava de pé, não sabia por que ainda estava viva, outra lágrima rolou pesada, desceu queimando seu rosto e, no segundo em que levou para fazer o caminho até o piso escuro, a jovem questionou todas as decisões que havia tomado na vida.

Talvez devesse ter morrido no lugar de seu irmão, quantas tragédias teriam sido evitadas? Quantas pessoas inocentes poupadas? Cameron, os amigos, Kaleb, Danniel... Talvez, com o filho vivo, Emma não tivesse amargado tanta dor; o acordo de Sokovia sequer seria criado; os Vingadores nunca teriam brigado, estariam juntos contra Thanos; o CRG não existiria; não haveria um plano para dar o Escudo a John Walker; e Bucky nunca teria sido ainda mais machucado por uma garota estúpida que ele só havia tentado ajudar uma vez na rua...

Alguém tinha dito em algum lugar que, às vezes, um fiozinho é puxado no universo e isso aciona um inferno cósmico de sofrimento humano. Makayla era esse fio... ela tinha certeza disso.

Ela não estava amaldiçoada, ela era a maldição.

Outra lágrima pesada escorreu por seu rosto jovem, só então ela se deu conta que os olhos de Bucky também estavam marejados, ele abriu a boca como se fosse dizer algo, uma, duas vezes... Nenhuma palavra cortou o silêncio. Ele desviou o rosto, como se o simples fato de olhar para Makayla fosse doloroso.

E foi nesse momento que aconteceu... As íris azuis de Barnes ficaram paralisadas ali em um ponto a direita, toda sua expressão mudou, pânico, raiva e uma tristeza tão profunda que Makayla virou a cabeça naquela direção também, mesmo sabendo que não havia nada ali.

Mas havia sim.

A televisão estava ligada, Makayla ficara tão surpresa antes, com a presença de Bucky, que com certeza apertou o botão errado do controle e apenas mutou o aparelho, por esse motivo havia apenas a imagem sem som na tela. Ela também paralisou, o boletim especial estava transmitindo direto do Congresso, em Washington, e bem ali, nas escadas do Capitólio, um dos Senadores do país aplaudia efusivamente, acompanhado por um pequeno público e alguns soldados...

John Walker estava parado, acenando para a multidão, trajava azul e vermelho, um capacete de modelo muito familiar cobrindo-lhe o rosto, na mão direita o Escudo do Capitão América.

A manchete não deixava qualquer dúvida: “O Capitão América está de volta – País apresenta seu novo herói.”

— Não... — A voz de Makayla saiu em um sopro, apenas um pensamento solto dito em voz alta. — Ela adiantou as coisas...

Sabia que era sua culpa, seu confronto direto com a mãe tinha feito com que tudo fosse adiantado, Emma estava se prevenindo para caso a filha vazasse qualquer coisa para o público.

— Você sabia disso?! — Bucky questionou em um misto de irritação e indignação.

— Eu ia te contar... — Makayla respondeu, usando o tom de quem se desculpa.

— Claro, exatamente como ia contar que invadiu a minha mente. — As palavras vieram cruéis e afiadas como estalactites de gelo. — Exceto que nos dois casos você não contou.

Os olhares se cruzaram por um instante, era possível ver claramente o quanto Bucky estava transtornado, até o ritmo de sua respiração havia mudado, Makayla soube apenas de observar, que se John Walker estivesse ali Barnes certamente teria arrancado aquele escudo a força das mãos dele.

Intempestivo como em nenhum outro momento, Bucky cruzou a sala em direção a porta da qual Makayla havia acabado de se afastar. Ela sentiu a urgência se espalhar por seu peito, e não pensou muito antes de agir.

— Bucky... — Chamou, quase como se estivesse pedindo que ele esperasse.

Instintivamente ergueu a mão direita, no intuito inocente de segurar o braço de vibranium dele, mas nunca chegou a fazer isso de fato, porque Barnes se esquivou antes.

— Não me toca... — Ele advertiu e algo dentro de Makayla se partiu em mil pequenos pedaços. Um soco teria machucado menos.

— Não é assim que funciona. — Ela encontrou forças pra dizer, porque no fundo entendia o medo dele e o quão confusa e perturbadora era aquela situação, além disso Walker sorria na televisão e isso por si só devia tirar de Bucky qualquer fragmento de paz, razão ou controle.

Ela não o culpava por reagir daquele jeito, mas isso não fazia com que doesse menos...

— Não me importo. — Foi tudo que Bucky disse, antes de puxar a maçaneta e sair, batendo a porta atrás de si de um jeito violento.

Makayla ficou sozinha. Completamente sozinha. A sensação que tinha era a de quem presencia uma avalanche e fica preso nos escombros. Ela não conseguia se mover. Seu corpo todo tremia, de medo, de frio, de dor ou talvez de desolação, era impossível decifrar, tinha a nítida impressão que se tentasse dar um único passo seu corpo desmoronaria, era como se estivesse se equilibrando nos próprios ossos...

Então ela ficou bem ali, parada, absolutamente em choque, por uma quantidade incontável de segundos. Quando enfim se moveu, sentiu que apenas se arrastou até o sofá, seu corpo cedendo sobre o acento como se pesasse mais de dez toneladas. Seus olhos focaram nas imagens da tv, John Walker preenchia a tela, sorrindo como se aquele capacete ficasse bem, quando na verdade achatava a cabeça dele e o deixava orelhudo.

E de repente, vindo de lugar algum, a apatia de Makayla explodiu em uma raiva tão visceral e incontrolável que ela apenas lançou a primeira coisa ao alcance de suas mãos em direção a televisão. O controle remoto bateu na tela, mas aparentemente a jovem não tinha força o bastante para causar qualquer dano no aparelho.

Tateou o sofá em busca de mais alguma coisa, dentro dos bolsos de sua jaqueta encontrou o celular que tinha comprado de reserva, não precisava mais dele. Com toda a força que tinha ela lançou o aparelho contra a televisão, dessa vez fazendo um trinco cortar a tela de plasma deixando a imagem de John Walker distorcida e o smartphone inutilizável.

Um soluço estrangulado ficou preso em sua garganta quando um choro compulsivo e repentino abateu seu corpo, Makayla não sabia mais se as lágrimas seriam o bastante, porque doía e corroía por dentro, mas também fervia sob sua pele, entalado em seus pulmões, ela queria gritar, mas não sentia que tinha forças pra isso. Era como se o mundo estivesse desabando, tudo lhe voltando a mente de uma vez só; sua mãe, Bucky, John, Lemar, as mortes no caminho, as habilidades malditas... Era demais.

E foram apenas os próprios pensamentos, as próprias as dores, decepções e traumas, claro que as memórias intrusas de Barnes também se espalharam por toda a parte, instalando um caos em sua alma que parecia empurrá-la direto para o abismo.

Tudo rodava, se confundia, o choro descontrolado fazia seus pulmões se contorcerem e sua cabeça latejar, o enjoo crescente queimava por dentro, ela sequer viu o caminho até o banheiro de seu quarto, quando se deu conta já estava debruçada sobre o vaso, tentando vomitar tudo que havia em seu estômago... Mas não havia nada.

Makayla deixou que seu corpo caísse ali mesmo, enquanto se dava conta que não lembrava de sua última refeição. Nem havia tocado nas coisas ofertados no avião, estava preocupada demais com Bucky para sentir fome.

Bucky... Era tudo sobre o Bucky...

Mesmo naquele momento ela não sabia distinguir quais sentimentos eram seus e quais vinham das convicções intrusas dele, porque ver Walker com aquele escudo desencadeou uma dor tão visceral e uma raiva tão incontrolável que Makayla se sentiu puxada para um mar escuro e congelante, porém ainda haviam seus próprios sentimentos, a desolação completa, o desespero, o abandono, a solidão, coisas que lhe apertavam a garganta, fazendo com que ela não conseguisse emergir. Se o que vinha de Bucky lhe puxava para o fundo, as coisas que vinham de si mesma a impediam de respirar, de se mover. De nadar para a superfície.

Makayla sabia que estava prestes a se afogar...

Tudo se amontoava sobre ela, pesado demais para suportar. Naquelas longas horas, noite a dentro, Makayla questionou sua própria existência, suas atitudes, suas mentiras e seu valor. Se sentiu um lixo, menos que nada, inútil. E então teve raiva, da mãe, de John, do governo, do mundo e principalmente de si mesma.

Todavia, por mais que quisesse, porque talvez isso fosse tornar tudo mais fácil, ela não conseguiu sentir raiva de Bucky. O grande problema era que, a partir daquele momento, não eram apenas as memórias roubadas que lhe assombrariam; havia construído as próprias lembranças com ele, momentos bons e doces, um paralelo cruel e doloroso para a sequência de cenas ruins e ácidas daquela discussão, os olhares, o silêncio massacrante; existia agora, dentro dela, o sentimento opressor de culpa, de falha, de fracasso. E, principalmente, haviam três simples palavras que ficariam ali para sempre, ecoando em sua mente em looping como a sentença de uma condenação eterna:

“Não me toca.”

Tudo levava Makayla de volta para as habilidades que havia desenvolvido...

E foi assim, como alguém que vê a luz de um trem no fim de um túnel e acredita que é uma salvação, sem saber que se trata de uma tragédia eminente, que Makayla Devinne decidiu o que tinha que fazer.

Tinha que se livrar de tudo aquilo. Não importava como, não importava onde, não importava o preço; médicos, curandeiros, cientistas, loucos ou o que fosse, nem que tivesse que procurar bem lá no fundo da deepweb...

Acabaria com aqueles malditos poderes ou então morreria tentando.

Notas finais
¹ Apenas depois de 1950 surgiram os primeiros estudos pra transformar um massageador em um objeto projetado para o prazer feminino, enquanto a expressão "Ponto G" só veio surgir em 1981, então Bucky realmente não tinha como saber, coitado (me voluntário pra ensinar, inclusive). ²"Jeans Viajante" é uma referência ao filme "Quatro amigas e um jeans viajante" de 2005. E pois é... não deu bom... mas acho que não tinha muito como dar, ali no calor do momento com John Walker aparecendo na televisão. Muita dó dos dois bebês. Mas a parte boa é que ainda estamos no começo da fic, então tem muitaaa água pra rolar por baixo dessa ponte. E agora Makayla tá com umas ideias loucas... será vai dar certo? Enfim, oficialmente sábado eu tô de volta, extraoficialmente: assim que o capitulo ficar pronto eu apareço. Beijos e até.