Ela deu um salto da cama, o som do seu próprio grito estrangulado lhe despertando de um pesadelo horrível. Com a respiração irregular, o rosto suado e os fios castanhos totalmente bagunçados, Makayla Devinne tentou se acalmar. Suas mãos tremiam incontrolavelmente e havia um nó sufocante em seu peito.

Lá fora o sol mal tinha nascido direito, era uma manhã nublada e os tons frios do céu se infiltravam no quarto através da janela aberta. Makayla abraçou os joelhos e encolheu todo o corpo, se enrolando nas cobertas. Se sentia terrivelmente sozinha e apavorada...

Ainda podia visualizar as imagens de seu pesadelo tão realista. A estrada vazia. O motor da moto. O som de um tiro. Um carro batendo em uma árvore e um braço metálico se chocando contra um rosto conhecido... Mas a violência e sangue nas mãos do Soldado Invernal não eram a pior parte.

A pior parte era Bucky Barnes.

O homem paralisado dentro de sua própria mente, preso em seu corpo, lutando para se libertar. Makayla podia ouvir os gritos ecoando. Bucky não queria fazer aquilo, ele lutou contra as ordens, ele lutou contra si próprio, mas ele era apenas uma consciência presa em um corpo que não mais lhe pertencia, ele não tinha controle. Ele gritava, mas ninguém mais ouvia.

A não ser Makayla.

Naquele dia, quando o punho do Soldado Invernal atingiu o rosto de Howard Stark, algo dentro de Bucky Barnes se estraçalhou permanentemente. Aquele não era apenas um alvo. Ele era um amigo. Alguém com quem Barnes havia tomado cervejas no auge da guerra, alguém com quem havia rido em meio as batalhas que o Comando Selvagem enfrentou.... E mesmo assim Bucky não foi capaz de resistir às ordens.

Naquele dia ele soube que não tinha mais salvação. Foi quando ele entendeu que a única solução era morte.

Bucky nunca se sentiu mais falho e fraco do que naquele momento. Ele nunca se perdoaria.

Makayla era incapaz de tirar aquelas imagens de sua mente, elas continuavam vindo em looping junto com a certeza devastadora de que, durante todo o tempo, uma parte da consciência de Barnes permaneceu desperta e lutando. Quando ele emergia, era como voltar de um pesadelo; confuso, perdido, sempre incapaz de raciocinar por tempo o bastante para retomar o controle.

Sua mente foi quebrada em pedaços, moldada, programada, subjugada; suas vontades foram negligenciadas; suas necessidades básicas negadas; e seu corpo foi usado, abusado, cortado, remendado, e tudo de novo, cem vezes mais. O Soldado Invernal não era uma pessoa. Ele era uma coisa.

E Bucky se lembrava de tudo.

Isso significava que Makayla também lembrava.

O corpo feminino sacudia em um choro dolorido, estrangulado pela dor que naquele instante parecia dela própria e não de outra pessoa. Sua cabeça rodava, latejava, os gritos de Bucky estavam tatuados em suas sinapses nervosas.

Se sentiu repentinamente enjoada, a bile revirando em seu estômago e subindo por sua garganta, de modo que seu único impulso foi correr para o banheiro e abrir a tampa do vaso a tempo de colocar tudo pra fora, enquanto seus joelhos simplesmente cediam em direção ao piso frio.

Já não tinha mais certeza se aquele mal-estar era o indicativo de uma ressaca ou se era apenas um rebote dos pensamentos intrusos de Barnes...

Ela estava aguentando aquilo há apenas dois dias e já estava exausta, ele vinha convivendo com toda aquela tragédia por toda a vida. Sozinho. Makayla o admirou por isso, ao mesmo tempo em que seu coração se partiu por ele.

Bucky não merecia isso.

Ela deu descarga e fechou a tampa do vaso, mas não teve força ou vontade o bastante para se levantar do chão, arrastou o corpo pelo piso e se encostou no primeiro lugar disponível. A respiração indo e vindo desconexa e pesada, os pulmões trabalhando no limite.

Levou mais de meia hora para ter forças o suficiente para se colocar de pé, escovar os dentes e tomar um banho. Tudo rodava, não era apenas a ressaca, a força que precisava para manter todos aqueles pensamentos intrusos sobre controle a exauria totalmente. Como Bucky conseguia?

Ele não apenas se levantava todas as manhãs, ele ainda conseguia ficar de pé, perfeito, lindo como um Deus Grego no auge de seu poder, enquanto isso Makayla se olhou no espelho e viu apenas uma garota abatida que parecia não dormir há três dias.

Enquanto se arrastava para a cozinha em busca de uma garrafa de água gelada, ela inevitavelmente se lembrou da noite anterior. Tinha sido muito agradável.

Era fácil ficar perto de Bucky, o silêncio que compartilhava com ele era confortável e mesmo as conversas dolorosas eram, de alguma forma, um certo consolo para suas dores. Além disso ele era absolutamente atraente, Makayla conseguia lembrar do desejo insano de beijar a boca dele que lhe acompanhou em vários momentos da noite.

Será que o gosto dele era tão bom quanto parecia? Isso era algo que nem mesmo os pensamentos intrusos eram capazes de responder, obviamente Bucky não sabia o gosto do próprio beijo.

E Makayla também nunca saberia...

Já era muito ruim que tivesse lido a mente dele uma vez por acidente, fazer de novo, só que de propósito, estava totalmente fora de cogitação. Bucky não merecia isso.

Ainda assim, queria vê-lo outra vez, queria estar com ele e ajudá-lo de alguma forma, qualquer uma. Ela acreditava que se havia alguém no mundo que merecia algo bom, esse alguém era Bucky Barnes. E, se de alguma forma Makayla pudesse contribuir para aliviar em 1% o sofrimento dele, então ela faria qualquer coisa para que isso acontecesse.

Era o mínimo...

Tinha acabado de esvaziar uma garrafa de água, quando três batidas ritmadas na porta lhe fizeram revirar os olhos. Automaticamente, Makayla mirou o relógio digital da cozinha, eram sete da manhã. Feltz costumava aparecer cedo, mas naquele dia ele havia se superado.

Idiota inoportuno e chato.

Makayla abriu a porta sem o mínimo sorriso no rosto.

— Que ótimo que você acordou cedo sozinha uma vez na vida. — Ele pareceu surpreso por um ou dois segundos, mas em seguida apenas empurrou um pacote nas mãos da jovem e entrou no apartamento como se tivesse sido convidado. — Te trouxe café da manhã. — Apontou o embrulho nas mãos dela. — Seu preferido.

Makayla notou que havia outra sacola preta com Feltz, mas simplesmente ignorou isso.

— Como você sabe que é meu preferido? — Ela questionou sem nenhuma empolgação.

— Sua mãe me disse. — Feltz respondeu simples, se jogando no sofá como se fosse o dono da casa. — Ela também disse que temos que achar outro terapeuta pra você.

— Por que? — Makayla estranhou, seguindo para a cozinha e colocando o pacote sobre a bancada, realmente era seu croissant preferido, de uma padaria ali por perto.

O mesmo que Cameron costumava comprar pra ela, todas as vezes que ia visitá-lo...

— Eu disse que você está tendo dificuldades de se adaptar com aquele um... — Feltz declarou, fazendo com que a jovem desistisse do croissant por pura birra dele.

Ele não tinha direito de trazer aquilo pra ela.

— E quem disse isso pra você? — Makayla retrucou irritadiça.

— Isso não importa, eu percebi, reportei, e sua mãe mandou procurarmos outro, faremos isso. — O homem devolveu em sua frieza profissional.

Makayla teve um instinto repentino e extremamente violento, sua mente lhe forneceu uma sequência de imagens para ilustrar todas as formas que ela podia quebrar o nariz ridículo de Feltz. Mas nenhum daqueles impulsos eram dela de verdade, eram apenas reflexos intrusos da da violência que tinha sido colocada a força na cabeça de outra pessoa.

Instantaneamente ela soube que Bucky lidava com isso o tempo todo, havia um instinto assassino dentro dele, uma parte remanescente de todo o treinamento de anos. Ele não pertencia mais a Hydra, porém sempre teria que trabalhar para controlar o Soldado Invernal escondido debaixo de sua pele. E o autocontrole dele era impressionante.

— E quando minha mãe te disse isso? — Makayla tentou focar em seus atuais problemas, não podia mergulhar nas dores de Bucky daquele jeito.

— Ontem à noite, enquanto você se esgueirava desse prédio como uma fugitiva. — Feltz disse com a acusação em cada sílaba. Merda! — O porteiro disse que te viu sair, e considerando que ele não te viu voltar, presumo que você só tenha feito isso muito depois que o turno dele acabou.

Porteiro fofoqueiro!

— Eu não sabia que era prisioneira dentro da minha própria casa. — Makayla retrucou em uma casualidade controlada.

— Eu te dei uma ordem direta e...

Ela não permitiu que Feltz completasse sua frase:

— Muito pretencioso da sua parte achar que um dia eu aceitarei ordens de você.

O impulso de jogar uma faca naquele homem intrometido foi tanto que Makayla teve que prender a respiração e dar as costas.

— Onde você estava? Sua mãe vai querer saber! — Feltz teve a audácia de gritar.

— Pode deixar que eu mesma falo com a minha mãe! — Foi tudo que Makayla se importou em dizer, antes de sair daquele cômodo e se trancar no próprio quarto, agarrando o telefone fixo sem fio e discando furiosamente para o celular da única pessoa que podia acabar com aquele maldito cárcere privado.

Se Emma Kennedy não fizesse alguma coisa, Makayla estava certa que desperdiçaria seu réu-primário até o fim do dia...

O telefone chamou três vezes, antes de ser atendido pela voz conhecida:

— Estou bastante ocupada agora, Kayla. Não podemos falar depois?

Nenhum “oi, minha filha”, nenhum “como você está”, nenhum “que bom que ligou, estava com saudades”. Emma atendeu seca, fria e absurdamente prática. Makayla geralmente não teria se importado com nada disso, porque afinal Emma era assim, sempre ocupada demais com o trabalho. Mas naquele instante, uma convicção intrusa disse à jovem que aquele comportamento não estava certo...

— Oi pra você também, mãe. Vai ser bem rápido, prometo. — Makayla dispensou desconfianças que não eram suas e focou em seu problema mais urgente. — Diz pra esse homem que você colocou de babá pra ir embora. É só isso.

Emma sequer titubeou do outro lado da linha:

— Você sabe que eu não posso fazer isso, querida. Ele está aí para a sua própria segurança, e seu desmaio na rua só provou que Feltz é essencial.

— Meu desmaio foi uma situação isolada. — Makayla retorquiu de imediato.

— Seu estado de saúde é delicado.

A resposta em tom calmo de Emma fez com que a jovem respirasse fundo. Depois do blip tinha ficado ainda mais difícil de lidar com ela...

— Eu sei, mãe. Mas me sinto ótima hoje, eu não tenho alucinações faz muito tempo, e sinto que posso melhorar de verdade agora que os remédios fizeram o seu papel. — Tentou apelar para argumentos lógicos, sem deixar que isso destruísse suas mentiras. — Só que eu vou sempre me sentir estranha com esse cara me seguindo pra toda parte e controlando minha vida. Eu já sou adulta, lembra?

— Eu sei. Mas você sempre vai ser minha menininha. — Emma respondeu em um tom carinhoso. — É importante pra mim saber que você está segura e eu confio plenamente no Feltz pra isso. Ele fica.

Pela primeira vez na vida a palavra “manipulação” se ascendeu em letras neon na mente de Makayla... Não era um pensamento que vinha das convicções dela, afinal Emma Kennedy sempre falou daquele jeito, sempre deixou clara a sua preocupação e o seu amor, sempre quando tinham uma discussão na qual ela não queria ceder.

Makayla jamais havia questionado isso ou estranhado aquele comportamento, isso até que as convicções desconfiadas de um soldado centenário se espalharam pela mente dela.

Era um novo ponto de vista.

— Como eu posso me ajustar ao novo normal assim, mãe? — Makayla continuou a argumentar, balançando a cabeça para as próprias paranoias. Aquilo era besteira. — Eu sequer posso conhecer novos amigos, porque tem um esquisitão assustador sendo minha sombra o tempo todo.

Feltz era um incômodo, de fato, mas nunca tinha chegado a ser um problema, no entanto se Makayla pretendia construir uma amizade com Bucky — um Vingador, super soldado e ex-arma da Hydra — era melhor que sua mãe não soubesse, e isso significava que Feltz também não podia saber.

Ele tinha desconfiado que conhecia Bucky depois um único olhar, certamente o reconheceria caso dessem de cara um com o outro pela segunda vez.

— Esse é o seu novo normal, Kayla. Você é minha filha, você é importante pra mim e eu sou importante pra muita gente. Pessoas podem querer tirar vantagem disso. — Emma estava irredutível e por mais que Makayla julgasse entender aqueles motivos, havia algo que sua mente dizia ainda não se encaixar. — Se os seus novos amigos não são capazes de entender sua realidade e a importância da sua segurança, então eles não servem pra ser seus amigos.

A jovem tinha que pensar rápido, teria que dar um motivo absolutamente pessoal para que Emma afastasse Feltz...

— A cara feia dele está me condenando a uma vida de celibato e solidão. — Era estúpido, mas foi a primeira coisa na qual ela conseguiu pensar.

Sua solidão era uma constante desde antes do blip na verdade, o celibato no entanto era uma forma de proteção. Desde que havia desconfiado que tocar nas pessoas causava aquelas “alucinações” Makayla estava evitando contato físico com qualquer um...

— Não exagera, Kayla. — Emma repreendeu e, por um segundo, um leve tom de irritação e tédio foi notado.

— Eu não estou! — A jovem retorquiu. — Ele espanta todos os caras, sexo é impossível e eu sequer posso comprar um vibrador, porque tem uma sombra me seguindo e me impedindo de ter privacidade.

Não era totalmente mentira, mas com certeza era uma verdade bastante dramatizada. Situações desesperadoras pediam medidas desesperadas.

— Compre vibradores pela internet, é o que as mulheres modernas fazem. — A irritação de Emma escapou por suas palavras. — E por favor, me poupe dos detalhes da sua vida sexual, apenas não se envolva em escândalos e não fique grávida.

— É, porque isso seria péssimo para sua carreira. — Makayla retrucou ironicamente.

— Não seja injusta, Kayla. Eu estou fazendo algo muito importante pelo mundo. — A resposta veio em um tom maternal, mas repreensivo.

— Eu sei, mãe. Desculpa. — Tudo que Makayla menos desejava era entrar em guerra com a própria mãe. A única família que ela ainda tinha.

— Olha só, vamos fazer assim... — O tom prático de Emma era um tanto frio. — Eu respeito sua independência e você entende que eu fico mais segura sabendo que o Feltz está por perto. Então ele fica, mas folga duas vezes por semana desde que você prometa não fazer nada arriscado, sempre ficar atenta e ligar caso aconteça qualquer problema. O que acha?

Makayla franziu as sobrancelhas, parecia uma pequena vitória, mas aquele letreiro neon de alerta continuava a piscar em sua mente.

— É... já é alguma coisa. Obrigada, mãe. — Disse apenas, tentando fugir daquela desconfiança tola que havia impregnado em sua cabeça.

— Tudo por você, querida. Quem mais eu tenho, não é? — Emma respondeu em um tom carinhoso, que Makayla simplesmente não conseguiu achar honesto.

Por que estava agindo assim com a própria mãe? Que pensamentos estúpidos.

— Espera. — Ela pediu antes que o telefone fosse desligado. — Pode atualizar o Feltz de tudo isso, tipo agora? Ele não vai acreditar em mim se eu disser.

Emma não pareceu exatamente satisfeita com isso, mas cedeu, dessa forma Makayla destrancou a porta do próprio quarto e encontrou Feltz na sala, comendo os croissants que deviam ser dela.

— Sua patroa quer falar com você. — Ela disse, parada há vários metros de distância dele.

Feltz apenas esticou o braço e pegou o outro aparelho fixo que ficava na sala. Makayla desligou a extensão que estava em sua mão, assim que ele disse um “pronto” excessivamente formal para Emma do outro lado da linha, mas ficou ali parada de braços cruzados, esperando pra ver a cara do idiota quando soubesse que não ficaria andando atrás dela feito uma sombra o dia todo.

Mas ao invés de começar a conversa Feltz caminhou até ela, invadiu seu espaço pessoal e arrancou o outro aparelho de Makayla, as mãos deles só não se tocaram porque ela foi absolutamente rápida em largar o objeto e se afastar.

— Um pouco de privacidade, por favor... — Ele teve a audácia de dizer, com a mão tampando o bocal do telefone.

Homenzinho detestável.

— Ah olha só, você sabe o que “privacidade” significa. — Makayla debochou, dando meia volta e batendo o pé até o próprio quarto.

Em qualquer outro momento da vida ela teria visto aquela atitude de Feltz como uma idiotice birrenta ou uma demonstração escrota de poder, mas daquele instante uma outra convicção tomou conta de sua mente. Ele não queria que ela ouvisse a conversa.

Podia ser apenas por motivos óbvios de privacidade, afinal não era educado ouvir a conversa alheia, no entanto havia essa certeza militar na mente de Makayla que aquilo era algo mais. Algo pior.

E fácil assim, como se uma pequena chave ligasse todos os instintos e reflexos dela de uma vez só, Makayla simplesmente agiu...

Destrancou a porta do quarto novamente, largou os sapatos em qualquer lugar e, pé ante pé, sem fazer barulho, ela passou para o outro quarto que havia no corredor. Com um aperto doloroso no coração Makayla encarou a cama que um dia pertencera a seu irmão, no entanto não havia tempo para ficar triste ou lamentar, rápida e silenciosamente ela pegou o terceiro aparelho fixo da casa que ficava sobre a mesinha de cabeceira.

Com o bocal tapado para que nenhum som vazasse pelos falantes, ela colocou o telefone no ouvido, passando a escutar a voz de Feltz através da extensão...

— ....mesmo assim... não devia deixar a teimosa ganhar.

— Ah, querido, não se engane, eu aprendi a conceder vitórias ilusórias ao povo, é isso que estou fazendo com ela. Eu finjo que cedi, mas na verdade já tenho outros planos. — Emma tinha um tom frio e prático.

— Estou ouvindo. — Feltz declarou prontamente.

— Kayla é uma garota obstinada, ela não confia em você, portanto, se está escondendo alguma coisa não vai deixar justo você saber disso. Mas agora ela vai pensar que está tudo bem, porque você vai estar de folga... Então você vai seguí-la e me informar o que descobre.

Makayla prendeu a respiração, sequer conseguia acreditar que sua própria mãe tinha acabado de dizer aquilo... Suas pernas ficaram moles e ela simplesmente teve que se sentar para não cair.

— Perfeito. E quanto ao psicólogo? — Feltz questionou sem qualquer emoção na voz.

— Arrume outro, aquele doutor não vai cooperar comigo, isso já ficou claro... — Emma respondeu praticamente no mesmo tom.

Makayla não conseguiu ouvir mais. Abaixou o telefone e uma lágrima pesada escorreu por seu rosto jovem. Sua própria mãe não confiava nela. Conforme as coisas se encaixavam em sua mente, o único motivo plausível que lhe ocorreu foram as malditas habilidades.

Então era tudo por isso? O simples indício de que ela poderia ser diferente a tornava indigna de confiança? Alguém que precisava ser monitorada?

Deus! Estava claro que até mesmo Jackson Brooks estava no meio de tudo aquilo. Mas por algum motivo ele não quis cooperar com Emma.

Makayla mal teve tempo de processar ou pensar em como agir, estava totalmente sem chão. Sentia que perderia sua única família por causa daquelas habilidades idiotas, que ela sequer queria pra começo de conversa...

Sempre soube que estava maldiçoada.

Quis ficar ali sentada e chorar por dias, no entanto a voz de Feltz chamando fez com que Makayla se desse conta que não havia tempo pra isso. Ela se levantou, secou as lágrimas e respirou fundo, indo se encontrar com o maldito que estava sendo pago para lhe vigiar.

— Esse quarto não é o seu... — Ele apontou com as sobrancelhas franzidas, assim que viu a direção da qual ela vinha.

— Preciso de permissão pra estar no quarto do meu irmão? — Makayla devolveu, tentando conter o ódio que borbulhava em suas veias. — Além disso, agora essa é a minha casa, eu posso estar onde eu quiser.

— Tanto faz. Aqui, pega. — Ele ergueu a sacola preta com a qual tinha entrado no apartamento. — O seu celular foi destruído, tomei a liberdade de conseguir outro, sei que vocês jovens não vivem sem essas porcarias.

Makayla encarou o objeto e teve a convicção absoluta que aquele aparelho estava grampeado. Provavelmente o que foi atropelado pela moto também estava, Feltz só estava substituindo uma ferramenta avariada, afinal que jeito melhor de seguir alguém se não pelo próprio smartphone?

— Obrigada, você não é tão inútil assim... — O sorriso cínico que ela abriu tinha um instinto puramente assassino no fundo.

— Não me ofenda. — Feltz repreendeu sem emoção, então apontou o telefone. — Estou de folga pelo que parece. Coloque meu número na discagem rápida e nos contados de emergência. Se algo acontecer com você de novo quero ser o primeiro a saber.

Uma parte de Makayla cogitou realmente abrir mão do réu-primário naquele momento. Quer dizer, provavelmente nem seria tão difícil assim, afinal sua mente estava impregnada com as técnicas absolutamente apavorantes do Soldado Invernal... No entanto, quando a imagem de Barnes surgiu em sua cabeça, ela tirou um segundo para pensar no que ele faria.

Não podia resolver aquela situação assassinando ninguém, mesmo porque, a morte misteriosa de seu homem de maior confiança apenas deixaria Emma Kennedy mais desconfiada...

Makayla precisava ser esperta, se queria a mãe de volta, exatamente como era antes, então tinha que fazer com que ela se convencesse de que não havia habilidade alguma para se preocupar. E ela sabia como fazer isso...

No entanto precisaria despistar o agente treinado bem na sua frente primeiro, afinal, com folga ou sem folga, Feltz a seguiria como um cão farejador. Felizmente, Makayla dispunha de todas as memórias do Soldado mais antigo vivo.

Bucky havia fugido por dois anos antes de ser achado em Bucareste, com certeza ela seria capaz de descobrir algo nas lembranças dele que lhe ajudassem a despistar Feltz por um dia.

E pra começar tudo isso, a primeira coisa que Makayla precisava fazer era dar uma justificativa plausível para sua antipatia natural contra Feltz, algo que ele acabaria por compartilhar com Emma e assim seria menos uma coisa pesando naquela teoria do “ela não gosta de você porque está escondendo alguma coisa”.

Um bom e velho ciúme de filha seria o bastante.

— Você está transando com a minha mãe? — Ela perguntou em alto e bom som, antes que Feltz se afastasse demais.

— Como é que é? — Ele se virou em choque completo, mas Makayla manteve a pose de filha protetora.

— Não me faça repetir.

— Pelo amor da Nação, menina, tenha mais respeito com a sua mãe! — Feltz exclamou tão ultrajado que a jovem começou a desconfiar que aquilo realmente estava acontecendo.

Eu tenho, quero saber se você tem... — Retrucou, mantendo seu teatro.

— Espera... — Ele parou por um instante com as sobrancelhas franzidas. — É por isso que você não gosta de mim?

E bingo! O peixe mordeu a isca!

— Só fique sabendo que, transando com a minha mãe ou não, você não é meu pai. Você nunca vai tomar o lugar dele. — Makayla cruzou os braços, aquela parte de sua encenação era verdadeira.

Ninguém jamais seria capaz de tomar o lugar de Danniel Devinne.

— Sim, senhorita Devinne, como desejar. — Feltz assumiu uma postura profissional mais respeitosa, dando a entender que tinha entendido muito bem o recado. — Estou dispensado?

Makayla assentiu de forma simples e o homem se foi, claro que ele ter acreditado naquela pequena cena não resolveria tudo, mas era o primeiro passo, todos os outros ela daria no restante do dia.

Já sozinha no apartamento que um dia pertencera a seu irmão, ela respirou fundo e fez um suco, logo depois abriu o celular suspeito, o configurando normalmente, como se não tivesse nenhuma desconfiança, enquanto isso sua mente já trabalhava em todas as coisas que as lembranças de Bucky poderiam lhe ensinar sobre despistar perseguidores e fugir.

As memórias sobre o tempo em Bucareste eram as mais preciosas, Makayla tentou focar apenas na parte técnica e abster da confusão, medo, culpa e solidão que povoavam a mente de Barnes naquela época.

Pela próxima hora ela se sentou e montou seu plano minuciosamente. É claro que estava assustada, incerta e ainda devastada com a verdade, mas focar no que teria que fazer durante aquele dia lhe ajudou a desassociar dos pensamentos ruins. Não tinha tempo para se sentir traída, abandonada e triste.

O primeiro passo de seu plano começou em casa, do pequeno cofre particular dentro do closet ela tirou as joias que possuía, não eram muitas porque nunca gostou de joias ou nada assim, mas Emma gostava de dar aquele tipo de presente, então não foi difícil encontrar um conjunto de ouro caro e de muito bom gosto.

Quando o horário comercial iniciou, Makayla colocou os pés para fora do apartamento, se vestia com cores quentes e chamativas, os cabelos presos em uma trança, sem esquecer, é claro, as luvas que eram um acessório de segurança. No bolso, apenas o básico, identidade, cartões, o celular que a monitorava e a caixinha com o conjunto de ouro.

Passou pela portaria e alcançou a rua, andando sem pressa e despretensiosamente, sabia que seria seguida e o segundo passo era não se preocupar com isso. Ela tinha que parecer distraída e despreocupada.

Sendo assim, sua primeira parada foi aleatória, era seu dia sem Feltz, então ela tinha que se parecer com uma garota normal de vinte anos que saiu para fazer coisas igualmente normais. Passou em uma cafeteria e comprou uma bebida quente. Olhou vitrines diversas enquanto caminhava. Fez absolutamente nada dentro da primeira hora.

Quando a segunda hora começou, Makayla passou a entrar nas lojas, compras diversas, sacolas e sacolas; foi a um sexshop também, exatamente como tinha dito para Emma. Escolheu o vibrador que mais gostou e saiu dali com outra sacola, eram muitas, de modo que seria impossível não vê-la de qualquer lugar, o que tornava tudo muito fácil para qualquer um que quisesse seguí-la.

Era hora do terceiro passo.

Makayla e suas incontáveis sacolas entraram no melhor centro de estética feminina de Manhattan, não havia um só procedimento que aquele lugar não oferecia, era exatamente o que ela precisava.

Rapidamente ela olhou as opções disponíveis e calculou qual seria a mais rápida.

— Queria fazer a sobrancelha, por favor. — Ela disse para a moça na recepção.

— Infelizmente apenas com hora marcada, querida. — A resposta era exatamente o que Makayla esperava.

— Poxa que pena, acha que consegue me encaixar no último horário do dia? — Sorriu simpática.

Um procedimento rápido no último horário do dia era a melhor coisa que podia acontecer com aquelas profissionais. A recepcionista sorriu também. O foi horário marcado conforme o planejado, era hora do próximo e principal passo.

— Eu posso usar o toalete, por favor? — Makayla questionou com um sorriso inocente.

Foi educadamente conduzida ao lugar com suas muitas sacolas. Assim que ficou sozinha trancou a porta e procurou por algumas peças que havia comprado, cores neutras e básicas, jeans colados e jaqueta, nada diferente do que milhares de pessoas usavam nas ruas movimentadas daquela região. Soltou a trança e colocou uma touca de crochê cinza. Depois disso carteira e celular foram para uma das sacolas, no bolso apenas a caixinha com o conjunto de ouro e nas mãos outro par de luvas.

Quando saiu do banheiro procurou pela recepcionista.

— Hey, posso te pedir dois favores? — Sorriu o mais amigavelmente que podia. — Vocês têm um guarda volumes? — Mostrou as diversas sacolas. — Tenho muita coisa pra fazer hoje ainda, mas não queria ter que andar com esse monte de coisas o dia todo.

— Olha, até temos, mas pra esses casos cobramos a parte. — A mulher falou simples.

— Perfeito. — Makayla abriu ainda mais o sorriso.

Depois de guardar as sacolas e se livrar de todo o peso extra, faltava apenas uma última coisa.

— Então... — Ela começou em uma descontração falsa. — Hoje é o aniversário do meu pai, e eu pedi pra ele passar o dia comigo, mas estou enganando ele, fazendo com que pense que vou ficar aqui o dia inteiro enquanto ele espera lá fora sozinho. Mas na verdade eu vou sair e montar uma festa surpresa. Acha que pode me ajudar me deixando usar a saída de funcionários?

Felizmente a recepcionista se empolgou demais com a ideia e adorou colaborar com a mentirinha. Pessoas adoravam surpresas.

Assim, antes mesmo das onze da manhã Makayla deixou o lugar pela porta dos fundos, vestida com roupas totalmente diferentes e sem qualquer sacola. Nada do que Feltz esperaria. Enquanto isso, seu celular grampeado permanecia ligado e guardado dentro do estabelecimento, para qualquer um que fosse monitorar ainda acreditasse que ela também estava lá dentro.

Ninguém desconfiaria de uma jovem de vinte anos gastando o dia todo em uma clínica de estética.

No fim do dia, quando Makayla tivesse feito tudo que precisava, ela voltaria para a clínica, faria as sobrancelhas e sairia pela porta da frente com as mesmas roupas de cores quentes de antes e com os cabelos, que haviam entrado trançados, agora soltos.

Era o disfarce perfeito. Feltz não ousaria estragar sua “missão” entrando na clinica para procurar por ela. E era homem, a mudança no penteado seria o suficiente para que ele pensasse que ela realmente ficou envolvida em muitos procedimentos estéticos.

Makayla teria até mesmo a nota do porta-volumes com o horário de sua estadia e, para que ficasse registrado um alto valor em sua fatura do cartão — que certamente era monitorada também — ela compraria um pacote completo de serviços pra usar qualquer outro dia.

Isso a levava direto para o último ponto da primeira parte daquele plano, estava livre, verdade, mas não podia usar seu próprio cartão, afinal, para todos os efeitos estava o dia todo na clínica. Precisava de dinheiro vivo. E não podia tirar de sua própria conta, já que isso podia gerar suspeitas. Por isso o conjunto de ouro, ela parou na primeira loja de penhores e fez a negociação.

Tudo que ela havia aprendido na mente de Barnes. Pagar sempre em dinheiro; usar toda e qualquer vantagem; enganar o inimigo; deixar que ele pense que está no controle... Claro que Makayla tinha visto Bucky fazer aquilo de formas muito diferentes, mas a premissa era a mesma, ela adaptou para as próprias necessidades e explorou os seus pontos fortes. Era uma mulher e era uma ótima mentirosa.

Mas nunca teria conseguido sem a mente estrategista de Bucky Barnes lhe guiando.

Com isso resolvido, ela podia finalmente focar na parte mais importante do plano, uma que dependia exclusivamente dela. Tinha que fazer com que sua mãe acreditasse que não havia qualquer habilidade e só havia uma pessoa que podia convencê-la disso...

Cerca de meia hora depois Makayla estava invadindo o consultório de Jackson Brooks sem ser anunciada.

— Preciso falar com você. — Disse, assim que passou pela porta, ignorando a recepcionista atrás dela.

O doutor estava em uma chamada de vídeo com alguém.

— Papai te liga depois, meu bem... — Ele disse carinhoso e a voz infantil de uma garotinha se despediu.

Brooks respirou fundo em uma calmaria que não condizia com a invasão e apenas fez um sinal para que a recepcionista os deixasse sozinhos.

— Por que não se senta? — Ele apontou o mesmo sofá que Makayla havia ocupado durante a terapia dias antes.

— O que minha mãe quer de você? — A jovem dispensou formalidades e permaneceu de pé. — Por que ela acha que você não vai cooperar com ela? E por que ela quer tão desesperadamente que eu mude de terapeuta?

Você quer mudar de terapeuta? — Brooks rebateu todas as perguntas com outra totalmente diferente. Mania de analista.

— Responde as minhas perguntas, isso não é uma consulta. — Makayla foi enfática.

Brooks encarou sua paciente por alguns instantes, e suas palavras seguintes vieram controladas e bem pensadas.

— Sua mãe está muito preocupada com você.... Infelizmente a preocupação dela é um pouco invasiva e, embora meu histórico como paramédico militar tenha me dado essa posição, eu não trabalho para o governo, eu trabalho para meus clientes, a privacidade deles é meu dever.

Makayla percebeu que o doutor estava tentando não destruir o relacionamento de mãe e filha com o que sabia, ao mesmo tempo em que queria ser respeitoso. Era um homem de ética. Se sentiu confortável o bastante para sentar finalmente.

— Ela quer que você quebre o sigilo médico... — Afirmou, notando que a negativa de Brooks em fazer isso era o que havia impelido Emma a ordenar a troca de terapeuta.

Isso não podia acontecer.

— Ela não acha que deva existir segredos entre uma filha e sua mãe. — Era evidente que Jackson ainda estava tentando não falar mal de Emma Kennedy.

A questão ali era que ambos, médico e paciente, não sabiam se realmente podiam confiar um no outro, Brooks jamais falaria mal de uma mulher poderosa como Emma para sua própria filha, afinal ele não sabia se podia confiar na jovem. Makayla respirou fundo e resolveu dar um salto de fé. Claro que ela podia ter tirado a luva e simplesmente lido a mente do terapeuta, então saberia com convicção se ele era ou não alguém com quem ela podia contar. Mas já era muito difícil lidar com Bucky dentro da sua cabeça, ela não precisava de mais.

— Isso é sobre minhas supostas habilidades, não é? É por isso que você mudou de ideia... — Ela resolveu colocar todas as suas suspeitas e teorias na mesa. — Na nossa primeira sessão você não acreditava que eu tinha qualquer habilidade, vinte horas depois, no hospital, você tinha uma teoria completa sobre a origem e a forma como essas supostas habilidades podiam funcionar... Provavelmente minha mãe te mandou um longo e-mail expressando suas desconfianças e enfatizando o quanto se preocupa com minha segurança, ela quer saber se eu tenho habilidades, mas não me considera confiável o bastante para responder uma pergunta direta, então ela quer que você descubra e conte pra ela. Estou certa?

Brooks se arrumou melhor na cadeira, era possível perceber que ele estava interessado.

— Pelo visto você conhece muito bem sua mãe... Ela está preocupada com isso sim, e também em como a morte do seu pai está te afetando, Emma tem medo de que você não lide bem com isso.

Não, Makayla não conhecia. Nem em um milhão de anos ela seria capaz de desconfiar que Emma Kennedy faria algo daquele tipo. Venerava aquela mulher, seu maior medo era decepcioná-la. O único motivo pelo qual descobriu tudo a tempo, foi porque as convicções ressabidas de Bucky, presas em sua mente, lhe alertaram.

Ele continuava a salvar Makayla repetidas vezes, mesmo que não soubesse disso.

— Eu preciso que diga que vai colaborar com ela. — Declarou finalmente. — Preciso que volte atrás e diga que talvez seja mesmo importante deixar alguém responsável a par do meu progresso.

— Está me dando permissão pra quebrar seu sigilo médico? — Brooks franziu as sobrancelhas em confusão.

— Não. Eu estou te pedindo pra mentir, Doc. — Makayla corrigiu firme. Era tudo ou nada.

— Você tem habilidades. — Ele deduziu certeiramente.

— Você disse que quer me ajudar. E eu quero acreditar em você. — A jovem declarou. — Mas preciso de uma prova. Eu preciso que minta por mim.

— Então você quer que eu minta para uma das mulheres mais importantes do mundo? — Jackson colocou aquilo tudo em uma frase simples.

Era loucura. E Makayla sabia disso, mas era única chance que ela tinha.

— Não. Eu quero que você minta para uma mãe que vai odiar a filha se souber a verdade. — Ela corrigiu, expressando seu maior e único medo.

— Esconder a verdade, não vai fazer com que ela suma, Makayla. — O doutor expôs a cruel realidade.

Todavia ela também já sabia disso. As habilidades ainda estariam lá, porém se Emma acreditasse que não, se ela acreditasse que nada havia mudado, então Makayla poderia ter um pouco de paz. Talvez Feltz voltasse para o buraco de onde havia saído.

Talvez as coisas ficassem bem.

Ela ainda teria as malditas habilidades, teria que se policiar o tempo todo para não tocar em ninguém, teria que abrir mão de todo e qualquer contato humano, talvez para sempre, teria que mentir todos os dias... Mas, se no fim conseguisse manter a única família que ainda tinha, então valeria a pena.

Se sua própria mãe lhe odiasse, o que mais restaria para Makayla?

— Eu sei... — Ela disse respirando fundo e só então notando o quão exausta estava. — Mas eu não tenho escolha. Você disse que quer me ajudar, é desse jeito que você vai.

Jackson analisou a garota por alguns instantes, até que por fim balançou a cabeça positivamente.

— Tudo bem. Temos um acordo, Makayla.

A jovem quase agradeceu os céus por isso. Não era como se fosse confiar cegamente no terapeuta a partir daquele momento, mas era um começo...

Jackson ficou de falar com Emma e então entrar em contato para marcar a próxima consulta, depois disso Makayla deixou o consultório. Já dentro do elevador, ela respirou fundo, o mundo inteiro pesando sobre seus ombros e a realidade finalmente cobrando seu preço.

O que faria da vida se aquilo desse errado? O que sua mãe faria com ela, caso descobrisse?

Não haviam perspectivas boas de futuro...

Makayla estava exausta, nunca havia se sentido tão sem esperança e tão sozinha. Sempre teve seu pai. Nos piores momentos, quando a dor se tornava sufocante, Danniel sempre estava lá, mesmo quando estava perdida sempre havia um lar para o qual voltar. Agora tinha apenas um apartamento vazio.

Foi só então que ela se deu conta que não existia mais ninguém no mundo que a amaria completamente... Emma nunca aceitaria as partes que Makayla estava tentando esconder.

Nunca mais poderia abraçar a única mãe que conheceu, sem ser uma invasora de mentes.

De um jeito ou de outro, mesmo se seus planos dessem certo... Makayla já havia perdido.

★☆ • ★☆ • ★☆

— Mil quinhentos e doze... — Ele soprou em um só folego. — Mil quinhentos e treze...

Uma vez mais seu corpo subiu e desceu em uma flexão perfeita, erguido pela força de seu braço direito, enquanto o de vibranium estava apoiado sobre suas costas. Os músculos se destacavam ainda mais com cada movimento, o dorso desnudo brilhando por causa do suor. Apesar disso, sua respiração seguia normal, nenhum sinal de cansaço lhe abatia...

Não era adepto de exercícios no meio da manhã daquele jeito, normalmente estaria sentado no chão, remoendo o último pesadelo e pensando em um novo jeito de riscar um nome de sua lista de reparações, porém naquele dia as coisas tinham acontecido um pouco diferentes.

Não foi apenas o fato de ter, estranhamente, acordado mais tarde do que costumava, ele não teve pesadelos, não acordou suado e ofegante por ter sido assombrado pelos pecados do passado.

Bucky Barnes acordou suado e ofegante por outro motivo.

E esse motivo tinha vinte anos, um metro e sessenta, olhos tempestuosos e lábios tentadores para além da razão. Makayla. Ele não fazia ideia de como aquela garota havia impregnado em sua mente tão rapidamente a ponto de espantar todos os pesadelos apenas para povoar seus sonhos.

E que belo sonho...

Estavam no metrô outra vez, acomodados em um canto parcialmente escuro, mas Makayla não estava sentada no banco e sim no colo de Bucky, usando algo curto o suficiente para que ele pudesse tocar as coxas dela livremente, enquanto lhe beijava os lábios com fervor. Parecia muito real.

As coisas começaram a ficar físicas e muito quentes rápido demais. Pouco importava onde estivessem, Bucky ansiava por ela com cada pequena fibra de seu corpo, e a queria naquele momento... Porém, antes que pudesse consumar seus desejos, ele acordou, suado, ofegante e... muito, muito excitado.

A surpresa completa foi a primeira coisa que lhe abateu, não só pela mudança no conteúdo de seus sonhos, mas também, porque tinha 106 anos, a parte de seu cérebro responsável por suas ereções devia estar bem morta, se não fosse pelo tempo, então que fosse por toda a merda que a Hydra tinha feito com a sua cabeça.

O Soldado Invernal não precisava ter qualquer impulso sexual, ele era uma arma, e apenas isso.

Fazia alguns anos que havia recobrado o controle de si mesmo e não teve nenhum “incidente” como aquele, quer dizer, não teve nem tempo de pensar em sexo, afinal ou estava fugindo, lutando para recuperar a própria memória ou estava aprendendo a lidar com tudo isso em uma cabana sem porta em Wakanda, rodeado de crianças. E depois voltou para o Brooklyn, teve tempo e privacidade para pensar nisso, mas sua mente estava muito mais preocupada com outras coisas. Havia cogitado encontros e conhecer pessoas, mas tudo parecia sempre tão complicado que todo o resto não era de muita importância. Sequer tinha ereções matinais porque, ou não dormia, ou acordava de um pesadelo...

Então, acordar com o desejo fervendo em suas veias depois de décadas, tão intenso e dolorido a ponto de Bucky precisar de um longo banho gelado para se acalmar, foi com certeza uma surpresa.

Uma dura, grande e incômoda surpresa...

Bucky chegou a pensar em resolver o assunto com as próprias mãos, porém, o simples fato de sonhar com uma garota de vinte anos soava terrivelmente errado, usar isso como estímulo para satisfazer os próprios desejos então... parecia um pecado muito maior do que ter assassinado o Presidente John F. Kennedy.

Ele teve que esperar que a água gelada acalmasse as coisas, mas o estrago já estava feito, porque seu corpo não se esqueceu daquela sensação, décadas de energia acumulada que estavam deixando Bucky absolutamente frenético naquele dia, por isso estava tentando se exaurir com as milhares de flexões.

E até que estava dando certo, era só manter aquele sonho longe de sua mente que logo as imagens tão realistas das coxas de Makayla seriam totalmente esquecidas. Era o que Bucky esperava...

Ele parou com as flexões e deitou no chão, os olhos no teto, o peitoral desnudo e suado subindo e descendo ritmadamente com sua respiração. Não podia sair com ela de novo.

Estava bem claro que a garota tinha impacto sobre ele, e que existia uma atração inegável ali, e mesmo que pudessem passar por cima de todo o lance de Soldado Invernal e braço de vibranium, mesmo que Bucky estivesse disposto a ignorar a diferença absurda de idade e se apoiar apenas no “somos ambos adultos”, ainda havia um grande problema: ele tinha um único objetivo; fazer reparações e encontrar a paz. Criar laços com outras pessoas era apenas um jeito de causar dor a elas indiretamente a longo prazo.

Não fazia sentido começar amizades que seriam repentinamente finalizadas dali pouco tempo, quando ele em fim encontrasse a paz. Ninguém merecia passar por isso, pela perda de um amigo, Bucky sabia bem, porque estava familiarizado demais com essa dor.

Então estava decidido; nada de encontros com Makayla, nada de amizade. Ela acabaria esquecendo aquilo e provavelmente, quando Barnes não fosse ao shopping encontrá-la naquela noite, pegaria raiva dele por ser deixada esperando. As mulheres eram assim, principalmente as jovens e bonitas, elas sabiam bem que não precisavam aturar idiotice de nenhum cara, uma mancada e adeus.

Conformado com esse pensamento, Bucky tomou outro banho — um quente dessa vez — e se arrumou para sair, era pouco mais de meio-dia, ele precisava comprar algo pra comer e não conseguia se entender com o tal aplicativo de comidas.

Vestiu a jaqueta de couro e, no bolso, junto com as luvas, encontrou o antigo caderninho de Steve, onde o amigo costumava anotar coisas que lhe ajudassem a estar atualizado com o mundo atual, e onde Bucky tinha passado a anotar a longa lista de pessoas a quem devia reparações, boas ou ruins.

Precisava se esforçar mais, haviam poucos nomes riscados... Bucky precisava acabar com a lista antes de encontrar a paz.

Encarou a própria caligrafia e respirou fundo, doutora Raynor dizia que ele estava livre, mas Barnes não se sentia assim, estava preso a todo mal que um dia havia feito para o mundo, uma parte de si achava que nunca conseguiria completar aquela maldita lista...

Mas, sendo honesto, era esse o problema? Ele estava mesmo preso a lista ou só tinha escolhido se agarrar a isso porque não tinha nenhuma familiaridade com a liberdade que tanto falavam?

Livre para fazer o que?

Esse pensamento ainda estava em sua mente quando o som sequencial de quatro batidas em sua porta fez com que Bucky erguesse a cabeça e franzisse a sobrancelha. Ninguém lhe fazia visitas. Nunca.

Pensou que talvez fosse Sam, a única pessoa que sabia seu endereço e que provavelmente seria inoportuno o bastante para aparecer ali. Barnes vinha sistematicamente ignorando mensagens e ligações de Wilson fazia um bom tempo.

Sem qualquer alegria no olhar, Bucky colocou o caderninho no lugar de sempre, vestiu as luvas e caminhou até a porta, puxando a maçaneta, já planejando o grande revirar de olhos com o qual receberia Sam...

No entanto, a pessoa parada do lado de fora, que ergueu a cabeça lentamente assim que Barnes abriu a porta não era Sam Wilson.

Bucky paralisou assim que as íris tempestuosas encontraram seus olhos.

Makayla.

A última pessoa que ele esperava ver ali...

— Oi... — Ela disse em um fio de voz, tentando um sorriso casual que não pareceu mais que uma expressão dolorosa. — Eu... eu sei que a gente só marcou de noite é só que... — Ela não completou a frase, mordeu os lábios daquele jeito nervoso e incerto, então seus olhos se encheram de lágrimas, era bastante notável o quanto ela estava lutando para não desmoronar bem ali. — Eu não sabia pra onde ir...

— Você está bem? — Foi tudo que Bucky conseguiu pensar em dizer, mas era evidente que Makayla não estava bem, só que a presença inesperada dela o deixara completamente sem reação.

Ela não respondeu, encarou o chão por um segundo, depois o caminho pelo qual viera e então os olhos de Barnes uma vez mais. Ele podia ver a luta interna estampada no rosto dela, era doloroso.

Seja lá o que tinha acontecido era importante para Makayla.

— Posso entrar? — Ela perguntou ao invés de responder a pergunta que Barnes tinha feito.

Algo na mente dele acusou que não seria uma boa ideia, não depois do sonho, já estava decidido, tinha que ficar longe de Makayla. Qualquer amizade entre eles seria um erro.

— Claro... — Foi o que ele respondeu, dando um passo para a esquerda e abrindo passagem, ignorando sua sensatez, ou as acusações de sua mente, ignorando até mesmo que havia um apartamento vazio demais atrás de si que ele não teria como explicar.

Nada daquilo importava realmente, Makayla não estava ali para julgar a decoração de Bucky, não estava ali por causa de um sonho irreal ou de uma atração física idiota. Ela só precisava de um amigo...

E ele nunca seria capaz de negar isso a ninguém.

Notas finais
Não aguento que esse capitulo é todo..."Makayla em: pesadelos, desesperos, traições, fugas, planos mirabolantes e afins. E Bucky Barnes em: a pipa do vovô ainda sobe que é uma beleza" kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Piadas a parte, eu amoooo ver a Makayla usando a mente estratégica do Bucky, porque de vez enquanto o povo esquece desse lado dele. E o encontro deles de noite não rolou mesmo, pq foi adiantado kkkkkkk, então agora vamos ver o que esses dois vão fazer juntos o dia todo... Enquanto isso: eu criei um tik tok pra postar uns vídeos da fic, quem quiser dar uma olhadinha o link tá aqui https://www.tiktok.com/@dixcreations (já tem conteúdo Buckayla por lá ❤) Por enquanto é isso... Sábado de vem estou de volta ❤ Beijos e até!